Competição

Como as fusões podem alterar a competitividade de sua empresa no mercado

Benjamin Gomes-Casseres
6 de agosto de 2018

Entrar em F&As e acordos de parceria está mais em alta do que nunca, mas e quanto à concorrência?

O Ministério da Justiça dos Estados Unidos também quer saber. Está analisando a questão em juízo para um grande número de propostas de fusão. É o caso, por exemplo, da AT&T-Time Warner, T-Mobile-Sprint, CVS-Aetna e Express Scripts-Cigna. Uma decisão judicial para o acordo AT&T-Time Warner deve sair a qualquer momento, o que provavelmente influenciará muitos outros casos potenciais.

Tradicionalmente, a lei antitruste avalia se uma fusão aumentou ou diminuiu a concorrência em um determinado mercado. Colocada dessa forma, parece que a concorrência é algo que se pode medir, como massa ou volume – pode haver muita ou pouca, em excesso ou escassa.

Às vezes, esse modelo se aplica à realidade. No caso da fusão planejada entre Baker Hughes e Halliburton há alguns anos, o Ministério da Justiça fez uma previsão detalhada de quanto a concorrência subiria ou cairia (na maioria das vezes cairia) em 30 segmentos de mercado. A fusão foi cancelada quando as empresas viram os números do Ministério, supostamente porque as partes previram uma perda em juízo.

Porém, outras fusões sugerem que a concorrência é quase sempre mais complexa do que isso. Pode ser difícil medir a concorrência como um número que pode subir ou cair. Às vezes, as fusões afetam a natureza da própria concorrência: como as empresas se comportam, como os mercados são estruturados e até mesmo como as rivalidades evoluem ao longo do tempo.

Existem cinco tipos de concorrência que são mais comuns atualmente. Cada uma leva a certos tipos de acordo que, por sua vez, podem reformular o padrão de concorrência.

A concorrência horizontal se dá quando as empresas concorrem no mesmo mercado – é o tipo que nos vem à mente com mais frequência. Como exemplo, podemos pensar na Baker Hughes e na Halliburton na área do petróleo, na Staples e na Office Depot na área de materiais de escritório, e na T-Mobile e na Sprint nas comunicações. A questão antitruste nessas fusões é aquela que já conhecemos: o acordo fará a concorrência aumentar ou diminuir em seu respectivo nicho, tendo como medida a participação no mercado da nova empresa e seu provável comportamento competitivo?

Esse tipo de concorrência geralmente leva a fusões de consolidação, nas quais as duas empresas combinam suas produções e vendas. A empresa resultante da fusão pode se beneficiar das economias de escala com isso, mas também pode aumentar seu poder de mercado.

A competição vertical se dá quando as empresas concorrem em vendas com seus compradores ou em matérias-primas e desenvolvimento com seus fornecedores sobre o superávit resultante das transações. Comumente, isto é considerado barganhar com o fornecedor ou com o comprador. Por exemplo, a Express-Script e a Anthem eram parceiras na rede de suprimentos médicos. Essa parceria acabou no tribunal recentemente, com uma ação impetrada pela Anthem, que cobrava 15 bilhões de dólares, quantia que afirmava vir de ganhos que sua parceira conseguiu, mas não compartilhou.

Nesse contexto, uma fusão pode ter o objetivo de coordenar melhor a cadeia de suprimentos reduzindo o fator concorrência no relacionamento com o fornecedor. Embora a Express Scripts e a Anthem não tenham usado essa solução para seu conflito, outras fusões no mesmo ramo buscam exatamente isso (CVS-Aetna e Express Scripts-Cigna).

O efeito da concorrência aqui é mais difícil de ser medido do que no tipo horizontal. A questão-chave é se a fusão reduz a concorrência no mercado de cima para baixo ou de baixo para cima, ou se possuir um fornecedor ou comprador dá à empresa um poder de mercado exacerbado em sua própria área de atuação. De qualquer forma, essas fusões que abrangem mercados conectados mudam o padrão de concorrência, pois as empresas que concorriam umas com as outras agora operam sob o mesmo teto. A CVS não precisará barganhar com a Aetna pelo superávit, nem a Express Scripts com a Cigna.

A concorrência disruptiva é mais uma forma de rivalidade comercial, apesar de não ser muito lembrada no contexto das fusões e da aplicação das leis antitruste. O mais comum é pensar na concorrência disruptiva como o surgimento de uma tecnologia ou de um modelo de negócio que afeta o sistema existente em determinado setor. Esse tipo de concorrência é visto de forma geral como bom para os consumidores, apesar, é claro, de não ser para os operadores já estabelecidos, que são destituídos.

Esse tipo de concorrência também pode ser afetado pelas fusões e ainda levar a acordos. Em 2011, o Ministério da Justiça se opôs à fusão que a AT&T e a T-Mobile queriam porque temia que ela ameaçasse o papel da T-Mobile como uma “desoperadora” do setor de telecomunicações. As operadoras já estabelecidas também podem firmar acordos para lidar com a disrupção, como quando as empresas automotivas atuais investem em serviços de car-sharing (compartilhamento de automóveis) e tecnologias veiculares autônomas. Em alguns casos, as empresas podem formar parcerias em vez de fusões para abalar o setor – é isso que a Amazon, a Berkshire Hathaway e a JPMorgan Chase dizem estar fazendo em sua nova associação de planos de saúde.

A concorrência patrocinada pelo governo é o quarto tipo de concorrência que tem mudado o jogo em muitos setores. Às vezes, o patrocínio estatal se dá por meio de empresas do setor público ou de políticas industriais que apoiam os líderes nacionais. De qualquer forma, essas empresas nacionais concorrem de forma diferente das empresas do setor privado em economias menos regulamentadas, devido ao suporte financeiro do governo e a proteções garantidas pelas políticas industriais nacionais. Este tipo de concorrência não é novo, embora a ascensão da China tenha levado isso a todos os países e grandes empresas.

Certas aquisições chinesas nos Estados Unidos foram bloqueadas recentemente pelo Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos (CFIUS), um comitê interinstitucional liderado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Nesses casos, a justificativa do CFIUS geralmente não gira em torno de altos e baixos na concorrência em seu sentido comum. Em vez disso, o CFIUS alegou que os acordos prejudicavam os interesses dos Estados Unidos com a ameaça de vazamento de tecnologia ou com o enfraquecimento dos concorrentes norte-americanos. Por exemplo, o CFIUS bloqueou a proposta de aquisição da MoneyGram pela Jack Ma’s Ant Financial devido a preocupações com a segurança de dados.

A concorrência coletiva é o quinto tipo de rivalidade mais comum hoje, apesar de ser uma das mais antigas. Neste modelo, as empresas cooperam umas com as outras em grupos para concorrer com outras empresas ou outros grupos. São usadas alianças para coordenar as negociações das empresas que são membros desses grupos.

Os membros desses grupos cooperam entre si internamente e assim suprimem a concorrência entre eles. Contudo, os grupos costumam continuar competindo externamente com outros grupos. O exemplo mais claro desse padrão é o que ocorre entre as linhas aéreas, em que Star Alliance, Oneworld e SkyTeam concorrem umas com as outras como grupos de empresas aliadas. Outro exemplo são os smartphones, em que os membros do grupo Android cooperam entre si para concorrer com o grupo da Apple.

Mesmo quando esses grupos não empregam fusões para administrar a concorrência, os parceiros podem acabar violando regras antitruste se essa cooperação suprimir demais a concorrência no setor. (Cartéis como a OPEP são um exemplo extremo da concorrência coletiva.) Por essa razão, as alianças entre linhas aéreas têm sido cautelosas ao exigir a imunidade antitruste antes de cooperarem nos preços. Algumas parcerias entre linhas aéreas ganharam essa imunidade com o argumento de que seus mercados específicos permanecerão competitivos mesmo com a cooperação.

Devido a essa variedade atual de concorrências entre as empresas, torna-se difícil avaliar o impacto no mercado gerado pelas fusões e parcerias. Essa dificuldade existe, em parte, porque nunca podemos prever o comportamento futuro das empresas. Além disso, não há apenas uma medida ou dimensão a ser avaliada, mas várias. A questão-chave é como o acordo afeta a forma da concorrência, não apenas sua intensidade.
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Benjamin Gomes-Casseres é especialista em estratégia de alianças e professor na International Business School, na Brandeis University. Ele tem estudado, ensinado e dado consultorias sobre a estratégia de combinações empresariais há trinta anos e é autor de três livros, entre os quais, Remix strategy: the three laws of business combinations (HBR Press, 2015).

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