Estamos presenciando uma tendência mundial de certo tipo de líderes ocuparem cargos de poder — líderes que sentem segurança, são acostumados ao controle e prezam a hierarquia. Os indianos elegeram o dominante Narendra Modi em 2014, o britânico Nigel Farage viu seu ponto de vista prevalecer na campanha do Brexit em 2016, Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos em 2016 após repetidas promessas de ser “forte”, e o autocrático presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, foi reeleito este ano. A pergunta é: por que os eleitores hoje estão escolhendo esse tipo de líder? Nossa pesquisa (recentemente publicada no Proceedings of the National Academy of Sciences) tenta responder a essa pergunta com a análise de quando e por que tais líderes ascendem ao poder.

Baseamos a investigação na psicologia evolutiva e na social, que consideram a dominação e o prestígio dois caminhos distintos para a liderança. Líderes associados à dominação são assertivos, seguros, controladores, decididos e intimidadores. Muitas dessas características são positivas, porém, líderes dominantes também comumente apresentam aspectos negativos como narcisismo, agressividade e falta de cooperação. São os típicos “macho alfa” do grupo e, com frequência, intitulam-se líderes em vez de esperar que a posição de liderança lhes seja oferecida.

O caminho do prestígio, por outro lado, é associado a pessoas que são respeitadas, admiradas e estimadas por outros. Essas pessoas, além de serem competentes, passam seus conhecimentos e habilidades para os demais do grupo. São consideradas modelos culturais. Como resultado, prestígio e cargos de liderança lhes são concedidos pelos membros do grupo. Dominação e prestígio não são necessariamente bons ou ruins — trata-se de duas estratégias diferentes para conseguir a liderança. No entanto, líderes associados ao prestígio, em geral, têm características consideradas mais agradáveis (por exemplo, simpatia) e são mais aceitos socialmente do que líderes dominantes.

Argumentamos que líderes dominantes se tornam mais simpáticos do que líderes prestigiosos quando o ambiente socioeconômico é marcado por incerteza. Quando o futuro é incerto, as pessoas vivenciam uma falta de controle individual e a sensação de que não têm condições de influenciar o resultado. Sugerimos que esse sentimento é tão repulsivo (uma vez que ter o controle da situação é uma necessidade humana fundamental) que as pessoas tentam compensá-lo apoiando líderes que acreditam ter mais poder e controle. Um líder dominante (alfa), em geral, é visto como decidido, prático e destemido, e, portanto, pode ser considerado mais simpático nessas situações. Em outras palavras, apoiar um líder dominante em tempos incertos constitui uma forma de restabelecer a percepção de controle pessoal. Esse conceito está de acordo com outro resultado da pesquisa que mostra que a percepção de falta de controle individual leva as pessoas a apoiarem entidades — como governos, deuses e hierarquias — que aparentam ter mais poder.

Testamos essas teorias por meio de diversos estudos. No primeiro recrutamos 750 participantes de 46 estados americanos, registramos suas preferências entre Hillary Clinton e Donald Trump. Esses dados foram coletados nos dias do terceiro e do último debate presidencial, antes de seu início. Coletamos dados próximos ao dia da eleição, intencionalmente, para garantir que os eleitores tivessem informações suficientes sobre os candidatos para poder expressar preferência. Além de indicá-la por um candidato, os participantes também responderam sobre ideologia política (liberal ou conservadora), dados demográficos e região residencial. Para cada uma destas, calculamos a incerteza econômica pelos conjuntos do índice de pobreza, taxa de desemprego e índice de vacância de imóveis.

Para um teste preliminar, escolhemos um grupo de pessoas a fim de indicar o nível de dominação e de prestígio de Hillary Clinton e Donald Trump por meio de uma escala dominação-prestígio. Elas classificaram Trump como significativamente mais dominante do que Clinton, e Clinton como significativamente mais prestigiosa do que Trump. Portanto, se os participantes indicassem preferência por votar em Trump, estariam apoiando um líder dominante.

Depois de analisar a ideologia dos participantes, dados demográficos, renda, tempo de residência na região, assim como a população total e a densidade da população da área, descobrimos que quanto maior a incerteza econômica do local, maior a preferência por Trump. Isso corroborou nosso parecer de que a incerteza econômica influencia a preferência por um líder dominante em vez de um líder dotado de prestígio.

Porém, queríamos nos certificar de que os resultados não estavam sendo influenciados pelas impressões que as pessoas têm de Trump e Clinton. Assim, no segundo estudo os participantes não avaliaram candidatos reais. Pedimos a aproximadamente 1.400 participantes dos 50 estados americanos que respondessem se preferiam um líder local com características de dominação ou de prestígio. Usamos uma escala dominação-prestígio, na qual os participantes avaliaram se concordavam ou não com frases como “Gostaria de ter um líder que, com frequência, tente conseguir o que quer independentemente do desejo dos demais” (em termos de dominação) e “Gostaria de ter um líder que seja respeitado e admirado pelos outros membros da sociedade” (em termos de prestígio). Após indicar sua preferência na escala dominação-prestígio, os participantes informaram seus dados demográficos e a área residencial. Calculamos a incerteza econômica para cada região, de modo similar ao do primeiro estudo, e fizemos o controle pelas mesmas variáveis que poderiam afetar as preferências por tipo de liderança.

A análise dos resultados revelou que a incerteza econômica tinha relação significativa com a preferência dos participantes por um líder dominante e associação negativa com a preferência por líderes de prestígio. Essas descobertas não apenas confirmam o papel da incerteza em favorecer líderes dominantes, como também mostram que podem desfavorecer líderes de prestígio. Em conjunto, os resultados demonstram como a incerteza econômica pode influenciar que líderes elegemos.

No terceiro estudo queríamos avaliar a possibilidade de generalizarmos resultados fora dos Estados Unidos e testar se a falta de controle pessoal constitui o fator psicológico que provoca esse fenômeno. Usamos dados da World Values Survey, organização que pesquisa as diversas posições sociais e políticas das pessoas em todo o mundo desde 1983. Os dados das principais variáveis dependentes — a preferência por líder dominante e o controle que tem da própria vida — foram coletados de mais de 138 mil respostas desde 1994 até hoje em 69 países. Calculamos a incerteza econômica com outro conjunto de dados fornecido pelo Banco Mundial, usando a alteração da taxa de desemprego do ano anterior como variável proxy. Unimos esses dois conjuntos de dados para testar nossas previsões.

Ao replicar nossas descobertas anteriores, constatamos que o aumento da taxa de desemprego de um país estava positivamente associado à preferência de seus cidadãos por um líder dominante. O desemprego e a falta de controle pessoal também tiveram correlação positiva, isto é, quanto maior a taxa de desemprego de um país, maior a quantidade de participantes que relataram falta de controle. Isso pode significar que a falta de controle individual decorrente da alta taxa de desemprego está motivando uma acentuada preferência por líderes dominantes. Em resumo, a incerteza econômica pode gerar um sentimento de perda de controle, o que pode resultar em favorecimento de líderes dominantes.

Para explorar mais a fundo essa relação, realizamos experimentos nos quais podíamos manipular a sensação de controle do participante. De forma aleatória designamos um grupo de 813 participantes a condições de muito ou pouco controle, e pedimos que escrevessem sobre algo negativo que lhes aconteceu e foi culpa deles ou uma situação sobre a qual não tiveram controle. Depois, receberam uma descrição de dois líderes, um dominante e outro dotado de prestígio, e lhes solicitaram que indicassem o tipo de líder local que prefeririam entre os dois. De modo análogo aos outros estudos, medimos a incerteza econômica da região onde moram.

Constatamos que os participantes do grupo de pouco controle que vivenciaram grande incerteza econômica tiveram maior preferência por um líder dominante do que os participantes do mesmo grupo que vivenciaram pouca incerteza econômica. Não constatamos diferença na preferência pelo tipo de liderança entre os participantes do grupo de muito controle, apesar dos diferentes níveis de incerteza econômica.

Os efeitos não se limitaram a ela. Por exemplo, em outro estudo informamos os participantes de um ataque terrorista em uma cidade nos Estados Unidos e dissemos que a probabilidade de não haver outro ataque era certa ou incerta. Os participantes do grupo de probabilidade incerta de não haver outro ataque expressaram maior apoio a líderes dominantes na eleição local seguinte, novamente mostrando o papel crucial da incerteza na influência da escolha de um líder.

Essa pesquisa deve nos ajudar a entender quando e por que cidadãos podem procurar um líder dominante. Nossas descobertas sugerem que qualquer tipo de incerteza pode levar à preferência por líderes fortes e autoritários.

Já presenciamos esse fenômeno no passado. Por exemplo, a falecida Indira Gandhi, que foi primeira-ministra da Índia, teve apoio de grande parte do público quando impôs o período de “Emergência” no país, ignorando procedimentos constitucionais, prendendo líderes da oposição e revogando direitos da população. Há diversos exemplos na história de outras nações. A consequência é preocupante: líderes dominantes conquistam a liderança em períodos de incerteza; no entanto, uma vez no poder potencializam a incerteza, consolidam a atenção dirigida a eles e a permanência no cargo.

Em conjunto, os resultados de nossa pesquisa mostram que a ascensão mundial de líderes dominantes e autoritários está, em parte, enraizada no desejo psicológico das pessoas de restabelecer a sensação de controle individual, que é ameaçada em tempos de incerteza. Os líderes dominantes parecem acalmar as preocupações dos eleitores em relação à incerteza e à falta de controle, mas, quando conquistam o poder, se de fato conseguem ou não esse feito continua uma pergunta sem resposta. Quando eleitos, têm autoridade para promulgar regras econômicas e políticas que podem, na verdade, levar a mais caos e incertezas, potencialmente aumentando seu fator de simpatia e domínio no poder.
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Hemant Kakkar é candidato a PhD em Comportamento Organizacional na London Business School. Suas pesquisas e interesses giram em torno da psicologia do self nas hierarquias sociais, especificamente sobre como elementos motivacionais envolvendo o self, influenciam os julgamentos, decisões e comportamentos das pessoas.
Niro Sivanathan é Professor Associado de Comportamento Organizacional da London Business School. Sua pesquisa explora como a hierarquia social, por meio da experiência psicológica de status e poder, controla nossos julgamentos e comportamentos. Ele também estuda como nossa motivação em manter a própria integridade influencia o processo de decisão.
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Tradução: Tatiana El-Id Kanhouche

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