O estudo: a professora do Colorado College Kristi Erdal e a estudante de psicologia Christina Draganich enganaram sujeitos de pesquisa para que acreditassem que a qualidade de seu sono da noite anterior poderia ser determinada medindo suas ondas cerebrais. Aqueles que foram selecionados aleatoriamente para receber a informação de que haviam tido uma porcentagem de sono REM abaixo da média tiveram um desempenho significativamente inferior em um teste auditivo de matemática, independentemente de como haviam efetivamente dormido — refletindo os efeitos de uma privação real de sono.

O desafio: será que nossas percepções sobre o sono importam tanto quanto efetivamente dormimos? Professora Erdal, defenda seu estudo.

 

Erdal:  A maioria de nós sabe que a falta de sono causa uma série de problemas: diminui sua concentração, retarda seu tempo de reação, faz você se lembrar menos, prejudica sua capacidade de raciocínio. O que nosso estudo mostra é que se uma pessoa teve um sono de qualidade média ou alta, mas é levada a acreditar que foi de baixa qualidade, ela pode sentir os mesmos efeitos negativos. Experimentos usando álcool falso tiveram resultados semelhantes: quando as pessoas pensam que estão bebendo algo forte, logo começam a se comportar como se estivessem bêbadas.

HBR: E o contrário? Será que pensar que tive uma boa noite de sono me ajuda a ter um desempenho superior?

Estudos sobre o sono real mostram que o desempenho das pessoas que têm uma boa noite de descanso está dentro do padrão adulto, não acima. E, em nosso primeiro teste, os participantes informados de que tiveram um sono REM de alta qualidade antes de fazer os exercícios de matemática tiveram um desempenho dentro dos parâmetros normais. Mas fizemos uma descoberta interessante em nossa segunda experiência, que incluiu outros tipos de exercício: os participantes levados a acreditar que haviam tido um sono de alta qualidade superaram significativamente tanto os grupos de controle como o padrão adulto em um teste de fluência verbal. Isso pode ser só coincidência — precisará ser replicado —, mas poderia ser um sinal de que percepções positivas sobre o sono podem levar a um melhor desempenho em algumas áreas.

O que você está descrevendo é como um efeito placebo.

Sim. Em medicina, placebo é um medicamento inativo que tem o mesmo efeito de um ativo. Muitos estudos recentes têm mostrado que placebos psicológicos — que fazem as pessoas mudar sua atitude — podem afetar a fisiologia da mesma forma. Há um, por exemplo, que mostrou que camareiras de hotel perderam mais peso depois de saber que suas funções eram equivalentes a vários exercícios. Outro estudo descobriu que bebedores de milk-shake produziram mais peptídeos intestinais — que regulam o apetite — quando lhes disseram que estavam consumindo indulgentes 620 calorias, em vez de sensatas 140 calorias. (O total real era de 380 calorias.) Não estamos falando aqui de mudanças conscientes de comportamento — a maioria das pessoas nem sabe que tem peptídeos intestinais. Trata-se de mudanças inconscientes motivadas por placebos não tradicionais. Nós estendemos a ideia para a área do sono.

Quais são outros exemplos de placebos não tradicionais?

Superstições. As pessoas fazem uma correlação ilusória entre duas coisas, criando, em essência, seu próprio placebo. E muitas vezes — principalmente com rotinas antes de jogos ou tacadas de golfe, mas também com superstições mais aleatórias, como uma bola ou um boné da sorte — ele pode melhorar o desempenho.

Como me convenço de que estou bem descansado? Ou como faço meus rivais pensar que ficaram se remexendo a noite toda na cama sem conseguir dormir?

Uma fonte com autoridade no assunto ajuda. Nada menos que 88% dos participantes do nosso estudo afirmaram ter acreditado completamente na história que lhes contamos sobre a nova técnica de medição da qualidade do sono, e até os que no início estavam céticos nos disseram que, no final, já não duvidavam da informação que demos. Ela prevaleceu sobre suas opiniões preexistentes de como tinham dormido na noite anterior — algo que lhes havíamos perguntado antes de divulgar os “resultados” da falsa medição. Não houve correlação entre a qualidade de sono que eles relataram e o desempenho. Assim, sabemos que um placebo de sono pode funcionar quando é entregue por uma fonte abalizada usando equipamentos chamativos num ambiente de laboratório. Se seu marido se vira para você de manhã na cama e diz que você dormiu como uma pedra, é improvável que isso tenha o mesmo efeito.

Mas um aplicativo de monitoramento de sono poderia ter. Devo recomendar que meu colega de trabalho pare de usar um se o aplicativo vive dizendo que ele não está descansando o suficiente?

Não sei o que esses aplicativos medem, nem seu grau de precisão, por isso não posso dizer se são válidos. Mas imagino que as pessoas que os compram já tenham alguns sentimentos negativos sobre seu sono — e, se você está dormindo mal, não vai querer se lembrar disso. Ao mesmo tempo, alguns estudos sobre insones indicam que eles são, na verdade, maus relatores de seu próprio sono. Eles têm um descanso de melhor qualidade do que pensam. Assim, se o aplicativo está corrigindo essa tendência negativa, pode ser uma coisa boa.

Ou talvez os desenvolvedores devessem simplesmente programar os aplicativos para dizer a todas as pessoas que elas ficaram a noite inteira em REM.

O mundo poderia ser um lugar melhor, mas, obviamente, os aplicativos têm de fazer o que eles dizem que farão.

Você dorme bem?

Sim, é uma dádiva. Na verdade, foi minha aluna e parceira de pesquisa Christina que escolheu estas experiências para seu trabalho final de graduação, porque percebeu o quanto seus colegas eram obcecados com o sono. Estudantes universitários falam constantemente se dormiram muito ou pouco, é quase uma questão de honra ficar acordado a noite toda para estudar para uma prova ou terminar um trabalho. E Christina vem de uma família que ressalta a importância de dormir nove horas por noite. Agora ela trabalha num hospital fazendo plantões.

Que conselho você daria para organizações como hospitais, escritórios de advocacia, bancos de investimento e startups de alta tecnologia, que parecem esperar que seus funcionários juniores varem a noite trabalhando ou durmam no escritório?

Todo mundo que precisa ouvir novas informações, estar atento a detalhes, raciocinar rápido e dar orientações claras precisa de repouso adequado. E nosso estudo é uma evidência de que as percepções também são importantes. Mesmo que seus funcionários entrem em sono REM profundo numa maca ou num sofá, o simples fato de dormir menos de oito horas ou não estar em sua pr
ópria cama pode fazê-los pensar que estão cansados e ter um desempenho inferior. Nenhuma dessas empresas me perguntou, mas, se perguntassem, eu lhes diria que a privação do sono — real ou percebida — é uma má ideia. 

Kristi Erdal é professora de psicologia do Colorado College.

Share with your friends









Submit