E se os Estados Unidos perdessem sua incomparável vantagem na invenção? A capacidade de inovar do país há muito é fundamental para sua vantagem competitiva. Mas o ritmo de atividade inovadora cresce a passos largos em outros países e há quem tema que é justamente esta a maior ameaça à liderança econômica americana.
No estou convencido de que o perigo seja real. O leitor consegue pensar em uma única grande inovação que chegou ao mercado mundial nos últimos tempos que não tenha vindo dos EUA ou da Europa? Fiz esta pergunta a um painel de discussão pouco tempo atrás, como fizera um punhado de vezes antes. Em geral, ninguém tem uma resposta. Da última vez, no entanto, o moderador respondeu: “Ioga!”. A galera riu, pois ninguém parece achar que ioga é algo que deveria ser discutido junto com chips de silício e genoma humano. Mas tive de achar certa razão aí. É um negócio que está bombando — e não surgiu no mundo desenvolvido.

Depois disso, segui matutando a questão. Talvez a dúvida mais importante (e mais reconfortante) seja a seguinte: realmente importa de onde venha uma invenção se uma economia tem recursos de primeira para explorar seu valor?

Peguemos o caso da ioga. A prática surgiu há muito tempo na Índia, mas hoje é uma mania mundial que sustenta um imenso complexo industrial: instrutores, academias, empresas que vendem DVDs e aplicativos, produtores de incenso, operadores de retiros, fisioterapeutas para lesões ligadas à ioga. Que empresa está registrando o maior faturamento no mundo com algo ligado à ioga? A Lululemon Athletica. Com sede em Vancouver, no Canadá, a empresa concebe e comercializa roupa e acessórios para ioga. Fundada em 1998, hoje tem faturamento anual de mais de US$ 700 milhões e um valor de mercado superior a US$ 9 bilhões.

A Lululemon não trabalha com a principal atividade do setor — aulas de ioga —, mas com uma oportunidade correlata e próxima, o que estrategistas chamam de adjacência. Um invento muitas vezes cria um estoque de lucro tão grande que seus inventores não conseguem explorá-lo sozinhos. E, às vezes, como no caso de roupas de ioga, as oportunidades mais rentáveis estão nas adjacências.

Antigamente, invenções e suas adjacências tendiam a estar reunidas em uma única
região. Na nova economia global, no entanto, atores locais não têm muito como saltar à frente do resto do mundo. Quando pensamos na inovação como motor da economia, é uma questão muito importante.

Às vezes, uma sociedade se preocupa demais com a origem da inovação. Indique qualquer grande invento, e há uma boa chance de que adjacências estão criando oportunidades de lucro igualmente grandes para outros players. Não importa quem for o primeiro a criar um veículo elétrico para o grande público, por exemplo, empresas de outros países terão a oportunidade de criar baterias avançadas, estações de carregamento e por aí vai. Um medicamento espetacular para o câncer, não importa onde seja descoberto, abriria muitas possibilidades econômicas para empresas e profissionais de saúde nos EUA.

Empresas com marketing e capacidade de distribuição superiores e líderes que rapidamente reconhecem oportunidades irão capturar valor a partir de inovações. Muitas empresas americanas têm essas vantagens. E, diante de uma crise de emprego e de uma economia estagnada, nós, como planeta, deveríamos orar pelo surgimento de mais inovações revolucionárias, seja lá de onde venham. Em última análise, a criação de empregos e riqueza tem mais a ver com explorar o valor de uma inovação do que com inventá-la. 

 

Nitin Nohria é reitor da Harvard Business School, nos EUA.

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