Gênero

O movimento #MeToo está prejudicando as oportunidades das mulheres no mundo dos negócios?

Katherine Tarbox
27 de Abril de 2018
metoo

Quando minha mãe concluiu a faculdade em 1972, ela participou de uma entrevista de emprego em um banco de investimento na qual o gerente lhe disse que para determinados cargos mulheres eram entrevistadas, mas nunca contratadas. Mesmo no fim da década de 1980, passou por entrevistas com caçadores de talentos que, abertamente, diziam: “Queremos entrevistar mulheres”, enfatizando a parte do “entrevistar” — sem considerar a possibilidade de contratá-las. Ao longo de décadas, conforme ela ascendia profissionalmente até se tornar CFO de uma empresa de capital aberto, eu escutava essas histórias com frequência para ter consciência de que existem mais oportunidades no mercado de trabalho atualmente.

Nesse período pós-movimento #MeToo sobre assédio sexual, penso a respeito do progresso que realmente conseguimos conquistar. Recentemente, vários homens me disseram, em particular, não ter intenção de contratar mulheres para cargos vagos nem de gerenciar mulheres jovens, caso consigam evitar. Preocupa-me, agora, o fato de o movimento já ter provocado um efeito destrutivo.

Como alguém que trabalha no setor financeiro e que atualmente faz parte do corpo discente do programa de MBA executivo da Wharton School, ouvi homens dizerem que estão menos inclinados a contratar mulheres, ou com elas formarem parcerias, devido à força do movimento #MeToo. Seja consciente ou inconscientemente, não consigo imaginar que todo homem americano não esteja reavaliando suas práticas de contratação. Já escutei da boca de executivos homens em duas empresas importantes de Wall Street que estão indicando suas subalternas para reportarem a outros chefes, também do sexo feminino.

Ainda que se pudéssemos transpor os obstáculos que esse tipo de atitude enseja, isso não é prático — mulheres correspondem a apenas cerca de 25% dos membros executivos em cargos mais altos em empresas de Wall Street e não existem mulheres suficientes para sustentar esse modelo. Ouvi ainda gestores de fundos afirmarem não querer assumir o “risco” de contratar uma mulher. Um funcionário de um grande banco comentou que qualquer analista mulher que venha a ser contratada no futuro deve ser “pouco atraente”.

Esse ambiente é especialmente problemático para mim e minhas colegas de curso se quisermos conseguir um emprego no setor financeiro, atributo pelo qual a Wharton é conhecida. Mesmo que eu seja mais inteligente ou capacitada do que qualquer um de meus colegas homens, por que um empregador me contrataria se o meu colega é suficientemente competente e menos propenso a fazer uma acusação de assédio? As mulheres representam apenas 25% de minha classe — não existe escassez de homens com MBAs para se contratar. Já ouvi alguns homens em pequenos hedge funds afirmarem que não contratarão mulheres porque representamos um “risco” muito grande, e homens responsáveis por fundos de risco dizerem que não teriam reuniões individuais com fundadores de empresas do sexo feminino.

Mas tal sinceridade é rara, e confidencial, pois esse tipo de discriminação é ilegal, e as mulheres talvez nunca saibam por que foram preteridas. De certo modo, acredito que minha mãe teve melhores experiências com entrevistas de emprego — ao menos eles estavam sendo sinceros ao dizerem claramente que não contratariam mulheres. Receio que testemunharemos muitas mulheres com MBA sendo entrevistadas por empresas que querem parecer estar lutando pela igualdade de gênero, mas que não têm nenhuma intenção real de contratar uma jovem mulher.

Para alguns, incluindo os homens com quem conversei, parece que o movimento #MeToo não luta somente pelo fim do assédio, mas essencialmente busca atingir algo impossível: a dessexualização do ambiente de trabalho, algo que vai contra as ideias de Darwin. A química entre seres humanos não pode ser detida, então qual a solução? Para muitos homens, a solução é se proteger evitando se socializar com mulheres, ou contratá-las. Pode ser ilegal, mas isso não evitará que aconteça — a maior parte dos casos jamais chegará aos tribunais, e ainda que cheguem, seria algo extremamente complicado de se provar.

Bethany McLean, minha amiga íntima e editora sênior da Vanity Fair, vê esse medo como outra desculpa para excluir as mulheres. Antes de se tornar escritora, ela trabalhou como analista na Goldman Sachs e certamente entende a cultura que domina Wall Street. “Esse argumento revela um total desrespeito pelas mulheres”, ela afirma. “Quando os homens dizem ter medo de ficar sozinhos com uma mulher, o que estão realmente dizendo é que existe uma grande possibilidade de todas as mulheres serem loucas e que irão perceber algo naquela situação que não foi intencional. Mulheres não devem aceitar esse argumento patriarcal de que não são passíveis de confiança”.

Seu ponto de vista é apoiado por um estudo a respeito de políticas corporativas de prevenção ao assédio sexual, publicado em 2016. O estudo mostra que a maiorias das políticas corporativas sobre o tema eram ineficazes porque os empregados as interpretavam como destinadas a proteger mulheres irracionais e extremamente sensíveis à custa dos homens. “Descobrimos que as palavras presentes nas políticas de prevenção ao assédio sexual possuíam pouca semelhança à interpretação que os funcionários davam a elas”, escreveu um dos pesquisadores. “Embora a pesquisa focasse nos comportamentos do assédio sexual, praticamente todos os participantes alegaram que a mesma centrava-se nas percepções dos comportamentos”.

Ainda que os receios dos homens possam estar enraizados em uma visão preconceituosa das mulheres como indignas de confiança e irracionais, acredito que o movimento #MeToo tem sua parcela de culpa na reação que testemunho atualmente. A hashtag e as reportagens feitas pela mídia provocaram um efeito telescópico, fundamentalmente obscurecendo distinções importantes entre estupro, bolinação e cantada grosseira. Como alguém que foi vítima de abuso sexual, enfrentando um caso emblemático na justiça federal americana, desejo apoiar o movimento, mas quando a enxurrada de mensagens nas redes sociais teve início, não me senti impelida a compartilhar minha experiência — que me conduziu à beira da depressão por três anos — sob a mesma hashtag que mulheres que foram ligeiramente acariciadas em uma festa de fim de ano da empresa. Ainda que nenhuma forma de assédio ou abuso sexual deva ser tolerada sob nenhuma circunstância, não são a mesma coisa. Mas o nível de condenação ofertado a cada um deles atualmente parece ser o mesmo. Como Sarah Chiche, uma das principais autoras de uma resposta francesa ao #MeToo, disse ao The New York Times: “Homens cuja única culpa foi enviar uma mensagem de texto ou um e-mail levemente obsceno estavam sendo tratados, nas redes sociais, exatamente da mesma maneira que criminosos sexuais – como estupradores”. Observar esse movimento pendular, essa radicalização da sociedade em reação ao abuso sexual, indutora de um linchamento, é, para mim, preocupante”.

Ouvi inúmeras colegas mulheres afirmarem acreditar que o movimento #MeToo irá acelerar a igualdade de gênero no mercado de trabalho e promover o acesso de mais mulheres a cargos executivos. Mas não estamos vivendo ainda um momento de celebração. Como sociedade, lutamos tanto para tentar fazer com que a questão do gênero deixasse de ser levada em conta e agora, mais do que nunca, ela parece estar presente constantemente.

A resposta ao movimento #MeToo não deve ser a comemoração esperançosa acerca das promessas desse futuro. Não tenho as soluções, mas realmente acredito que para que se tenha início, é preciso lidar com uma realidade em que os homens, como consequência, estão receosos em trabalhar com mulheres, ou contratá-las, e de que a confiança entre os sexos no ambiente de trabalho não existe mais. Se o movimento #MeToo nos permitir abordar isso de modo honesto e aberto, então a sociedade será muito melhor. Minha preocupação é que algo assim não está acontecendo; em vez disso, as mulheres estão sendo silenciosamente alienadas, fazendo com que o caminho para cargos do C-level e para o conselho seja tão cheio de obstáculos como era para minha mãe há 40 anos.
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Katherine Tarbox é autora do best-seller Katie.com Minha História. Seus textos foram publicados no The New York Times, no The Wall Street Journey e no The Washington Post. Ela se formou na University of Pennsylvania e faz MBA na Wharton School.

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