Ter um bom gestor — alguém que defende você, ameniza o impacto da política interna sobre você e elogia sua competência para o restante da empresa — é algo maravilhoso. A menos que isso prejudique sua carreira. Se você não é visto por outros na organização, é pouco provável que estabeleça uma rede forte, amplie sua influência e se mova pela empresa. Como sair da sombra do chefe?

O que dizem os especialistas

O caminho mais seguro para ter uma grande carreira estava relacionado com a ideia de “pegar uma carona no sucesso de um gestor promissor — você progride à medida que seu chefe cresce”, diz Priscilla Claman, presidente da Career Strategies, uma consultoria com sede em Boston, e colaboradora do Guia para conseguir o emprego certo, da HBR. Hoje, as coisas são diferentes. Vincular-se a alguém com um futuro brilhante não é a melhor estratégia para se manter à frente”, argumenta. Mudamos de emprego com maior frequência do que costumávamos, o que significa que não é possível prever para onde irá seu gestor. Além disso, as organizações podem alterar as estruturas de gestão e a direção do negócio. “E seu chefe pode ficar ultrapassado”, afirma Claman. “Para sobreviver é fundamental cultivar relações por toda a organização e mostrar credibilidade por si próprio sem depender do chefe para validar seu valor”.

Deixando de lado os cenários mais negativos, ser visto apenas como o braço direito do gestor também pode ser “prejudicial para sua carreira no longo prazo porque, assim, poucas pessoas além dele têm a chance de ver seu potencial”, alerta Karen Dillon, coautora de “How Will You Measure Your Life? . “É importante que outras conheçam o seu valor e entendam em que lugar você se encaixa na organização”. Afinal, segundo Dillon, decisões em relação a aumentos, promoções e bônus raramente são feitas somente pelo chefe. Confira algumas estratégias úteis para lidar com isso.

Reconheça o problema

Ter um bom relacionamento com seu gestor não significa deixar de enfrentar dificuldades para deixar a sua marca. O problema é a falta de visibilidade na empresa que isso pode acarretar, talvez porque muitos patrões deixam de conferir publicamente crédito suficiente para as contribuições de seus funcionários. Além disso, nessas circunstâncias, nossa tendência é não estabelecer uma rede grande o suficiente por conta própria. Um bom teste para ajuda-lo a determinar se você vive na sombra do chefe é se perguntar: “Posso citar três pessoas fora do meu departamento que entendem o que faço e o quanto sou competente?”. Não é difícil cultivar muitas relações no escritório em nível superficial, mas, a marca de uma boa rede, segundo Dillon, é conhecer “pelo menos três pessoas (do seu nível e acima) que podem descrever seu trabalho e o valor que tem para a organização”. É claro que é importante conhecer os colegas abaixo de você no organograma, mas, em geral, os pares e os gestores são “aqueles que podem indica-lo para projetos interessantes e abrir as portas para você”, ressalta.

Peça ajuda ao seu chefe

A pessoa mais bem posicionada para ajudar a aumentar a sua visibilidade na empresa e expandir a sua rede é o seu chefe. Então, fale com ele. Peça ao seu gestor que mencione publicamente suas contribuições em reuniões de alto nível para que outros reconheçam seu valor. E também que o ajude a se conectar com colegas de toda a organização. Procure começar a conversa com algo assim: “É uma grande satisfação trabalhar com você. Gostaria de falar sobre como posso continuar a crescer, ter oportunidade de conhecer coisas novas e aprender mais”, sugere Dillon. Segundo ela, agindo assim, você transmite a seguinte ideia: “Quero representá-lo, mas também ampliar meus horizontes”. Você também pode perguntar: “A quem devo conhecer melhor?” e “Com quem é importante me relacionar? Se você trabalha numa empresa grande, o mais indicado é pedir ao seu chefe que faça as apresentações — é como pedir a ‘benção’ e aprovação”, diz. “É provável que seu gestor aprecie a ideia de que você desenvolva sua própria reputação porque isso pode aumentar a dele também”.

Procure novas e diferentes oportunidades

“Se você é visto como uma pequena versão de seu chefe, você precisa achar um jeito de se diferenciar”, sugere Claman. Você pode se oferecer para colaborar com um projeto e assim ampliar sua exposição em novas áreas da empresa. Como trabalhar em um grupo de discussão sobre novas opções de fornecedores, de benefícios ou participar de um que inclua funcionários de outros cargos e departamentos. “Se decidem formar uma força-tarefa na empresa, por exemplo, você pode dizer ao seu chefe que gostaria de representar o seu departamento”. É pouco provável que ele recuse se o pedido for feito numa reunião onde outros já ouviram falar de você ou se isso é uma prioridade administrativa, diz Claman. “Para ganhar permissão, você precisa mostrar seu valor para o chefe, o departamento e a organização”, afirma.

Destaque-se nas reuniões

Ampliar as trocas interpessoais no trabalho e aumentar a interação com os gestores seniores requer esforços planejados para valorizar seu perfil. Você pode dizer ao seu chefe que gostaria de se sentar ao lado de superiores durante algumas reuniões. Também pode pedir permissão à equipe de marketing para observar chamadas de vendas com clientes proeminentes. “Antes da reunião, pergunte ao seu gestor se ele gostaria que você preparasse algo”, sugere Claman. E se mostre útil durante o encontro. “Você está lá para aprender. Ofereça-se para tomar nota e, em seguida, distribuir as informações (em seu nome)”. Não atrapalhe o seu chefe e “não interfira no que ele diz, mas busque oportunidades para dialogar e mostrar seu conhecimento e experiência de uma maneira que realmente enriqueça a conversa”, acrescenta Dillon. Compartilhe suas ideias, ofereça seus pontos de vista e use o pronome “nós”. Os comentários devem “refletir o trabalho que faz com o chefe”, destaca.

Procure interagir com os colegas

Circular por diversos lugares sociais e profissionais pode permitir que seus colegas o conheçam melhor e o vejam de acordo com seus próprios méritos. “Busque transitar por ambientes que facilitam as trocas interpessoais com aqueles que trabalham com você”, sugere Claman. Aproveite as oportunidades informais — no refeitório, no time de futebol da empresa e nos eventos de caridade. Se a organização não tem atividades filantrópicas, considere programar uma. Em ocasiões formais, como a festa de Natal ou o happy hour do escritório, é preciso planejar as interações. Segundo Dillon, mesmo que não aprecie muito esses compromissos, é importante investir nisso para se conectar com pessoas fora do seu campo típico de trabalho.

Seja paciente

“Às vezes o mundo real se move mais lentamente do que gostaríamos”, diz Dillon. Estabelecer uma reputação independente do seu chefe leva tempo. Se você se sente frustrado com o ritmo de sua carreira e teme ficar para sempre na sombra de seu gerente, pergunte a si mesmo: “Tenho crescido? Aprendido? Desfrutado do meu trabalho?”.

Princípios para manter em mente

O que fazer:

Pedir ao seu chefe para apresenta-lo a outras pessoas da empresa

Oferecer-se para participar de projetos e comissões que permitem conhecer outros colegas a aprender novas habilidades

Empenhar-se nas trocas sociais com as pessoas do trabalho e em conhecê-las mais intimamente

O que não fazer:

Portar-se de modo apático em reuniões de alto nível (busque brechas para mostrar sua expertise)

Ter medo de se candidatar a vagas e oportunidades que podem te distanciar do seu chefe

Desconsiderar o fato de que cultivar a própria reputação pode levar mais tempo do que gostaria

Estudo de caso 1. Ofereça seu tempo e conhecimento

Laura Troyani tinha um bom emprego em pesquisa de marketing numa empresa de produtos de consumo na região de Boston. Seus colegas eram bastante profissionais, e seu gestor (o chefe do departamento), um grande coach com quem aprendeu muito, segundo conta.

Mas o trabalho (mais consultivo do que marketing direto) não a deixava empolgada. Laura acreditava que sua carreira seria limitada se simplesmente seguisse os passos de seu gestor. Ela se sentia na sombra dele e sabia que precisaria não só ampliar seu repertório de habilidades como também sua rede de conexões.

Laura decidiu, então, tomar as rédeas e marcar uma reunião com o líder da equipe de marketing. “Eu disse a ele que me sentia muito satisfeita com a empresa, mas dispunha de algum tempo extra e, assim, me ofereci para participar de projetos paralelos”.

Seu chefe concordou e ela começou a colaborar com algumas iniciativas de marketing de grupos orientados por dados, o que complementava suas principais funções. Assim, Laura formou novas relações profissionais com a equipe de vendas. E gostou bastante da experiência.

Além disso, ela, que se descreve como alguém naturalmente introvertida, se forçou a participar de atividades sociais no trabalho. E decidiu, então, entrar no time de vôlei e futebol da empresa.

Um ano mais tarde, depois de uma reestruturação interna, a empresa abriu uma vaga na equipe de marketing de consumo, que precisava de alguém com experiência. Laura era o ajuste perfeito. “No final, consegui o trabalho certo para mim, aquilo que realmente desejava”, comemora.

Hoje, ela é a diretora da TINYhr, uma empresa com sede em Seattle e que produz softwares que ajudam a medir o comprometimento dos funcionários.

Estudo de caso 2. Aproveite as oportunidades para dar seu ponto de vista

Connie Bentley deixou sua carreira na área de ensino para trabalhar com vendas em uma grande empresa de serviços de negócios. Ela se destacou na nova função e rapidamente foi promovida a gerente do distrito que cobria Connecticut e Massachusetts. Em três anos, ela foi promovida duas vezes para atuar como gerente regional.

Connie admirava seu chefe, Scott, com quem mantinha um relacionamento franco. “Decidi perguntar a ele o que precisava para ser cotada como gestora regional e de que maneira poderia trazer maior valor para a empresa”.

O conselho de Scott não foi muito útil. “Ele me disse que eu fazia bem meu trabalho e que deveria continuar na mesma função”, recorda.

Connie se sentia desanimada e começava a pensar em desistir. “Quando nos sentimos presos ou sombra de alguém, costumamos acreditar que a única saída é deixar a empresa”, diz.

Mas justamente quando começou a considerar mudar de trabalho, ela foi convidada para um jantar que reconhecia os melhores talentos. Por sorte, ela se sentou ao lado do presidente de sua divisão. Ele a elogiou por seu desempenho e perguntou como a empresa a ajudava nesse sentido.

Connie queria causar uma boa impressão, mas decidiu, com muito respeito, ser bastante franca. Ela disse que a organização de fato colaborava com seu progresso, mas que poderia fazer muito mais. “Dei algumas sugestões, como uma área de treinamento formal para recrutar o pessoal de vendas ou um ambiente seguro de exercícios e aprendizagem na prática antes da saída a campo”.

Logo depois do jantar, o presidente da divisão a convidou para se mudar para Nova York e se tornar a primeira gerente de treinamento de vendas e desenvolvimento da empresa. “Eu disse que queria o trabalho, mas, antes de tudo, perguntei: ‘O senhor falou com meu chefe? O que ele acha disso? ’”.

Scott assinou em baixo. Hoje Connie mora em São Francisco e trabalha na US General Manager for Insights, uma empresa global de desenvolvimento de talentos. “Esse trabalho me levou para o campo ao qual pertenço”, diz.

Rebecca Knight é jornalista freelancer em Boston. Ela tem publicações no The New York Times, USA Today, The Financial Times e The Economist.

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