Algumas carreiras parecem exercer um poderoso fascínio. Muitos sonham em deixar o emprego em troca de profissões que parecem ter um significado profundo (como o ensino ou o trabalho sem fins lucrativos) ou aparente autonomia, como o empreendedorismo. Outros são atraídos pelo prestígio, por ocupações de alta remuneração, como na área legal ou de consultoria. Há ainda aqueles que desejam atuar no glamouroso mundo das redes de comunicação ou da área editorial. A ironia é que provavelmente o número de pessoas querendo sair desses ramos é o mesmo daquelas que estão lutando para entrar. Não importa a indústria, é muito difícil encontrar quem não reclame do que faz.

Por que mesmo pessoas sagazes têm esses intrigantes pontos cegos?

Muitos esperam pelo trabalho ideal, em que seria possível resolver todos os problemas de uma só vez: relação com o chefe, salário insuficiente e falta de autonomia. Cargos que talvez pudessem oferecer duas coisas bem importantes: significado e prazer. Empregos perfeitos parecem preencher necessidades profundas tanto em relação ao bem-estar de executar tarefas quanto a cumprir um propósito. Quando perguntamos a alguém como descreveria um cargo ideal, a tendência é escutarmos respostas distintas, mas não únicas. Muitos dizem querer um chefe que orienta, e não um que pressione e seja controlador; outros, uma cultura organizacional que cumpre o que propõe. Há ainda aqueles que, na hora de falar sobre o emprego perfeito, dizem que gostariam de estar num lugar que valesse a pena: “Quero fazer diferença” ou “Desejo dar algo em troca”.

Então, o que há de errado em procurar um trabalho que trará total satisfação e preencherá sua vida de sentido? Apenas uma coisa: provavelmente você não irá encontrá-lo.

A perfeição é uma meta inalcançável. Aprendemos que é melhor não nos limitarmos nem sermos tão rigorosos para decidir o período de férias, comprar uma casa ou escolher parceiros amorosos. Então, porque quando se trata da carreira, muitos insistem na ideia de que um trabalho poderá preencher todas as fantasias?

Quando a intenção é conseguir o cargo ideal, a tendência é cair numa armadilha tudo-ou-nada. É como se fosse um desafio para o universo — “Dá-me tudo agora ou me deixe em paz”. O que revela claramente como esse pensamento é passivo: embora possa dizer que está “em busca” do emprego perfeito, é bem provável que secretamente você espere que ele te encontre. O problema é que isso autoriza você a não fazer absolutamente nada. Se uma proposta incrível surge, você pode até checar do que se trata, caso contrário, as chances de insistir no mesmo plano desinteressado são enormes.

Ser mais flexível com a noção de ideal versus real pode permitir a você vislumbrar alternativas para o seu futuro sem necessariamente precisar tomar o primeiro passo para mudanças reais, o que significa, na maioria dos casos, falar com outras pessoas sobre o que acontece de fato no trabalho delas.

Um emprego que traga plena satisfação pode até estar no terreno dos sonhos. O fato, porém, é que precisamos do conceito de um trabalho ideal — ou pelo menos da ideia de que pode ser emocionante. É essa sensação que nos dá a energia para pegar o telefone, explorar, bater de porta em porta. E precisamos de gente apaixonada para abrir essas portas. Mas também de pessoas pragmáticas que procuram com afinco cruzar sua lista de desejos com as necessidades do empregador — o que significa cavar fundo o suficiente para descobrir a realização que pode existir em determinada função e os conflitos de escolha envolvidos. É preciso perguntar: “Do que realmente gosto?”, “O que vou fazer a maior parte do tempo?”, “Qual a pior parte do trabalho?”.

Encontrar um emprego inspirador (não completamente) significa aprender a combinar seu desejo com a realidade do cargo e saber como continuar a procura até achar um melhor negócio. Todo trabalho é um acordo — um ajuste entre o que você quer ganhar da vida e o que a organização (ou cliente) quer extrair de você.

Não aceite informações de segunda mão. Procure descobrir o que sente em relação ao emprego. Não se deslumbre com a marca do empregador ou com as informações divulgadas pela mídia: procure com vigor, estude ofertas e faça as perguntas certas. Se a função tende a levar seu currículo para uma direção arriscada, aja com todo o cuidado necessário, como se fosse um investidor.

Quem almeja a perfeição costuma fazer pouco e esperar. Buscar ativamente algo bom o suficiente, porém, pode transformar sua carreira.

John Lees é estrategista de carreira e mora no Reino Unido. É autor de How to Get a Job You’ll e The Interview Expert, entre outros títulos. Colaborador do Guia para conseguir o emprego certo, da HBR.

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