A pesquisa não deixa dúvidas: quando escolhemos pessoas modestas e humildes como líderes, o mundo à nossa volta se torna um lugar melhor.

Os líderes que são humildes melhoram o desempenho da empresa em longo prazo porque criam ambientes mais colaborativos. Também têm uma visão equilibrada de si mesmos — de suas virtudes e limitações —, valorizam muito a capacidade de contribuição de outras pessoas além de serem abertos a novas ideias e feedbacks. Esses heróis desconhecidos ajudam seus seguidores a desenvolver a autoestima, a superar expectativas e criam uma comunidade responsável por canalizar os esforços individuais transformando-a em um grupo organizado que trabalha em benefício da coletividade.

Por exemplo, um estudo investigou 105 pequenas e médias empresas da indústria de hardware e software dos Estados Unidos. As descobertas revelaram que, quando um CEO humilde estava no comando, a equipe de diretoria tendia a ser mais colaborativa e a compartilhar informações, otimizando os talentos dentro da empresa.

Outro estudo demonstrou que a humildade de um líder pode ser contagiante: quando os líderes se comportam humildemente, seus seguidores reproduzem essa atitude e comportamento modestos. Um estudo de 161 equipes descobriu que os funcionários que seguiam líderes humildes eram mais capazes de admitir seus erros e limitações, de dividir as atenções e os aplausos com outros e de ser abertos a novas ideias, a sugestões e a feedback.

Mesmo assim, em vez de seguirmos a conduta desses heróis desconhecidos, parecemos programados para procurar super-heróis: enaltecendo demais os líderes que irradiam carisma.

A palavra grega kharisma significa “dom divino” e é a qualidade de quem tem extraordinário charme e magnetismo e uma presença capaz de inspirar os outros com entusiasmo e devoção. O sociólogo alemão Max Weber definiu carisma como sendo “de origem divina ou exemplar, e com base nessa definição, o indivíduo a quem nos referimos é tratado como líder”. Os resultados das pesquisas sobre liderança carismática revelaram que as pessoas assim dotadas são provavelmente mais propensas a serem aprovadas como líderes graças à sua grande energia, comportamento anticonvencional e feitos heroicos.

Apesar de o carisma conduzir grandes transformações positivas, pode haver um “lado perverso” negativo na liderança carismática. Jay Conger e Rabindra Kanungi o descrevem em seu influente livro “Charismatic Ledearship in Organizations” da seguinte forma: “Os líderes carismáticos podem sentir-se propensos ao narcisismo extremo que os leva a ter ambições grandiosas e egoístas. Uma investigação clínica revelou que, quando o narcisismo se alia ao carisma, os líderes tendem a abusar do poder e explorar seus seguidores. Outro estudo indica que os líderes narcisistas tendem a apresentar uma visão audaciosa do futuro, o que os torna ainda mais carismáticos aos olhos dos outros”.

Por que é mais provável, então, que tais líderes ascendam ao poder? Um estudo sugere que mesmo que sejam tidos como arrogantes, os indivíduos narcisistas projetam uma “imagem prototípica do líder eficaz”. Os líderes narcisistas sabem como chamar a atenção e gostam de ter visibilidade. As pessoas demoram para perceber que os indícios precoces de competência não correspondem à realidade dos fatos, de que o narcisismo do líder acaba por diminuir a troca de informações entre os membros da equipe e que sempre interfere negativamente no desempenho do grupo.

Não que não seja possível pessoas carismáticas e narcisistas se transformarem em bons líderes. Em algumas circunstâncias é possível que isso ocorra. Por exemplo, descobriu-se em um estudo que CEOs narcisistas “preferiam ações ousadas que chamassem a atenção e que resultassem em grandes ganhos ou grandes perdas”. Um líder narcisista pode propor um grande risco e uma grande recompensa.

O que também não significa que líderes humildes não possam ser carismáticos. Pesquisadores concordam que podemos classificar líderes carismáticos como negativos ou positivos, de acordo com sua tendência a lutar por interesses próprios ou do grupo. Esses dois tipos de liderança carismática também foram chamados de liderança personalizada e liderança socializada.

Mesmo que um líder carismático socializado tenha a aura de um herói, não é autoritário e tem um interesse genuíno no bem-estar coletivo. Em contrapartida, o heroísmo percebido no líder carismático personalista vem carregado de autoritarismo e narcisismo. É no momento em que os seguidores estão confusos e desorientados que tendem a estabelecer relações personalizadas com o líder carismático. Relações socializadas, por outro lado, são estabelecidas pelos seguidores com um sistema de valores claros que considera o líder carismático como o meio pelo qual se alcança a ação coletiva.

O problema é que escolhemos líderes carismáticos negativos com mais frequência do que a escolha que o risco que eles representam compensaria. Apesar da ideia de grandeza em torno de si mesmos, da pouca empatia, da tendência a querer dominar os outros e da exagerada noção de merecimento, seu carisma se revela irresistível. Seguidores desses super-heróis são enfeitiçados pelo seu talento: por meio de seu magnetismo, líderes narcisistas transformam seu ambiente em um jogo competitivo no qual seus seguidores também se tornam egoístas, dando origem ao narcisismo organizacional, como mostra um estudo.

Se líderes humildes são mais eficazes do que líderes narcisistas, por que escolhemos indivíduos narcisistas tantas vezes para nos liderar?

A hipótese do “romance da liderança” sugere que geralmente temos uma tendência com um viés para compreender acontecimentos sociais em termos de liderança e que as pessoas tendem a romantizar a figura do líder.

Minha própria pesquisa mostra que nosso estado psicológico também pode tornar tendenciosas nossas percepções sobre os líderes carismáticos. Altos níveis de ansiedade nos deixam carentes de carisma. Como consequência, as crises aumentam não só nossa procura por líderes carismáticos, mas também nossa percepção do carisma em líderes dos quais já somos seguidores.

Crises econômicas e sociais também podem ser um laboratório para pôr em teste líderes carismáticos. Elas criam condições de perigo e incerteza que parecem ideais para a ascensão de figuras carismáticas. Mas, ao mesmo tempo, também nos tornam mais vulneráveis às escolhas erradas. As crises e outros acontecimentos de grande carga emocional aumentam nossa propensão a romantizar a visão de grandeza dos líderes narcisistas. O paradoxo é que é aí que escolhemos apoiar exatamente os líderes com menos chances de nos conduzir ao sucesso. Em tempos de crise, é fácil ser seduzido por líderes que aparecem para nos resgatar, mas que possivelmente vão nos deixar às voltas com maiores problemas depois.

Apesar de isso parecer algo sem solução, há outra forma de encarar a situação. Em resumo, o fato é que temos os líderes que merecemos. Como elegemos e construímos coletivamente nossos líderes para satisfazer as próprias necessidades e desejos, podemos escolher a humildade ou o carisma socializado contra o narcisismo.
___________________________________________________________________________________
Margarita Mayo é professora de liderança e comportamento organizacional na IE Business School em Madrid. Foi destaque no Thinkers50 Radar como um dos 30 líderes inovadores a observar em 2017. Seu novo livro, Yours Truly: How to Stay True to Your Authentic Self in Leadership and Life (ainda sem tradução para o português) será publicado pela Bloomsbury em 2018.
___________________________________________________________________________________
Tradução: Flavia Machado

Share with your friends









Submit