A pacificação da Rocinha representa para mim uma vitória do Brasil. Uma das mais importantes que vivenciei nos 22 anos em que estou neste pais. É uma vitória dupla: reconquistamos um terreno perdido para o lado negro da sociedade e purificamos um pouco da corrupção que sempre nos cercou. O saldo disso é que o Brasil se torna ainda mais interessante, atraente e confiável. Principalmente se pensarmos em tudo que o velho continente tem passado nos últimos tempos.

 

Ainda não posso dizer ao meu amigo gringo que vem para cá pela primeira vez que erradicamos a violência. Ou que ele vai poder pegar um taxi tranquilo, sem perigo de o motorista dar voltas para ganhar mais alguns trocados. Não consigo garantir que voltar para casa sozinho à noite nas grandes metrópoles é superseguro, ou que as joias e o relógio caro que ele usar não vão chamar a atenção de quem não deve. Mas hoje, mais confiante do que nunca, eu me sinto confortável para dizer: o Brasil está mudando.

 

O melhor são os motivos que eu tenho para essa afirmação.  Eles passam longe das nossas belezas tropicais – somos apenas o 41º país mais visitado do mundo segundo a última lista da BBC – ou de melhorias de infraestrutura geradas pelas obras para a Copa de 2014 – cujo atraso, aliás, está tirando o sono de Joseph Blatter, presidente da Fifa. Em vez de turismo e futebol, estamos vendo se desenrolar no Brasil algo verdadeiramente sério, que atinge vários aspectos importantes de nossa sociedade. Um bom exemplo é a economia. E eu tenho orgulho de ver que somos meros figurantes no filme da crise que desgoverna a Europa e os Estados Unidos. 

 

Temos motivos para comemorar.

 

Profissionais amadores, no Brasil, não têm mais vez. Há duas décadas, nossas empresas estavam a anos-luz do mercado internacional, com uma produção nada competitiva. Um exemplo que me marcou foi na área de informática, regida na época pela Secretaria Especial de Informática (SEI), que protegeu a indústria nacional transformando os produtos locais em peças de museu. Hoje, exportamos aviões com informática embarcada. Até a nossa empresa, que não é grande, implementou uma área de Governance, Risk & Compliance (GRC) há dois anos. Não muitos anos atrás, pouquíssimos profissionais conheciam este assunto.

 

Seguindo a lógica do “existem males que vêm para o bem”, foi Fernando Collor quem impulsionou, da forma mais radical e polêmica possível (lembra das “carroças”?), a abertura do país ao exterior. A postura dos consumidores mudou completamente a partir de então, tanto em relação ao consumo externo quanto aos hábitos internos de comércio – catapultando, por exemplo, o mercado automobilístico, que é hoje um dos sete maiores do mundo. Mas de acordo com executivos das maiores montadoras do mundo, o Brasil chegará a disputar o terceiro lugar no ranking em 2016, revelou pesquisa da KPMG International na semana passada.

 

Nossa inventividade e jogo de cintura no processo criativo fazem sucesso no exterior e tornam nossos profissionais alguns dos mais procurados do planeta. Apesar de os aventureiros brasileiros ainda serem um número bem menor do que os da China, Coreia e Índia, conquistam cada vez mais espaços cobiçados por nativos e em diferentes áreas, com destaque para as indústrias criativas, tecnologia da informação e engenharia. São, afinal, reconhecidos por saberem fazer “mais com menos” – o jeitinho característico que não é de todo mal.

 

Apesar de termos uma das mais altas cargas tributárias do mundo e uma burocracia de deixar estrangeiros loucos, está cada dia mais difícil sonegar impostos. Tecnologias de declaração de renda como o Sped Fiscal e a Certificação Digital, aliados aos eficazes mecanismos de cruzamentos de dados, deixaram o “leão” mais feroz do que nunca para driblar de vez a corrupção de que os brasileiros já estão fartos. 

 

Agora que já fizemos tantas conquistas no terreno econômico, precisamos mesmo é de mais Rocinhas. E não estou falando apenas das UPPs, que já são 19 e vão bem, obrigado.  A retomada de poder pelo governo e o combate à corrupção precisam chegar ao sistema de saúde pública, às escolas, às delegacias de todas as polícias. O topo da pirâmide já foi atingido no alto escalão do Poder Executivo. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, pode ser o enésimo no governo de Dilma a renunciar a seu cargo por denúncias de corrupção. Isso em pouco mais de um ano de mandato, o que também é inédito na história do Brasil e faz a vassoura de Jânio Quadros, que já almejava “varrer” a corrupção do Brasil cinquenta anos atrás, parecer mais atual do que nunca.

 

A reestruturação social tem impactos na vida de todas as classes porque pode ser refletida até no aumento da passagem de ônibus ou no preço da gasolina. Na sonegação fiscal. Na degradação do espaço público. Na falta de denúncia contra casos de violência doméstica. No acesso à cultura e lazer, que costuma ser radicalmente menor em países subdesenvolvidos. A velha justificativa de que não se pode comparar um país de 500 anos com um continente de milhares como a Europa já não nos serve mais – acompanhamos o caso da condenação por estupro de Moshe Katsav (sim, ele está na cadeia), ex-presidente do estado israelense, nação que tem pouco mais de 60 anos.  

 

Já podemos dizer aos nossos parceiros comerciais que, apesar dos juros e da burocracia, a crise econômica não chegou por aqui. O mais importante, agora, é nos assegurar que cada vez mais áreas tradicionalmente em crise no Brasil vão conquistar novos status e colaborar para que nós possamos encher o peito tranquilamente na hora de dizer a todo mun
do
, desde turistas até investidores: venham mesmo, porque o Brasil é o país do presente. 


 

Jimmy Cygler é presidente da Proxis, empresário há mais de quatro décadas, foi professor do MBA da ESPM por 13 anos, lutou em quatro guerras em Israel e publicou pela editora Elsevier o livro Quem Mexeu na Minha Vida.

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