Governança

Você deve entrar para o negócio da família?

Judy Lin Walsh e Rob Lachenauer
17 de julho de 2018

Richard (nome alterado para proteger os envolvidos) formou-se na universidade em uma sexta-feira. Três dias depois, ele teria seu primeiro dia de trabalho na empresa de sua família. Não foi uma escolha muito refletida. Ele cresceu no negócio de vinho da família que seu avô fundou e seu pai o convenceu a entrar. Esse era o legado da família, disse seu pai, e um dia Richard seria o CEO. Ou pelo menos foi o que Richard ouviu.

Vinte anos depois, as coisas deram terrivelmente errado. Embora pai e filho trabalhassem lado a lado, mal se falavam depois de uma discussão na sala de reuniões de diretoria. Nos piores momentos, Richard chegou a pensar em processar seu pai por violação do dever fiduciário. Sob todos os aspectos, catapultar Richard da universidade direto para o negócio foi um erro. Richard e seu pai tinham grandes esperanças em relação à transição geracional – e ambos compartilham a culpa pelo que deu errado – mas depois de duas décadas de dedicação ao negócio da família, Richard está preocupado com o fato de ter desperdiçado os melhores anos da sua carreira. Além disso, seu relacionamento com o pai parece ter se deteriorado de forma irreversível.

Algumas pessoas desabrocham e prosperam depois de escolherem seguir a carreira em suas empresas familiares. Outros definham, arrependendo-se amargamente de suas escolhas. “Estou a ponto de perder minha empresa – e meu pai”, Richard lamentou-se recentemente conosco. A situação dele acontece com muita frequência – e este é o pior cenário sobre o que pode dar errado quando se assume de todo o coração seu negócio familiar muito cedo na carreira.

A decisão de aceitar qualquer oferta de emprego em tempo integral pode ser estressante. Mas quando se trata de empresas familiares, as escolhas podem ser bem mais complicadas: é tanto um contrato tácito familiar quanto um contrato de emprego – e as consequências podem durar muito mais. Em nossa experiência, até mesmo os membros da família de maior potencial têm dificuldade em lidar com o complexo mix emocional de expectativa, obrigação, incerteza e o desejo por sucesso profissional quando confrontados com esta tomada de decisão.

Muitas vezes, as pessoas que consideram a possibilidade de entrar para o negócio da família têm medo de parecer ingratas ou privilegiadas, então não fazem perguntas importantes. Eles simplesmente assumem e esperam que o desejo de seus pais de fazer com que entrem no negócio significa que terão uma carreira gratificante pela frente, potencialmente uma carreira que os levem a serem acionistas e ao cargo de CEO. Mas, como Richard aprendeu da forma mais dura, nem sempre as coisas acontecem dessa forma.

Crescer cercado por uma empresa familiar deveria prover à geração mais jovem com insights inigualáveis sobre o negócio, suas forças e fraquezas, seu potencial e uma sensação de como seria possível suas carreiras crescerem dentro da empresa. Porém, com frequência, a geração mais jovem tem somente um vislumbre do funcionamento da organização: a parte que a geração anterior permite que vejam.

Podem existir alguns sinais vermelhos indicando que entrar para a empresa da família pode não ser uma boa decisão, não importa quais sejam as circunstâncias. Se, por exemplo, seu relacionamento com seu pai ou com sua mãe (ou seja lá qual for o parente proprietário ou administrador do negócio) não estiver em um bom momento, entrar na empresa provavelmente não tornará as coisas melhores – de fato, isto pode torná-las ainda pior.

Ao invés disso, nós sugerimos que você busque um emprego fora da empresa familiar e obtenha uma promoção antes de optar por se juntar ao negócio da família. Ao se estabelecer primeiro fora da empresa familiar, você terá demonstrado à sua família, aos seus futuros colegas de trabalho e, o mais importante, a você mesmo, que você tem algo a oferecer. Como um cliente nos disse, “nós queremos que nossa próxima geração leve um ‘chute no traseiro’ fora da empresa para depois se juntar ao negócio da família. Então, quando pedirmos a eles que trabalhem duro, saberão que isso é o que todos pedem”.

Quando entrar na empresa familiar, você deve ter um emprego real na empresa e não um que seus pais tenham fabricado para você. Sabemos de uma família, por exemplo, na qual cada um dos cinco filhos foi recebido com um salário anual no valor desconcertante de USD 400.000,00. Parte dos cinco filhos trabalhou duro; outros ficaram mais tempo no curso de golfe. As tensões latentes sobre a desigualdade inevitavelmente ferveram.

Mas, a qualquer momento que você esteja pensando em entrar para empresa familiar, você precisa se fazer dois conjuntos de perguntas fundamentais para guiar sua decisão. As primeiras três questões devem ser direcionadas a você mesmo. As outras três devem ser feitas diretamente ao membro da família que seja um líder (presumivelmente o acionista controlador do negócio).

Questões para você mesmo:

• O que motiva você a entrar para o negócio? Essa resposta pode variar de “Meu pai espera que eu esteja no negócio” a “É minha melhor chance de chegar no topo”. Não há uma motivação correta (e às vezes algumas podem mudar), mas o que importa é que você articule suas razões – e tenha a certeza de que esses motivos sejam bons o suficiente para lhe fornecer uma base para o seu processo de tomada de decisão. A fonte de sua motivação vem da sua paixão pelo negócio ou você está cedendo à pressão externa?

• As relações pessoais entre os líderes da família são saudáveis o suficiente? Herdeiros de negócios familiares não precisam sempre amar uns aos outros, mas precisam tomar boas decisões juntos. Você vê evidências de que eles podem tomar boas decisões juntos sobre o futuro da empresa? Há evidências de que serão transparentes e construtivos com você? Você acredita que uma gama das pessoas importantes (pais, irmãos e primos) irá apoiá-lo durante as invitáveis crises que recaem sobre todos os negócios e carreiras? E no futuro, você acha que suas relações familiares podem suportar a pressão de trabalharem juntos?

• Sinto-me bem sendo constantemente o centro das atenções? Colaboradores da empresa não pertencentes à família tendem a observar os membros da família bem de perto. A maneira como você se comporta vai refletir, para o bem ou para o mal, em toda a família. Você será “especial” e nunca será tratado da mesma forma que seria se você trabalhasse em uma outra empresa. Isso nem sempre é fácil. E os holofotes não se apagam quando você sai do trabalho no fim do dia. A linha que divide seu trabalho e sua vida pessoal não será muito bem demarcada e haverá uma avaliação minuciosa de seu desempenho em ambos os lados. Você consegue conviver com isso?

Questões a serem feitas ao líder da família no negócio:

• Como você vê a evolução da minha carreira? Você precisa entender como sua carreira vai se desenvolver na empresa familiar. Pergunte: o que você pensa sobre meu crescimento e desenvolvimento no negócio da família? Quem vai me ajudar em meu desenvolvimento e me avaliar? Quando eu entrar na empresa, será uma “sentença de vida”? O que acontecerá se eu não fizer um bom trabalho neste cargo em particular? Quais são suas opiniões sobre como será a completa transição de liderança? Como saberei se estou sendo bem-sucedido?

• Existe algum caminho para que eu me torne acionista do negócio? Você precisa perguntar e não apenas supor, onde você se encaixa na estrutura de propriedade atual e futura da empresa. Pergunte: quem são os acionistas do negócio hoje? Quais são os planos, se é que eles existem, de transferir a propriedade para a próxima geração? Como você imagina que vai entregar formalmente o controle em algum momento? Você está considerando a possibilidade de ter sócios que não sejam da família? Devo trabalhar na empresa para me tornar um futuro acionista – ou ter os benefícios de ser acionista – e as regras serão as mesmas para qualquer outro membro da família que esteja avaliando a mesma situação que eu estou agora? Há um acordo de acionistas que eu possa ler para poder entender as regras de propriedade?

Qual é a sua visão para a companhia? É essencial que você entenda e idealmente compartilhe os planos atuais da liderança para o negócio. Pergunte: Como você imagina que a empresa estará daqui a 20 anos? Você quer que ela cresça, quer retirar dinheiro do caixa ou alguma coisa entre essas opções? O que a corporação está fazendo agora para se reinventar e continuar relevante no longo prazo? O que eu posso fazer para apoiar o futuro da empresa e contribuir para seu sucesso contínuo? Como podemos assegurar que nosso relacionamento pessoal continue saudável, não importando como tudo isso vai funcionar?

Não há respostas mágicas para essas perguntas, mas juntas elas podem fornecer a base para uma discussão saudável com a liderança atual do negócio. Você pode – e deve – ter uma conversa produtiva sobre as perspectivas de sua carreira dentro da empresa familiar. Você não deveria entrar para o negócio, por exemplo, se simplesmente será escoltado até o topo.

Se você não se sente confortável em fazer essas perguntas ao líder atual da empresa, pode fazer um “teste”, conversando com uma pessoa de confiança de seus pais que conheça o negócio a fundo – ou com um deles, caso este não trabalhe na empresa. Pergunte diretamente: “Se estivesse no meu lugar, você iria trabalhar no negócio da família?”. Com frequência, respostas destas pessoas podem oferecer pistas, tanto sobre a saúde dos negócios quanto sobre as perspectivas de sua carreira sob a liderança atual. Mas eventualmente, é essencial ir direto ao líder da empresa com seus questionamentos e explicar porque você está se debatendo com a decisão. Um ponto a se ponderar: se você não pode fazer isso, como você vai navegar nas questões mais complicadas que inevitavelmente serão importantes no futuro?

Você tem o direito de conhecer a estrutura, as regras e os processos que lhe permitirão ser bem-sucedido no negócio de sua família – antes de você assumir. Ou, você deveria pelo menos ter uma conversa aberta e honesta sobre como construir a estrutura, as regras e os processos corretos. Se você chega a uma conversa desse tipo munido de experiência em outra empresa, você irá interagir com seu pai (eventualmente o líder do negócio) de profissional para profissional e não necessariamente de pai para filho. Um membro de uma família com alto potencial que nós conhecemos, por exemplo, teve que alçar uma carreira de sucesso em uma companhia no Vale do Silício para garantir que seu pai valorizaria seu talento e contribuição de forma apropriada.

Tais discussões podem ser difíceis quando você não teve esse tipo de interação com seu pai no passado. Mas assim como Richard aprendeu da forma mais difícil, deixando de lado algumas questões fundamentais – e as outras tantas que você tem direito de perguntar ao tomar uma das decisões mais importantes da sua vida – o destino pode não ser tão bom no longo prazo. Melhor perguntar agora: você nunca estará em posição melhor.
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Judy Lin Walsh é principal da BanyanGlobal, empresa especializada em planejamento de sucessão, estratégia, governança e wealth management.
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Rob Lachenauer é sócio, CEO e cofundador da BanyanGlobal Family Business, e também coautor, juntamente com George Stalk do livro Hardball: are you playing to play or playing to win?
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Tradução: Banyan

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