HBR: O que é mais importante, talento ou prática?

Abdul-Jabbar:  Para realmente se destacar, é preciso ambos. Mas uma ética de trabalho forte sempre supera o talento indolente. Condicionamento e preparo são cruciais para qualquer competição. Sem os dois, meu talento não teria durado tanto. Estar preparado, entender seus fortes e suas limitações, ter um bom plano — isso tudo é essencial para o sucesso.

Você era visto como um jogador focado, mas não muito simpático. Isso prejudicou sua carreira?

Teve um efeito negativo na forma como era retratado. O problema é que não tinha ninguém para me explicar o valor de trabalhar a imagem. Estar em minha melhor forma, dando o mais duro possível, era meu principal foco — tudo o mais era secundário. Logo, nem sempre respondia a situações sociais de forma agradável. Mais tarde na carreira, fui ficando melhor na relação com os fãs e com a imprensa. E descobri que é como qualquer mercado: há gente boa e há ladrões — e é preciso ter discernimento para saber quem é quem e se ajustar.

Por que você não virou técnico de basquete?

Quando tentei ser técnico pela primeira vez, estava perto dos 50. É uma idade avançada para começar. E o fato de não ser sociável — ter a fama de pessoa difícil — pode ter assustado as pessoas. Mas tive certo sucesso como treinador assistente, mais recentemente com Andrew Bynum no Lakers. Bynum tinha 17 anos quando começamos e não tinha jogado muito. Fez grandes progressos. Esse episódio é muito importante para mim.

Como capitão, como motivava outros jogadores?

Pelo exemplo. Estava sempre em forma, sempre jogando pelo time. Entendia os fundamentos do jogo e trabalhava neles até nos intervalos da temporada.

E a relação hierarquia acima, com os técnicos?

O respeito sempre deixa as pessoas mais abertas a críticas ou a correções. A ideia da apreciação mútua suaviza a interação entre gente de níveis distintos.

Que tal uma história sobre o Magic Johnson?

Bom, no final de nosso primeiro jogo juntos, fiz o ponto vencedor e ele ficou eufórico, correu para cima de mim, me abraçou. Quando entramos no vestiário, eu disse: “Olha, temos mais 81 jogos”. Ele entendeu a mensagem de que o caminho à frente era longo e, se fôssemos deixar a emoção correr com aquela intensidade, ficaríamos esgotados. Mas, naquele mesmo instante, aprendi com ele que é permitido se divertir um pouco e desfrutar as coisas que se está vivendo. Não dá para ser tão caxias a ponto de não curtir pequenas vitórias.

Como foi a transição para escritor?

Não encarei a coisa como uma transição. Sempre tirei nota boa em inglês e história, pois gostava de escrever. Logo, quando tive de fazer um trabalho “de verdade”, tinha essa base. Meu primeiro livro de história entrou para a lista dos mais vendidos, mas a melhor recompensa foi ouvir professores em bairros carentes dizendo que o livro os ajudara a montar um plano de aula da história dos negros. Sei que as pessoas vão lembrar daquilo que fiz nas quadras de basquete, mas espero que também me vejam como alguém multidimensional. 

Share with your friends









Submit