RESUMO

O próximo presidente americano terá de enfrentar enormes desafios à paz mundial, à economia global e ao meio ambiente. Exercer a força militar e econômica do país não trará, por si só, paz e prosperidade. 

Segundo Nye, que ocupou postos elevados no governo dos Estados Unidos e foi reitor da John F. Kennedy School of Government (a faculdade de gestão pública da Harvard University), o novo presidente terá de combinar o poder bruto, caracterizado pela coação, com aquilo que Nye batizou de soft power — o poder brando, que se vale da atração. O resultado seria o poder astuto, um instrumento usado por grandes líderes para mobilizar as pessoas em torno de uma plataforma que vá além dos problemas do momento. 

Muitas vezes, o poder bruto é indispensável, explica Nye. Na década de 1990, quando o regime do Talibã dava refúgio à Al Qaeda no Afeganistão, Bill Clinton tentou — em vão — resolver o problema por vias diplomáticas, em vez de destruir abrigos de terroristas no país. Já em outras situações o poder brando é mais eficaz, embora seja comumente menosprezado. “Ao olhar para a crise no Oriente Médio e começar a perceber que não há como solucioná-la apenas com poder bruto, creio que muita gente está despertando para a necessidade do poder brando”, diz. 

A solução dos problemas que hoje afligem o mundo exigirá o poder astuto — uma mescla criteriosa dos outros dois poderes. Embora haja notáveis exemplos de homens que se valeram desse poder — Theodore Roosevelt, por exemplo —, é muito mais difícil para a mulher liderar com o poder astuto, sobretudo nos EUA, onde sente pressão para provar que não é “mole”. 

Somente se exercer o poder astuto, diz Nye, o próximo presidente americano poderá ditar um novo tom para a política externa americana neste século.

LEIA NA ÍNTEGRA 

Um grande líder sabe quando a força bruta não basta.  

Quinhentos anos atrás, Nicolau Maquiavel escreveu que “o príncipe deve fazer-se temer de forma que, ainda que não conquiste o amor, fuja ao ódio”. O conselho soa particularmente relevante para o próximo presidente dos Estados Unidos, que irá governar em um mundo político cada vez mais multipolar — e no qual desafios à paz mundial, à economia global e ao meio ambiente são imensos. Exercer a força militar e econômica do país não trará, por si só, paz e prosperidade. O novo presidente americano terá de tornar sedutora a idéia da democracia e da livre iniciativa e apresentar o país como exemplo de ambas. 

Para isso, diz Joseph S. Nye Jr., professor da John F. Kennedy School of Government (a faculdade de gestão pública da Harvard University), o novo presidente terá de entender muito bem como combinar o poderio do país com os instrumentos do soft power — o poder brando —, termo por ele cunhado em livro de 1990, Bound to Lead. Nye foi secretário adjunto de defesa para assuntos de segurança internacional nos EUA, presidente do Conselho Nacional de Inteligência do país e subsecretário de estado para assistência em segurança, ciência e tecnologia. É autor de mais de uma dezena de livros, incluindo The Powers to Lead, lançado este ano. A seu ver, o maior desafio do próximo governo americano será apresentar um programa que vá além dos problemas militares e políticos de hoje.  

Nesta entrevista a Diane Coutu, editora sênior da HBR, Nye explica o que é soft power e o distingue do poder bruto, ou hard power. Segundo ele, um grande líder sabe combinar os dois para exercer o que chama de poder astuto (smart power, no original) e, com isso, conquistar confiança e mobilizar aqueles a sua volta em torno de uma plataforma voltada ao futuro. Se o governo americano for capaz dessa proeza, os EUA ainda terão um papel importante a desempenhar neste século. 

O que é poder brando, o que é poder bruto e como combinar os dois?

Basicamente falando, poder é nada mais que a capacidade de exercer impacto sobre os outros para obter o que se deseja. Para tanto, é preciso uma série de armas. Algumas são instrumentos de coação ou compensação monetária — ou poder bruto. Outras são instrumentos de atração, ou poder brando. No caso do indivíduo, o carisma (o apelo emocional), a visão e a capacidade de comunicação são manifestações cruciais do soft power. Já no caso de uma nação, esse poder brando é representado pela cultura, pelos valores e por políticas legítimas. 

Com a exceção do Dalai Lama e de pouquíssimos outros indivíduos, é difícil achar alguém que tenha conseguido liderar somente na base do poder brando. Por outro lado, falamos muito em poder bruto, mas esquecemos que a atração é um instrumento poderosíssimo. Ignorar sua força é um erro. Ao olhar para a crise no Oriente Médio e começar a perceber que não há como solucioná-la apenas com poder bruto, creio que muita gente está despertando para a necessidade do poder brando. Obviamente, para chegar à combinação certa de poder bruto e brando é preciso, primeiro, entender o contexto. Boa parte daquilo que chamo de inteligência contextual nasce da experiência — mas isso não é tudo. Como disse Mark Twain, tendo pousado um dia sobre uma chapa quente um gato nunca mais repetirá o erro — mas tampouco pisará em uma chapa fria. O uso sábio dos instrumentos do poder exige tanto experiência quanto análise. 

Uma democracia pode realmente eliminar o terrorismo com o poder brando? an
>

Quero deixar claro que definitivamente há momentos em que é preciso usar o poder bruto. Basta voltarmos à década de 1990, quando o regime talibã dava refúgio à Al Qaeda no Afeganistão e o governo Bill Clinton tentou resolver o problema por vias diplomáticas. O que Clinton tentou fazer foi persuadir o Talibã. Mas não deu certo. O resultado foi que os Estados Unidos não fizeram o suficiente para destruir os refúgios que o Talibã criara para a Al Qaeda. Nesse episódio, o soft power não só não surtiu efeito como acabou retardando medidas que os Estados Unidos provavelmente deveriam ter tomado — com uso maior do poder bruto. Logo, se impedi-lo de fazer o que precisa ser feito, o poder brando pode, sim, ser contraproducente. 

Mas, se usar o poder bruto de maneira que antagonize forças importantes da sociedade, a nação verá que é mais fácil um Osama bin Laden recrutar gente com seu poder brando do que ela, a nação, conter seu avanço com o poder bruto. Hoje, os Estados Unidos estão metidos em uma batalha pela cabeça e pelo coração dos muçulmanos. Os americanos precisam usar seu poder brando para impedir que esses indivíduos sejam recrutados por terroristas. É por isso que o Iraque foi um sério erro. Bush tentou instalar a democracia no Iraque usando apenas a força bruta — e o impacto negativo disso fez os Estados Unidos retrocederem. A coação — poder bruto — é, sim, absolutamente necessária para que uma democracia vença o terrorismo. Mas, às vezes, a atração — o poder brando — é o componente mais crítico. O poder brando pode atrair gente jovem para outra alternativa que não o terrorismo. Não é algo que se consegue pela coação. 

Se tanto o poder brando como o poder bruto são necessários, por que seu último livro é dedicado a sua mulher, Molly, “que lidera com o poder brando”?

Prefiro, sim, o poder brando ao poder bruto. É preciso entender, no entanto, que o soft power não é bom em si — é preciso fazer um bom uso dele. Essa capacidade de sedução já foi usada por muita gente maligna: Hitler, Stalin, Mao, Bin Laden. Jim Jones, o fundador da seita Templo do Povo, usou seu poder de manipulação para convencer 900 pessoas se suicidarem com a ingestão de veneno. Essa gente acreditava que Jones era um guru que detinha a palavra final sobre sua salvação. Como disse lá atrás, brando ou bruto, o poder é um mero instrumento. 

Há quem diga que o poder brando é ligeiramente preferível ao bruto por dar mais liberdade à pessoa à qual é dirigido. Se eu pegar uma arma e disparar contra você para roubar seu dinheiro, estou usando o poder bruto — nesse caso, você não tem muito o que fazer. Já se tentar convencê-la de que sou um guru e que você deve me dar o número da sua conta no banco, supõe-se que você poderia resistir, se quisesse. 

Uma das máximas de Theodore Roosevelt é que é preciso falar manso, mas carregar um grande porrete. Isso era poder brando ou poder bruto?

Roosevelt era a personificação do poder astuto: a combinação de poder brando e poder bruto na dose certa no contexto adequado. Os problemas que afligem os Estados Unidos e o mundo atualmente vão precisar de muito poder astuto — e um líder que quiser entender essa força não faria mal em estudar a vida desse presidente. Roosevelt entendia muito bem o uso do poder bruto — é só ver como gostava das forças armadas. Mas também sabia que o poder brando era importante. O principal objetivo de Roosevelt ao negociar pactos cruciais como o de Portsmouth, o tratado de 1905 que encerrou a guerra entre Rússia e Japão, era tornar os Estados Unidos uma nação mais atraente. Quando despachou a nova armada americana — a Grande Frota Branca — para uma volta ao mundo, Roosevelt queria tanto exibir o novo poderio militar do país quanto promover a nação como uma força para o bem. Na prática, usou um instrumento do poder bruto — a marinha — como símbolo do poder brando. É por ter exercido tão bem o poder astuto que Roosevelt costuma figurar na lista dos cinco melhores presidentes que os Estados Unidos já tiveram. 

A mulher encontra obstáculos quando tenta exercer o poder astuto na vida pública?

Sem dúvida nenhuma. É muito mais difícil para a mulher exercer esse tipo de poder do que para o homem. Se pensarmos em exemplos clássicos de líderes do sexo feminino — Margaret Thatcher, Indira Gandhi, Golda Meir —, veremos que todas tiveram de lutar contra estereótipos do sexo e enfatizar o aspecto Dama de Ferro de sua liderança. Gro Harlem Brundtland, que foi primeira-ministra da Noruega e, mais tarde, dirigiu a Organização Mundial da Saúde, sabia usar bem o poder astuto. Em assuntos internos podia ser dura, mas usava o poder brando em favor da Noruega internacionalmente. Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda, e Vaira Vike-Freiberga, ex-presidente da Letônia, também vêem à mente, mas ainda não vimos a líder de um país de peso usar o smart power. A chanceler alemã, Angela Merkel, é uma candidata promissora, mas não ocupa o cargo há tempo suficiente para podermos julgar. 

Nos Estados Unidos é particularmente difícil para a mulher lançar mão do poder astuto na vida pública, em parte devido a mitos machistas que dominam a cultura americana e, em parte, devido ao clima de medo que se instalou após o 11 de setembro. Basta ver as primárias este ano para a escolha do candidato democrata à presidência. Em termos de liderança política, o sexo ainda é um obstáculo maior do que a raça. Estereótipos prejudicam o negro de muitas maneiras, mas o homem negro não precisa provar que é durão. Geraldine Ferraro chamou atenção para esse fato durante a disputa entre Barack Obama e Hillary Clinton, e foi punida por isso. Mas, basicamente, ela tinha razão. Mulheres que disputam um cargo público ainda têm de lutar contra o estereótipo de que a mulher é “mole”. Daí Hillary Clinton ter passado boa parte da campanha tentando provar que era durona e experiente. Isso significava que Obama podia ser o candidato que usava o poder brando. Podia apelar para o público com uma mensagem de esperança, de um novo começo, de um novo futuro. 

Nesse sentido, o mundo dos negócios é mais avançado do que o político. Se examinarmos a literatura administrativa, veremos uma ênfase maior no poder brando — em como, por exemplo, o gestor pode motivar e convencer os outros a produzirem resultados sem ter de recorrer a incentivo e punição. Nesse meio, a tese reinante é de que redes estão suplementando hierarquias, deixando a organização

mais plana. A conseqüência é que o dirigente empresarial precisa exercer mais poder brando. É algo que simplesmente não encontramos na literatura política. Aliás, durante um papo com uma amiga, que é deputada, ela disse: “Você tem toda razão sobre o poder brando como conceito analítico, mas no horizonte político isso não serve, pois nenhum americano quer votar para alguém que seja ‘brando’”. 

Como o senhor descobriu o poder brando?

Aprendi muito sobre isso quando entrei para o Departamento de Estado americano, em 1977. Não tinha nenhuma experiência no governo e nenhuma em gestão. Era professor, e a única pessoa que administrava era minha secretária — e tinha gente que dizia que era o contrário. Minha primeira missão foi chefiar um comitê envolvendo várias agências para reduzir a disseminação de materiais que pudessem ser usados na produção de armas nucleares. Minha inclinação natural era tentar fazer tudo sozinho. Logo descobri que, se agisse assim, me afogaria. Precisava dos outros, mas não podia dar ordens a ninguém, pois como funcionário do Departamento de Estado não tinha autoridade nenhuma sobre gente de departamentos como o de defesa e o de energia. Tinha de atrair os outros e fazer com que quisessem me ajudar. 

Outra lição importante que aprendi foi que o governo é uma cultura oral. Produz pilhas e pilhas de papel, mas toda comunicação crucial é oral, e em geral breve. De certo modo, isso ocorre devido ao volume da papelada — é tanta coisa que simplesmente não há como acompanhar, de modo que é preciso recorrer à comunicação oral para coisas importantes. Quando era reitor da Kennedy School, tentava ensinar meus alunos a fazerem um “resumo de elevador” — a sintetizar, no tempo que leva para um elevador chegar do primeiro ao sétimo andar, as duas ou três coisas que seu chefe precisava saber. A comunicação clara e sucinta é um dos instrumentos mais eficazes de poder. 

Qual seria seu resumo de elevador para o 44º presidente dos Estados Unidos?Creio que a primeira coisa que diria ao novo presidente é não virar refém de pendências deixadas pelo governo George W. Bush. É claro que esse presidente terá de dar um jeito na situação no Afeganistão, no Iraque, no Irã. Mas, se ficar apenas nisso, perderá a oportunidade de ditar um novo tom para a política externa americana. Se quiser exercer o poder astuto, sua mescla de poder brando e poder bruto terá de ser mais voltada ao futuro, de trazer mais esperança. Será preciso desativar Guantánamo e criar uma comissão mista para tentar definir como deveriam ser julgados os suspeitos de terrorismo. Talvez fosse bom montar um grupo bipartidário para considerar medidas práticas e imediatas para lidarmos com a mudança climática. Outra sugestão seria fazer um giro pela Ásia — começando por Tóquio e com paradas em Seul, Pequim e Nova Délhi — para mostrar que os Estados Unidos estão particularmente atentos à ascensão da Ásia, que não estão concentrados apenas nos problemas do Oriente Médio. É incrível como muitos dos problemas herdados são ligados ao Oriente Médio. Naturalmente, continuarão a ser questões de caráter urgente, mas não deveriam dominar a pauta do próximo governo. 

Na sua opinião, os Estados Unidos estão em declínio como potência mundial?

Não. Isso vem sendo dito há décadas. No final da década de 1980 todo mundo achava que era o fim da estrada para os americanos — a Guerra Fria tinha acabado e a tese reinante era a de que o Japão desbancara os Estados Unidos, expulsando o país da economia mundial, e por aí vai. Achei que essa tese estava errada e meu livro Bound to Lead foi uma tentativa de refutá-la. Comecei por analisar o poder militar americano e, então, o poder econômico americano. Percebi que estava deixando algo de fora: a capacidade do americano de atrair os outros para seus ideais e para seu país. Foi isso que chamei de soft power — e foi por isso que escrevi, naquela época, que os Estados Unidos seriam a potência dominante do século 21. 

Tenho um otimismo de longo prazo em relação aos Estados Unidos. Na esteira da invasão do Iraque foi lançada uma leva de livros que tentam reviver o declinismo. Pessoalmente, não acredito nisso. Os Estados Unidos são uma sociedade que premia a criatividade mais do que muitas outras. Além disso, têm uma bela dose de poder brando derivado de sua cultura e de seus valores, ainda que políticas recentes tenham minado essa força. Mas toda política pode ser mudada. A economia americana ainda tem uma capacidade impressionante, e creio que as forças armadas do país não estão a ponto de serem superadas. O atual século sem dúvida verá aquilo que Fareed Zakaria chamou de “ascensão do resto”. É algo que já começamos a testemunhar. Mas não é o mesmo que ver o eclipse dos Estados Unidos.  

 

Share with your friends









Submit