Você já se relacionou com um supervisor em uma “power trip” (deslumbrado com o poder e a autoridade, usando-os de forma inadequada e egoísta) no trabalho e acabou se sentindo desrespeitado, prejudicado e frustrado? Você não é o único. Há inúmeras pesquisas que demonstram que, quando alguém se sente poderoso, tende a abusar dos outros, comprovando a teoria de que “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Vários estudos mostram que funcionários que sofreram abuso sentem angústia, têm pior desempenho, são menos criativos e tendem a abandonar o emprego. Os detentores de poder, por outro lado, parecem imunes ao seu próprio comportamento negativo. Pesquisas sugerem que eles prosseguem seu dia como se nada tivesse acontecido.

Mas e se essa não for a versão completa dos fatos? E se o poder tiver um preço alto também para os chefes poderosos?

Investigamos essa hipótese durante um estudo com 108 gestores que avaliamos por 10 dias úteis. Os gestores trabalhavam em diferentes setores da indústria, incluindo serviços de saúde, engenharia, educação e bancos.

Nos dias “de poder”, pediu-se que pensassem e escrevessem sobre quando tiveram controle sobre alguém, e fizessem um exercício de completar palavras curtas (como: “preencha as lacunas da palavra com as letras da primeira palavra que pensar: p_d_r”).

Ainda que os líderes detivessem algum grau de poder estrutural, as pesquisas mostraram que a consciência deste poder variava diariamente de acordo com determinados acontecimentos que podiam despertá-la (por exemplo: algo que lhes lembrasse quem estava no comando, como ir a uma reunião de diretoria ou decidir sobre uma demissão/admissão).

Para estudar essa variação, escalamos aleatoriamente alguns entrevistados para cinco dias no comando e cinco dias de controle.

Pesquisas mostram que as duas técnicas despertam a consciência acerca do poder. Nos dias de controle, os gestores fizeram exercícios semelhantes que não remetiam à detenção de poder. Por exemplo: eles descreveram seu trajeto para o trabalho naquele dia e completaram sentenças neutras. (Preencha as lacunas para completar a primeira palavra que lhe vem à mente: i_te_no)

Os participantes interagiram com seus colegas de trabalho, gestores e clientes durante o estudo, o que nos deu inúmeras oportunidades de avaliar o comportamento dos líderes, várias vezes por dia, tanto no trabalho quanto em casa.

Mandávamos e-mail com links para o nosso levantamento aos participantes três vezes por dia: manipulávamos o poder com um questionário a ser respondido pela manhã, que os participantes completavam por volta das 8h30; fazíamos uma estimativa diariamente dos episódios de abuso e hostilidade que ocorriam no fim do dia de trabalho, por volta das 17h30; e medíamos a capacidade de relaxar e a necessidade de realização dos entrevistados em casa, mais ou menos às 20h30.

De acordo com a literatura a respeito da natural tendência a corromper que o poder teria, descobrimos que, nos dias em que se sentiram poderosos, os entrevistados registraram mais interações negativas com outras pessoas. Tais interações se davam de duas formas: os participantes se comportavam mais vezes de forma abusiva com os outros (gritaram ou xingaram, foram rudes ou riram de seus colegas), mas também sentiram hostilidade vinda dos outros (sentiram que os colegas se dirigiam a eles de forma pouco profissional, falavam em tom condescendente e prestavam pouca atenção a suas falas e opiniões). Essas descobertas estão em conformidade com as descobertas de uma pesquisa anterior sobre os efeitos do poder psicológico. O poder nos faz ver as pessoas como psicologicamente distantes, inconsequentes e como mero meio para alcançarmos nossos fins, o que explica por que o poder aumenta o abuso.

Ao mesmo tempo, o poder psicológico nos faz sentir especiais e mais dignos de atenção, respeito e favorecimento. Essas expectativas exageradas nem sempre se confirmam, o que talvez possa explicar por que os detentores de poder se sentem mais hostilizados pelos outros.

Ainda que nossas conclusões descrevam um quadro bem desanimador sobre o efeito que o poder tem sobre os líderes, há aspectos positivos. Primeiro, nem todos são afetados pelo poder psicológico da mesma forma.

Por exemplo, usamos uma avaliação de personalidade para calcular o nível de amabilidade e constatamos que um líder “amável” (sociável) comete menos abusos quando está no poder. Pessoas amáveis se importam com o bem-estar alheio e consideram o bom relacionamento com os colegas de trabalho uma prioridade.

O desejo inato dessas pessoas de manter a harmonia social pode explicar porque líderes “amáveis” não se envolvem em abusos quando estão no poder.

A característica natural atribuída ao poder — a de “corromper absolutamente”, portanto, não seria “absoluta”.

Segundo, os detentores do poder foram afetados por seu próprio mau-comportamento. Quando analisamos os líderes no fim do dia, em casa, constatamos que os que se envolveram em casos de abuso e se consideraram tratados com hostilidade, relataram sentirem-se menos realizados no seu dia de trabalho — sentiram-se menos competentes, menos capazes de se relacionar com os outros e menos autônomos.

Para completar, detentores de poder abusivos foram menos capazes de se desligar e relaxar em casa. Essas descobertas apontam uma “ressaca” causada pelo poder — a experiência de sentir-se poderoso durante o dia de trabalho reduziu o bem-estar em casa.

Além disso, nosso teste foi responsável por 15% de variação diária do sentimento de realização dos gestores e 2% de variação da capacidade de relaxar. Isso sugere que, mesmo que pouco, fazer uso do poder pela manhã pode ter efeitos notáveis sobre o bem-estar que permanecem até a noite.

Por que o poder afeta o bem-estar dos líderes até em casa? Uma razão pode estar no fato de que as interações negativas induzidas pelo poder desafiam a habilidade dos líderes de manter o controle sobre os outros no trabalho; os seguidores que sofreram abuso podem revidar ou não atender às futuras demandas de seus chefes.

Mesmo que haja muitas pessoas que desejam ter mais poder e influência, nossos estudos mostraram que o poder não só nos predispõe a fazer coisas ruins, como também nos faz sentir piores em casa. É aconselhável, portanto, revermos nossa ideia otimista sobre o poder e começar a considerar seu custo também.

É importante para as pessoas que ocupam posições de poder estar conscientes da influência negativa que o poder tem em nossas interações com os outros assim como em nosso bem-estar.

Pedir para que os colegas e conselheiros confiáveis nos mantenham cientes sobre como nos comportamos no trabalho pode ajudar.

Do ponto de vista organizacional, pode ser útil designar funcionários “amáveis” para cargos de chefia, porque líderes com essa característica de personalidade tendem a ser menos suscetíveis aos padrões de comportamento abusivo gerado pelo poder.

Costuma-se dizer que, quanto maior o poder, maior a responsabilidade; como demonstramos neste estudo, parece que, quanto maior o poder, maior o sofrimento também.
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Trevor A. Foulk é professor assistente no departamento de Management & Organization na Robert H. Smith School of Business, da University of Maryland. Klodiana Lanaj é professora assistente de gestão/administração na Warrington College of Business, da University of Florida.
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Tradução: Flávia Machado

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