Lê-se muito atualmente sobre pesquisas que mostram que praticar a gratidão — ser grato, deliberadamente, pelas coisas boas da sua vida — trás todos os tipos de benefícios para a felicidade e o bem-estar. Esses artigos geralmente terminam com uma convocação para se começar um diário de agradecimentos para colher todos os benefícios da gratidão.

Não há nada de errado com isso. Mas devemos pensar em outra finalidade da gratidão, sem dúvida ainda mais importante: fortalecer nossas relações com as pessoas das quais dependemos.

Historicamente, a maioria das pesquisas tem sido centrada sobre a função social da gratidão, não seu impacto sobre nossos cérebros. Esse conjunto de pesquisas descobriu que – explicando de forma bem direta –  expressar gratidão a alguém que o ajuda mantém a pessoa interessada em você e faz com que ela invista no relacionamento a longo prazo. E faz com que o tempo que ela gastou, seu esforço, e as dificuldades, pareçam ter valido a pena.

Da mesma forma, não há nada como a ingratidão para azedar um relacionamento que, do contrário, seria positivo. Não é difícil para a maioria de nós recordar um momento em que nos chocamos com quão ingrato e descuidado alguém foi em resposta a nossa generosidade. (Se você é pai ou mãe, basta, provavelmente, se lembrar do café da manhã de hoje.) Sem algum tipo de reconhecimento, as pessoas deixam muito rapidamente de querer ajudá-lo. De fato, em estudos realizados por Adam Grant e Francesca Gino, quando alguém não era agradecido por sua ajuda, sua probabilidade futura de ajudar as pessoas era imediatamente cortada pela metade.

Gratidão é uma cola que une você e seu benfeitor, permitindo que você procure a mesma fonte diversas vezes, mas sabendo que o apoio não secará.

Pelo menos, a gratidão pode ser essa cola se você agir corretamente. Uma pesquisa recente sugere que as pessoas costumam cometer um erro crucial quando expressam gratidão: elas se concentram em como elas se sentem — quão felizes elas estão, quão benéfica foi a ajuda — em vez de focar o benfeitor.

Os pesquisadores Sara Algoe, Laura Kurtz, e Nicole Hilaire, da University of North Carolina, distinguem entre duas formas de expressar a gratidão: elogiar outro, o que reconhece e valida as ações de quem ajuda, e o benefício próprio, que descreve os benefícios para o receptor por ter sido ajudado. Em um de seus estudos, os casais foram observados ao expressar gratidão um ao outro por algo que seu parceiro tinha feito recentemente para eles. Suas expressões foram então classificadas pelo grau em que elas representavam um elogio ao outro ou eram focadas no benefício próprio. Exemplos de suas expressões incluem:

Elogio ao outro

Isso mostra como você é responsável …

Você realmente se esforçou para ajudar…

Eu acho que você é realmente bom em …

Benefício próprio

Isso permitiu que eu relaxasse…

Isso me deu a possibilidade de barganhar no trabalho …

Isso me faz feliz…

Finalmente, os benfeitores classificaram o quão felizes eles se sentiram, o quão amorosos eles se sentiram em relação ao seu parceiro, e quão grata estava, na sua percepção, a pessoa que expressava a gratidão. Os pesquisadores descobriram que a gratidão na forma de elogio ao outro estava fortemente relacionada com a percepção de receptividade, emoção positiva, e carinho — mas a gratidão focada no benefício próprio não.

Vale a pena parar para pensar sobre isso porque a maioria das pessoas entende a gratidão de forma completamente errada. Por natureza, os seres humanos são, com frequência, um pouco egocêntricos. Temos uma tendência a falar de nós mesmos, mesmo quando deveríamos estar pensando e falando sobre os outros. Então, naturalmente, quando recebemos ajuda e apoio de alta qualidade, queremos falar sobre como isso nos fez sentir. Na realidade, assumimos que é isso o que a pessoa que ajudou quer ouvir — ela estava ajudando para nos fazer feliz, então ela deve querer ouvir sobre o quanto estamos felizes.

Mas esta suposição não é lá muito correta. Sim, a pessoa que ajuda quer que você seja feliz, mas a motivação para ser útil, muitas vezes, está diretamente ligada ao nosso próprio senso de autoestima. Nós ajudamos porque queremos ser boas pessoas, para viver de acordo com nossos objetivos e valores, e, temos de admitir, para sermos admirado.

Lembre-se disso da próxima vez que receber apoio de um colega ou amigo. A pessoa que ajuda quer ver a si mesma de forma positiva e sentir-se compreendida e cuidada — o que é difícil quando você não para de falar sobre si mesmo.

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Heidi Grant Halvorson, Ph.D., é diretora associada do Centro de Ciência da Motivação na Columbia University Business School e autora do best-seller Nove atitudes das pessoas bem-sucedidas (Editora Sextante). Seu livro mais recente é No one understands you and what to do about it Harvard Business Review Press, 2015), que tem sido destaque na mídia nacional e internacional.

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