O estudo: Alan Castel, professor da University of California, Los Angeles, e seus colegas solicitaram a mais de 100 alunos para desenhar o logo da Apple de memória. Embora muitos fossem usuários de Macs e iPhones e muitos estivessem razoavelmente confiantes de que poderiam completar a tarefa corretamente, somente um deles conseguiu. Quando os participantes tiveram que escolher o logo correto no meio de uma sequência que incluía versões alteradas, menos de metade escolheu corretamente.

O desafio: Sua memória visual é assim tão terrível? Como pode ser tão difícil se lembrar de alguma coisa tão simples?

Professor Castel, defenda seu estudo.

Castel: Na verdade, inúmeras pesquisas comprovam que temos boa memória para a informação visual. Estudos mostram que as pessoas são surpreendentemente hábeis em reconhecer objetos ou imagens complexas — como fotos de férias de outras pessoas — que viram anteriormente. Mas nós também estamos lidando com saturação atencional. Seria devastador e uma adaptação inadequada gravar mentalmente tudo o que vemos. Por isso, subconscientemente, deixamos algumas coisas se perderem. O experimento mais famoso sobre o assunto mostrou que poucas pessoas lembram corretamente a disposição dos detalhes de uma moeda de US$ 0,01 — para que lado o rosto de Lincoln está olhando ou onde está a palavra “liberdade”. (Você saberia dizer para que lado está virado o rosto do Barão do Rio Branco, ou onde está escrito “Brasil” na moeda de R$ 0,50?). É um objeto familiar e, no entanto, não focamos nos detalhes.

Outra pesquisa mostrou que o mesmo acontece com teclados de calculadora e computador e com botões de elevador e alguns tipos de sinalização em rodovias. Meus colegas Adam Blake e Meenely Nazarian e eu acreditávamos que obteríamos resultados diferentes com o logo da Apple. Ele também é extremamente familiar — atualmente pode ser até mais que uma moeda de um centavo — mas é mais simples. Ele foi desenhado para ser esteticamente agradável e, para muitos, é um símbolo de alto valor. Mas talvez por estar tão presente e ser tão básico, os participantes de nossa pesquisa evidentemente não retiveram os detalhes na memória. Somente um conseguiu desenhar o logo corretamente e apenas sete conseguiram reproduzi-lo com três erros, ou menos. E quando o verdadeiro logo foi colocado na sequência com as sete versões alteradas,

somente 47% dos participantes conseguiram identificá-lo. Todos nós sabemos que ele parece com uma fruta, mas a maioria não presta atenção à mordida ou à folha.

E isso é natural. Não sobrecarregamos nosso cérebro com informação que acreditamos que não vamos usar.

HBR: Então ter má memória é bom?

Sim, esquecer onde você estacionou o carro na semana passada ou o nome de uma pessoa que você nunca mais vai encontrar é útil porque libera seu cérebro para guardar informação mais importante. Pessoas com boa memória seletiva podem ser muito eficientes. Elas podem se concentrar no que é importante e esquecer o resto. Pessoas com memória excelente, por outro lado, precisam lutar com a interferência. Essas pessoas são capazes de se lembrar de uma conversa trivial, mas não lembram onde colocaram as chaves do carro.

O senhor está querendo dizer que lembranças são um jogo de resultado zero? Desde que se disponha de certa quantidade, é uma sim, uma não?

Absolutamente. Os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de aprender e lembrar quantidades enormes de informação. Eu me surpreendo constantemente com a quantidade de coisas que aprendi — letra de uma música que eu curti há 30 anos, matérias que estudei para provas na faculdade. Mas temos estratégias para reter informação de níveis mais altos. Em meu laboratório realizamos outro estudo sobre a capacidade das pessoas de se lembrarem de efeitos colaterais de medicamentos quando uma longa lista foi apresentada. Descobrimos que todas se lembravam muito bem dos efeitos mais graves — mas não dos menores, como pés inchados, por exemplo. Obviamente, pés inchados podem ser sinal de uma obstrução sanguínea. Por isso precisamos ter cuidado sobre a quantidade de informação que filtramos.

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Por que tantas pessoas que desenharam o logo da Apple estavam tão certas de que poderiam reproduzi-lo com precisão?

Acreditamos que elas estavam sendo influenciadas pelo que os psicólogos chamam de disponibilidade heurística: “eu vi isso várias vezes, logo devo lembrar”. Em nosso primeiro experimento, 75 dos 85 participantes usavam regularmente produtos Apple. Num segundo experimento, a proporção era de 24 em 26. É compreensível então que estivessem confiantes. Somente depois de se envolverem na tarefa eles perceberam que não era tão simples. Se tivéssemos pedido que os alunos desenhassem com precisão um lagarto escamado, muitos poderiam ter dito “não sei desenhar”. Quando, em outro estudo, perguntamos se as pessoas eram capazes de se lembrar de onde estava localizado o extintor de incêndio mais próximo de seu escritório, o nível de certeza também foi bastante baixo. É isso que chamamos de metacognição: saber o que você não sabe.

Antes de ler sobre sua pesquisa, eu não tinha ideia de onde estava o extintor de incêndio do meu escritório. Perguntei a meus colegas de sala, e eles também não sabiam. Mas então um colega mencionou que ele podia ser visto da mesa de cada um.

Você não está sozinho! Meus colegas Michael Vendetti e Keith Holyoak e eu decidimos realizar esse estudo depois de participar de um treinamento de segurança e percebemos que não sabíamos onde estavam os extintores de incêndio de nosso escritório. Quando Keith voltou para seu escritório — que ocupava havia mais de 30 anos —, ele descobriu que o extintor estava bem ao lado da sua porta. Aplicamos o mesmo teste a outras pessoas do departamento, e somente 13 de 54 souberam dizer corretamente onde estava localizado o extintor de incêndio mais próximo. Exatamente como os alunos com o logo da Apple, a maioria de nós via esses objetos comuns, mas não se fixava neles.

Mas eles são grandes e vermelhos e podem nos salvar a vida! Por que então os ignoraríamos?

Talvez porque não imaginamos que algum dia teríamos de usá-los. Num estudo com acompanhamento de resultados, descobrimos que lembramos muito mais de coisas que usamos, ou esperamos usar, mais rotineiramente. A grande maioria, ou seja, 96% das pessoas de nosso edifício, sabia localizar, por exemplo, o bebedouro mais próximo. Outra explicação é o que os psicólogos chamam  amnésia não atencional — em que pessoas estão tão preocupadas com outras tarefas, que não notam outras coisas, como no  famoso estudo no qual participantes que contavam passes de um jogo de basquete não viram um homem vestido de gorila caminhando na quadra.

No estudo dos extintores de incêndio também descobrimos evidências de que as pessoas não se lembram da localização do extintor mais próximo porque elas pensam que sabem onde ele deveria estar — um fenômeno chamado memória essencial. Várias pessoas afirmaram que provavelmente o extintor estava próximo do elevador e se surpreenderam quando viram que não estava. Observei o mesmo tipo de conduta nos experimentos com o logo. Vários alunos
declararam que se estavam desenhando uma folha também deveriam desenhar um galho. Minha própria memória sinalizava que a mordida deveria ter marcas de dentes porque nenhuma dentada é lisa. Portanto, nossa memória é contaminada por todo o conhecimento que acumulamos. Na verdade, estudos mostram que pessoas idosas apresentam uma tendência maior para se lembrar de coisas baseadas na essência. Isso pode não ter importância quando se trata de logos ou até de extintores de incêndio, mas pode vir a ser realmente um problema quando as questões envolvidas forem realmente importantes — como casos judiciais, médicos e certos assuntos de negócios. Às vezes, é a informação periférica que nos leva aos maiores insights, por isso devemos lutar contra a tendência de filtrar nossa falta de atenção e nossa memória essencial.

Qual a melhor maneira de fazer isso?

O fracasso é um bom mestre. Quando voltamos a encontrar os participantes da pesquisa sobre extintores de incêndio, dois meses depois do teste inicial, todos lembravam onde estava o extintor mais próximo de seu escritório. De uma forma mais ampla, acredito que encorajar a metacognição — maior compreensão de como nossa mente funciona — ajuda muito.

Espero que as pessoas se lembrem desta entrevista.

Eu também!

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