No imaginário popular, a genialidade é um traço inato, não adquirido. Já a ciência mostra que a verdadeira expertise é fruto, sobretudo, de anos de prática intensa e orientação dedicada. E não é uma prática qualquer: para atingir níveis estelares de desempenho, o indivíduo precisa superar reiteradamente sua capacidade presente e sair de sua zona de conforto. Essa disciplina é crucial para a conquista da expertise em todo e qualquer campo, inclusive o da gestão e o da liderança.

As conclusões foram tiradas por Ericsson, professor de psicologia da Florida State University; Prietula, professor da Goizueta Business School; e Cokely, pesquisador do Max Planck Institute for Human Development. Juntos, os três examinaram dados sobre o comportamento de craques em diversas áreas – dados reunidos por mais de cem cientistas. Reiteradamente, o que distinguia experts na medicina, no xadrez, na literatura, no esporte, na música e em outros campos era o hábito da prática deliberada – a busca incessante do domínio de algo até ali fora de seu alcance. Um expert analisa sem parar o que fez de errado, ajusta sua técnica e trabalha arduamente para corrigir os próprios erros.

Até traços como o carisma podem ser cultivados com essa técnica. Os autores trabalharam com uma escola de teatro para criar uma série de exercícios de atuação para gestores – o que melhorou, e muito, a capacidade dos executivos de conquistar e persuadir. Graças à prática deliberada, um líder pode acentuar seu poder de conquistar funcionários, colegas ou o conselho de administração.

A jornada rumo ao desempenho estelar não é para quem desiste fácil, nem para o impaciente. É algo que exige no mínimo uma década e requer a orientação de um mestre capaz de dar conselhos objetivos, dolorosos até. Nesse caminho, o candidato a expert precisa cultivar ainda um “mestre interno” que o ajude, em última instância, a guiar o próprio progresso.

 

Novos estudos revelam que o desempenho estelar é fruto de anos de prática deliberada e orientação, não de talento ou capacidade inatos.

Trinta anos atrás, dois educadores húngaros, László e Klara Polgár, decidiram pôr à prova a tese popular de que a mulher não se destaca em campos que exigem raciocínio espacial, como o xadrez. Sua idéia era sublinhar o poder da educação. O casal educou, em casa mesmo, as três filhas, e como parte do currículo as garotinhas começaram a jogar xadrez com os pais logo cedo. O treinamento sistemático e a prática diária deram frutos. Em 2000, as três estavam entre as dez maiores enxadristas do mundo. A caçula, Judit, foi consagrada “grande mestre” aos 15 anos de idade, batendo por um mês o recorde da pessoa mais jovem a conquistar o título – até ali, o americano Bobby Fischer. Hoje, Judit é uma das maiores enxadristas do mundo e já derrotou quase todos os melhores jogadores do sexo masculino.

Quando o assunto é o domínio de uma certa área, não são só premissas sobre diferenças entre os sexos que começam a ruir. Ainda em 1985, Benjamin Bloom, professor de pedagogia da University of Chicago, lançou um livro seminal – Developing Talent in Young People – que examinava os fatores críticos por trás do talento. Bloom analisou a fundo a infância de 120 indivíduos que tinham vencido competições ou conquistado prêmios internacionais em campos distintos como música, belas artes, matemática, neurologia. Para grande surpresa, Bloom não achou nada, na infância daquelas pessoas, que pudesse ter apontado para tal sucesso. Estudos posteriores indicando correlação zero entre QI e o desempenho de craques em atividades como xadrez, música, esporte e medicina vieram corroborar suas descobertas. As únicas diferenças inatas de fato relevantes – e basicamente no esporte – são a altura e o peso da pessoa.

O que, então, está ligado ao sucesso? Da obra de Bloom, o que fica patente é o seguinte: todos os astros que o pedagogo havia examinado tinham praticado muito, estudado com mestres dedicadíssimos e contado com o apoio incondicional da família ao longo de toda a fase de desenvolvimento. Estudos posteriores, fundados na investigação pioneira de Bloom, revelaram que a quantidade e a qualidade da prática são fundamentais para o grau de proficiência atingido. De modo reiterado e irrefutável, a evidência mostra que a pessoa vira – e não nasce – craque. São conclusões tiradas a partir de estudos rigorosos do desempenho excepcional com métodos científicos – passíveis de verificação e reprodução. A maioria desses estudos foi incluída no The Cambridge Handbook of Expertise and Expert Performance, lançado no ano passado pela Cambridge University Press e editado por K. Anders Ericsson, um dos autores deste artigo. Com mais de 900 páginas, o manual traz contribuições de mais de cem grandes cientistas que estudaram o tema da tarimba e do desempenho estelar em uma série de arenas: medicina, teatro, xadrez, literatura, computação, balé, música, aviação, combate a incêndios e muitas outras.

A jornada rumo ao desempenho estelar não é para quem desiste fácil, nem para o impaciente. Para atingir verdadeira tarimba é preciso esforço, sacrifício e uma autocrítica sincera, não raro dilacerante. Não há atalhos. Será preciso no m&iacute
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imo dez anos para chegar a tal domínio – com a sábia dedicação desse tempo à prática “deliberada” – a prática concentrada naquilo que supera o nível presente de proficiência e conforto da pessoa. Será preciso um mentor com conhecimento não só para orientá-la nessa prática deliberada, como também para ajudá-la a aprender a se orientar sozinha. Acima de tudo, quem deseja atingir um desempenho estelar como gestor e como líder terá de esquecer todo o folclore sobre a genialidade – folclore que faz muita gente achar que é impossível cultivar a tarimba com um método científico. Estamos aqui para ajudar o leitor a derrubar esses mitos. Nossa história começa com um certo vinho.

O que é um expert?

Em 1976 foi realizado em Paris um experimento fascinante, o “Julgamento de Paris”. Uma loja de vinhos da cidade, de propriedade de um inglês, convidou nove enólogos franceses para uma degustação às cegas de vinhos da França e da Califórnia – dez brancos, dez tintos. O resultado foi um choque: os vinhos da Califórnia receberam as maiores notas do painel. Mais surpreendente ainda, durante a degustação os especialistas nem sempre sabiam dizer se o vinho era americano ou francês.

Naquele dia, duas verdades vieram abaixo. A primeira era a superioridade, até ali jamais questionada, do vinho francês em relação ao americano. Mas o desafio à segunda – a tese de que os juízes realmente tinham um conhecimento superior da bebida – foi o mais interessante e revolucionário. A degustação sugeriu que os supostos especialistas, quando submetidos a um teste às cegas, não tinham maior capacidade de distinguir corretamente um vinho do que um amador, fato posteriormente confirmado por nossos testes de laboratório.

Estudos recentes apontaram várias outras arenas nas quais não há evidência científica de que uma suposta tarimba leve a um desempenho superior. Um deles revelou que nada garantia que psicoterapeutas com formação avançada e décadas de experiência se saíssem melhor no tratamento de pacientes aleatoriamente distribuídos do que terapeutas com apenas três meses de prática. Há, até, exemplos em que a tarimba parece diminuir com a experiência. Quanto mais tempo um médico estiver afastado da universidade, por exemplo, menor sua capacidade de identificar problemas incomuns no pulmão e no coração. Já que são males raramente encontrados, o médico rapidamente esquece os sintomas característicos e tem dificuldade em dar o diagnóstico. O desempenho só melhora quando o profissional passa por uma reciclagem.

Como saber, então, se estamos lidando com um verdadeiro expert? A genuína expertise precisa passar por três testes. Primeiro, quem a possui deve ter desempenho reiteradamente superior ao dos pares. Segundo, tal tarimba deve produzir resultados concretos. Um cirurgião que opera o cérebro, por exemplo, deve ser não só habilidoso com o bisturi, mas também deixar o paciente melhor com a intervenção. Um enxadrista deve obter vitórias em campeonatos. Por último, a genuína tarimba pode ser reproduzida e aferida em laboratório. É como disse o cientista britânico William Thomson (lorde Kelvin): “Sem medir, não há como melhorar”.

Em certas arenas, como a esportiva, é fácil medir a habilidade. Provas são padronizadas para que todos possam competir em um ambiente similar. A linha de largada e chegada é igual para todos – para que todos saibam quem chegou primeiro. Essa uniformização permite que indivíduos – e empresas também, sem dúvida – sejam comparados ao longo do tempo. Nos primórdios da Wal-Mart, Sam Walton organizava competições entre gerentes para identificar aqueles cujas lojas tinham maior rentabilidade. Cada filial da loja de departamentos americana Nordstrom monta um ranking dos vendedores com base no total vendido por hora para cada período de remuneração.

Ainda assim, muitas vezes é difícil medir o desempenho de um ás – como no caso de projetos que levam meses ou anos para serem concluídos e recebem a contribuição de dezenas de pessoas. Uma liderança superior é igualmente difícil de avaliar. A maioria dos desafios de liderança é de alta complexidade e peculiar a uma dada empresa, o que torna difícil a comparação com outras empresas e outras situações. Naturalmente, isso não significa que a ciência deva desistir de tentar medir o desempenho. Uma metodologia por nós empregada para superar essa dificuldade é tentar reproduzir em laboratório uma situação representativa. Colocamos enfermeiros de pronto-socorro, por exemplo, em cenários que simulam uma situação de vida ou morte. Em seguida, comparamos a reação dos profissionais no laboratório a resultados obtidos na vida real. Constatamos que o desempenho em simulações na medicina, no xadrez e no esporte tem íntima correlação com medidas objetivas de desempenho de experts, como número de vitórias de um enxadrista, por exemplo.

É possível criar métodos para testar a habilidade até em atividades criativas como a arte e a redação. Pesquisadores examinaram diferenças no campo das artes visuais ao orientar artistas a desenhar uma série de objetos. Sem identificar os autores dos desenhos, o material foi avaliado por especialistas em arte – cuja classificação sobre a proficiência dos artistas coincidiu, sobretudo no tocante a aspectos técnicos do desenho. Outros estudos formularam tarefas objetivas para medir a habilidade perceptual de artistas sem a ajuda de avaliadores.

 

P

rática deliberada

Para quem nunca chegou a um nível nacional ou internacional em uma competição, a impressão pode ser que a excelência é o simples resultado de praticar todo dia por anos, décadas até. Viver em uma caverna, porém, não faz de ninguém um geólogo. Nem toda prática leva à perfeição. É preciso um tipo específico de prática – a prática deliberada – para cultivar a expertise. A maioria das pessoas, ao praticar, se concentra naquilo que já sabe. A prática deliberada é diferente – exige do indivíduo empenho considerável, específico e sustentado para fazer algo que não faz bem, ou sequer sabe fazer. Estudos em uma série de arenas mostram que o indivíduo só se torna o expert que deseja ser ao tentar dominar aquilo que não domina.

Para ilustrar essa tese, digamos que o leitor tenha decidido aprender a jogar golfe. No início, sua atenção é voltada a tentar entender tacadas básicas e a evitar erros crassos (como lançar a bola na direção de outro jogador). O leitor pratica em um campo, treina tacadas em um driving range e disputa partidas, em geral com gente também iniciante. Em um tempo incrivelmente curto (50 horas, talvez) adquire um controle maior, começa a jogar melhor. Desse ponto em diante, vai se aprimorando – melhorando as tacadas, o jogo em geral – e disputando mais partidas, até que, a certa altura, seus movimentos se tornam automáticos. O leitor vai pensar menos antes de cada tacada, seu jogo ficará mais intuitivo. Nesse ponto, o golfe virou uma atividade social, que aqui e ali exige certa concentração. A partir daqui, o tempo a mais que passar no campo não vai melhorar consideravelmente seu desempenho, que pode permanecer no mesmo nível por décadas.

E por que isso? Essa pessoa não melhora porque, ao jogar, tem uma única chance de dar uma tacada de um ponto qualquer. Não pára para descobrir como corrigir possíveis erros. Se pudesse repetir de cinco a dez tacadas de um mesmo ponto do campo teria mais feedback sobre a técnica empregada e começaria a ajustar o jeito de jogar para ganhar mais controle. Aliás, é o que um profissional costuma fazer na hora de treinar e ao fazer o reconhecimento de um campo antes de um torneio.

Essa prática deliberada pode ser adaptada para o cultivo da tarimba na gestão e na liderança. Um exemplo clássico é o estudo de casos, método empregado em muitos cursos de administração – e que apresenta ao estudante uma situação na vida real que exige ação. Já que o desfecho dessas situações é conhecido, o aluno pode julgar no ato o mérito da solução proposta. Com isso, pratica a tomada de decisões de dez a 20 vezes por semana, digamos. É um papel similar ao de jogos de guerra no treinamento militar. Um superior pode analisar a resposta dos treinandos no combate simulado e dar uma avaliação instantânea. A operação militar de mentirinha acentua a capacidade de liderança com uma prática deliberada que permite ao militar explorar áreas desconhecidas.

Vejamos mais de perto como a prática deliberada poderia servir para a liderança. É comum ouvirmos que um elemento crucial da liderança e da gestão é o carisma, o que é verdade. Um líder com freqüência precisa encarar funcionários, colegas ou o conselho de administração para tentar convencê-los de algo, sobretudo em momentos de crise. Um número surpreendente de executivos crê que carisma é algo inato, que não pode ser adquirido. Contudo, se estivesse atuando em uma peça, sob orientação de um diretor e de um coach, a maioria conseguiria se mostrar consideravelmente mais carismática, sobretudo com o tempo. Aliás, em parceria com uma grande escola de teatro conseguimos criar uma série de exercícios de atuação para gestores e líderes com o intuito de melhorar sua capacidade de conquistar e persuadir. Executivos submetidos aos exercícios fizeram grande avanço. Logo, é possível adquirir carisma pela prática deliberada. É bom lembrar que até Winston Churchill, uma das figuras mais carismáticas do século 20, praticava oratória na frente do espelho.

Um verdadeiro expert não só pratica de forma deliberada como raciocina de forma deliberada. O astro do golfe Ben Hogan certa vez explicou: “Enquanto pratico, tento também melhorar minha capacidade de concentração. Nunca vou e simplesmente acerto a bola”. Hogan decidia, de antemão, para onde queria mandar a bola, e como faria para atingir a meta. Em nossa pesquisa, conseguimos acompanhar esse processo mental. O que fazemos é apresentar um cenário a alguém de desempenho estelar e pedir que vá expondo, em alto e bom tom, seu raciocínio. Um jogador de xadrez, por exemplo, descreve como passa de cinco a dez minutos explorando todas as possibilidades para o lance seguinte, considerando as conseqüências de cada um e planejando a seqüência de movimentos que se seguiria. Observamos que quando um determinado curso de ação não produz o resultado esperado, o expert retorna à análise anterior para avaliar qual foi o erro e como evitar futuros deslizes. E trabalha continuamente para eliminar as próprias falhas.

A prática deliberada envolve dois tipos de aprendizado: aprimorar habilidades que o indivíduo já possui e ampliar o alcance e o escopo desse conhecimento. A enorme concentração exigida para empreender essas duas tarefas limita o tempo que é possível dedicar a elas. O famoso violinista Nathan Milstein escreveu: “Pratique o quanto achar que é possível com concentração. Certa vez, preocupado porque muitos à minha volta praticavam o dia inteiro, perguntei a [meu mentor], mestre Auer, quantas horas deveria praticar. Ele respondeu: ‘Não faz muita diferença. Se praticar com os dedos, não há tempo que alcance. Se praticar com a cabeça, duas horas bastam'”.

É interessante observar que, se pegarmos um amplo espectro de experts, incluindo atletas, escritores e músicos, pouqu&i

acute;ssimos parecem capazes de sustentar uma prática deliberada com altas doses de concentração por mais de quatro ou cinco horas seguidas. Aliás, a maioria dos experts no mundo acadêmico e no científico reserva um par de horas por dia, em geral pela manhã, para atividades mentais mais exigentes, como colocar novas idéias no papel. Embora possa parecer um investimento de tempo relativamente pequeno, são duas horas a mais por dia do que o grosso dos executivos e dos gerentes dedica ao próprio aprimoramento, já que a maioria de seu tempo é gasta em reuniões e questões do dia-a-dia. Essa diferença soma cerca de 700 horas por ano, ou 7 mil horas por década. Resta ao leitor imaginar aonde poderia chegar se dedicasse duas horas por dia à prática deliberada.

É muito fácil negligenciar a prática deliberada. Ao atingir um alto nível de desempenho, um astro muitas vezes passa a reagir automaticamente a certas situações e corre o risco de empregar exclusivamente a intuição. Isso traz dificuldades ao se deparar com casos raros ou atípicos, pois o indivíduo perdeu a capacidade de analisar uma situação na busca de uma resposta correta. O expert talvez nem perceba o avanço sorrateiro desse viés da intuição – até que enfrente uma situação que seja refratária à resposta habitual e que possa, inclusive, causar danos. Profissionais mais maduros, com alta experiência, são particularmente sujeitos a cair nessa armadilha – que não é inevitável, contudo. Estudos provaram que músicos com mais de 60 anos de idade que seguem praticando de forma deliberada cerca de dez horas por semana equiparam experts de 20 anos de idade em velocidade e técnica quando instados a tocar uma música até ali desconhecida.

Para o expert, sair dessa zona tradicional de conforto requer motivação e sacrifício consideráveis, mas é uma disciplina necessária. É como disse Sam Snead, campeão no golfe: “É da natureza humana querer praticar aquilo que já se domina, pois o trabalho é muito menor e o prazer, muito maior”. Somente quando entender que a prática deliberada é a rota mais eficaz rumo ao fim desejado – ser o melhor em seu campo – o indivíduo passará a buscar a excelência. Snead, que morreu em 2002, tinha o recorde de vitórias na PGA Tour e era famoso por seu swing, considerado um dos mais belos do golfe. A prática deliberada foi crucial para seu sucesso. “A prática põe o cérebro em seus músculos”, disse.

 

Não poupe tempo

A essa altura, estará claro que leva tempo para alguém virar um craque. Nossa pesquisa mostra que até o mais talentoso dos indivíduos precisa de, no mínimo, dez anos (ou 10 mil horas) de treinamento intenso para poder vencer uma competição internacional. Em certos campos o aprendizado leva ainda mais tempo: a maioria dos músicos de elite precisa, hoje, de 15 a 25 anos de prática constante, em média, antes de triunfar em nível internacional.

Embora a história traga exemplos de gente que atingiu um nível internacional de expertise ainda jovenzinha, também é verdade que, no século 19 e no começo do século 20, uma pessoa podia atingir esse patamar com mais rapidez. Na maioria das arenas o nível do desempenho subiu sem parar desde então. Hoje, por exemplo, um maratonista ou um nadador amadores podem superar facilmente a marca de campeões olímpicos do começo do século 20. Hoje, disputa cada vez mais acirrada torna praticamente impossível abreviar aquele intervalo de dez anos. Notável exceção, o enxadrista Bobby Fischer conseguiu, sim, virar um grande mestre do xadrez em apenas nove anos, embora provavelmente por ter praticado mais tempo a cada ano.

Muita gente se ilude sobre o tempo necessário para virar um expert. Tolstoi certa vez observou que muita gente vinha lhe dizer que não sabia se seria ou não capaz de escrever um romance, pois nunca havia tentado – como se bastasse uma única tentativa para que descobrisse sua capacidade natural para escrever. Na mesma veia, muitos autores de livros de auto-ajuda parecem acreditar que o leitor está, basicamente, pronto para o sucesso, bastando apenas tomar uma série de medidas simples para superar grandes obstáculos. O imaginário popular é repleto de histórias sobre atletas, escritores e artistas desconhecidos que ficaram famosos da noite para o dia, aparentemente devido a um talento inato – “está no gene”, dizem. Basta, porém, examinar a trajetória de formação de um expert para que se constate que a pessoa passou muito tempo treinando e se preparando. Sam Snead, que fora chamado “o melhor jogador natural de todos os tempos”, disse à revista Golf Digest: “Sempre me disseram que eu tinha um swing natural. Achavam que eu não dava duro. Mas, quando jovem, jogava e praticava o dia inteiro, e treinava mais um pouco à noite, sob a luz dos faróis do carro. Minhas mãos sangravam. Ninguém no golfe se esforçou mais do que eu”.

Além de estar disposto a investir tempo para virar craque, é preciso começar cedo – pelo menos em certas áreas. A capacidade do indivíduo de atingir um desempenho estelar é nitidamente limitada quando suas oportunidades para a prática deliberada forem menores – limitação que é longe de trivial. Certa vez, após uma palestra de K. Anders Ericsson, uma pessoa na platéia quis saber se ela ou qualquer outro indivíduo que começasse a treinar já grandinho seria capaz de ganhar uma medalha olímpica. Hoje, respondeu Ericsson, seria praticamente impossível que essa pessoa conquistasse uma medalha em uma disputa individual sem um histórico de treinamento comparável aos dos atletas de elite da atualidade, que começaram, quase todos, muito cedo. Muitas crianças simplesmente não têm a oportunidade, pelo motivo que for, de contar com os melhores mestres e de seguir a prática deliberada necessária para atingir o nível olímpico em um esporte.

Busque mestres e mentores

Para muitos o mais célebre professor de violino de todos os tempos, Ivan Galamian observou certa vez que o candidato a virtuose não busca a prática deliberada espontaneamente. “Se analisarmos o desenvolvimento de artistas famosos, veremos que quase sempre o sucesso em toda sua carreira dependeu da qualidade da prática. Em praticamente todo caso, essa prática foi constantemente supervisionada por um professor ou um assistente do professor.”

Estudos sobre gente de desempenho estelar confirmaram a observação de Galamian. Mostraram, ainda, que o futuro expert precisa de um tipo distinto de professor para cada estágio de seu desenvolvimento. No início, a maioria é orientada por mestres locais, gente capaz de oferecer doses generosas de tempo e de motivação. Mais tarde, porém, é vital que o indivíduo busque mestres mais avançados para seguir aprimorando a técnica. A certa altura, todo astro trabalha sob a tutela de um professor que atingiu, ele próprio, níveis internacionais em seu domínio.

Ter um expert como mestre faz diferença sob muitos aspectos. Para começar, isso pode ajudar a acelerar o processo de aprendizado do pupilo. Roger Bacon, filósofo e cientista do século 13, achava impossível adquirir o domínio da matemática em menos de 30 anos. Hoje, contudo, um indivíduo pode dominar uma disciplina tão complexa como o cálculo ainda na adolescência. A diferença é que, da época de Bacon para cá, esse material todo foi sendo organizado por estudiosos e ficou muito mais acessível. O estudante de matemática já não precisa escalar sozinho o Everest – pode seguir uma trilha bem batida para chegar ao topo.

A aquisição da tarimba requer mestres capazes de fazer críticas construtivas, dolorosas até. O verdadeiro expert é um pupilo extremamente motivado que busca esse tipo de crítica. É capaz, ainda, de dizer se e quando o conselho de um orientador não tem utilidade. Indivíduos de desempenho superior que estudamos sabiam o que estavam fazendo bem e se concentravam naquilo que estavam fazendo mal. Buscavam, propositalmente, mestres objetivos que pudessem desafiá-los e propeli-los para um patamar mais elevado. Os melhores mestres também identificam aspectos do desempenho do pupilo que terão de ser aprimorados no nível seguinte de habilidade. Se o professor exige muito, cedo demais, o aluno ficará frustrado e pode até desistir de tentar melhorar.

Naturalmente, a ajuda do mestre tem limites. Estatísticas revelam que radiologistas diagnosticam corretamente a existência de câncer de mama a partir de radiografias cerca de 70% das vezes. Em geral, o jovem radiologista trabalha ao lado de um “expert” para aprender a interpretar um raio X. Logo, não surpreende que esse índice de acertos esteja há tanto tempo em 70%. Imagine o quão melhor esse índice de acerto seria se os profissionais usassem radiografias em um arquivo de casos anteriores, já diagnosticados, para treinar seu diagnóstico e determinar imediatamente se acertaram ou não. Esse tipo de técnica vem sendo usado com mais freqüência no treinamento. Há um mercado emergente em simulações sofisticadas que garantem ao profissional, sobretudo na medicina e na aviação, um jeito seguro de praticar de modo deliberado com feedback adequado.

O que acontece, então, quando a pessoa vira um campeão olímpico, um mestre internacional do xadrez ou o presidente de uma empresa? O ideal seria que, à medida que a expertise aumentasse, o mestre fosse ensinando o pupilo a ficar mais e mais independente, para que possa traçar a própria rota de desenvolvimento. Assim como o bom pai é aquele que ensina o filho a se virar sozinho, o bom mestre é o que ajuda o aluno a seguir um “mestre interno”. Essa orientação por conta própria pode ocorrer em qualquer arena. Um papa da cirurgia, por exemplo, não se preocupa apenas com o quadro pós-operatório do paciente – mas estuda todo e qualquer evento imprevisto registrado durante a cirurgia para tentar descobrir como evitar no futuro o mesmo erro ou a mesma falha de julgamento.

Benjamin Franklin dá um dos melhores exemplos de motivação para a auto-orientação. No afã de aprender a escrever de modo eloqüente e persuasivo, Franklin passou a esmiuçar seus artigos favoritos em uma popular publicação britânica, a Spectator. Dias depois de ler um artigo que o agradara particularmente, Franklin tentava reconstruí-lo, de memória, com as próprias palavras. Comparava o resultado ao original para descobrir e corrigir as falhas. Além disso, para atingir um domínio maior da língua, transpunha os artigos para o verso e, depois, de volta para a prosa. É algo similar ao feito por um grande pintor ao tentar reproduzir obras de outros mestres.

Qualquer pessoa pode aplicar esses métodos ao trabalho. Digamos que em sua empresa, leitor, haja um indivíduo com uma capacidade brilhante de comunicação, e que essa pessoa vá falar com o pessoal de uma divisão na qual haverá cortes. Redija um discurso para a ocasião e, depois, compare sua versão com as palavras proferidas por aquela pessoa. Observe a reação ao discurso dela e tente imaginar qual teria sido a reação ao seu. Toda vez que suas decisões, seus gestos ou suas palavras se equipararem aos de alguém de desempenho estelar, você estará um pouquinho mais perto do nível de um expert.

 

Antes que a prática, a oportunidade e a sorte possam se unir para criar a tarimba, o candidato a craque precisa desmistificar a conquista do desempenho de elite – pois a noção de que o talento é algo inato, e não cultivado, é arraigadíssima. A personificação máxima desse mito talvez seja a figura de Wolfgang Amadeus Mozart, comumente apresentado como um garoto prodígio dotado de uma genialidade musical nata. Ninguém está dizendo que o feito de Mozart não foi extraordinário para os padrões de então. O que se costuma esquecer, contudo, é que seu cultivo foi igualmente excepcional para a época. Mozart começou a aprender música aos quatro anos de idade e se

u pai, também um hábil compositor, era um famoso professor de música e autor de um dos primeiros manuais para estudantes de violino. Assim como outros astros do desempenho, Mozart não nasceu um expert – virou um.

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K. Anders Ericsson (ericsson@psy.fsu.edu) é titular da cátedra Conradi Eminent Scholar of Psychology da Florida State University. Michael J. Prietula (prietula@bus.emory.edu) é professor da Goizueta Business School, na Emory University, em Atlanta, e pesquisador-visitante no Institute for Human and Machine Cognition, na Flórida. Edward T. Cokely (cokely@mpib-berlin.mpg.de) é pesquisador no programa de pós-doutorado do Max Planck Institute for Human Development, em Berlim.

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