Tese: quando um casal se desloca na mesma direção para chegar ao trabalho, a visão que um tem do outro é mais positiva.

Estudo: sob orientação dos professores Robert Wyer e Xianchi Dai, da Chinese University of Hong Kong (CUHK), dois estudantes de pós-graduação pediram a mais de 400 pessoas casadas que avaliassem sua satisfação com o cônjuge e informassem a direção, a distância e a duração de seu trajeto da casa ao trabalho. A dupla descobriu uma correlação expressiva entre a direção do deslocamento e a felicidade conjugal. Num experimento posterior em laboratório, estranhos foram aleatoriamente emparelhados para fazer uma tarefa. Aqueles que andaram na mesma direção para concluir a tarefa ficaram muito mais satisfeitos com os parceiros do que aqueles que não o fizeram.

Dúvida: o deslocamento físico numa mesma direção causa mais sintonia emocional entre as pessoas? Professor Wyer, defenda seu estudo.

 

 

Wyer: Não esperava que as pesquisas, realizadas nos Estados Unidos e em Hong Kong, fossem mostrar uma relação. Mas sim: quem tomava o mesmo rumo que o marido ou a mulher para chegar ao trabalho era mais satisfeito com a relação do que quem ia para outro lado. Nosso palpite é que isso simboliza a busca de metas semelhantes. Meus colaboradores (os alunos de pós-graduação Irene Huang e Ping Dong, além de Xianchi Dai, outro professor da CUHK) tinham lido que a falta de metas comuns é grande fonte de insatisfação conjugal. E o deslocamento até o trabalho é fonte de insatisfação geral. O que fizemos foi investigar as duas ideias juntas. Naturalmente, podia haver outra explicação para os resultados: vai ver que o casal que trabalha perto um do outro exerce funções mais parecidas ou tem mais facilidade para se encontrar depois do expediente. Daí termos feito o estudo com estranhos em condições controladas. Isso permitiu que isolássemos os efeitos do deslocamento na mesma direção de outros possíveis fatores. E descobrimos que gente aleatoriamente emparelhada ficava mais satisfeita com o parceiro quando caminhava na mesma direção para realizar a tarefa, ainda que não seguisse exatamente a mesma rota. Com os estudos em laboratório, ficamos mais seguros de nossa interpretação.

HBR: Antigamente, meu marido e eu pegávamos o mesmo rumo para ir  trabalhar. Agora, não. É o fim?

É claro que não. A felicidade conjugal depende de muitas coisas, e muito mais importantes. Fumar pode causar câncer de pulmão, mas isto não significa que todo fumante vai ter a doença. E a variância neste caso é ainda menor. Mesmo assim, é muito interessante que um fator sutil, incidental e aparentemente irrelevante como pegar o mesmo rumo para ir trabalhar possa ter uma influência estatisticamente relevante.

Há mais algum detalhe sutil que inconscien- temente atraia alguém para o outro? Ou deixe os dois mais satisfeitos com a relação?

Um grande corpo de evidências mostra que a percepção de semelhança aumenta a atração interpessoal, ainda que a semelhança seja objetivamente irrelevante, como quando duas pessoas têm o mesmo nome ou são de uma mesma cidade. Estudos recentes mostram que a sensação de calor físico pode despertar a ideia de “calor” social, o que por sua vez influencia juízos e decisões. John Bargh e colegas na Yale University descobriram que, se alguém está com uma bebida quente na mão, é provável que considere outras pessoas simpáticas. E Irene Huang, Meng Zhang e outros na CUHK descobriram que um ambiente com temperatura mais alta induz sentimentos de proximidade social e aumenta as chances de que as pessoas acatem decisões de outras. Numa corrida de cavalos, por exemplo, a probabilidade de que alguém aposte no favorito (no cavalo que a maioria dos apostadores prefere) é maior nos dias mais quentes do que nos frios.

Quer dizer que sentir proximidade nos leva à conformidade?

Proximidade social, sim. Proximidade física, não necessariamente. Um exemplo: em geral, uma pessoa fica incomodada ​​quando outra invade seu espaço pessoal, embora não se incomode tanto quando quem invade o espaço alheio é ela. No ônibus, você se sente melhor quando senta ao lado de um estranho do que quando o estranho se senta a seu lado. Segundo estudo de Hao Shen, da CUHK, e Jing Xu, da Universidade de Pequim, a explicação é que a pessoa infere, pela própria conduta, que foi atraída para o estranho ao lado do qual sentou, ainda que não tivesse alternativa. Já quando um estranho se senta a seu lado vem a sensação de que essa pessoa constrangiu sua liberdade — e o desejo de reafirmá-la. No experimento, Shen e Xu pediram a um grupo de estudantes que escolhesse um lugar para sentar entre outro grupo já sentado. Quem escolheu onde sentar relatou níveis mais altos de atração pela pessoa a seu lado. E, quando instado a escolher entre várias opções de camiseta ou xícaras de café, tendia a optar por alternativas “conformistas” — menos singulares do que as demais opções. O pessoal já sentado — para quem a companhia dos outros fora uma imposição — foi menos inclinado a simpatizar com o grupo e mais propenso a escolher artigos singulares.

Quer dizer que a mente capta uma ação e atribui um significado maior a ela, o que influencia não só aquilo que a pessoa sente, mas também atos futuros? É complicado…

Uma certa conduta deflagra, na mente, ideias associadas a tal conduta, que por sua vez se associam na mente a outras noções que, por meio da aprendizagem, ganharam relevância metafórica e, portanto, influenciam as decisões que a pessoa toma. A sensação de calor físico, por exemplo, desperta a noção de calor, que está ligada a conceitos de calor, ou proximidade, social — conceitos que podem afetar seu juízo e sua conduta. George Lakoff e Mark Johnson explicam muito bem como metáforas influenciam nossos atos e percepções, sem que sequer percebamos.

E que outro efeito uma metáfora teria sobre o comportamento das pessoas?

Em uma série de estudos feitos por Irene e Ping, a questão é como o indivíduo lida com o constrangimento. Partindo da premissa de que a pessoa que sente vergonha quer “se esconder” (evitar contato social) ou “preservar sua imagem” (restituir sua reputação), a dupla mostrou que esse indivíduo também é mais inclinado do que outros a optar por artigos como óculos escuros e cremes para o rosto, coisas que, simbolicamente, satisfariam tal necessidade. Mas, enquanto o uso de óculos escuros (que ocultam simbolicamente a face) teve pouco efeito positivo sobre o estado de ânimo da pessoa, o uso de cremes (que simbolicamente restituíam sua imagem) diminuiu a vergonha e aumentou sua vontade de interagir com outros socialmente.

O que isso significa para alguém que queira montar uma equipe coesa? É preciso garantir que a sala de reuniões esteja quentinha, que todos se desloquem no mesmo sentido, decidam onde sentar ao mesmo tempo e que haja creme para o rosto caso alguém pague algum mico?

Bom, como disse lá atrás, os efeitos que identificamos são uma parcela muito pequena da variação
no
comportamento. Se eu fosse um chefe interessado em aumentar a coesão da equipe, provavelmente me concentraria em fatores como a definição de metas claras e a comunicação aberta, que provavelmente terão maior efeito. 

 

Robert S. Wyer é professor visitante da Chinese University of Hong Kong e professor emérito da University of Illinois, nos EUA.

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