No ano passado, Tim Hunt, cientista vencedor do Prêmio Nobel, observou que tinha problemas com as “garotas” porque, segundo ele, “quando elas estão no laboratório acontecem três coisas: você se apaixona por elas, elas se apaixonam por você e quando você as critica elas choram”. Depois de ser muito criticado pela mídia por suas palavras, ele respondeu que estava apenas tentando ser honesto e não queria ofender ninguém.

Esse poderia ter sido um caso isolado se não tivesse saído em seguida uma reportagem no jornal sobre as auxiliares do Congresso se rebelando contra as regras tácitas que restringia assessoras do gênero feminino a ter contatos à sós com membros masculinos do Congresso, incluindo reuniões, dirigir carros e assistência fora do escritório. A intenção dessas regras do Congresso era de manter um nível de separação entre homens membros do legislativo e mulheres do staff “fora das vistas das esposas dos políticos ou para proteger os congressistas de acusações de assédio sexual”. No entanto, a maioria das pessoas também entendeu a insinuação de que não seria confiável que os congressistas ou suas assistentes mantivessem contatos à sós. Nos dois casos, as mulheres juniores — uma minoria tanto em pesquisa científica como em política — pagam o preço. Com o acesso negado aos detentores do poder — e potenciais tutores de carreira — essas mulheres são excluídas e marginalizadas.

Então qual é o problema nas relações profissionais entre gêneros que deixam alguns homens tão preocupados? Em parte, esses homens são perturbados pela perspectiva de desenvolver relações afetivas, muito próximas, mas não sexuais, com mulheres no ambiente de trabalho. Eles não estão sós. Uma pesquisa realizada em 2010 revelou que, metade das mulheres juniores, e quase dois terços dos homens seniores se esquiva de um relacionamento bilateral de tutoria devido a preocupação de que alguém possa pressupor um relacionamento sexual inverídico. Mas não é só isso que está impedindo esses homens de tutorarem mulheres. O resultado final é insatisfatório para as mulheres, e para as empresas e organizações que as contratam.

Os homens são mais autoconscientes e eficientes na tutoria de mulheres se eles entenderem e aceitarem seus cérebros masculinos evoluídos, a neurociência do sexo e gênero e o impacto igualmente poderoso da educação em relação ao gênero. Embora estudos do cérebro revelem somente ligeiras diferenças na maior parte do cérebro de homens e mulheres, com tantas variações em cada sexo bem como entre eles, essas diferenças geralmente são usadas para validar comportamentos estereotipados e os atributos que atribuímos a cada gênero.

Pense no caso da expressão de emoções. Normalmente considera-se que as mulheres são mais emocionais que os homens, mas imagens de ressonância magnética do cérebro (fMRI) indicam que homens e mulheres experimentam emoções negativas associadas a imagens criadas para despertar uma reação emocional. No entanto, homens e mulheres expressam externamente essa experiência de forma diferente, de acordo com as variações neurológicas que regulam suas emoções. Ao comparar a atividade neural do cérebro, as mulheres se saem melhor ao reenquadrar emoções negativas usando sentimentos positivos, enquanto que os homens usam menos atividade neural ao responder a estímulos com forte carga emocional e estão mais predispostos a controlar, até calar, a expressão emocional.

Então como explicar a crença popular de que as mulheres choram mais ao expressar suas emoções? Novamente, a neurociência explica, em parte, a questão. Num estudo realizado, as mulheres relataram derramar lágrimas oito vezes mais que os homens. E quando as mulheres choram, elas relataram que a duração do choro era três vezes maior que o relatado pelos homens. A explicação para essas diferenças podem ser atribuídas à evolução de diferenças neuroendocrinológicas. Enquanto nas mulheres os níveis do hormônio prolactina, produzido pela glândula pituitária e responsável pela produção de lágrimas são mais altos que nos homens, os níveis de testosterona mais altos nos homens inibem a produção de lágrimas. No entanto, continuam a existir diferenças entre culturas que mostram o efeito social do choro no trabalho. Em culturas como a americana onde é aceitável expressar emoções, as mulheres são educadas com mais liberdade para chorar, e quando choram, elas sentem menos vergonha que os homens quando choram.

Essas diferenças de gênero na emotividade podem se traduzir em falta de compreensão, falta de comunicação e falhas de relacionamento se os homens não estiverem ligados. Para entender o relacionamento entre homens e mulheres numa relação de tutoria, os homens devem reconhecer as tendências neurológicas das mulheres de absorver e reter mais informação sensorial e emocional, serem mais expressivas verbalmente ao conectar lembranças com eventos atuais, e serem mais receptivas nas relações emocionais.

Como os tutores aprendem a identificar essas tendências? Por exemplo, os homens podem ser tutores mais eficientes para as mulheres se praticarem sua capacidade de ouvir com o objetivo de mostrar empatia, em vez de tentar resolver rapidamente o problema ou “consertar” as coisas para elas. No processo de ouvir, os tutores podem descobrir que desenvolvem e valorizam habilidades interpessoais mais intensas, acessam redes sociais mais amplas e conhecem melhor suas organizações internamente e, portanto, se tornam líderes mais eficientes.

Muitos tutores que entrevistamos afirmaram que, muitas vezes, aprenderam mais com as mulheres que tutoravam que elas com eles. Segundo, os homens precisam aceitar as lágrimas de uma tutorada com tranquilidade (homens, vamos superar isso de uma vez por todas!). Os homens deveriam considerar seriamente a pesquisa que mostra que níveis mais altos de prolactina, evolução humana e permissividade da sociedade são peças importantes e, portanto, não se trata fraqueza ou sofrimento. Os tutores precisam entender que algumas mulheres expressam paixão e convicção entremeadas de lágrimas. Antes de sair correndo à primeira lágrima derramada, os verdadeiros tutores devem ter um estoque de lenços de papel, aceitar as emoções tranquilamente, e continuar apoiando as mulheres promissoras.

E os homens não podem perder de vista a forma como seus próprios hábitos evoluídos interfaceiam os efeitos poderosos da educação no gênero, para alimentar o comportamento masculino que pode prejudicar o relacionamento de tutoria entre gêneros no ambiente de trabalho. Observe a tendência, alimentada pela testosterona, de competir profissionalmente — algumas vezes ferozmente — no local de trabalho. É comum um colega desafiar outro em ambientes dominantemente masculinos. Alguns estudos mostram que os homens costumam agir assim, mesmo quando não há nenhuma vantagem em jogo. Um estudo realizado por Muriel Niederle e Lise Vesterlund mostrou que mesmo quando os homens podiam receber mais por um serviço realizado, eles preferiam competir num torneio onde o vencedor leva tudo. As mulheres, por sua vez, mostraram um comportamento oposto, evitando competir, mesmo quando tinham grande probabilidade de vencer. Essas diferenças competitivas são fortemente associadas a diferenças socioculturais relacionadas à educação de gênero em pesquisa de comparação cultural e em pesquisas sobre efeitos de escolaridade de gênero único/misto. Independentemente de sua vontade de vencer, a competição é quase sempre contraproducente num relacionamento de tutoria saudável, que deve se basear na divisão de poder, aprendizado mútuo, igualitário e cooperativo e integração da vida pessoal e profissional.

A confiança é outro exemplo. Os homens geralmente são estimulados pela própria sociedade a se supervalorizar e se gabar de seu potencial e de suas realizações e do sucesso decorrente. Já com as mulheres é o contrário. Excelentes tutores de mulheres afirmam continuamente que cabe a elas (principalmente em organizações dominantemente masculinas) — e as aconselha —, a assumir totalmente suas competências e suas contribuições para os projetos da equipe.

No entanto, sempre que discutimos a tutoria homem-mulher, voltamos ao elefante branco na sala. Como encarar a evolução dessa intrincada atração que, às vezes, surge entre homens e mulheres? Biólogos e psicólogos evolucionistas lançam mão de todos os tipos de teorias para explicar como homens e mulheres são atraídos sexualmente e o resultado é uma leitura muito interessante. Mas para ir direto ao ponto, a pesquisa sugere a probabilidade de homens serem atraídos por suas amigas é maior que as amigas serem atraídas por eles. Além disso, outra pesquisa revelou que quando você é atraído por alguém, há uma probabilidade maior de você erradamente imaginar que o sentimento é mútuo. Por isso, principalmente devido à interpretação equivocada das pistas de atração, os homens podem superestimar a mutualidade de qualquer atração que esteja em curso. É hora de encarar os fatos, senhores: se você se sente atraído por uma mulher no trabalho, há uma grande chance de que ela não esteja ligada em você.

Tutores heterossexuais eficientes devem ser grandes admiradores de Darwin. Homens das cavernas ligados entendem as pistas da atração. Eles não se envergonham de, ocasionalmente, considerar uma mulher tutorada atraente, embora assumam total responsabilidade por empregar seu córtex frontal. O lobo frontal evoluído do cérebro masculino — quando o homem decide usá-lo — permite julgamento, prudência, autorregulação e controle de impulso. Autoconhecimento significa não fingir ser invulnerável a sentimentos de atração, mas também não ceder a eles e, dessa forma, colocar o relacionamento da tutoria, a tutorada e a si próprios em risco.

Uma compreensão saudável da atração e do relacionamento entre gêneros é vital para promover um local de trabalho inclusivo, onde o principal é a gestão do talento. Tutores autoconscientes e atentos, que deliberada e conscientemente tutoram homens e mulheres, descobrirão que suas tutoradas valorizam mais promoções e salários mais altos, mais satisfação no trabalho e comprometimento com a organização, e finalmente, mais autoestima e projeção na carreira.

Da mesma forma, suas organizações estão mais bem posicionadas para ser bem- sucedidas no futuro, são mais criativas, e descobrem que seus lucros são maiores que os da concorrência. Se isso não for suficiente para convencê-lo, uma tutoria produtiva entre gêneros ajuda os homens a serem líderes mais eficientes e rainmakers valorizados em seu setor. E finalmente, mais autoconhecimento e uma faixa mais ampla de habilidades interpessoais podem torná-los melhores maridos, pais e homens — e que homem não aspira a isso?
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David G. Smith é Ph.D., capitão da Marinha dos Estados Unidos, na ativa, e professor associado de sociologia do departamento de Liderança, Ética e Direito da Academia Naval dos Estados Unidos. É coautor de Athena Rising: How and Why Men Should Mentor Women. Sua pesquisa aborda questões de gênero, trabalho e família, incluindo famílias com carreiras duplas, famílias de militares, mulheres de militares e retenção de mulheres.
W. Brad Johnson é Ph.D., professor de psicologia no departamento de Liderança, Ética e Direito da Academia Naval dos Estados Unidos e professor associado da Johns Hopkins University. Ele é coautor de Athena Rising: How and Why Men Should Mentor Women, além de outros livros sobre tutoria.

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