Na semana passada, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o vírus zika como emergência internacional de saúde pública. Suspeita-se que o zika seja a causa da microcefalia — bebês nascidos com cabeças pequenas e desenvolvimento anormal do cérebro — e paralisia em adultos, embora isso ainda não tenha sido confirmado. O vírus está “se espalhando explosivamente” em toda América do Sul e Central, com casos confirmados em mais de 20 países. A OMS estima que até 4 milhões de pessoas podem ser infectadas até o final do ano e, com grande número de viajantes que entram e saem da região, o zika pode se espalhar para outras partes do mundo.

Há pouco mais de um ano, enfrentamos um desafio semelhante quando o ebola fugiu de controle. Na época, dois de nós (Ranu e Devabhaktuni) fomos convidados pelo presidente da Guiné, um dos três países mais afetados, para ajudar a desenvolver uma estratégia nacional de combate à epidemia. Com base em nossa experiência de combate ao ebola, propomos uma estratégia em quatro frentes para conter o zika.

Assim como o ebola, não há vacina ou cura para o zika, e provavelmente vai demorar anos para que sejam descobertas. Para conter essa pandemia será necessário interromper suas “cadeias de transmissão”. Para o ebola, que é transmitido através de fluidos corporais (por exemplo, sangue e fezes), isso significava implementar medidas para identificar as pessoas recentemente infectadas ao primeiro sinal da doença para, em seguida, colocá-los em quarentena antes que elas infectassem outras pessoas.

Para controlar o zika — que é transmitido por mosquitos e, aparentemente, por relações sexuais — pode ser necessário, logicamente,  eliminar os mosquitos das áreas onde o vírus está presente e isolar pessoas infectadas imediatamente, especialmente das mulheres grávidas. Isso pode ser feito garantindo que as pessoas usem repelentes de mosquito e durmam sob mosquiteiros tratados com inseticida (semelhantes aos que têm ajudado a reduzir dramaticamente a malária na África) e eliminando as condições para que os mosquitos se desenvolvam, incluindo água parada e entulho ou lixo ao ar livre. No entanto, como 80% das pessoas infectadas não mostram sinais de doença e outros têm sintomas inespecíficos como febre e dores no corpo, é difícil saber quem tem zika e, portanto, identificar áreas de foco para essas intervenções.

Nesse momento, os países afetados estão identificando áreas críticas, procurando locais onde há taxas acima do normal de bebês nascidos com microcefalia — mas, essencialmente, só após graves danos já terem sido infligidos. Atualmente, alguns países estão tentando conter o zika recomendando que as mulheres em geral evitem engravidar e que as comunidades tomem precauções contra o mosquito. Mas a implementação dessas medidas em países inteiros exigirá grandes mudanças de atitude e comportamento, e a distribuição em massa tanto de produtos de controle do mosquito quanto de contraceptivos (segundo algumas estimativas, por exemplo, mais de metade das gravidezes na região não são intencionais). Essas abordagens serão parcialmente eficazes somente em larga escala; certamente, gravidezes ainda ocorrerão e alguns mosquitos ainda permanecerão.

Portanto, ao lado de tais esforços, é necessária uma resposta mais sutil e intensa, em quatro frentes.

  1. Localizar áreas críticas com ampla realização de exames

Em áreas onde o zika pode estar presente, todos os pacientes com sintomas da infecção devem ser monitorados por exame de sangue, de modo que áreas críticas possam ser detectadas rapidamente. Essa abordagem seria mais eficaz se fossem desenvolvidos, rapidamente, testes laboratoriais remotos, capazes de diagnosticar o zika facilmente.

Assim como o ebola, o diagnóstico de zika é feito, atualmente, através de reação em cadeia da polimerase (RCP), um teste laboratorial que necessita de equipamento e equipe especial e é, portanto, difícil de ser descentralizado e reduzido em escala. Uma das principais falhas durante a epidemia de ebola foi a incapacidade de validar e implementar rapidamente testes de diagnóstico rápido (TDR) que poderiam ter sido utilizados pelos trabalhadores de saúde não especializados para diagnosticar o ebola em poucos minutos, com apenas uma picada no dedo. Isto teria permitido que casos de ebola fossem detectado mais cedo e a transmissão fosse contida mais rapidamente. Esses diagnósticos poderiam ter ajudado a acabar com a epidemia bem mais cedo, mas nunca foram implementados por uma falta de consenso sobre como eles deveriam ser utilizados, bem como por um processo de validação focado nos testes de laboratório e não em condições reais, nas quais o TDR, em última análise, teve um desempenho muito melhor.

Desenvolver um teste semelhante para o zika deve ser uma prioridade imediata, coordenada pro-ativamente, impulsionada com financiamento dedicado e um processo de validação acelerada, direcionado para a avaliação, o mais rápido possível, de novos testes em campo. Enquanto isso, os laboratórios existentes em hospitais regionais e sub-regionais devem ser equipados urgentemente para realizar o diagnóstico de zika por RCP de modo que a vigilância da propagação do vírus possa começar imediatamente.

  1. Implementar medidas específicas de controle

Com informações sobre o local onde ocorre a transmissão do zika, o controle do mosquito e as intervenções de isolamento podem ser implementadas de forma agressiva nessas áreas. Mosquiteiros e repelentes devem ser distribuídos a todas as famílias, as condições ambientais propícias à reprodução do mosquito devem ser sanadas, e as pessoas diagnosticadas com zika devem ser mantidas longe de mulheres grávidas e locais onde possam ser picadas por mosquitos.

A implementação dessas medidas intensivas só é possível com sistemas locais de saúde eficazes. Na epidemia de ebola, os países afetados na África Ocidental tinham sistemas de saúde que mal funcionavam, especialmente no nível local. Como resultado, tivemos que criar um sistema paralelo específico para controlar o ebola, que consumiu tempo e dinheiro, tudo isso enquanto a epidemia continuava se expandindo.

Muitos dos países atualmente afetados pelo zika têm sistemas de saúde relativamente fortes. No Brasil, por exemplo, o país mais afetado, já existe uma rede de clínicas locais ligadas a agentes comunitários de saúde que vão de domicílio em domicílio para tratar de questões de saúde. Esses sistemas locais de saúde devem se voltar para o  controlo de epidemias e procurar casos potenciais de zika, proporcionando aconselhamento e acompanhamento a mulheres grávidas, a fim de minimizar o risco de infecção. Reforços nas equipes, treinamento e recursos devem ser fornecidos para fortalecer esses sistemas existentes, implementando as intervenções necessárias para domar o zika.

  1. Prevenir a transmissão generalizada

No começo da epidemia de ebola no Oeste Africano, o vírus foi circunscrito a algumas comunidades locais e, como nas duas dúzias de eclosões anteriores de ebola, poderia ter sido confinado e eliminado rapidamente. No entanto, o ebola iludiu os esforços iniciais de controle e tornou-se uma epidemia generalizada com surtos locais múltiplos e dispersos, tornando-se uma crise verdadeiramente global e difícil de controlar.

O zika  já se difundiu significativamente. Mas todos os esforços devem ser feitos para tentar conter o vírus em suas posições atuais e impedi-lo de alcançar novas regiões. Uma vez que um ponto crítico seja identificado, as pessoas que viajam para fora dessa área devem ser testadas em postos de controle de diagnóstico. Os testes laboratoriais remotos de diagnóstico que descrevemos acima poderiam aumentar dramaticamente a capacidade de implementação dessa estratégia.

  1. Integrar pesquisa e ação imediata

No caso do ebola, tentamos gerir a epidemia, mesmo que muitas questões críticas sobre o vírus ainda estivessem sem resposta. Apesar de milhares de casos e mais de dois anos de luta contra a epidemia, ainda não aprendemos tanto quanto deveríamos sobre o ebola por uma incapacidade de conduzir pesquisas eficazes junto com os esforços para controlar a epidemia.

Com o zika, talvez tenhamos ainda mais pontos cegos de conhecimento  que precisam ser compreendido rapidamente para conter a pandemia. O zika realmente causa microcefalia e paralisia como se suspeita? Se for assim, todos são vulneráveis ​​ou apenas pessoas com determinadas características? Devemos aprender com os erros que cometemos com o ebola e buscar formas de pesquisar as questões importantes mesmo enquanto trabalhamos para controlar o vírus o mais rápido possível. Para fazer isso será necessário, sem dúvida, reforçar a capacidade de pesquisa das universidades e instituições locais, um investimento fundamental que não fizemos durante o ebola.

Essa estratégia de quatro frentes deve nos permitir chegar à frente dessa pandemia em crescimento e evitar o que agora parece ser a propagação inevitável do zika no mundo todo. Em meio ao caos da epidemia de ebola, uma abordagem com uma proposta clara de interromper a “cadeia de transmissão” controlou o crescimento desenfreado da doença. Devemos prestar atenção às lições da crise de ebola e empregar uma estratégia sistemática e concretas para combater a propagação do zika.

 

 

Ranu S. Dhillon, MD, é assessor do presidente da Guiné e da Célula de Coordenação Nacional de Ebola no país. Ele está na divisão de igualdade de saúde global no Brigham and Women’s Hospital, na Harvard Medical School, e é um conselheiro sênior de saúde no Columbia University’s Earth Institute.

 

Robert Glatter, MD, é professor assistente de medicina de emergência do Departamento de Medicina de Emergência, no Northwell Health’s Lenox Hill Hospital. Ele é editor na Medscape Emergency Medicine e editor-chefe da Medscape Consult.

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