Permeia a modernidade uma onda “retrô” influenciando jovens e adultos, seja no formato dos óculos que vemos desfilando por aí, no estilo das roupas “old fashioned”, nos objetos de decoração que lembram filmes do passado ou na linguagem visual de campanhas publicitárias imitando décadas longínquas. O fato é que o resgate do passado agracia o nosso lúdico, e curiosamente muitos jovens parecem ter uma habilidade natural para se identificar com isso.

Antigos conceitos de tempos em tempos renascem, e aplicá-los na prática atualmente, não se trata apenas de modismo. Existe um potencial de se resgatar informações, que independente do tempo, são de extrema importância para nós. Não falo agora sobre óculos, roupas ou acessórios, mas sim de conceitos essenciais, reflexões e conhecimentos que já tiveram espaço e significado; mas que se perderam com a chegada de um tsunami de informações rasas que arrasta a formação do caráter ético na nossa sociedade.

Temos pouco tempo para a virtude e toda a vida para o conhecimento, pois o vício e a mentira logo se instalam no caráter do jovem, sendo tarefa quase sempre fadada ao fracasso tentar extirpá-los mais tarde”. Sócrates disse isso no século V a.C. e concordo plenamente com seu pensamento. Será que a educação atual não está muito focada em adquirir conhecimento deixando de se preocupar com a formação de seres humanos éticos e criadores? Não nos faltam exemplos para afirmar que homens cheios de conhecimento, porém vazios de ética são um verdadeiro perigo para sociedade.

Educar os instintos, exercitar as virtudes, controlar vícios, exercer a meritocracia, manifestar a ética, descobrir talentos e entregar o melhor de si para a sociedade cumpre bem o papel que imagino ser o principal objetivo da educação. E não paramos para pensar que esses conceitos já foram as reais bases da Paidéia – o sistema de educação dos gregos do período helênico.

Mas o que esse sistema tem de tão especial?

A educação helênica toca valores eternos, que independentemente de como a sociedade caminhe, serão sempre saudáveis balizadores da essência humana. Na minha opinião, é esse “retrô” que deve emergir, que nada tem a ver com retrocesso mas sim com um resgate necessário.

É surpreendente como há diversas maneiras de se fazer esse resgate, eu e Luah por exemplo, vivenciamos na pele exemplos de como o modelo da Paidéia pode ser aplicado na prática. Nossa primeira experiência, porém intensa, foi participar de simpósios semanais por mais de 5 anos. Esses simpósios aconteciam na casa de um grande mestre e amigo o Prof. Dr. Viktor D. Salis, um dos maiores conhecedores e estudiosos da Paidéia nos dias de hoje. Viktor é de Atenas, Grécia, lê o grego arcaico, dispensa traduções e adaptações para o português. Isso fez com que o conhecimento mais puro de todos os registros daquela época chegasse até nós de um jeito super eficaz. Do grego derivam as palavras: pedagogia, pedagogo, ginásio e muitas outras que usamos na educação até os dias de hoje, porém seus sentidos originais não são exatamente o que pensamos ser.

Um dos pilares da Paidéia é a descoberta e o desenvolvimento dos talentos. Eles acreditavam que a realização pessoal se dava quando cada cidadão assumia a coragem de seguir seus dons e habilidades. Assim poderiam encontrar seu propósito de vida, ter mais motivação, entusiasmo e saúde. Essa era a maneira de contribuir com toda a sociedade entregando o que sabiam fazer de melhor. Como consequência, nessa época se atingiu um dos maiores ápices de desenvolvimento humano da história e foram praticadas noções apuradas de civilidade.

Debaixo das árvores os mestres ensinavam jovens através dos mitos (naquela época mito não era sinônimo de mentira, pois para eles o mito era uma linguagem sagrada). Não só os mitos eram contados como histórias exemplares, como também os jovens deveriam recriá-los, encenando papéis distintos de Deuses, Deusas e figuras mitológicas diversas. Isso servia para que soubessem se colocar no lugar do outro e aprendessem como lidar com situações delicadas sem o uso de força ou violência, mas sim através do uso da mente e até mesmo da intuição.

Quando os mestres ensinavam o mito da Hidra de Lerna por exemplo, seu papel principal era educar o controle dos vícios. Nesse mito, Hércules enfrentava um terrível monstro de várias cabeças, sendo uma delas imortal. Só o venceu quando enterrou a última cabeça já que não podia matá-la por mais força e brutalidade que usasse. Para que a mensagem fosse absorvida realmente os jovens tinham que ir para um local específico enterrar pequenos objetos que representassem seus vícios. Para garantir que eles não voltariam a incomodar, os jovens deveriam sempre voltar para vigiá-los. Ou seja, a mensagem era que os vícios não podem ser mortos, devemos vigiá-los e controlá-los para que nossas virtudes possam se manifestar.

Contar mitos, na modernidade foi substituído por “storytelling”, que nada mais é do que passar uma mensagem pretendida através de uma história. Essa ferramenta educacional é mais utilizada nos primeiros anos de estudo mas é tão válida que muitas empresas se apropriam dessa técnica para alinhar diretrizes com seus colaboradores.

 

Outra maneira que nos propusemos a vivenciar ainda mais intensamente o conhecimento da Paidéia na prática foi quando criamos o Projeto Walk and Talk (www.walkandtalk.com.br). Em fevereiro de 2011, saímos do Brasil para realizar uma pesquisa ao redor do mundo com as seguintes premissas: Será que pessoas que desenvolvem seus talentos são realmente mais motivadas que as demais? Essa preocupação estava presente na atualidade? Se sim, como isso acontecia? Falamos com gente de variadas raças, credos, culturas e cores numa viagem que durou mais de dois anos e visitou 28 países nos cinco continentes.

Para descobrir se as premissas que tanto nos inspiraram aconteciam pelo mundo hoje em dia ou não, elegemos a pergunta: O que te motiva? Ela foi o coração do nosso projeto e também o ponto de ignição para surpreendentes conversas que tivemos com todos que cruzaram nosso caminho. Desde senhoras guatemaltecas a empresários norte americanos, de monges budistas no sudeste da Ásia a pessoas no deserto da Jordânia, em pequenas vilas na Europa ou em cidades fervilhantes como Marrakesh, no norte da África. Tivemos contato com culturas absolutamente diferentes, mas em resumo podemos dizer que pessoas que encontraram seus talentos e habilidades e os desenvolveram chegaram mais perto do encontro de seus propósitos.

Vivemos na pele também o desenvolvimento dos nossos próprios talentos durante a viagem pois tivemos que executar muitas funções. Isso nos deu imenso prazer e hoje temos a sensação de deve
r
cumprido. O fato de poder compartilhar essa rica experiência e resgatar o sentido da Paidéia é o que nos motiva. Aplicá-la é um desafio super estimulante e como a criatividade humana não tem limites, basta se agarrar à tríade helênica do “nobre, bom e belo” e partir em busca de novas maneiras de pensar e agir com o objetivo de formar seres humanos éticos e criadores. É essa a onda “retrô” que a gente quer surfar!

 

Por Danilo España

 

Idealizadores do projeto Walk and Talk – A volta ao mundo em busca da motivação, os especialistas no assunto Luah Galvão, atriz e apresentadora e Danilo España, fotógrafo, viajaram por mais de 2 anos – visitaram 28 países nos 5 continentes – para entender o que move, motiva e inspira pessoas das mais variadas raças, credos, culturas e cores. Antes dessa jornada, já estudavam o tema Motivação e agora que estão de volta ao Brasil compartilham suas descobertas através de textos  para esse e outros veículos de relevância, assim como em palestras e workshops por todo o Brasil. Descubra mais sobre o projeto: www.walkandtalk.com.br

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