Comportamento

Como fazer com que os homens se manifestem

Michael Kimmel
8 de junho de 2018

No início de novembro de 1991, um mês após Anita Hill depor sobre o assédio sexual que sofreu de Clarence Thomas, candidato à Suprema Corte, minha mãe me convidou para jantar. Depois de uma refeição longa e agradável, ela me contou que histórias como as de Hill eram muito comuns. Quando minha mãe estava na pós-graduação, seu orientador a apalpou. Ela deixou a escola no dia seguinte e interrompeu seu doutorado por 30 anos.

Nos anos 90, ninguém acreditou em Hill quando, corajosamente, ela se manifestou. Em vez disso, ela foi difamada pelo Comitê Judiciário do Senado como uma mulher desprezível, “um pouco louca e um pouco sórdida”, como disse o agora arrependido David Brock em seu artigo vilipendioso. Essa resposta deu o tom: nos 25 anos seguintes, sempre que uma mulher se levantava para acusar publicamente homens como Bill Cosby ou Bill Clinton de agressão sexual, ela geralmente acabava se tornando ré no tribunal da opinião pública, acusada de falta de credibilidade.

Mas, fora essa narrativa pública, algo começou a mudar: mulheres como minha mãe começaram a falar em particular sobre suas experiências dolorosas. Mães contaram aos filhos, esposas ao marido, mulheres aos amigos, filhas aos pais. E as pessoas acreditaram nelas.

Os cientistas sociais que estudam movimentos falam, frequentemente, sobre os três elementos da revolução. Primeiro vêm as pré-condições estruturais — mudanças institucionais de longo prazo que, lentamente, aumentam a pressão, às vezes sem ser notadas. Neste caso, 25 anos de conversas privadas em ebulição abriram caminho para a reação generalizada de hoje contra o assédio. O segundo elemento de toda revolução são os precipitantes — eventos cruciais que, rapidamente, aceleram as mudanças. Um precipitante foi o lançamento do vídeo Access Hollywood, em 2016, no qual Donald Trump se gaba de beijar mulheres e lhes passar a mão. Depois de sua eleição para a presidência dos EUA, apesar dessa evidência muitas mulheres ficaram incrédulas e furiosas.

Finalmente, há eventos desencadeadores que provocam enorme explosão, como a rápida sucessão de revelações sobre Roger Ailes, Bill O’Reilly e Harvey Weinstein. Aparentemente pela primeira vez, as histórias de abuso contra mulheres não foram recebidas com ceticismo — as pessoas acreditaram nelas. E assim começou o #MeToo, uma espécie de prestação pública de contas — tão pública que as mulheres que se manifestaram foram eleitas pela revista Time como as personalidades do ano de 2017.

Estamos em novo momento. Para muitos, particularmente os homens, ele é assustador e desconfortável.

Os homens estão se sentindo vulneráveis e com medo de acusações falsas (ou talvez verdadeiras). Temem que comportamentos antigos sejam reavaliados sob novas regras. Eles me dizem que estão pisando em ovos. Por causa disso, em vez de participarem da conversa, muitos estão quietos. E, no entanto, a inação não é necessariamente a melhor abordagem — há coisas importantes que os homens podem fazer e dizer para apoiar as mulheres.

Minha experiência de estudar a masculinidade e trabalhar com empresas na questão do assédio sexual levou-me a focar a forma como os homens podem agir para resolver esse problema no local de trabalho. Para fazermos isso efetivamente, devemos responder a quatro perguntas: Por que os homens assediam as mulheres? Eles não sabem que isso é errado? Como eles escapam? E, finalmente, que podemos fazer a respeito?

Por que os homens assediam as mulheres?
Esta é fácil de responder. Os homens fazem isso porque acham que podem. Não é verdade que sejam dominados pela luxúria a tal ponto que não conseguem se conter, como algumas pessoas já disseram. Geralmente, a pessoa se sente no direito de ter acesso às mulheres porque ocupa posição de poder. Esses assediadores do sexo masculino são encorajados a agir pelo seu privilégio e autoridade e pelo fato de que seus alvos estão em posição mais fraca e vulnerável.

Eles não sabem que é errado?
Todos sabem que apalpar nádegas ou órgãos genitais femininos, fazer comentários obscenos ou forçar mulheres a se envolver em atividade sexual é errado. Não se trata de um limite dúbio e negociável. Nós sabemos. “Elas deixam que você faça isso” é a citação mais reveladora do vídeo Access Hollywood. Trump está dizendo, na verdade, você vê que grande celebridade eu sou? Veja o que eu posso fazer.

Alguns homens, no entanto, podem não perceber que massagear ocasionalmente um ombro de mulher, chamá-la de “querida” ou “meu anjo”, ou fazer comentários sugestivos é também errado. Homens mais velhos tendem a se enquadrar nessa categoria. É surpreendente lembrar que há apenas duas gerações os escritórios pareciam muito com o mundo de Don Draper em Mad men. As salas com janelas e portas eram ocupadas por homens, e as mulheres ficavam reunidas na área das secretárias, no centro do escritório, uma espécie de curral grosseiro. O acesso sexual a elas era considerado um privilégio.

Talvez seja por isso que os homens na casa dos 60 que são acusados de se comportar mal 30 anos atrás às vezes parecem desnorteados. Eles podem achar que estão sendo julgados segundo padrões contemporâneos por coisas que fizeram quando, na sua percepção, as regras eram diferentes. Os dados refletem isso: de acordo com uma análise recente de The Economist, “os entrevistados mais jovens eram mais propensos a pensar que um determinado comportamento havia passado dos limites do que seus pares mais velhos”.

Isso não absolve os mais jovens de seu mau comportamento, nem é motivo para perdoar os homens mais velhos que são acusados. Ainda assim, é importante falar mais sobre esses problemas geracionais, por exemplo, como eles influenciam nosso modo de refletir sobre a maneira como tratamos as mulheres.

Como eles escapam ilesos?
Assentimento de cumplicidade. Pense novamente sobre o vídeo Access Hollywood. O que teria acontecido se Billy Bush, o apresentador do programa na época, respondesse a Donald isso é repugnante — para não dizer ilegal! Ou se os outros homens no ônibus tivessem dito isso é nojento. E se o irmão de Harvey Weinstein, Bob, tivesse segurado os ombros dele e gritado Harvey, pare com isso! Vou expulsá-lo da empresa se você não parar!

O assédio sexual persiste por três motivos: o senso de direito que alguns homens sentem em relação às mulheres com quem trabalham; a presunção de que as mulheres não vão denunciá-los ou começar uma briga; e o apoio presumido ou tácito — quando ninguém censura o mau comportamento —de outros homens.

Recentemente, esse segundo motivo foi eliminado. Houve uma onda de resistência das mulheres. Elas estão falando alto e sem parar.

Que podemos fazer?
Agora é a hora de eliminar o terceiro fator. Quando os homens permanecem em silêncio, isso pode ser visto como um sinal de que concordamos com o assediador, de que achamos que o comportamento é aceitável e de que não vamos interferir. Homens são cúmplices de uma cultura que permite o assédio sexual, por isso cabe a nós falar, de forma ativa e espontânea, e fazer com que os perpetradores saibam que não concordamos com o que eles fazem.

Vou dizer algo que se apoia em minha experiência de várias décadas promovendo a igualdade de gênero nas empresas: os homens, na esmagadora maioria, não querem ser vistos como babacas. Não queremos deixar as mulheres desconfortáveis e nem dizer coisas ofensivas.

Isso fornece uma visão um pouco mais positiva da ansiedade masculina atual, que, para a maioria das pessoas, está relacionada com o medo de ser denunciado por assédio. Mas ela também pode estar relacionada com o desejo de não ser inconveniente e com as dúvidas sobre a forma correta de agir.

Mas podemos agir de maneira positiva. Este é um cenário que, suspeito, é muito comum:

Adeline está sentada em uma reunião. Ela é a única mulher na sala. Rob também está na reunião e faz um comentário machista. A sala fica em silêncio. A atenção de todos foca em Adeline: ela vai fazer alguma coisa, dizer alguma coisa? Oh, Deus, lá vai ela, muitos dos homens dizem para si mesmos. Os olhos ficam arregalados. Ela vai chamar sua atenção e fazer todo mundo se sentir mal. E Adeline precisa decidir se ela vai dizer alguma coisa e causar insatisfação geral, ou se é ela que vai engolir o sapo e ficar insatisfeita.

Após a reunião, Fabrice, um dos colegas de Adeline, chama-a de lado e pede desculpas por Rob. “Sinto muito pelo que ele disse”, diz Fabrice. “Não gostei nada disso.”

Fabrice acha que está oferecendo apoio, mas, na verdade, está introduzindo outro dilema para Adeline. Ela acena educadamente e agradece, ou diz “onde você estava quando precisei de você?”.

Homens, que podemos fazer de diferente? A resposta óbvia é que podemos nos manifestar em reuniões e dizer que não nos sentimos confortáveis com esse tipo de declaração. Mas normalmente não fazemos isso. Por que não?

Temos medo de que, se o fizermos, seremos marginalizados, expulsos do “Clube do Bolinha”. Os homens sabem que fazer a coisa certa pode ter seu preço, e a maioria de nós não quer colocar em risco o que temos. Por isso, traímos as mulheres na sala, abandonamos a ética e nos esquivamos desconfortavelmente.

Mas pense naquele momento em que Rob fez seu comentário. Certamente, havia pessoas na reunião que estavam olhando para os lados, rindo de nervoso, ou mexendo nos objetos sobre a mesa. Eles também não gostaram, mas tinham muito medo de agir.

Homens, esta é sua chance. Após a reunião, não peça desculpas a Adeline. Fale com um dos outros caras que pareciam desconfortáveis:

“Sabe, Mateo, eu detesto quando Rob diz essas coisas”.

“Eu também”, diz Mateo.

Essa é a sua oportunidade: “A próxima vez que ele fizer isso, vou dizer alguma coisa. Mas, logo que eu terminar, diga você também que não gostou. Posso contar com você?”.

Sabemos que pode ser assustador para o indivíduo se arriscar a ser marginalizado por se manifestar, mesmo que fique envergonhado depois por não fazer a coisa certa. Mas, quando dois homens chamam a atenção para o machismo, isso abre espaço para mais homens entrarem em cena. E o comportamento que faz as mulheres se sentirem desconfortáveis e sozinhas provavelmente cessa.

Uma empresa global de seguros para a qual prestei consultoria desenvolveu um treinamento informal para “aliados masculinos”, no qual ensinava homens a desenvolver estratégias de apoio mútuo. Não se esperava que eles “resgatassem” as mulheres, mas que desafiassem outros homens. Os homens desenvolveram diversas abordagens, como apoiar-se mutuamente quando um filho adoecia ou quando surgia um problema de família. Logo, os funcionários do sexo masculino começaram a conversar mais abertamente sobre sua experiência, família e esforços que envidaram para equilibrar sua vida. Um ano depois, relataram níveis mais altos de satisfação no trabalho. Embora ainda não se saiba como essas mudanças afetarão a questão do assédio sexual no mundo corporativo, o fato de os homens desenvolverem linguagem e normas compartilhadas os ajudará a enfrentar uns aos outros e apoiar os que se manifestam.

Então, qual é o rumo a ser tomado agora? Após décadas aceitando o assédio sexual como o statu quo, precisamos tirar um pouco do peso dos ombros das mulheres. Não é responsabilidade apenas delas protestar e impor a igualdade no local de trabalho. Devemos chamar a atenção de outros homens por comportamentos machistas porque isso é errado e porque mina a confiança e a eficiência das mulheres no local de trabalho.

Isso sim é ser um aliado, homens: tomar partido e fazer a coisa certa. Sabemos como fazê-lo e, na maior parte do tempo, sabemos fazer isso bem. Companheirismo, trabalho em equipe e camaradagem são essenciais na fraternidade, na trincheira ou na equipe esportiva. Agora, precisamos aprender a nos unir no trabalho — e no que é certo.
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Michael Kimmel é professor emérito da cátedra Suny Distinguished Professor de sociologia e estudos de gênero da Stony Brook University, onde fundou o Center for the Study of Men and Masculinities. É autor de Angry white men (Nation Books, 2013).

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