Psicologia

Qual felicidade as pessoas valorizam mais?

Cassie Mogilner Holmes
15 de março de 2019

Claro, todo mundo quer ser feliz. Mas que tipo de felicidade as pessoas querem? A felicidade sentida a cada momento? Ou conseguir olhar para trás e lembrar de algum momento de felicidade? O ganhador do Prêmio Nobel Daniel Kahneman distinguiu as definições como “ser feliz em sua vida” e “ser feliz sobre sua vida”. Tire um momento para se perguntar: Qual felicidade você está buscando?

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Esta parece ser uma descrição desnecessária pois, um momento feliz sempre será lembrado como tal. Uma noite com os amigos, acompanhados de comida e vinho será sempre lembrada como um momento feliz. Da mesma forma, um projeto interessante realizado com os colegas de trabalho preferidos será divertido e bem lembrado.

Mas esses dois nem sempre andam juntos. Passar um final de semana à frente da TV será divertido naquele momento, mas não será relembrado mais adiante, podendo eventualmente gerar um sentimento de culpa no futuro. Um dia no zoológico com as crianças pode gerar momentos de frustração; porém, um único momento de prazer tornará aquele dia memorável. Uma semana trabalhando até tarde no escritório, não sendo tão agradável naquele momento, pode causar satisfação no futuro se os objetivos forem alcançados.

Ao mesmo tempo que estudantes tentam há tempos entender qual forma de felicidade devem seguir, ninguém jamais perguntou de qual versão da felicidade eles estão atrás. Caso desejamos encontrar maneiras de sermos felizes, talvez seja mais fácil tentar entender qual delas realmente queremos.

Numa série de estudos recém publicados no The Journal of Positive Psychology, perguntamos a milhares de pessoas com idade entre 18 e 81 anos qual escolha fariam entre felicidade vivida e a felicidade lembrada. Vimos que as escolhas variavam de acordo com o período vivido que lembravam – e de acordo com a cultura. Para as pessoas do Ocidente, a felicidade que desejavam para o dia seguinte era diferente da qual disseram desejar para o resto da vida, embora o dia faça parte da vida. Achamos tal fato interessante, pois se as pessoas tomam decisões de hora em hora, podem acabar vivendo diferentes tipos de felicidade daquela que desejam para a vida toda.

Num estudo, pedimos a 1.145 americanos que escolhessem entre felicidade vivenciada (“o momento em que você sente a felicidade”) e a felicidade armazenada (“quando você se lembra do momento e fica feliz”) por um perído mais longo (i.e., por toda a vida ou no ano que vem) ou por um período mais curto (i.e., o dia ou a hora seguinte). A maioria dos participantes preferiu escolher a felicidade vivida à felicidade lembrada quando escolheram a felicidade para a vida toda (79%) ou a felicidade para o ano seguinte (65%). Em contrapartida, houve um empate técnico entre os participantes que escolhem ambas a felicidade vivida e a felicidade lembrada ao serem questionados o que gostariam de ter na hora seguinte (49%) ou no dia seguinte (48%). Tais resultados não tiveram a influência da felicidade total de uma pessoa, impulsividade, idade, renda familiar, estado civil ou se tem filhos ou não.

Após as escolhas, pedimos que escrevessem um parágrafo explicando o porquê de tal escolha. Vimos que, aqueles que eram a favor da felicidade vivida mostraram acreditar no carpe diem: uma filosofia que preza por abraçar o momento presente, uma vez que o futuro é incerto e a vida é curta. Por outro lado, as explicações dadas por terem escolhido a felicidade lembrada variavam entre o desejo de ter uma felicidade mais duradoura e o sentimento de nostalgia à motivação a ser alcançada, para se sentirem produtivos e orgulhosos.

Então, as pessoas ficaram mais pensativas quando tiveram de pensar em períodos mais longos, como a vida, por exemplo – e responderam que desejariam viver a felicidade do momento. Porém, ao pensar no dia ou na hora seguinte, parecia que uma ética de trabalho protestante acabara de surgir – pessoas pareciam querer deixar de lado os momentos de felicidade, começar a trabalhar a fim de, no futuro, poder olhar para trás e ficarem felizes. Essa vontade é necessária, lógico, durante certos momentos da vida. No entanto, fazer disso algo padrão pode acarretar na perda de oportunidades de viver a felicidade. Tais momentos descartados vão se acumulando e, quando enumerados, vão contra o que muitos acreditam ser uma vida feliz.

Realizamos alguns estudos a fim de testar a robustez dos resultados que obtivemos. Num dos estudos, demos às pessoas definições variadas de felicidade lembrada para verificar se alguma peculiaridade estava manipulando o resultado. Em outro, variamos a distância da hora que os participantes estavam considerando (“uma hora hoje” versus “uma hora no final da vida”) para verificar se a iminência ou até a impaciência estava interferindo nas escolhas. Em ambos os casos, tal atitude não alterou os padrões que vimos: ao considerar a vida, as pessoas escolheram a experiência vivida, ao passo que, em se tratando da hora seguinte, a metade delas escolheu a felicidade lembrada.

Por último, testamos se o padrão que vimos com os participantes americanos permeava para com outras culturas. Vimos que a mesma escolha – entre a felicidade vivida e a felicidade lembrada – para a hora seguinte ou para a sua vida, para com 400 pessoas em outros países do Ocidente (Inglaterra e os Países Baixos) e 400 nos países orientais (China e Japão).

Como os americanos, ao escolher a felicidade para a vida, a maioria dos europeus (65%) preferiu a felicidade vivida à felicidade lembrada; porém, ao escolher a felicidade para a hora seguinte, a ética de trabalho protestante surgiu com muito mais evidência, com a maioria (62%) optando pela felicidade lembrada.

Em contrapartida, os orientais prefeririam que a felicidade permeasse por décadas. A maioria dos orientais preferiu escolher a felicidade vivida à felicidade lembrada independentemente da escolha ser para a vida toda (84%) ou para a hora seguinte (81%). E por que tanta coerência? Deve ser porque os participantes da China e do Japão tinham mais convicção ao escolher a experiência vivida devido ao longo histórico religioso das culturas do Oriente em ensinar o valor da meditação e a valorização para com o presente momento.

Nossas pesquisas perguntaram a milhares de pessoas qual dos dois tipos de felicidade elas prefeririam: a felicidade vivida ou a lembrada. As respostas dependiam do fato de as pessoas escolherem os pequenos momentos da vida ou a vida como um todo, e do seu local de origem. Embora a busca pela felicidade seja tão essencial a ponto de ser chamada de um direito inalienável, o tipo de felicidade que as pessoas escolhem pode ser surpreendentemente maleável.

É importante salientar que, ao passo que esse estudo nos ajuda a entender as crenças das pessoas no que tange qual tipo de felicidade escolhem, não prescreve qual tipo de felicidade é melhor levar em consideração. Tais resultados, entretanto, revelam que as pessoas do Ocidente que planejam a vida levando o dia ou a hora em consideração estarão mais propensos a atingir uma versão diferente da felicidade do que eles realmente acreditam ter uma vida feliz. Estamos sempre tão ocupados, que temos a tendência a recusar oportunidades para nos sentirmos constantemente felizes.  No entanto, caso você queira uma vida repleta de felicidade vivida, pense bem antes de evitar tentar alcançá-la.


Cassie Mogilner Holmes é Professora Assistente do curso de Marketing e Tomada de Decisão Comportamental na Anderson School of Management na UCLA. Ela estuda a felicidade, dando maior ênfase à função do tempo.

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