Na quarta-feira 19 de junho participei como convidado do evento realizado pela Harvard Business Review Brasil e organizado pela Intinity Conferences sobre a transformação da liderança em ambientes complexos. Este evento veio em um momento histórico no Brasil no qual centenas de pessoas foram pacificamente às ruas para enviar uma forte mensagem aos seus líderes de governo sobre a falta de educação, de segurança, de saúde, excesso de corrupção e má gestão econômica. Compondo esse momento histórico, a presidente Dilma foi duramente vaiada no início da Copa das Confederações, exatamente no instante em que o evento era transmitido para todo o mundo e que se tornou o assunto mais discutido no Twitter atualmente. Fiquei absolutamente encantado especialmente por este evento estar em sintonia com dois temas tão importantes e caros para mim que são transformação e complexidade.

 O dia começou com duas sessões de keynote speakers internacionais, o primeiro deles sendo Peter Capelli, professor de administração da Wharton School. Peter começou apresentando o “erro de atribuição”, que leva as pessoas a culpar alguém muito mais do que as circunstâncias em que esta pessoa se encontra, e o “efeito Pigmaleão”, que ocorre quando, por exemplo, alunos que são estimulados por seus professores a fazer algo muito bem conseguem de fato fazê-lo e muito melhor do que aqueles que são categorizados como incapazes. Sua conclusão, portanto, foi a de que “o problema muitas vezes não é de liderança, mas de gestão.”

 A palestra foi muito interessante porque trouxe dados de sua pesquisa feita na Índia e na China. Na Índia, embora a sociedade seja extremamente hierarquizada, há um grande investimento nos funcionários. Continuando suas reflexões sobre a Índia no momento do “talk show”, o professor ressaltou que diferentemente nos EUA quando uma empresa tem um desempenho extraordinário é o CEO que aparece na capa das revistas de negócios. Na Índia, os CEOs não falam de si mesmos ou da equipe de liderança, mas ressaltam as competências existentes na organização. Ele também mencionou “jugaad”, que é um termo hindu que se refere à criatividade do povo da Índia na busca de soluções para superar, por exemplo, dificuldades comerciais, logísticas ou legais. Esta característica parece ser semelhante ao “jeitinho brasileiro” que em um sentido positivo refere-se à habilidade das pessoas de enfrentar desafios diários, a burocracia complexa, dentre outros.

 Na China, a cultura se baseia na crença da honestidade das pessoas, o que trás segurança para todos. Porém, na conclusão da pesquisa, apesar de haver transparência a China não desenvolve tão bem líderes. Peter não mencionou qualquer pesquisa sobre o Brasil, mas parece que a cultura chinesa é quase o oposto da cultura brasileira na qual apenas 6% das pessoas têm confiança nos outros provocando grandes problemas em muitos aspectos de negócio. O que foi extremamente surpreendente para mim se refere à observação que o professor fez sobre a Geração Y e os Millennials. Peter declarou especificamente que pesquisas relacionadas com esta nova geração não devem ser muito consideradas e, na verdade, são alarmes muitas vezes trazidos por consultorias. Para ele, os problemas que as organizações enfrentam hoje com a Geração Y são os mesmos problemas que as organizações enfrentaram no passado, uma vez que um jovem de 22 anos hoje não é diferente de um jovem de 22 anos de 10 ou 20 anos atrás. A solução para o alto turnover que ocorre nesse grupo é, para Peter, que os funcionários devem compartilhar os custos de treinamento com a empresa. Acredito, porém, que há muitos outros aspectos que uma organização precisa prestar atenção e que abordarei quando me referir à apresentação feita pela Maria Auxiliadora.

A palestra de Peter foi seguida por Anthony Mayo, professor de Administração de Empresas na Unidade de Comportamento Organizacional da Harvard Business School, e que falou sobre a inteligência contextual e inteligência emocional. Foi interessante em sua fala a observação de que quanto mais alto a pessoa está em uma organização menos pode ver com precisão a realidade, uma vez que é menos consciente dos fatos. É muito raro se ver pessoas discordando dos líderes ou dando feedback, além do fato de não existir ninguém acima para treiná-los ou guiá-los. Outra característica que lhes falta é a empatia, ou seja, a incapacidade de entender o ponto de vista dos outros, sendo mais propensos a serem “políticos”. Durante a sessão de talk show, eu fiz uma pergunta sobre Inteligência Emocional, já que no Brasil há uma característica emocional muito forte que marca as relações, e o que o Brasil pode aprender com a sua pesquisa. Anthony não vê diferenças específicas entre o Brasil e outras culturas ou países em relação à emoção, e que pessoas emocionais na verdade estão pedindo atenção.

Depois do almoço tivemos a palestra da Maria Auxiliadora Robinson, diretora de Educação da Symnetics que falou sobre como liderar pessoas em ambientes complexos e com mudanças constantes. Ela começou por afirmar quais são as qualidades que um bom líder deve ter no novo contexto em que estamos vivendo:

Lucidez perante a História para entender por que há uma necessidade de mudança;

  • Senso de realidade, de forma a saber o que mudar na organização;
  • Coerência baseada em valores para dar às pessoas a confiança necessária para mudar.

Sua ênfase se deu em mostrar que é possível criar um modelo mais orgânico, autêntico e legítimo de liderança focado em significado e propósito. Iniciando com uma reflexão sobre os principais fatores que nos levam a vivenciar hoje uma realidade mais complexa, Maria nos conduziu desde o surgimento do modelo mental linear até o período de fortes e constantes mudanças que agora estamos vivenciando.

Maria discutiu a mudança de modelo que privilegia o egocentrismo para o pensamento eco-centrado e apresentou a estrutura organizacional da Biomimética conforme o BCI Biomimicry for Creative Innovation Institute (www.businessinspiredbynature.com), que é baseada nos seguintes princípios de organização encontrados na natureza:

Resiliência

  • Otimização
  • Adaptação
  • Baseado em sistemas
  • Baseado em valores
  • Que procura manter a vida

Ela, então, apresentou empresas que já estão modificando suas formas de gestão e não mais adotando o paradigma de comando e controle tradicionais, que é baseado em hierarquia. Essas empresas estão implementando um outro modelo radicalmente diferente, baseado em estruturas organizacionais sustentáveis, estruturas estas que garantem a sobrevivê
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ia da organização tanto em momentos de oportunidades de mercado quanto de crise econômica. Maria falou sobre a Local Motors e seu modelo disruptivo de inovação, que é baseado no envolvimento das comunidades. Também, sobre a estrutura organizacional que faz emergir líderes da Gore Associates, o foco da Patagônia na sustentabilidade e consumo consciente e no Sistema de Gestão Amoeba da Kyocera. Esses estudos de caso foram colocados em um contexto dos desafios para a liderança, que para Maria se baseiam na necessidade de:

Transparência

  • Escuta ativa
  • Confiança e humildade
  • Flexibilidade
  • Visão e propósito

Este enfoque fez uma boa ligação com o que foi discutido na parte da manhã em termos dos desafios da inteligência contextual e emocional. Para terminar Maria discutiu a importância do diálogo como solução fundamental para problemas complexos. Sua inspiração vem do físico David Bohm, e Maria resumiu algumas das principais orientações de Bohm para se obter um bom diálogo. Eu ensino diálogo na Sustentare Escola de Negócios, e tenho dois dias para conduzir os alunos através de uma jornada de aprendizagem profunda, de tal modo que eles possam compreender exatamente quais habilidades um verdadeiro diálogo requer e que é ao mesmo tempo uma forma de solucionar problemas complexos e uma ferramenta para trabalhar com a criatividade coletiva.

Em seguida foi interessante fazer parte de uma dinâmica de estudo de caso que foi analisado em profundidade e facilitado por Alexandre Santille, o presidente da LabSSJ. Neste estudo de caso discutimos soluções de treinamento para executivos, tais como trabalho em rede, feedback, como influenciar pessoas, cooperação e empatia, etc, e ficou claro que o ego também desempenha um grande papel nos problemas enfrentados pelas organizações.

Após o estudo de caso tivemos a apresentação de Mauro Mercadante, diretor de Desenvolvimento de Projetos da LabsSSJ e que nos deu um breve resumo de uma pesquisa realizada pela LabsSSJ sobre jovens e as suas primeiras experiências em gestão. Foi extremamente interessante ver como esta pesquisa forneceu aos participantes a perspectiva brasileira com relação aos desafios de desenvolvimento de líderes e retenção de talentos, em uma economia emergente, que está experimentando as alegrias do crescimento, mas também suas dores. Esta apresentação foi seguida por uma segunda oficina facilitada por Arthur Diniz e Paulo Alvarenga, ambos fundadores da Crescimentum, empresa brasileira que foca no desenvolvimento de alta performance em líderes empresariais.

Gostaria agora de fazer algumas reflexões adicionais sobre o dia. Como fui convidado da Harvard Business Review seria fácil para mim terminar o artigo aqui, mas sinto que tenho algumas observações importantes a fazer a partir de uma perspectiva britânica e européia. Fui convidado a participar no ano passado de um evento pioneiro sobre Bioeconomia que foi realizado pela Harvard Business Review em parceira com a CNI e sobre o qual fiz uma revisão. Nessa oportunidade, fiz uma crítica à apresentação de Juan Enriquez, especialista mexicano baseado nos EUA e orador principal, bem como um elogio sobre a visão inovadora e sustentável de Pedro Passos, da Natura.

Neste evento sobre Liderança pude ver alguns paralelos com o evento de Bioeconomia. No ano passado, Juan Enriquez começou seu discurso enfatizando apenas quanto dinheiro os empresários brasileiros poderiam fazer da biotecnologia, e Peter Capelli nesse ano iniciou com um slide bastante grosseiro que destacava um único slogan “É tudo sobre dinheiro” – apenas isso – “É tudo sobre dinheiro”. Acredito que Maria Auxiliadora deveria ser parabenizada por ter levado a discussão para um nível muito mais elevado e inspirador, onde o propósito e a visão são fundamentais, mostrando alguns grandes exemplos de liderança orgânica e autêntica. Uma coisa que eu vejo muito no Brasil é um grande número de americanos que vêm aqui para ensinar, porém, sem muito conhecimento ou compreensão sobre a cultura brasileira. Novamente, acho que esse foi o caso no período da manhã. Penso, no entanto, que talvez a exacerbada valorização de todas as coisas norte-americanas está sendo enfraquecida aos poucos, e, de fato, foi o próprio Peter que disse que, na verdade, embora tudo o que foi apresentado pareceu um modelo norte-americano a ser copiado, provavelmente não é o que o Brasil precisa. “O Brasil já é competitivo e nem sempre deve olhar para os EUA em busca de modelos de liderança, pois tem muito a perder.”

Havia, certamente, muitos aspectos interessantes nas palestras de Peter e Anthony, mas eu senti que não havia nada realmente inspirador, não havia nada que revelasse novas realidades que estamos vivendo. A abordagem e estilo utilizados foram muito mais secos do que alguns outros pensadores visionários que eu sigo, como Gary Hamel, Alan Moore, Giles Hutchins e organizações visionárias, como Sparks and Honey, Holacracy, e Obvious. Também gostaria de reconhecer a visão da Harvard Business Review e da Infinity em ter Maria como palestrante, sendo a única mulher falando sobre liderança. Foi muito bom ver sua apresentação baseada em sua própria filosofia e visão de liderança, que é rica em propósito e valores humanos.

No geral, foi mais um dia fascinante e pleno de significado e que só poderia realmente ser compreendido e entendido como um todo em seu final. Havia alguns tópicos recorrentes muito interessantes que, embora não explicitamente demonstrados, ficaram muito evidentes para mim durante todo o dia e estes foram temas que pude acompanhar e ver se desdobrando em todas as palestras, apresentações e discussões. No futuro gostaria de ver um maior esforço por parte dos americanos que vêm fazer palestras no Brasil no sentido de tornar seu trabalho mais relevante para o contexto brasileiro e não somente apresentar suas pesquisas que são relevantes e adequadas para a mentalidade norte-americana. Acho que o tema liderança, como disse no início, é vital para o Brasil. Na parte da tarde ficou claro que o Brasil tem muitos pensadores visionários de alto nível e organizações que estão trazendo o que há de bom nos EUA e na Europa, mas também moldando e adaptando para a liderança brasileira que possui desafios relativos a um país paradoxal e de economia emergente que tem muito potencial e muito a oferecer ao resto do mundo em termos de liderança visionária e sustentável para o novo século. 

 

Simon Robinson foi cofundador da Genie Internet, o primeiro portal de internet para celular. Ele mora em São Paulo onde atua como consultor independente e professor de temas como inovação, estratégia, sustentabilidade e complexidade. É editor do blog www.transitionconsciousness.org.

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