O ano começa em situação precária. A economia mundial ora exibe indícios de recuperação, ora dá sinais de colapso. Muitas empresas parecem paralisadas​​. As americanas, por exemplo, estão com US$ 2 trilhões nos cofres — mas não querem saber de risco, andam estrategicamente incrementais e estão incrivelmente desprovidas de ideias novas.

Isso é péssimo. O mundo precisa, mais do que nunca, de originalidade e ousadia. É hora de audácia, não de austeridade.

Com isso em mente, pedimos a especialistas e líderes de várias disciplinas que propusessem ideias audazes para a solução de problemas grandes e complexos e, ao mesmo tempo, fazer avançar a economia e a sociedade como um todo. Embora sejam arrojadas, não são ideias quixotescas. São oportunidades de negócios reais. Não são mero palavrório; são deixas para o diálogo e para a pergunta por trás de toda revolução: por que não?

 

 

Quando antes que a economia afunde

Grau de dificuldade mais fácil que inventar títulos lastreados em hipotecas 

Obstáculo vontade política

 

Que tal investir no PIB?

Solução da crise da dívida americana é substituir T-bills por “Trills”. Robert J. Shiller

 

Para financiar investimentos e operações, uma empresa se vale de uma mescla de dívida e capital próprio. Já uma nação recorre exclusivamente ao endividamento. Quando sua economia empaca e a dívida segue subindo — algo muito comum ultimamente, como terá notado o leitor —, é desastre à vista para os contribuintes do país. Daí a crise na Europa no momento. Mas a coisa não precisa ser assim.

Sugiro uma alternativa audaciosa: substituir grande parte da dívida nacional corrente de um país por cotas do “lucro” de sua economia. Isso ajudaria a nação a administrar melhor suas obrigações financeiras e a prevenir futuras crises financeiras. Poderia até derrubar o custo de endividamento do país a longo prazo.

Essa ação nacional seria bastante parecida a ações de empresas negociadas em bolsa. Pagaria dividendos regularmente. O ideal é que fosse perpétua — ainda que o país pudesse comprar os papéis de volta no mercado aberto. A cotação da ação flutuaria diariamente, à medida que fossem saindo novas informações sobre a economia do país. A oportunidade de participar do crescimento econômico incerto do emissor pode muito bem motivar, em vez de assustar, o investidor — assim como ocorre no mercado acionário.

Junto com Mark Kamstra, da York University, no Canadá, mostrei como funcionariam essas novas ações nacionais. Sugerimos que paguem um dividendo trimestral exatamente igual a um trilionésimo do produto interno bruto de um país no trimestre, a medida mais simples da renda nacional. Poderíamos chamá-las de “Trills”.

Uma Trill emitida pelo governo americano, por exemplo, teria pago US$ 13,22 em 2010, em quatro parcelas trimestrais. O rendimento no futuro variaria, é claro. Se a economia surpreendesse para o bem, os dividendos subiriam; já se piorasse, os dividendos cairiam.

O mercado determinaria a cotação de uma Trill, que seria volátil. Isso dependeria não só do dividendo mais recente, mas também de expectativas de investidores para o futuro, que podem mudar minuto a minuto. Há certa evidência de que uma Trill em geral seria cara na comparação com o dividendo, o que seria bom para o governo emissor. Ações de muitas empresas americanas e as notas do Tesouro dos Estados Unidos de dez anos hoje custam mais de 50 vezes seu dividendo anual. Já que a taxa de crescimento real do PIB dos EUA foi maior do que o ganho real do S&P 500 no passado (3,1% de crescimento anual do PIB ante 2,5% de crescimento anual do S&P 500 no último meio século), uma Trill poderia muito bem ser vendida por um múltiplo também superior a 50.

A vantagem de fixar uma cota em um trilionésimo perfeito da economia é que o público saberia exatamente o que está recebendo: um trilionésimo de um país é algo concreto e fácil de entender. Essa clareza faria o investidor acreditar que artimanhas do governo não comprometeriam a obrigação.

Um investidor que comprasse uma Trill de cada país teria, na prática, aplicado no mundo inteiro e montado uma carteira perfeitamente diversificada. Além disso, é plausível que a Trill tivesse ainda mais apelo para o investidor internacional do que ações de empresas, já que a Trill evitaria o problema do risco moral. Explico: se investidores internacionais um dia detivessem boa parcela das ações de empresas de um país, tal país teria um incentivo para elevar o imposto sobre o lucro dessas ações ou para regulá-las para diminuir seu valor. Se assim o fizesse, o país se beneficiaria sem quebrar, tecnicamente, nenhuma promessa. A emissão de Trills, contudo, implicaria uma promessa clara e inequívoca de participação no valor para o investidor internacional. Se as ações pagassem dividendos na moeda do país, seria eliminado outro risco moral associado à dívida convencional. Um país não poderia gerar inflação para reduzir sua obrigação real, como pode fazer hoje com a dívida pública convencional, pois o PIB nominal aumentaria com a inflação.

Trills baseadas no PIB teriam o grande mérito de ser simples. Outras medidas da renda nacional podem parecer mais exatas do que o PIB, mas sacrificariam a simplicidade. Pode parecer um avanço calcular a renda nacional como o PIB subtraído de algum indicador nacional para custos. Isso teria o efeito de alavancar as Trills para que fossem mais voláteis e atraentes para investidores em mercados secundários.

Daria, por exemplo, para subtrair do PIB algum indicador pertinente do juro sobre a dívida nacional convencional para, assim, chegar à renda nacional. Afinal, empresas subtraem o gasto com juros para calcular seu lucro. No caso da Grécia, certamente teria ajudado ter uma Trill com base no PIB menos juros durante a recente crise; quando investidores resistiram a iniciativas de rolagem da dívida, o custo dos juros disparou, tornando uma situação já ruim ainda mais incontrolável. Por outro lado, computar o custo dos juros agrega uma complicação — e outro possível risco moral, já que poderia tentar um governo a manipular taxas de juros.

E, por falar em Grécia, que efeito as Trills poderiam ter tido durante a Grande Recessão e na esteira dela? O PIB real da Grécia caiu 7,4% em 2010. Se suas Trills tivessem considerável alavancagem — 5 para 1, digamos —, o dividendo pago sobre as letras teria caído cerca de 40%. Isso teria ajudado muito a mitigar a crise, que seria mais tolerável para o contribuinte grego. Teria dado à Grécia um socorro sem qualquer drama internacional ou promessas quebradas. Após o fato, investidores em Trills gregas não estariam felizes. Mas, ainda assim, podiam estar dispostos a comprá-las, devido ao potencial ganho de um investimento tão alavancado. O investidor busca avidamente ações alavancadas de empresas. Logo, é plausível que investisse também em Trills alavancadas.

O mercado de ações nacionais mudaria radicalmente o clima econômico. Cada novo plano do governo que afetasse o futuro da economia produziria uma resposta imediata do mercado, gerando uma discussão sobre o plano de desenvolvimento de cada país, bem como um fluxo de recursos internacionais rumo a governos com planos que passassem no teste do mercado.

Ao mesmo tempo, com a cotação de Trills subindo ou descendo a cada minuto, as ações nacionais poderiam parecer uma extensão perigosa do capitalismo financeiro — um sistema em certa desgraça no momento. Na verdade, porém, a implementação entusiasta do capitalismo financeiro está por trás de toda nação bem-
sucedida do planeta. Não devíamos fugir à criação de um verdadeiro mercado para países — mercado que espelharia o sucesso de nações com muito mais precisão do que o acionário. O mercado acionário representa apenas reivindicações sobre o lucro de empresas após a tributação, uma medida pouco confiável do sucesso de um país. Há um modelo melhor.

Robert J. Shiller é titular da cátedra Arthur M. Okun Professor of Economics na Yale University, nos EUA, e autor de Finance and the Good Society (Princeton University Press, no prelo).

 

 

Quando semana que vem 

Grau de dificuldade operacionalmente fácil, psicologicamente difícil 

Obstáculo ganância, teoria econômica

 

Desatrelar salário do desempenho

Evidência é esmagadora: esquema não funciona. Bruno S. Frey e Margit Osterloh

 

Estamos falando disso desde o colapso financeiro. Agora é hora de agir: de desatrelar a remuneração do desempenho. É cada vez maior a evidência de que pagar por desempenho não surte efeito. E mais: pode induzir executivos a assumir mais riscos capazes de afundar a empresa. Há maneiras de motivar o pessoal que dão melhor resultado a custo menor.

Graças sobretudo a cláusulas de vinculação ao desempenho, a remuneração de dirigentes empresariais disparou nas últimas décadas; já a relação com o desempenho real da empresa segue fraca como nunca. Isso vale sobretudo nos Estados Unidos: entre empresas do S&P 500 a relação entre o que o presidente recebe e o salário do trabalhador médio, que era de cerca de 40 para 1 em 1970, subiu para 325 para 1 em 2010. A relação não é tão extrema na maioria dos outros países, mas a tendência é idêntica. Abaixo do primeiro escalão, o descompasso entre remuneração e desempenho não é tão agudo. Mas todo esquema de remuneração variável atrelada ao desempenho tem quatro falhas inevitáveis:

1. Numa economia moderna, na qual novos desafios surgem constantemente, é impossível determinar que tarefas terão de ser desempenhadas no futuro com precisão suficiente para que a remuneração variável por desempenho funcione bem.

2. Indivíduos sujeitos à remuneração variável por desempenho não aceitam de forma passiva os critérios. Gastam muito tempo e energia tentando manipulá-los a seu favor, auxiliados pelo fato de que, não raro, conhecem mais os pormenores de seu trabalho do que os superiores.

3. A remuneração variável por desempenho costuma levar a pessoa a se concentrar exclusivamente em áreas abrangidas pelos critérios e a negligenciar outras tarefas importantes. É o que se convencionou chamar de o problema das “múltiplas tarefas”.

4. A remuneração variável por desempenho tende a abafar a motivação intrínseca e, portanto, o prazer de um trabalho gratificante. Essa motivação é de grande importância para a atividade empresarial, pois sustenta a inovação e incentiva a contribuição além do ordinário.

A tese de que o indivíduo trabalha apenas por dinheiro foi desbancada por sérios estudiosos. Estudos mostram que o ser humano não está interessado só em ganho material. Também se preocupa com o bem-
estar de outros indivíduos e gosta de ser reconhecido por colegas de trabalho. Muita gente se empenha no trabalho porque acha desafiante e valoroso o que faz. Essas motivações não materiais sugerem maneiras melhores de obter resultados dos integrantes de uma organização.

Uma delas é selecionar com mais atenção o pessoal, contratando gente que esteja realmente interessada ​no trabalho — e não aqueles cuja meta maior é ganhar o máximo possível. Outra abordagem é pagar um salário fixo, mas ajustá-lo com base numa avaliação abrangente do trabalho do indivíduo depois de um certo tempo. Isso evita o problema das múltiplas tarefas. No final do ano a empresa também pode distribuir parte dos lucros aos trabalhadores de acordo com sua contribuição para o desempenho geral, e não seguindo critérios predefinidos. Prêmios e reconhecimento também são bons para motivar. Estudos sugerem que, quando um prêmio é concedido, aumenta o esforço tanto entre os vencedores quanto entre os demais funcionários.

A remuneração variável por desempenho, ainda que na teoria pareça atraente, cria mais problemas do que resolve. Não há prova de que ajude a atingir os fins pretendidos, e outras abordagens não só surtem efeito melhor, mas também aumentam a lealdade do trabalhador.

Bruno S. Frey é titular da cátedra Distinguished Professor of Behavioural Science da Warwick Business School, no Reino Unido, e professor de economia da University of Zurich, na Suíça. Margit Osterloh é professora de ciência administrativa na Warwick Business School.

 

 

Quando antes que o bacalhau desapareça

Grau de dificuldade incrivelmente fácil 

Obstáculo burocracia nacional e internacional

 

Proibir exploração em  20% do oceano

Uma bela maneira de salvar a vida marinha — e a indústria da pesca. Enric Sala

 

Estamos consumindo peixe mais depressa do que o animal pode se reproduzir, despojando o oceano. Soluções convencionais, como impor restrições à capacidade de pesca, diminuir subsídios à indústria e adotar cotas sustentáveis,  são difíceis de implementar mundialmente.

Criar “bancos de peixes” — reservas marinhas nas quais a pesca seja proibida — que cubram pelo menos 20% do oceano é uma saída ousada para enfrentar o problema. Quando uma área do oceano é resguardada para se recuperar da pesca excessiva, os resultados são impressionantes. O número de espécies marinhas em bancos de peixes sobe 21%, em média; o peixe em si fica 28% maior, segundo dados de 124 reservas em 29 países. O volume de peixe por hectare cresce 166%, em média, e a biomassa de peixe, ou o peso total, sobe 446% nos dez anos subsequentes. Na maioria dos casos, essa biomassa continua subindo mais de 25 anos depois.

Também pode haver a propagação desses efeitos. Devido à biomassa maior e a taxas mais altas de reprodução de peixes no banco, áreas adjacentes volta e meia são revigoradas. A criação da reserva marinha da ilha de Columbretes, na Espanha, aumentou em cerca de 10% ao ano a captura em zonas de pesca adjacentes. Na mesma veia, depois da criação de cinco pequenos bancos de peixes em Santa Lúcia, a captura nas adjacências aumentou de 46% a 90%, dependendo do equipamento utilizado, num período de cinco anos.

Esses efeitos colaterais mais do que compensaram o prejuízo financeiro para pescadores devido à ​​criação de zonas de defeso. No Quênia e nas Ilhas Salomão, a renda da população vizinha a reservas marinhas dobrou em uma década. Reservas também atraem mais turistas. Os 345.400 quilômetros quadrados do Great Barrier
Reef Marine Park — dos quais 33% são uma reserva marinha — geram cerca de 5,5 bilhões de dólares australianos por ano em benefício econômico líquido e criaram mais de 50 mil empregos em tempo integral.

Bancos de peixes também ajudam a preservar benefícios do ecossistema oceânico como o sequestro de carbono. Aliás, projetos de “carbono azul” poderiam trazer receita adicional para comunidades locais através de mercados de carbono mundiais. Bancos de peixe não são a única resposta, é claro, mas devem ser um componente vital da carteira de soluções necessárias para o enfrentamento da crise atual.

Por último, bancos de peixes são uma solução barata. Segundo estimativas, o custo de criar e administrar reservas marinhas que preservem 20% do oceano pode ser de US$ 5 bilhões por ano — uma pequena fração dos subsídios que governos oferecem à indústria da pesca (mais de US$ 25 bilhões em 2003). Além disso, a receita adicional trazida por bancos de peixes deveria cobrir o custo de sua manutenção, tornando esses bancos uma oportunidade de negócios autossustentáveis — e não um sorvedouro de recursos, como projetos de conservação costumam ser vistos.

Reservas marinhas poderiam ser fáceis de criar se, em vez de depender de governos e de negociações mundiais, comunidades locais tivessem poder para criá-las e administrá-las. Autoridades teriam apenas de facilitar o processo, o que de bom grado deveriam fazer.

Parcerias público-privadas seriam uma forma eficaz de aplicar essa ideia em grande escala rapidamente. Empresas podem estar dispostas a investir em bancos de peixes, cobrindo perdas a curto prazo com lucros a longo prazo devido a capturas maiores, mais turismo e projetos de “carbono azul”. A criação de bancos de peixes converteria comunidades pesqueiras de predadoras em defensoras do mar, ajudando a proteger o maior ativo da Terra, o oceano.

 

Enric Sala é explorador-residente da National Geographic Society, nos EUA. É um dos editores de Shifting Baselines: The Past and the Future of Ocean Fisheries (Island Press, 2011).

 

 

Quando já 

Grau de dificuldade fácil 

Obstáculo aversão a risco

 

Dobrar aposta em start-ups

Capital de risco é mais sensato quando é mais ousado. Bruce Gibney e Ken Howery

 

A última década foi constrangedora para a indústria do capital de risco. Setenta e cinco por cento dos fundos não registraram ganho. Sob vários aspectos, o setor mudou para pior: ficou menos empreendedor e menos engenheiro e passou a aplicar menos do próprio dinheiro. Hoje, firmas de capital de risco estão mais interessadas em explorar a próxima bolha do que em investir em grandes empresas de tecnologia com metas de longo prazo e potencial para grandes avanços. Empreendedores respondem de forma condizente, criando clones de baixa tecnologia com alta probabilidade de serem financiados.

Com os dias de glória de Bell Labs, Xerox PARC e congêneres há muito encerrados, precisamos do capital de risco para ajudar a promover mudanças disruptivas. Para tanto, o setor terá de assumir riscos reais e bancar empresas nas quais acredita fervorosamente. Firmas de capital de risco precisam se portar mais como o Howard Hughes Medical Institute, que financia inovações científicas radicais por longos períodos de tempo — e menos como a agência americana National Institutes of Health, que prefere avanços incrementais, quase garantidos.

Se essa abordagem produzir não só grandes triunfos, mas também eventuais fiascos, que assim seja. É hora de o capital de risco voltar a ousar. Temos de achar e ajudar a sustentar negócios revolucionários que gerem mudanças transformadoras e criem bilhões de dólares em valor. É aí que reside o retorno. Vejamos três passos a serem tomados:

Cultivar paciência. Progresso de verdade exige tempo — e disciplina para não liquidar o investimento ao primeiro sinal de sucesso. Mark Zuckerberg insistiu na ideia de que o Facebook deveria seguir fechado e focar o crescimento em vez de abrir depressa o capital — e, como resultado, a empresa criou US$ 70 bilhões em valor que jamais teria visto se tivesse sido vendida logo cedo. Já a Amazon, se tivesse sucumbido ao escrutínio míope que se seguiu ao IPO, talvez jamais tivesse virado o Walmart da internet. Enquanto isso, empresas como Myspace, na pressa de achar uma saída para investidores, acabaram saindo totalmente de cena.

Durante períodos mais longos antes da saída, pode haver um número sofrivelmente baixo de cifras a apresentar a investidores. SpaceX e Palantir levaram anos para desenvolver suas transformadoras tecnologias e, a princípio, não exibiam nenhum dos indicadores em rápida ascensão (mas não raro frouxos) que tanto excitam o capital de risco. A maioria desses investidores não se dispunha a financiá-las (mas sim os Groupons da Moldávia). Clones e outras inutilidades exigem investimento tentadoramente baixo para demonstrar valor a curto prazo, mas isso só prova o simples — e em geral irrelevante — que são os problemas que resolvem.

Parar com consultoria. Um investimento não deve ser uma via para um capitalista de risco exibir o consultor da McKinsey que traz dentro de si. “Supervisão de adultos” é uma jogada de marketing do capital de risco que não ajuda ninguém. Em vez disso, o setor deve trabalhar para promover melhorias que ajudem todas as start-ups. Devíamos aumentar a mobilidade da mão de obra ao pressionar por uma reforma na lei da imigração [americana], ajudar a reduzir o peso da dívida estudantil e combater “trolls” de patentes.

Abraçar sensatamente o risco. Empresas que enfrentam grandes desafios podem fracassar de modo retumbante, mas como carteira trazem muito menos risco do que uma coleção de nulidades cujo maior mérito é naufragar silenciosamente. Empresas ambiciosas atraem os melhores engenheiros; sua visão inspira esses profissionais a dar duro de um jeito que retornos financeiros jamais conseguiriam. Ao criar vantagens tecnológicas duráveis, uma empresa dessas pode, com o tempo, conseguir o gigantesco retorno necessário para compensar insucessos na carteira.

Para capitalistas de risco, um modelo de negócios ousado é um modelo melhor. É hora de o capital de risco levar a sério seu papel no mundo.

Bruce Gibney e Ken Howery são sócios da Founders Fund, firma de capital de risco americana que investiu em nomes como Facebook, Palantir, SpaceX, Spotify e ZocDoc.

 

 

Quando 20 anos 

Grau de dificuldade considerável 

Obstáculo know-how científico

 

Eletrificar a base  da pirâmide

Um pouco de energia promoverá muito crescimento. Arun Majumdar

 

No mundo todo, cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivem sem eletricidade. Estão, literal e figurativamente, fora da rede, sem um recurso básico tão vital para o desenvolvimento econômico e o bem-estar. Só que ampliar essa malha nem sempre é prático — em muitos casos, questões logísticas e altos custos tornam a expansão quase impossível. A solução? Promover a geração local e autossuficiente de energia a custo acessível e criar sistemas de armazenagem que possam suprir eletricidade onde quer que seja necessário.

O gráfico na página ao lado ajuda a ex­pli­car por que é tão importante para empre­sas e governos investir nessa meta. Nele, vemos a correlação entre o consumo de eletricidade per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um amplo indicador de bem-estar que se pauta por expectativa de vida, alfabetização, grau de escolaridade e padrão de vida.

Quanto maior o consumo de eletricidade de um país, maior o bem-estar de seus cidadãos. A eletricidade não produz bem estar, é claro. Mas é um tremendo viabilizador. Quando tem luz para poder estudar e trabalhar após o anoitecer, refrigeração para preservar alimentos e medicamentos, bombas e purificadores para irrigar a terra e produzir água potável e celulares e computadores para acessar recursos comerciais, educacionais e de saúde, a população pode participar mais plenamente de atividades sociais e econômicas que promovem o desenvolvimento humano.

E um pouquinho de eletricidade já ajuda muito. Veja que quando o consumo anual sobe de zero para poucos milhares de quilowatts-hora per capita, o país vai lá para o alto da escala do IDH. A Argentina, com consumo per capita de cerca de 2.500 kWh, tem um IDH próximo ao do Canadá, cujo consumo é sete vezes maior.

Economias emergentes como Índia, China e Brasil têm programas agressivos de eletrificação rural. Descobriram, porém, que instalar milhares de quilômetros de fiação ou queimar um diesel caro em geradores ineficientes não é necessariamente a melhor maneira de levar eletricidade a comunidades remotas. Sistemas autônomos de geração de energia que empreguem recursos locais — sobretudo de fontes renováveis como solar, eólica, biomassa e hidrelétrica — soam cada vez mais atraentes nessas circunstâncias. Mas, com essas energias renováveis, há um porém. Quando o sol se põe ou está oculto por nuvens, ou quando o vento deixa de soprar, a luz se apaga. E quando esses sistemas produzem mais eletricidade do que está sendo usada em um dado momento, o excedente é perdido.

A solução está na armazenagem. Assim como o celular se adiantou à telefonia fixa e levou a telecomunicação a milhões de pessoas em zonas remotas, sistemas autônomos movidos a bateria poderiam tomar o lugar da eletrificação com cabeamento. Imagine um painel fotovoltaico e uma bateria de alta capacidade e baixo custo em toda casa de todo vilarejo perdido no mapa.

Uma agência do Departamento de Energia americano, a Advanced Research Projects Agency (ARPA-E), está investindo pesado na pesquisa de baterias de nova geração com a meta de criar modelos de maior eficiência e custo expressivamente menor. Embora essa pesquisa seja movida por interesses de economias desenvolvidas — sobretudo aumentar a autonomia de veículos elétricos e a armazenagem na rede elétrica —, baterias melhores e mais baratas vão ajudar a abrir vastos e novos mercados na base da pirâmide. Obviamente, o desafio é mais complicado do que meramente descobrir como armazenar energia. Há imensos obstáculos econômicos e tecnológicos a superar. Mas quem teria imaginado, 20 anos atrás, que bilhões de indivíduos em economias em desenvolvimento se juntariam à conversa mundial com seus celulares? Há uma boa chance de que em 20 anos mais centenas de milhões de pessoas hoje fora da rede elétrica dependerão da geração local de eletricidade e da armazenagem dessa energia para abastecer luzes, geladeiras e telefones  de forma confiável — unindo-se, sem fiação, ao mundo eletrificado.

Arun Majumdar é diretor da agência americana Advanced Research Projects Agency—Energy (ARPA-E).

 

Quando até 2020 

Grau de dificuldade hercúleo 

Obstáculo agroindústria

 

Mais maçã e menos milho

Uma mudança simples para acabar com a obesidade e a fome. Ellen Gustafson

 

O sistema alimentício moderno está ruindo. Nas últimas três décadas, o crescimento do processamento industrial de alimentos, o sumiço de propriedades agrícolas de pequeno e médio portes e a superprodução de commodities agrícolas subsidiadas como milho e soja nos deixaram com uma fartura da comida errada. Não espanta que estejamos às voltas com duas epidemias irmãs: fome (em regiões onde a comida é escassa) e obesidade (em áreas nas quais a comida a preços acessíveis é altamente processada ​​e baixa em nutrientes).

Que providências podemos tomar? Primeiro, é preciso acabar com os subsídios que favorecem a superprodução de milho, soja, trigo e algodão — e substituí-los por incentivos a uma agricultura mais diversificada e saudável. Hoje, apenas 10% das compras em supermercados nos Estados Unidos são de frutas e verduras; nada impede que essa parcela suba para metade até 2020, conforme recomendação do USDA (o Departamento de Agricultura americano).

Para chegar lá, também é preciso achar um meio-termo entre o grande agronegócio — global, eficiente, mas não raro pouco nutritivo — e a agricultura local, em pequena escala. Será preciso regionalizar a oferta de alimentos. Produtores locais podem unir forças para competir em escala regional; já multinacionais terão de incluir fornecedores regionais e locais na cadeia de suprimento.

Essas duas mudanças já estão em curso. Nos EUA, um serviço na internet batizado de Local Orbit permite que o cliente compre alimentos de vários produtores e fornecedores locais de uma só vez. Já a Unilever pretende inserir meio milhão de pequenos agricultores em sua cadeia de suprimento até 2020 — estratégia inteligente que ajuda a empresa a garantir fontes diversas e sustentáveis ​​de matéria-prima.

Mudar aquilo que comemos nos deixaria mais saudáveis e, assim, derrubaria o gasto com saúde. A regionalização também aumentaria a segurança alimentar e reduziria o custo, em carbono, do transporte de alimentos. Mas esses argumentos não parecem suficientes para promover a mudança. Que tal, então, pensar no seguinte: a reestruturação do sistema alimentício seria um forte estímulo ao desenvolvimento econômico a nível local e regional no mundo todo. Nossa dieta é ligada àquilo que produzimos — e a economia também. Se mudarmos o que botamos no prato, podemos mudar o mundo.

Ellen Gustafson é fundadora e diretora executiva da 30 Project. Foi uma das fundadoras da FEED Projects e da FEED Foundation e trabalhou para o Programa Mundial de Alimentos da ONU.

 

Quando prazo em aberto 

Grau de dificuldade incrivelmente difícil

Obstáculo a própria nasa

 

Dar à Nasa uma missão de verdade

EUA estão botando dinheiro na coisa errada. Gregg Easterbrook

 

A Nasa (National Aeronautics and Space Administration) precisa de uma nova missão. O programa do ônibus espacial acabou. A estação espacial parece ser o mais caro elefante branco da história. Até as convenções de nomenclatura da agência americana carecem de visão: “Estação Espacial Internacional” foi o melhor que conseguiu inventar? O nome do problemático projeto do telescópio espacial avançado, cujo custo já foi multiplicado por sete, não rende homenagem a um grande astronauta, cientista ou explorador, mas a um ex-diretor da agência, James Webb. Webb fez um bom trabalho, mas uma organização que batiza um projeto com o nome de um burocrata é uma organização sem imaginação.

E se Barack Obama desse à Nasa a missão nova e inspiradora de mandar gente para Marte? Embora tecnicamente possível, uma viagem a Marte custaria absurdamente caro nesse momento. Se houvesse um jeito mais barato de entrar em órbita, inúmeras oportunidades de negócios no espaço poderiam ser abertas. No momento, são poucas essas oportunidades. A SpaceX, start-up tocada por Elon Musk, fundador da PayPal, está investindo em foguetes totalmente particulares, mas por ora o único cliente é o governo — que precisa levar carga para a estação espacial. Um dia, recursos como o gás hélio-3 poderiam ser extraídos da Lua — mas faltam décadas para que tal dia chegue. O turismo espacial já atraiu muita atenção, mas até aqui todo projeto nessa área buscou construir máquinas voadoras que se limitam a flanar brevemente pela camada superior da atmosfera. Na prática, estão criando aviões para altíssimas altitudes.

Tanto Marte como negócios no espaço estão fora do alcance porque ninguém até hoje resolveu um problema fundamental: o custo de colocar massa em órbita. Engenheiros gostam de dizer que a órbita baixa da Terra é “meio caminho andado para qualquer destino no sistema solar”. A energia necessária para vencer a gravidade da Terra e posicionar um objeto 320 quilômetros acima do nível do mar é aproximadamente a mesma que a exigida para despachá-lo de lá para qualquer dos planetas. Mas o custo desse lançamento em órbita é extremo. Precisamos de um método de propulsão de baixo custo para tornar realidade um sonho como a viagem a Marte.

Motores de foguetes mudaram pouquíssimo de 1960 para cá. Todo projeto atual de nave destinada ao espaço emprega métodos de propulsão muito parecidos aos usados ​​durante a corrida à Lua. Entre os foguetes atuais, os mais baratos custam mais de US$ 20 mil por quilo de carga útil colocada em órbita.

Considere que os três astronautas hoje a bordo da estação espacial recebem, cada um, dois litros de água potável por dia. Logo, custa cerca de US$ 125 mil colocar os seis litros de água que os astronautas bebem diariamente em órbita. Tin-tin! E isso é só para transportar água engarrafada por 320 quilômetros. Uma missão a Marte tripulada poderia custar U$S 1 trilhão (veja “Espaço: uma fronteira cara”). Todo presidente americano desde Ronald Reagan checou essas cifras. É por isso que nenhum endossou nada além do estudo da viagem a Marte.

Uma ressalva: não está claro que uma forma radicalmente nova de propulsão ao espaço possa ser inventada. Muitas ideias deram em nada, incluindo a do combustível “densificado” e a do motor “aerospike”, cujas propriedades técnicas mudam de acordo com a altitude. Nas décadas de 1980 e 1990, iniciativas para construir veículos que voariam direto para o espaço como uma aeronave (“single stage to orbit”) não deram fruto. A propulsão nuclear poderia funcionar — mas só quando já no espaço. Alçar o objeto pelos primeiros 320 quilômetros ainda é a questão. “Velas solares” sofrem do mesmo problema.

Ideias excêntricas também já foram aventadas. Uma é usar lasers que disparariam energia para um foguete em ascensão. O favorito da ficção científica é o “skyhook”: um contrapeso em órbita elevada ligado a um cabo que puxaria objetos para o espaço. Aliás, o leitor por acaso saberia de algum material que pudesse ser usado ​​para fabricar um cabo de 37 mil quilômetros de extensão capaz de suportar um bom peso?

Seja como for, o fato de que a propulsão é um grande desafio científico e de engenharia não significa que a Nasa não deva tentar. Desde que o programa do ônibus espacial teve início, boa parte da ênfase da agência foi manter subsídios a fornecedores atuais e distritos congressionais. Pouca ênfase foi dada à busca de novas ideias. Na década de 1960, o Marshall Space Flight Center, no Alabama, criou os motores e a estrutura revolucionários do foguete lunar Saturno V. Nas últimas décadas, o centro se dedicou basicamente a burilar projetos existentes. A Nasa não fez da busca de saltos na propulsão uma prioridade.

No momento, o corpo de astronautas tem pouco a fazer. Por que não tirar US$ 1 bilhão ou US$ 2 bilhões da verba anual para viagens espaciais tripuladas e aplicar essa soma na pesquisa sobre a propulsão, com metade da verba indo para centros de engenharia da Nasa e a outra para empresas privadas? A formação de astronautas poderia ser suspensa ou reduzida a um mínimo para liberar os fundos necessários.

Qualquer futuro grandioso no espaço exigirá um jeito mais econômico de chegar lá. Achar maneiras fundamentalmente novas de entrar em órbita colocaria a Nasa na rota de um amanhã útil. Quando a revolução na propulsão chegar, o cosmo ainda estará lá.

Gregg Easterbrook é editor contribuinte das revistas Atlantic e New Republic. Seu livro mais recente é Sonic Boom (Random House, 2009).

 

 

Quando antes que consumidor se rebele 

Grau de dificuldade fácil

Obstáculo investimento anterior em crm

 

Parar de colher dados de clientes

Deixe o consumidor controlar sua informação pessoal. Doc Searls

Há anos empresas vêm acumulando e vasculhando dados pessoais de clientes, munidas de técnicas cada vez mais sofisticadas e agressivas e deslumbradas por fantasias de “personalização” do marketing no maior grau possível. O cliente, naturalmente, vê a tendência como uma brutal invasão de privacidade e começa a se negar a fornecer informações corretas — ou qualquer informação que seja.

Mas a principal razão para uma empresa abandonar essa prática não é que seja falta de educação, mas sim que ela, a empresa, em breve já não terá o controle desses dados. O cliente terá. E, quando isso ocorrer, a empresa vai colher frutos ainda maiores do que colhe hoje.

Eis o porquê: quando o cliente detiver e controlar os próprios dados, a deman-
da vai determinar a oferta com mais eficiência do que a oferta hoje determina a demanda. O cliente não só vai reunir e administrar os próprios dados, mas estará equipado com ferramentas para declarar sua intenção diretamente ao mercado inteiro, sem ter de pular de loja em loja ou de site em site buscando o que deseja.

Nessa “economia da intenção”, o cliente vai determinar o produto que quer, o preço que aceita pagar e os termos de interação que exige. Esses termos vão incluir tanto permissões como restrições quanto à utilização de seus dados. Como resultado, o diálogo no mercado vai ser muito mais pessoal, substantivo e livre de manipulação do que cupons, promoções para gerar tráfego e irritantes mensagens “personalizadas” que o consumidor hoje recebe — com base na interpretação do rastro de dados que vai deixando.

Essa mudança vai ser assustadora para muitos. Vai destruir as engrenagens do marketing em sua forma atual. Mas também vai melhorar o marketing ao fomentar a busca de meios novos e melhores de dialogar com o cliente — meios que satisfaçam diretamente uma demanda real, influenciem o desenvolvimento de produtos e criem uma lealdade verdadeira e de mão dupla.

Doc Searls é fellow do Berkman Center for Internet and Society (Harvard University) e autor de The Intention Economy: When Customers Take Charge (Harvard Business Review Press, no prelo).

 

 

 

Quando já 

Grau de dificuldade fácil 

Obstáculo natureza humana

 

Morrer como bem entender

Assumir as rédeas de seus dias finais alivia o fardo de todos. Ellen Goodman

Se há uma condição que todo mundo divide nesse vasto, diverso e conturbado mundo é a mortalidade. Cada um de nós pode afirmar com absoluta certeza que irá morrer.

Embora todo mundo saiba disso, demoramos demais em reconhecer que muitos daqueles que amamos não morrem do jeito que gostariam. Em pesquisas, por exemplo, 70% das pessoas proferem o desejo de morrer em casa — embora 70% acabem morrendo em hospitais ou lares de idosos. “Morrer em casa” significa não só onde o indivíduo quer morrer, mas como: em conforto, entre aqueles que o querem e fazendo o que importa pelo maior tempo possível. Pouquíssimos de nós viram um ente querido ter o que poderíamos chamar de uma “boa morte”. Em vez disso, essa morte não raro nos traz culpa, depressão e um mau presságio sobre aquilo que poderia vir a ser nossa própria experiência.

Logo, se quisermos enfrentar um problema que afeta a todos, pensemos grande. Se quisermos transformar a saúde, mudemos nosso modo de morrer.

É essa a meta da iniciativa Conversation Project, que teve início com um grupo de cuidadores, religiosos, jornalistas e mais gente compartilhando histórias. Falamos sobre o trauma de lidar com uma série infindável de decisões médicas diante da incerteza quanto àquilo que o ente querido desejaria. Agora, em conjunto com o Institute for Healthcare Improvement, traçamos uma meta simples e transformadora: formalizar e respeitar o modo como todo cidadão quer terminar a vida.

A nosso ver, a deixa para iniciarmos essa mudança dramática é a disposição a discutir, como indivíduos, membros de uma família e cultura, aquilo que queremos quando “a hora chegar”, como se costuma dizer. O primeiro lugar para ter essa difícil conversa não é no consultório do médico — médico não raro pouco à vontade com o tema e despreparado para tal conversa. E muito menos na sala de emergência ou na UTI. É, antes, na mesa da cozinha. Lá podemos falar não só sobre intervenções que queremos ou não, sobre “medidas extremas” e conforto, mas também sobre valores, anseios e expectativas para nossos últimos dias. Ali podemos falar de nossos desejos àqueles que importam e que podem acabar falando por nós.

Já fizemos grandes mudanças culturais antes. Uma geração atrás, as americanas transformaram o nascer. E não porque os médicos tenham tirado a mulherada dos estribos, nem porque hospitais tenham dado as boasvindas aos pais e suas filmadoras. Nenhuma instituição sugeriu iluminação suave e “doulas”. Nada disso: foi a mulher que reconheceu que havia um caminho melhor e fez questão de mudar sua própria experiência.

Hoje, estamos reconhecendo que nossa experiência ao morrer é igualmente ruim e que também precisa ser mudada.

Transformar o que é regra não vai ser fácil. Ainda tomamos parte numa conspiração de silêncio e negação. Pais relutam em preocupar filhos adultos; filhos não se sentem à vontade para falar de morte com os pais. Na tentativa de proteger o outro, volta e meia acabamos sozinhos, na incerteza.

A iniciativa Conversation Project quer criar um movimento que torne essa conversa mais fácil, com um fórum para a partilha de histórias, uma campanha de marketing e recursos para deflagrar a conversa e guias para ajudar quem não sabe por onde começar.

Se fizesse parte de um catálogo de cursos, nossa audaciosa ideia estaria listada na área de humanidades, não de economia. Sabemos, no entanto, que 25% de todas as despesas no sistema americano Medicare são feitas pelos 5% dos indivíduos que estão em seu último ano de vida. Um estudo mostrou que simplesmente travar essa conversa pode derrubar em 36% o custo de cuidar de um doente com câncer em estágio terminal. Outro estudo concluiu que a conversa com vítimas do câncer na última semana de vida poderia, por si só, fazer uma diferença de US$ 304 milhões por ano. Estudos também já mostraram que quem trava esse tipo de conversa costuma optar por tratamentos menos agressivos — e ainda assim viver mais tempo.

Falar sobre morte e dinheiro volta e meia faz surgir o espectro do “painel da morte”. O debate público sobre o sistema de saúde se vale do vocabulário do corte de custos e do racionamento — aquilo que a reforma da saúde tiraria do paciente. Mas e se pudéssemos abandonar esse molde? Eis aqui uma área na qual deixar o paciente decidir poderia resultar em custos menores — financeiros e emocionais. Ao respeitar o desejo de quem vai morrer, talvez sejamos até capazes de restituir a confiança no sistema médico. E, acima de tudo, poderíamos garantir uma morte mais humana.

Logo, nossa ideia audaciosa é uma pergunta simples: você já teve essa conversa?

Ellen Goodman é uma premiada jornalista americana e cofundadora da iniciativa Conversation Project.

 

 

Quando em uma década 

Grau de dificuldade xadrez em quatro dimensões

Obstáculo desconfiança e diferenças culturais

 

Agir com a China no Afeganistão

É hora de uma grande estratégia para o sul da Ásia. Wayne Porter

 

Dez anos atrás, tropas americanas entraram no Afeganistão para lidar com uma clara ameaça à segurança dos Estados Unidos. Hoje, nossa presença ali ainda é fortemente voltada à segurança e à tentativa de conter a violência entre facções que há muito assola o país. A abordagem americana ao Afeganistão é reativa e calcada no passado. É como se estivéssemos dirigindo um Humvee por uma via congestionada e desconhecida com o olho pregado no retrovisor — batendo em tudo quanto é carro estacionado e maldizendo todo motorista imprudente a nossa volta.

Os EUA precisam abandonar a obsessão com a ameaça que tememos que chegue por trás e começar a olhar para as oportunidades à frente. E uma maneira de fazer isso é se unir a uma nação que já encara o Afeganistão basicamente em termos de oportunidades: a República Popular da China.

É patente que a China vê um imperativo estratégico no sul da Ásia. Nos últimos 30 anos, o país cultivou uma relação estreita com os paquistaneses. Com a ajuda deles, ergueu em Gwadar um porto comercial em águas profundas que lhe dá acesso ao Oceano Índico e pode, a certa altura, servir de porta de entrada para um sistema rodoviário e ferroviário ligado à China. A China também pretende erguer oleodutos e gasodutos até o Golfo Pérsico — que, assim como estradas e ferrovias, teriam de passar pelo Afeganistão, pelo Paquistão ou por ambos. Por último, o país está investindo somas expressivas ​​no Afeganistão para obter direitos de exploração mineral e a energia hidrelétrica necessária para extrair cobre, ferro, ouro e elementos terras raras para a indústria chinesa. Enquanto isso, tropas dos EUA e da Otan estão garantindo segurança de facto a investimentos da China no Afeganistão sem qualquer recompensa tangível — e ao custo de muitas vidas e bilhões de dólares.

Raramente (ou nunca) se considera que o interesse americano no Afeganistão vai além de negar um porto seguro para a Al Qaeda e outros terroristas. O país oferece, contudo, oportunidades estratégicas para ajudar a estabilizar o sul da Ásia, deter o fluxo de narcóticos perigosos, ampliar um mercado rentável para investidores americanos, equilibrar o poder numa região volátil do planeta e restaurar a credibilidade americana no mundo islâmico. Curiosamente, a retirada militar dos EUA do Afeganistão pode depender dessas mesmíssimas oportunidades. É de nosso interesse, tanto na questão econômica como na de segurança, ver o sul da Ásia e o Afeganistão prosperarem.

Dessa perspectiva, daria para dizer que os interesses da China no Afeganistão convergem com os dos EUA em grande medida. Ao investirem em infraestrutura e mineração no Afeganistão, os chineses estão contribuindo para o fortalecimento da economia local; talvez pudessem ser convencidos a ajudar a formar uma mão de obra qualificada no país, em vez de importar trabalhadores da China. Se promovessem iniciativas econômicas e investimentos comerciais na indústria afegã (incluindo extração mineral, energias alternativas e agricultura), os EUA poderiam incentivar os chineses a trabalhar com o país para fortalecer o mercado de trabalho e a economia afegãos. Os chineses poderiam, por exemplo, comprar equipamentos e serviços de mineração e transporte de empresas americanas, contribuindo ao mesmo tempo para programas de treinamento profissional para afegãos com patrocínio internacional.

Uma presença chinesa mais forte no Afeganistão daria ao Paquistão outro grande aliado com armas nucleares para compensar a suposta ameaça da Índia — reduzindo assim sua motivação para subsidiar grupos extremistas violentos e manter um grande arsenal nuclear. Embora a Índia — aliada estratégica dos EUA no sul da Ásia — fosse gostar menos do que o Paquistão de uma presença maior da China no Afeganistão, o país talvez visse na China um vizinho mais previsível (e rico) e um aliado na luta contra o terrorismo islâmico.

Dentro do contexto de fortes relações estratégicas entre EUA e Índia e EUA e Paquistão, uma parceria EUA–China no Afeganistão poderia promover uma détente multimodal entre nações com armas nucleares no sul da Ásia e dar um impulso econômico estabilizador para a região. Além, é claro, de abrir a oportunidade para que vejamos a rua à frente em vez de fixar o olho no caminho já percorrido.

Wayne Porter é capitão da Marinha americana e professor de estratégia e complexidade sistêmicas na Naval Postgraduate School. Opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem a política oficial ou a posição do governo americano ou do Departamento de Defesa dos EUA.

 

 

Quando no prazo de dez anos 

Grau de dificuldade médio 

Obstáculo reguladores

 

Matricular o mundo em faculdades com fins lucrativos

Crescimento e riqueza virão na esteira. Parag Khanna e Karan Khemka

No mundo todo, a proporção da população de um país matriculada em faculdades e universidades é diretamente ligada à riqueza da nação. Em mercados emergentes como Índia e China, a renda e a matrícula no ensino superior vêm subindo lado a lado nos últimos anos. Embora correlação não implique necessariamente causalidade, a lógica do argumento de que o ensino superior aumenta a produtividade e a renda é clara: a educação cria capital humano, o que promove o crescimento econômico. É por isso que injetar muito mais dinheiro em instituições de ensino superior com fins lucrativos pode avivar a economia mundial e dar grande retorno.

Economias emergentes não precisam do capital humano que universidades tradicionais de países ricos produzem; em vez de generalistas, precisam de profissionais qualificados com formação relevante para atividades em desenvolvimento no país, em geral em engenharia e administração. Copiar o modelo do mundo rico é um luxo que os emergentes não podem se dar, pois seus recursos são limitados. Instituições privadas com fins lucrativos oferecem, via de regra, cursos que permitem ao graduado satisfazer uma escassez de qualificação no mercado. Além disso, são projetadas para serem sustentáveis e permitirem o aumento da escala. Instituições de ensino superior privadas em mercados emergentes conseguem financiar a expansão e investir em qualidade para competir com instituições públicas. São a melhor saída para um mercado emergente montar uma força de trabalho qualificada, criar mais empregos, ampliar a base de consumidores e, em última instância, sustentar o crescimento econômico.

Ao mesmo tempo, o ensino superior com fins lucrativos cria oportunidades imensas que o investidor só agora começa a enxergar. Um empreendimento desses tem cinco características que raramente são encontradas em uma única empresa:

1. Capital de giro negativo. Alunos começam a pagar mensalidade no começo do semestre ou do ano.

2. Receita constante, previsível. Alunos permanecem por toda a duração do curso, em geral de quatro anos.

3. Barreiras elevadas à entrada. O que inclui regulamentação, instalações e capital.

4. Preços sobem a ritmo mais acelerado do que inflação.

5. Mais demanda que oferta.

Em mercados emergentes, o ensino privado já é uma indústria em crescimento, altamente rentável e que movimenta bilhões de dólares. Na Índia, por exemplo, uma única universidade pode ter receita de até US$ 150 milhões com margem de lucro de 50% e taxa interna de retorno de 35%. Na Malásia, o ensino superior particular é um mercado de US$ 2,4 bilhões, ou cerca de 1% do PIB do país. Fundos de private equity como o Actis na China e o GP Investments no Brasil detêm participação em novas universidades privadas sendo criadas no leste da Ásia e na América Latina.

Ainda assim é baixa, em geral, a consciência da oportunidade. Há espaço para a atuação de muito mais investidores privados. E o poder público poderia fazer muito mais para incentivar o crescimento do setor.

Em certos países, as autoridades limitam a expansão das particulares ou o potencial de investimento nessas instituições. É contraproducente. O investimento privado no ensino superior eleva a matrícula. Na China, instituições com fins lucrativos podem entrar no mercado de educação desde 2001. O governo chinês criou leis, estruturas fiscais e órgãos reguladores específicos para respaldar tanto entidades estrangeiras como chinesas no mercado. De 2000 a 2008, a matrícula no ensino superior na China cresceu 21%; já na Índia, onde o ensino superior com fins lucrativos tecnicamente não é permitido (obrigando empresários do setor a buscar “jeitinhos” como sociedades de gestão que servem as universidades), o aumento no mesmo período foi de apenas 7%.

Já que a educação costuma ser valorizada por seu aporte social, é imperativo que instituições de ensino prestem contas tanto a alunos como a cidadãos. No entanto, a necessidade econômica de expandir o ensino superior no mundo em desenvolvimento torna essencial, para dirigentes políticos, educadores e a comunidade de investimento, trabalhar juntos para preencher a grande lacuna mundial na educação com instituições privadas voltadas ao lucro.

Parag Khanna é membro do corpo de pesquisa da New America Foundation e autor de How to Run the World (Random House, 2011). Karan Khemka é diretor, para a Ásia, do Parthenon Group e chefia o departamento de ensino em mercados emergentes da firma.

 

Quando em cinco anos 

Grau de dificuldade menor do que se imagina

Obstáculo ceticismo da sociedade

 

Pagar empresas para diminuir população carcerária

Reduza reincidência no crime com apelo do lucro. Eric Schmidt

 

É difícil achar um indicador que seja de que o sistema prisional americano esteja funcionando. Hoje, 2,3 milhões de americanos — cerca de 1% da população adulta dos Estados Unidos — estão atrás das grades; é o maior índice de encarceramento do mundo. O sistema prisional no país custa ao contribuinte US$ 68 bilhões ao ano, 336% mais do que 25 anos atrás. Os EUA colocam mais jovens na prisão do que qualquer outro país. O índice de reincidência em três anos gira em torno de 68%. Estudos revelam que em estados que mais prendem a criminalidade cai menos. A Califórnia gasta mais em presídios do que em educação.

Em vez de escorar um sistema falido, deveríamos pensar de forma ousada em como impedir que a pessoa cometa crimes e diminuir a reincidência. Para tanto, a iniciativa privada deve intervir. Não sugiro que empresas privadas administrem prisões. Isso já foi feito, com resultados nada inspiradores — o que não surpreende, pois incentivos a gestores privados de presídios têm pouco a ver com a redução do crime ou da reincidência. Mas uma nova saída — títulos de impacto social — poderia mudar a equação.

Vejamos como seria o esquema: o governo ofereceria esses títulos a investidores — em geral, fundações — que apostariam na capacidade de empresas, grupos comunitários e outras partes qualificadas de prestar serviços ao sistema, como educar presos que não concluíram o segundo grau, por exemplo. O dinheiro arrecadado financiaria programas sociais. E se, após um período pertinente — cinco anos, digamos —, o programa mostrasse que teve impacto positivo considerável (reduzindo, por exemplo, a reincidência no crime ou elevando índices de escolaridade), o investidor receberia o dinheiro de volta com um prêmio.

Embora o Reino Unido esteja fazendo pequenos testes com títulos de impacto social, a ideia ainda não pegou nos EUA, apesar do imenso leque de usos potenciais. Se aplicada ao sistema prisional, poderia ajudar a produzir informações sobre causas do crime e da reincidência (algo muito necessário), já que programas seriam obrigados a medir resultados. Esses dados poderiam embasar políticas públicas melhores.

Aqui, a tecnologia poderia desempenhar um papel; o e-learning pode ser uma ferramenta barata e acessível para instituições desprovidas de forte infraestrutura de ensino. Programas como o da Khan Academy já mostraram que o ensino por internet pode produzir resultados impressionantes, e rapidamente. A tecnologia também ajudaria a tirar mais depressa da prisão gente condenada por crimes não violentos, para que pudesse iniciar a reintegração à sociedade.

Tornozeleiras com rastreamento por GPS e monitoramento constante estão chegando ao mercado ao custo de US$ 5 a US$ 10 a unidade. Poderíamos garantir que a pena fosse cumprida, mas reduzindo o custo de manter alguém preso.

A existência de uma população em massa detenta é falta de imaginação da parte da sociedade americana. Isso representa milhões de vidas desperdiçadas e talento ocioso. Os EUA foram abençoados com uma iniciativa privada forte e um farto arsenal de organizações da sociedade civil. O país não devia aproveitar isso tudo para produzir a mudança dramática de que precisamos? 

 

Eric Schmidt é presidente-executivo do conselho do Google. 

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