modelo cancer center

A crescente incidência de câncer em todo o mundo é uma incômoda realidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima para o ano 2030 um salto dos 15 milhões atuais para 27 milhões de pessoas diagnosticadas ano após ano, ou seja, 75 milhões de pacientes com a doença em todo o planeta. Em diversos países e no Brasil de hoje, o envelhecimento da população, os hábitos e estilos de vida urbanos e a ampliação horizontal do acesso à saúde levaram, inevitavelmente, ao aumento do diagnóstico de câncer. Com o maior conhecimento da doença e as avançadas tecnologias disponíveis para o tratamento — desde o diagnóstico mais preciso até o uso de novas terapias —, mais pessoas sobrevivem, e por mais tempo, o que implica aumentos exponenciais de custos para todo o sistema de saúde.

Neste contexto, encontrar soluções custo-efetivas que tragam mais valor para o paciente é um desafio imediato a ser enfrentado por todos os países, com o apoio sobretudo dos que desenvolveram modelos de gestão específicos e de sucesso no tratamento da doença.

O modelo cancer center — adotado nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido, Espanha, Suécia, Noruega, França, entre outros países — mostrou-se nas últimas décadas o formato de maior sucesso para diagnosticar e tratar a doença com a atenção necessária. O modelo integra desenvolvimento científico, formação profissional especializada e assistência voltada a cada paciente. Com custos e processos racionalizados, permite oferecer o tratamento certo na hora certa para os casos com protocolos mundialmente conhecidos, conduzido por profissionais experientes, de forma correta e segura. Para os casos complexos e sem protocolos disponíveis, dispõe de fóruns multidisciplinares de discussão — os tumor boards — e ainda permite acesso a novos tratamentos por meio dos trials clínicos que testam os avanços da oncologia.

No Brasil um formato semelhante — refletindo o modelo ensino-ciência-assistência das universidades então em formação no país — foi defendido a partir dos anos 1930 por proeminentes médicos como o cirurgião Antônio Prudente, professor da USP com formação no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York. Foi ele que, em 1953, ao lado da jornalista Carmem Prudente, liderou a criação do Hospital A.C.Camargo, justamente renomeado A.C.Camargo Cancer Center, o primeiro instituto que reuniu ensino, pesquisa e assistência oncológica no país.

Nos Estados Unidos, desde os anos 1930, crescia a preocupação com a expansão da doença, e em 1960 o National Cancer Institute — órgão do National Institute of Health (NIH), o Ministério da Saúde dos EUA — lançou um programa específico para a criação de uma rede de cancer centers, hoje denominada NCCN — National Comprehensive Cancer Network® — com 70 unidades distribuídas estrategicamente em 36 estados, além de Washington, DC. De forma integrada, a rede faz do combate ao câncer no país uma ação coordenada de ensino, pesquisa, prevenção e tratamento.

Todo cancer center tem a responsabilidade de entender os desafios do diagnóstico e tratamento da doença na região onde está inserido e propor soluções custo-efetivas para a população que serve, transferindo conhecimento aos demais prestadores de serviços locais. É sua missão oferecer uma abordagem multiespecializada combinada com a medicina baseada em evidências científicas que, por sua vez, passam a ser diretrizes nacionais com a disseminação desse conhecimento para todos os demais centros de tratamento, clínicas e hospitais gerais. Adicionalmente, o cancer center considera o paciente o centro do modelo da assistência — patient-centered-care — e organiza seus processos ao redor de sua segurança, necessidades e qualidade da experiência que ele terá em todos os pontos contatos. O conteúdo das informações é alinhado e homogêneo porque é produzido com a participação de vários especialistas.

É esse o modelo que agora se mostra capaz de oferecer custo-efetividade no combate a essa doença que se expande com rapidez no Brasil e sufoca nossos sistemas de saúde públicos e privados. Hoje o A.C.Camargo Cancer Center responde por um em cada três oncologistas formados anualmente no Brasil — a residência médica da instituição formou desde sua criação cerca de 1.400 oncologistas — e tem uma das maiores produções científicas de impacto internacional na área. Nos últimos 20 anos sua pós-graduação titulou cerca de 700 mestres e doutores que hoje ensinam oncologia nas faculdades de todo o país. E hoje integra o seleto grupo que produz ciência de repercussão mundial com a publicação de cerca de 180 trabalhos científicos todo ano nas principais revistas internacionais. São aproximadamente cinco mil profissionais, com um corpo clínico de quase 800 especialistas em oncologia que atuam de forma integrada e atendem cerca de 130 mil pacientes ano após ano. Com nove mil novos casos diagnosticados e tratados anualmente, responde por mais de 10% dos casos da doença ocorridos na Grande São Paulo.

Na era da medicina personalizada — com drogas especialmente desenhadas para o perfil molecular de diferentes pacientes, as chamadas terapias-alvo, bem como as que utilizam o sistema imunológico para que o organismo reconheça e combata o câncer, a chamada imunoterapia —, o A.C.Camargo teve o papel de fomentador na virada do século 20, quando o Projeto Genoma do Câncer foi desenhado. Foi um dos protagonistas desta conquista, quando seus cientistas e gestores coordenaram um grupo multicêntrico de pesquisadores brasileiros, posicionando o país na vanguarda da ciência mundial.

Conhecendo mais profundamente o modelo de países europeus, além de EUA e Canadá, o A.C. Camargo aperfeiçoou sua visão do tratamento individualizado e colhe resultados efetivos na redução do período de tratamento, com maior agilidade no diagnóstico e definição de condutas, racionalização de custos e melhores índices de recuperação de seus pacientes. A ciência mostra que tratar o câncer em instituições com estes conceitos traz melhores resultados, com pacientes e familiares mais satisfeitos, e custos e processos otimizados, apontam estudos recentes publicados nos EUA e na Europa.

Pesquisa publicada em 2016 na revista científica Cancer evidenciou o impacto positivo do modelo na sobrevida de pacientes com acesso a um ou dois cancer centers. Conduzido pelo Mayo Clinic Cancer Center, o estudo trouxe a análise de um banco de dados que contemplou 28% da população dos Estados Unidos, levando em conta os casos diagnosticados entre 1973 e 2011. Os pesquisadores observaram que uma maior parcela de pacientes passou a viver mais que cinco anos após o diagnóstico a partir de 1995, quando se ampliou o acesso aos cancer centers no país. Os autores concluíram que, para obter resultados relevantes no tratamento do paciente com câncer, é necessário eliminar as disparidades no acesso e utilização de serviços de saúde. Afirmam também que, tão importante quanto melhorar a infraestrutura, é contemplar também os aspectos financeiros, físicos e psicossociais — bem como as barreiras culturais ao acesso a cuidados de saúde de qualidade, as quais afetam desproporcionalmente as classes sociais.

Em outro trabalho, liderado pela Divisão de Ginecologia Oncológica da Universidade da Califórnia e publicado no Journal of the American College of Surgeons , os autores avaliaram que a ampliação do acesso aos cancer centers é um dos mecanismos que levam a melhores resultados no desfecho clínico. Para chegar a essa conclusão, foi feita uma análise retrospectiva com o recorte de uma década de tratamento de pacientes com câncer de ovário. Concluiu-se que o acesso das pacientes aos chamados comprehensive cancer center é um preditor independente de aderência às diretrizes de tratamento do câncer de ovário e, consequentemente, de melhor taxa de sobrevida específica.

Os benefícios proporcionados aos pacientes pelo modelo cancer center podem ser ampliados aos diferentes tipos de tumor, mostra pesquisa publicada na revista Cancer em 2015, com quase 70 mil pacientes de câncer de 22 a 65 anos entre 1998 e 2008, em Los Angeles. Os autores observaram que os pacientes que não deram início ao tratamento em um cancer center tiveram resultados inferiores no controle da doença e na taxa de sobrevida quando comparados com os que tiveram essa oportunidade. As diferenças foram estatisticamente significativas nos casos de câncer de fígado, pulmão, estômago, cabeça e pescoço, mama e colorretal. Em casos complexos, o planejamento multidisciplinar do tratamento permite otimizar a sequência dos métodos terapêuticos, e assim aumentar a sobrevida e reduzir os efeitos colaterais do tratamento.

Em países nos quais o modelo cancer center está mais consolidado, como a França, trabalhos robustos (5) como o que reuniu 1.600 pacientes mostram que o nível de satisfação médio dos assistidos subiu de 63% nas primeiras abordagens em consultório para 77% após o suporte personalizado e interdisciplinar. Além disso, em geral 90% dos pacientes estavam satisfeitos com o nível das discussões sobre seus cuidados. O formato de centros de referência organizados por tipo de tumor será estendido na França aos pacientes com diferentes tipos de câncer.

Dessa forma, e aprimorando sua atuação como cancer center, foi implantado no A.C.Camargo o Centro de Referência da Mama, em 2017. Houve redução de 23% no tempo entre a primeira consulta e o início do tratamento. A experiência dos pacientes melhorou, e registramos aumento dos índices de satisfação (NPS — Net Promoter Score). Nesse centro de referência estão diretamente envolvidos 80 profissionais de 17 especialidades organizadas em seis divisões clínicas. Enfermeiros-navegadores facilitam e orientam a jornada dos pacientes, bem como de seus familiares, além de garantir o fluxo das informações e do cuidado na transição entre os vários profissionais envolvidos no processo de atendimento e a adoção de protocolos clínicos que asseguram a excelência e padronizam o cuidado por evidência científica em todas as etapas.

Os casos complexos são encaminhados ao tumor board — fórum estruturado do qual participam os diversos especialistas para estabelecer condutas terapêuticas individualizadas e eventualmente questionar os protocolos existentes e promover a implantação de novos protocolos por meio de pesquisas científicas. Foram 201 pacientes de câncer de mama avaliados em 2017 no modelo integrado. A partir deste ano de 2018 todas as pacientes com tumor de mama são tratadas no novo modelo, e a inovação será progressivamente estendida aos pacientes de tumor de pele e às pacientes de tumores ginecológicos. Nos próximos cinco anos serão implantados oito centros de referência para o tratamento de todos os tumores, proporcionando mais agilidade e melhores resultados no atendimento das necessidades do paciente e de seus familiares.

Concretizamos ano após ano o papel de incentivar, gerar, construir e difundir conhecimento de ponta para combater o câncer em nosso país e no mundo. Em 2017 foram investidos cerca de R$ 40 milhões em ensino e pesquisa, com 117 especialistas formados na residência médica, multiprofissional e programas de aperfeiçoamento e aprimoramento; 77 mestres, doutores e pós-doutores com pesquisas concluídas no programa de pós-graduação stricto sensu em oncologia. Esse conhecimento é disseminado para todo o país principalmente, e para outros onde os profissionais egressos da instituição passaram a atuar ao longo dos anos.

Instituições públicas e privadas em busca de maior efetividade nas iniciativas de prevenção, diagnóstico e tratamento da doença, melhores resultados clínicos para o paciente, com racionalização de custos e maior eficiência dos processos, têm neste modelo uma opção já consagrada em todo o mundo pelas organizações que o adotaram. Em instituições de saúde que trabalham com o corpo clínico fechado e complementar — e com diretrizes e protocolos internacionais, integrados entre as especialidades —, o modelo pode ser implantado com maior rapidez. Em instituições de corpo clínico aberto — a maioria das instituições de saúde no país —, a implantação é também viável, ainda que exija esforços de gestão voltados também para a adaptação do modelo existente, com amplos benefícios para os pacientes.
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Vivien Rosso é superintendente geral do A.C.Camargo Cancer Center.

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