Voltar para a empresa antiga faz sentido? Depende.

Liana botou na internet as fotos tiradas na recente viagem a Las Vegas para uma feira de eletroeletrônicos, a Consumer Electronics Show. Uma delas era a de um carro movido a energia solar. Outra, de uma TV em 3D. Outra, de um e-reader. A seguinte? Mais um e-reader. Outra mais? Um e-reader. Ao clicar em cada foto, sentia o doce sabor da vingança. Tinha dito que isso ia acontecer. O aparelho que criara devia estar exposto ali.
Cinco anos antes, ainda na Orchis, tinha trabalhado 80 horas por semana no comando da equipe de desenvolvimento de tecnologia de leitores digitais da empresa. Mas o resultado de todo aquele trabalho — o leitor Vanda — não tinha chegado às lojas. Num ato de miopia, a diretoria tinha cancelado o projeto logo após ver o primeiro protótipo. Pouco depois, Liana tinha deixado a empresa — mas agora sentia saudade do trabalho que fizera ali.
Voltou a pensar no que a levara a partir. O problema não fora só que a alta diretoria tinha deixado de acreditar no produto. Tinha, também, julgado mal o consumidor. Partindo da tese de que ninguém ia querer ler Proust — ou P.D. James, que fosse — em algo parecido à velha “lousa mágica”, a administração tinha dado ao projeto uma verba que basicamente garantia seu fracasso. Se o diretor de desenvolvimento de produtos fosse outro, ou com um pouco mais de tempo e dinheiro, o desfecho podia ter sido totalmente diferente, pensou Liana.
De lá para cá, sua vida mudara — e muito. Tinha se casado com Susan no balneário americano de Martha’s Vineyard, mudado para a Califórnia e adotado um casal de gêmeos. Além disso, Liana tinha criado uma estação de rádio na internet, a Musiophile. Embora ainda não estivesse dando aquele lucro, a estação era muito popular.
 

Quando a poeira começou a baixar, Liana foi sentindo uma inquietação. A Musiophile estava, basicamente, à espera de um comprador — e qualquer sonho de independência financeira tinha há muito desaparecido (afinal, Liana não era sócia do negócio — era a diretora de criação, e só). Tinhas novas ideias, e estava pronta para começar a trabalhar nelas. Mas desanimava só de pensar em lançar outra empresa naquele momento da vida.

A oportunidade de voltar
— Liana? É o Tom Anthony. Há quanto tempo, hein?!
Que louco! Receber uma ligação do presidente da Orchis justo no momento em que pensava na empresa?!
— Oi, Tom! — respondeu Liana, tentando soar alegre em vez de aturdida. — E aí, tudo bem?
— Olha, vou direto ao ponto — disse ele. — Tenho acompanhado a Musiophile, e acho que erramos ao aceitar sua saída. Queria que você considerasse voltar à Orchis, como diretora de desenvolvimento de produtos. Se comprarmos a passagem, você aceita vir aqui para uma reunião?
— Ah, claro, mas o problema é que tenho dois compromissos — disse Liana, pensando nos gêmeos, Ethan e Colin. — E não posso cancelar. E se você me falasse mais sobre o cargo antes? Suponho que o Gary saiu?
— O Gary foi atrás de outras oportunidades — disse Tom. — Aquela comoção toda em torno de e-readers na feira de eletrônicos neste ano fez a gente perceber que suspender o projeto Vanda foi prematuro. Esse bonde já perdemos, mas queríamos que você voltasse para nos ajudar a lançar a próxima leva de aparelhos. Quanto ao Gary? Ele era ótimo para dar ideias. Mas, na hora de colocar algo em prática ou vender a ideia para o comitê executivo, a história era outra…
Isso é que é ser diplomático, pensou Liana.
— Você mostrou muita tarimba na Musiophile — disse Tom. — Por isso achamos que seria ótima para o posto. E temos uma diretora de marketing nova, que poderia fazer uma verdadeira diferença no modo como lançamos esse produto no mercado.
— Tom, fico muito lisonjeada de vocês terem pensado em mim depois de todo esse tempo — respondeu Liana, torcendo para soar sincera. Os dois não tinham trabalhado muito juntos durante seu tempo na Orchis. Embora sua intenção fosse recusar a oferta, quando se deu conta já estava dizendo que sim, que iria dar um “pulo” na empresa para conversarem.
Quando Liana lhe contou o ocorrido, Susan ficou com um pé atrás. — Estou tentando raciocinar um pouco — disse Susan. — Posso trabalhar em qualquer lugar, pois sempre há um hospital contratando enfermeiros, mas a gente tem uma vida aqui. Sei que você adorava o projeto Vanda, mas quer mesmo voltar para a Orchis? Lembra dos seus horários? Eram absurdos. Agora, as coisas mudaram.
Susan voltou os olhos para Ethan e Colin, que brincavam na banheira. — Na Musiophile, pelo menos você tem a flexibilidade de trabalhar de casa quando eu estou dando plantão. Mas isso é porque você dita as regras. E se a Orchis esperar de novo que você dê 200%?
Liana passara a tarde inteira remoendo esses mesmos poréns — e outros mais. Estaria chefiando a equipe de Gary, um grupo que tinha tanto colegas da época em que trabalhara na Orchis como gente contratada nos últimos cinco anos, e que só a conhecia pela reputação — a reputação de uma mulher que não tinha tido sucesso no que fazia e jogara a toalha. Será que lhe dariam uma chance? E será que sua experiência numa empresinha nova garantiria o sucesso como diretora de desenvolvimento de produtos numa empresa estabelecida?
Cabeça feita
— Bom, a Chelsea e o Peter ainda trabalham aqui — disse Liana ao celular. Estava no Starbucks. Tinha visto de relance os dois antigos colegas, uma dupla eternamente grudada pelo umbigo, a caminho da terceira entrevista. — Imagino que era muito esperar que eles tivessem ido embora também
Chelsea e Peter eram muito espertos — e as desculpas que tinham dado também. Chelsea sempre tivera uma explicação para o provável insucesso de um produto ou recurso. Peter nunca estava satisfeito com o volume de pesquisa que a equipe fizera. Tinham se dado muito bem com Gary, que chamava os dois de seus advogados do diabo. Liana achava que eram uns puxa-sacos, isso sim.
— Não sei como vou conseguir apoio para alguma coisa com eles na equipe — desabafou. — Mas imagino que vou achar um jeito.
— Quer dizer então que você vai aceitar? — perguntou Susan. — Você definitivamente quer voltar para a empresa?
— Eles vão pagar todas as despesas de mudança e nosso hotel até que a gente encontre uma casa. Quando perguntei sobre a flexibilidade de horários, eles disseram sim sem nem piscar.
— Agora, pode até ser — disse Susan. — Mas quando um projeto estiver a toda…
— Eu sei — interrompeu Liana. Ficou ali, cutucando o protetor de papelão em volta do copo de café. — Você entende que não é pelo dinheiro, certo? É o desafio. Na Musiophile, a gente já resolveu basicamente todo problema interessante que tinha para ser resolvido. Perdeu a graça. Já como diretora de novos produtos na Orchis eu teria um fluxo constante de problemas interessantes para resolver. E recursos para resolvê-los. Além disso, conheci a nova diretora de marketing, é uma mulher impressionante.
— Tudo bem, amor, a gente fala sobre isso quando você voltar.
— Então tá — concordou Liana. — Tenho que encontrar uma última pessoa. Depois disso, vou para o aeroporto.
O outro lado
Gary puxou uma cadeira da mesa ao lado. — Liana! Há quanto tempo!
— Oi Gary, obrigada por vir. Sei que nossa despedida não foi das melhores e que essa situação pode ser constrangedora para você. O Tom não me falou das circunstâncias…
Gary interrompeu: — Fui incentivado a optar por uma aposentadoria precoce. Bem precoce, aliás — disse. — Mas, para dizer a verdade, estava pronto para sair. Fazia um tempão que a Orchis não lançava algo realmente revolucionário, e o Tom achava que a culpa era minha.
Liana fez uma cara não muito convincente de quem entendia. Gary revirou os olhos: — Sei que você me culpa por ter abortado o Vanda — disse ele. Liana ia se defender, mas foi interrompida por um gesto de Gary. — E com razão: não demos tempo suficiente para que o projeto desse certo. Ou dinheiro suficiente, sei lá. Queria liberar mais, mas havia um racha no comitê executivo sobre os méritos do projeto. Até na nossa equipe tinha gente que não acreditava muito na ideia.
Liana pensou em Chelsea e Peter. Tentou manter um semblante neutro.
Gary prosseguiu: — Mesmo assim, até o último momento achei que continuaríamos a tocar o projeto. Digo, era o primeiro protótipo! Todo mundo odeia um primeiro protótipo. É para isso que serve um protótipo! Agora, há uma explicação para a dificuldade da Orchis em lançar algo realmente novo e, conhecendo a empresa, acho que é um problema sistêmico. Você vai ter muita dificuldade para conseguir fazer algo ali dentro. Eles dizem que querem explorar novos caminhos, mas eu nunca fui capaz de fazer eles investirem em algo inusitado.
Mas isso não significa que eu vá enfrentar o mesmo problema, disse Liana aos próprios botões. Sua rodada de entrevistas deixara bem claro que Tom não estava sozinho em sua opinião sobre o que havia de errado com Gary. Até a diretora de marketing, que trabalhara pouco tempo com ele, fizera um punhado de comentários pouco contidos sobre seu negativismo e sua falta de expediente.
Liana mediu muito bem as palavras que soltou a seguir: — Gary, obrigada pela informação, foi muito útil. Mas será que um DNA novo na administração não mudaria as coisas por lá?
Gary bufou: — Olha, vou dar um exemplo. Nosso projeto mais recente, que agora está morto, obviamente, era criar um celular movido a energia solar, um aparelho que nunca precisaria ser carregado. Maravilhoso, certo? Mas tudo o que provamos era proibitivamente caro. Agora, o pessoal de desenvolvimento de produtos deveria ter condições de solucionar um problema desses, não? É muito comum uma tecnologia nova custar fortunas quando é lançada. Mas o comitê executivo declarou que não era viável, que já tínhamos perdido tempo suficiente naquilo, que devíamos seguir em frente. Estava com as mãos atadas.
Mais tarde, no aeroporto, tudo o que Liana ouvira seguiu dando voltas em sua cabeça. Sempre se achara capaz de fazer um trabalho melhor do que Gary, mas talvez fosse porque não estava a par de todos os fatos. Era difícil dizer se as queixas de Gary tinham fundamento na realidade ou se, como ela suspeitava, eram só um mecanismo de defesa frente a uma situação que não conseguira mudar por pura falta de criatividade ou de iniciativa. Seu instinto dizia para agarrar a oportunidade e provar do que era capaz. Mas e se, no final, tudo o que acabasse provando era que tinha cometido um terrível erro de cálculo e desestabilizado a família no processo?
Liana deve voltar ou não para a Orchis?
 
COMENTÁRIO 1
Liana deve buscar outro posto de forma proativa e não aceitar a primeira oferta que aparece.
Claudio Fernández-Aráoz, consultor sênior da Egon Zehnder International
Liana não deve aceitar a oferta. Tirando a questão do equilíbrio entre vida profissional e pessoal, a oportunidade está cheia de sinais de perigo. Sua chance de sucesso é pouca.
Para começar, não está claro que Liana tenha o grau de competência exigido para ser uma boa diretora de desenvolvimento de produtos ali. Sua experiência na Orchis — num nível inferior, chefiando um único projeto — sem dúvida mostra sua capacidade de identificar potencial de mercado. Mas será que mesmo com o apoio da organização (que ela não conseguiu para o Vanda) Liana teria conseguido superar desafios como chegar a um acordo com editoras e lançar o produto final?
Seu sucesso na Musiophile confirma seu talento criativo, mas num cenário totalmente distinto. No posto que a Orchis oferece, sua criatividade seria menos importante do que liderar a equipe. E sua experiência de liderança parece mínima. Sua capacidade de influenciar um público cético é, quando muito, limitada. O que se viu foi isso, pelo menos com o pessoal da Orchis.
Além disso, um salário polpudo e um cargo pomposo (para não dizer o desejo de vingança) são péssimos motivos para alguém aceitar um emprego. O conteúdo de qualquer ocupação deve ser o certo — para que o trabalho em si seja o grande motivador. Liana acha que estaria lidando com um fluxo constante de novos problemas a resolver. Na realidade, no entanto, a maior parte de seu tempo seria dedicada a lidar com os superiores, algo que nem ela nem Gary souberem fazer bem — que dirá desfrutar.
Um trabalho também deve envolver as pessoas certas. Na Orchis, Liana estaria liderando uma equipe questionável e trabalhando para um chefe que não mostrou grande capacidade de gestão. Tom manteve um diretor ineficaz, Gary, tempo demais no cargo e, depois, falou mal dele para Liana — duas péssimas decisões.
Por último, todo novo cargo deve dar à pessoa a oportunidade de adquirir novas credenciais e habilidades. É pouco provável que Liana tenha isso na Orchis, que sistematicamente fracassou ao tentar lançar produtos inovadores.
Liana precisa deixar de ser reativa e virar a “gerente de projeto” desse processo de troca de emprego. Para começar, deve ter claros os próprios valores e prioridades — tanto em relação ao conteúdo do trabalho quanto ao equilíbrio com a vida pessoal. Deve, ainda, ter uma ideia melhor de suas qualidades. E deve buscar mais alternativas, em vez de decidir entre o cargo atual, que já não a motiva, e a oferta feita por Tom. Décadas de pesquisa mostram que a melhor colocação (em termos de satisfação, sucesso, estabilidade e renda) é resultado de uma busca proativa e refletida — e não de um sim à primeira oferta que aparece.
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Claudio Fernández-Aráoz é consultor sênior da Egon Zehnder International, consultoria especializada no recrutamento de executivos. É autor de Grandes Decisões sobre Pessoas (DVS, 2009).
 
COMENTÁRIO 2
Na start-up, adquiriu ferramentas que podem ser aplicadas num ambiente que já conhece.
Rosario Vaina, diretor da área de serviços financeiros da consultoria AlixPartners
Deixei o mundo da consultoria para estudar cinema, com a ideia de nunca mais voltar. Mas a vida dá suas voltas e fui novamente atraído à área por uma oportunidade na minha antiga empresa. Como alguém voltando a um lugar que conhece, entrei com algumas vantagens na situação. Essas mesmas vantagens — uma rede estabelecida, conhecimento da casa e uma nova perspectiva — deixam Liana bem posicionada para uma segunda rodada de sucesso na Orchis.
Montar uma rede leva tempo. Liana já tem a sua, o que é uma grande vantagem. Devia estar pronta para usar seus velhos contatos para reunir informações, promover sua pauta e fazer novos contatos. Liana teme que sua reputação possa acabar lhe prejudicando, mas o fato é que o presidente da Orchis a procurou devido a essa reputação — por ser conhecida como alguém que defendeu uma ideia que, em retrospecto, está sendo reconhecida como excelente. Graças a essa forte reputação, pode ser mais fácil obter novos aliados (como a diretora de marketing).
Outra coisa a favor de Liana é conhecer o terreno. Embora muita coisa tenha mudado desde que saiu da Orchis, ela entende a cultura e a política ali dentro. Viveu em primeira mão os problemas e precisa pensar estrategicamente sobre como evitá-los. Por exemplo, já que sabe que Chelsea e Peter gostam de manifestar dúvidas sobre novos produtos na frente do comitê executivo, Liana pode pensar em maneiras de obter o apoio dos dois antes de apresentar um projeto. Alguém novo teria de descobrir isso do jeito mais duro.
Por último, Liana chega com um novo ponto de vista, pois passou um tempo precioso fora dali. A ideia, nessa segunda encarnação na Orchis, não é socializar com velhos amigos e fiar-se a hábitos ultrapassados. Liana está sendo contratada como agente de mudança — para fazer a conservadora empresa lançar produtos de ponta. Sua experiência numa start-up lhe dá ferramentas que podem ser aplicadas num ambiente que ela entende. Liana deve trazer novas ideias e novas formas de agir — temperando isso tudo com o conhecimento daquilo que vai ou não funcionar, o que será fácil ou difícil de lançar. Ela sabe, por exemplo, que a empresa é focada nos números, mas números nem sempre contam a história toda. Ao adotar uma estratégia mais empreendedora e mais aberta a riscos, deve começar com o básico, que todo mundo já domina, e ser tão rigorosa com argumentos não financeiros como seria com números.
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Rosario Vaina (rvaina@alixpartners.com) é um dos diretores da área de serviços financeiros da consultoria internacional AlixPartners.
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tyle=”font-size: 9pt;”>Sarah Green

é editora assistente do Grupo Harvard Business Review.

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