Diga adeus ao mundo onde os homens podem tratar o local de trabalho como uma festa da faculdade ou uma sessão de pornografia. Desde que Harvey Weinstein, produtor de Hollywood, foi acusado de má conduta sexual em outubro de 2017, surgiram alegações similares sobre quase uma centena de poderosos. São nomes que você provavelmente conhece, na mídia, tecnologia, hotelaria, política e entretenimento. O momento é um divisor de águas para a igualdade e segurança no local de trabalho: 87% dos americanos apoiam a política de tolerância zero ao assédio sexual.

Isso é bom não apenas para as mulheres, mas também para a maioria dos homens. Frequentemente, a cultura de assédio sexual desenfreado no local de trabalho é prejudicial também para eles. Esses homens insatisfeitos, assim como as mulheres maltratadas, precisam decidir se vão interferir e como fazer isso sem pôr em risco a carreira.

Ainda assim, muitos homens ficam desmotivados com o número cada vez maior de quedas causadas pelas acusações. Recentemente, as demissões sumárias de executivos poderosos e celebridades geraram a preocupação de que qualquer homem possa ser acusado e levado à ruína. Metade dos homens (49%) diz que esse furor fez com que repensassem seu próprio comportamento em relação às mulheres. Eles se perguntam se a estupidez imatura de ontem pode destruir sua carreira hoje.

Esta, porém, não é uma briga entre homens e mulheres. Um dos jornalistas que deram o furo sobre a história de Weinstein foi Ronan Farrow, filho de Mia Farrow e Woody Allen. Sim, esse Woody Allen — aquele que se casou com a filha de sua namorada de longa data e é acusado de ter abusado sexualmente da outra filha. “A agressão sexual foi uma questão que tocou minha família”, disse Farrow, para quem essa experiência foi o motivo fundamental da reportagem.

Repetindo: não é uma briga entre homens e mulheres. Trata-se de saber se um pequeno subgrupo de homens predatórios deve interferir na capacidade das pessoas de participar e fazer aquilo que se espera delas: trabalhar.

Desde a década passada, diversas mudanças nos conduziram a este momento surpreendente. Algumas foram tecnológicas: a internet permite que as mulheres façam acusações públicas, passando por cima das pessoas que, tradicionalmente, engavetavam suas histórias. Outras mudanças foram culturais: um estereótipo centenário — o da vadia mentirosa e vingativa — teve seu poder esvaziado pelas feministas, que cunharam a expressão “tachar de vadia”, para reverter a acusação aos homens que atacam as mulheres dessa maneira. Igualmente importante é o fato de que as mulheres hoje ocupam cargos de poder na imprensa, nas empresas, no Congresso e em Hollywood para não precisar mais seguir o “clube do bolinha”. Em vez disso, elas podem, por exemplo, forçar a renúncia de Al Franken ou revelar as histórias de Harvey Weinstein.

O resultado de todas essas mudanças é o que os cientistas sociais chamam de cascata de normas: uma série de tendências de longo prazo que produzem uma súbita mudança nos costumes sociais. Não há como voltar atrás. O ambiente de trabalho agora é muito diferente do que era há um ano. Falando claramente, hoje, se você assediar ou agredir sexualmente uma colega, empregada, chefe ou contato comercial, seu trabalho estará em risco.

 

Como o movimento #MeToo muda o trabalho
Hoje, por mais comuns que essas demissões tenham se tornado, sabemos que estamos apenas começando a arranhar a superfície da cultura do assédio. Em You can’t change what you can’t see: interrupting racial & gender bias in the legal profession, estudo sobre advogados realizado pela Center for WorkLife Law (que Joan dirige) para a American Bar Association e prestes a ser lançado, os pesquisadores descobriram que o assédio sexual é prevalente. Oitenta e dois por cento das mulheres e 74% dos homens relataram ouvir comentários sexistas no trabalho. Vinte e oito por cento das mulheres e 8% dos homens relataram ter sido tocados, ou recebido proposta sexual ou romântica indesejada no trabalho. Sete por cento das mulheres e menos de 1% dos homens relataram ter sido subornados ou ameaçados com retaliação profissional caso não se envolvessem sexualmente. Quatorze por cento das mulheres e 5% dos homens disseram que perderam oportunidades de trabalho por causa do assédio sexual, atraso nas promoções, menos apoio, atribuições menos frequentes de tarefas importantes, preconceito contra os pais e maior intenção de sair. Os três tipos mais agudos de assédio (excluídos os comentários machistas) foram associados à redução de renda, rebaixamento na carreira, perda de clientes, perda de espaço no escritório e desligamento de comitês importantes.

Não é só na área jurídica que esses padrões são observados. De acordo com um estudo recente realizado por pesquisadores da Oklahoma State University, University of Minnesota e University of Maine, as mulheres que sofreram assédio sexual tinham probabilidade 6,5 maior de mudar de emprego do que as mulheres que não sofreram. “Pedi demissão e fiquei sem emprego. Vou comer só arroz e viver sem luz elétrica se for preciso”, disse uma mulher entrevistada para o estudo.

As mulheres com salário baixo, que muitas vezes trabalham para pagar as contas, e as mulheres em situação ilegal nos Estados Unidos são as mais vulneráveis.

Uma pesquisa com cerca de 500 funcionárias de hotel em Chicago revelou que 49% delas já depararam com um hóspede que cometeu ato obsceno. As zeladoras que trabalhavam no turno da noite e as trabalhadoras rurais tiveram dificuldade para se defender de supervisores predatórios. E funcionárias de restaurante passam por isso de três formas. Um relatório de 2014, intitulado apropriadamente “Piso de Vidro”, divulga os resultados de uma pesquisa com 688 funcionários de restaurantes de 39 estados: quase 80% das funcionárias foram assediadas por colegas; quase 80% foram assediadas por clientes e 67% por gestores — para 52% delas, o assédio era semanal. As funcionárias consideraram o assédio do cliente especialmente irritante porque não queriam perder a gorjeta. Não admira que quase 37% das queixas de assédio sexual prestadas por mulheres à Equal Employment Opportunity Commission em 2011 advinham do setor de restaurantes.

O fato de que as histórias finalmente se tornaram públicas revela como o assédio sexual subverte a carreira das mulheres: as atrizes Ashley Judd e Mira Sorvino tiveram mais dificuldade de conseguir um papel depois de rejeitarem o voraz Weinstein. Depois que Gretchen Carlson reclamou do ambiente hostil de trabalho, foram-lhe atribuídas menos entrevistas de alta repercussão no Fox&Friends e, de acordo com sua queixa penal, teve cortada sua participação semanal em Culture Warrior, quadro de alta audiência do programa The O’Reilly Factor. Quando se espalhou a notícia de que o juiz da Nona Corte Alex Kozinski assediava sexualmente as oficiais de justiça, muitas mulheres abriram mão de tentar a vaga nesse tribunal, embora ele forneça a jovens advogados boas condições de conseguir uma vaga como funcionário da Suprema Corte dos Estados Unidos — a mais almejada no âmbito do Judiciário. Quando Lauren Greene, ambiciosa funcionária do Congresso americano, reclamou do assédio sexual do chefe, o deputado Blake Farenthold, a carreira política dela foi para o espaço. Hoje, ela trabalha meio período como assistente em uma construtora de casas.

Uma questão muitas vezes ignorada é que algumas vítimas de assédio sexual são homens. Em 2016, quase 17% das queixas de assédio sexual registradas na Equal Employment Opportunity Commission (EEOC) foram de homens. Alguns são perseguidos por mulheres, mas muitos são assediados por outros homens, alguns heterossexuais, outros gays. Em 1998, a Suprema Corte dos EUA determinou que um roustabout (funcionário de área) de uma plataforma de petróleo fora vítima de assédio por colegas de uma tripulação de oito homens, que se sentiram ofendidos pelo que definiam como machismo insuficiente. Recentemente, o Metropolitan Opera suspendeu o antigo maestro James Levine depois que vários homens o acusaram de abusos relativos a masturbação ocorridos entre o fim dos anos 1960 até a década de 1980, quando suas vítimas tinham entre 16 e 20 anos de idade.

Tal comportamento já não é visto como mera questão de “olhar torto”. Historicamente, tem sido difícil vencer processos de assédio sexual, mas uma mudança rápida nas percepções do público pode mudar isso. Agora, 78% das mulheres dizem que estão mais propensas a protestar se forem tratadas de forma injusta por motivo de gênero. E quase a mesma porcentagem de homens (77%) dizem que estão mais propensos a protestar se perceberem que a mulher foi tratada injustamente. É um novo tempo por um motivo simples: as pessoas agora acreditam nas mulheres.

Tudo está mudando
O indicador mais forte de que estamos passando por uma cascata de normas foi quando o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, defendeu as mulheres — quatro delas na época — que fizeram revelações sobre o candidato ao senado Roy Moore. “Acredito nas mulheres”, disse McConnell.

A declaração contrasta gritantemente com o tratamento conferido a Anita Hill, que em 1991, perante o Comitê Judiciário do Senado, prestou testemunho de assédio sexual contra Clarence Thomas, então nomeado para a Suprema Corte. Os senadores submeteram-na a uma inquisição humilhante, que foi acompanhada atentamente por uma extasiada audiência nacional de televisão. Outra ex-funcionária esperava nos bastidores para descrever como Thomas também a havia assediado sexualmente. Mas ela nunca foi chamada para testemunhar. Em vez disso, Hill suportou o bullying de um comitê exclusivamente masculino. Após as audiências, as críticas contra Hill tornaram sua vida na Oklahoma University tão difícil que ela abandou o cargo e a estabilidade no emprego — uma lição clara sobre os riscos enfrentados por qualquer um que ousasse denunciar o assédio sexual.

 

Uma pesquisa recente da National Public Radio (NPR) mostra de forma dramática a mudança repentina: 66% dos americanos acham que as mulheres que relataram assédio sexual cinco anos atrás foram, na maioria dos casos, ignoradas. Apenas 26% acham que as mulheres são ignoradas hoje. Em que ponto começamos a acreditar nas mulheres? O que mudou? E quais são as implicações para os homens?

A descrença — ou, na melhor das hipóteses, a desconsideração — para com as mulheres remonta ao antigo estereótipo que mencionamos anteriormente, que considera as mulheres fundamentalmente irracionais, vingativas, ardilosas e excessivamente sexuais.

Uma versão antiga desse estereótipo aparece no Gênesis, na qual Eva comete o primeiro pecado e depois arrasta Adão e o resto da humanidade junto com ela para todo o sempre. Ao longo dos séculos, diversos autores da tradição judaico-cristã expuseram o mal feminino. Entre eles, dois frades alemães — autores do clássico compêndio sobre as bruxas The Malleus Maleficarum (O martelo das feiticeiras, Record, 1991), de 1486 — se destacam pelo vívido estilo da prosa: “O que é a mulher, além de um inimigo da amizade, um castigo inescapável, um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, um prejuízo atraente e um mal da natureza pintado com cores bonitas!”. O que mais nos interessa é talvez a afirmação de que a mulher “é uma mentirosa por natureza”.

Embora no século XIX mais imagens positivas de mulheres tenham surgido, o estereótipo da “vadia mentirosa e vingativa” era útil demais para desaparecer. Ele foi imposto a grupos inteiros de mulheres, especialmente as afro-americanas, como amplamente demonstrado por pesquisadores, e às mulheres da classe trabalhadora pressionadas a fazer sexo com os chefes. Era usado para isolar e humilhar estudantes do ensino médio que, de repente, se viam representadas como “fáceis”. Sempre que os homens, e às vezes os meninos, exploravam as mulheres — ou muitas vezes as meninas —, o estereótipo da “vadia mentirosa e vingativa” fornecia as palavras para justificar seu comportamento: ela quis, pediu, mereceu.

Lamentavelmente, o estereótipo persiste. Ele é a causa subjacente do receio dos homens de serem também prejudicados por falsas alegações. Alguns ficaram tão assustados que agora se recusam a se encontrar (ou fazer uma refeição) a sós com colegas do sexo feminino. Quando Roy Moore foi acusado de agressão sexual, membros da equipe de campanha disseram que ele foi vítima de uma “caça às bruxas”, uma forma tradicional e reveladora de desacreditar as vítimas.

Os movimentos #MeToo e Time’s Up mostram que as mulheres não podem mais ser silenciadas com a ameaça de que serão tachadas de vadias. Quando um gestor da Google disse uma obscenidade a uma das engenheiras, ela transmitiu a frase para o mundo via Twitter. Nas primeiras 24 horas depois que a atriz Alyssa Milano sugeriu que as vítimas de assédio respondessem “Me Too” a um tweet em outubro, 12 milhões de mulheres escreveram postagens com #MeToo no Facebook. Em vez de se distanciarem dos que reagem contra o assédio sexual, como acontecia no passado, atores e atrizes trajaram preto na cerimônia do Globo de Ouro de 2018 para sinalizar sua solidariedade.

Converter indignação em ação, entretanto, requer ir além das hashtags para novas normas de conduta no local de trabalho. É um momento precário, e muita coisa pode dar errado. Pense no que teria acontecido se o Washington Post, ao receber uma acusação dramática, mas falsa, de uma mulher contra Roy Moore, não tivesse agido com admirável rigor e descoberto a verdade. O propósito dela era enganar o jornal para que publicasse uma história falsa e, assim, lançar dúvidas sobre todos os meios de comunicação que noticiavam as alegações contra Moore. Porém, até agora, as coisas estão correndo bem, e os primeiros sinais são de que o local de trabalho está de fato mudando.

A demissão é o novo acordo
No passado, as empresas geralmente pagavam, de modo discreto, para resolver as queixas de assédio sexual contra um malfeitor poderoso e tentava limitar os danos por meio de acordos de confidencialidade. Incidentes na Fox deram origem a pelo menos sete acordos (alguns contra a Fox, outros contra funcionários da Fox). Segundo consta, Weinstein supostamente pagou oito desses acordos. Apesar de receberem grandes somas, as reclamantes foram forçadas a deixar a empresa, e muitas sofreram interrupção na carreira.

Agora está ficando mais difícil justificar os acordos feitos na surdina. As demissões sem cerimônia e os pedidos forçados de demissão de homens famosos demonstram que as empresas estão se afastando dessa estratégia. Provavelmente ainda serão realizados acordos em determinadas ocasiões, como uma primeira ofensa leve ou ambígua, ou uma situação consensual que, no entanto, viole os padrões da empresa. Mas longas sequências de casos graves resolvidos por acordos serão cada vez mais vistas como tergiversação do diretor para com a empresa. Os conselhos gestores nunca toleraram fraudes financeiras e violações do Foreign Corrupt Practices Act e provavelmente adotarão os mesmos padrões para o assédio — demissão sem pagamento de indenização.

É importante reconhecer que a maioria das demissões foi em empresas cujo departamento jurídico e RH são sofisticados, com orientação do conselho e com o envolvimento da alta gestão ou da diretoria, ou de ambos. Não devemos deduzir que todas as evidências foram divulgadas. As empresas têm um forte motivo para não divulgá-las e assim evitar que o ex-funcionário as use como munição em processos de difamação ou demissão injusta. Isso é o que as empresas fazem quando demitem alguém por justa causa, e é isso que estão fazendo agora.

Alguns temem que as pessoas sejam demitidas muito rápido e sem o devido processo legal. Uma questão muitas vezes negligenciada é que o devido processo não é exigido de empregadores privados, mas apenas públicos. O que as pessoas querem, e é apropriado, são procedimentos justos que revelam a verdade. As empresas devem seguir os mesmos procedimentos que usam quando um funcionário é acusado de qualquer tipo de má conduta grave. Normalmente ele é colocado em licença enquanto uma investigação é realizada. Na maioria dos casos, embora nem todos, é o que vem ocorrendo nos casos de assédio sexual.

Avaliações de credibilidade são, evidentemente, importantes. Como quaisquer seres humanos — homens ou mulheres —, as mulheres mentem. Por isso, é preciso aplicar os métodos padrão que sempre usamos para avaliar a credibilidade. Esses métodos são falhos, mas é o que temos. Se eles cumprem sua função em todos os outros contextos, servirão também nos casos de assédio sexual.

À medida que entramos nessa nova era, vale lembrar do pensamento reconfortante de alguém que passou a vida refletindo sobre como descobrir a verdade, o eminente pesquisador Roger Park (colega de Joan). Referindo- se ao assédio sexual, ele diz: “Os homens têm motivos para praticá-lo e mentir, enquanto as mulheres não têm motivação para mentir, considerando que se trata de uma provação”. Historicamente, mesmo alegações comprovadas de assédio sexual prejudicam a carreira.

Isso, assim como o grande número de pessoas com histórias semelhantes, fornece alguma garantia de que os relatos de assédio são verdadeiros. Pelo menos 42 mulheres fizeram acusações contra Weinstein e pelo menos dez contra Ken Friedman, o restaurateur de Nova York. Pelo menos uma dúzia de pessoas fizeram acusações contra Kevin Spacey. Esses números conferem credibilidade às alegações.

Os empregadores que desejam criar processos para lidar com o assédio podem começar com as políticas padrão de assédio sexual. A Sociedade de Recursos Humanos tem uma, outras estão disponíveis gratuitamente online. O treinamento organizacional deve explicitar o que é aceitável, que varia de empresa para empresa. Algumas empresas talvez queiram adicionar detalhes à luz de eventos recentes. Por mais surpreendente que pareça, algumas pessoas precisam ser avisadas de que pornografia, beijos, massagem nas costas e nudez não são apropriados no ambiente de trabalho.

Como isso é possível? O juiz Kozinski pode nos dar uma pista. Em um jantar com as oficiais de justiça, ele mencionou os seios “voluptuosos” de uma mulher de topless em um filme, de acordo com um dos presentes. Quando uma mulher no jantar reagiu negativamente, Kozinski respondeu que, bem, ele era homem.

Alguns homens têm necessidade urgente de preservar o assédio sexual como prerrogativa porque sentem que sua masculinidade está em jogo. Mas essa definição de masculinidade — apenas uma entre outras possíveis — é tóxica e desatualizada. É hora de mudar.

O local de trabalho hoje
Praticamente todas as mulheres e a maioria dos homens estão agora alinhados contra essa marca tóxica de masculinidade. Ninguém pede aos homens que deixem de ser homens ou que as pessoas deixem de ser seres sexuais. O que aconteceu é que um pequeno grupo de homens está sendo obrigado a abandonar o estereótipo de que “homens de verdade” precisam ser implacavelmente sexuais, desconsiderando o contexto ou se há consentimento.

Uma suposição razoável é que as relações de trabalho devem ser sobre o trabalho. Algumas organizações proíbem o namoro por esse motivo. Se a sua não o faz, lembre-se de que você não deve tentar um envolvimento romântico ou sexual se não for bem recebido. Decidir se a aproximação deve ser feita ou não é motivo de muita ansiedade, especialmente em ambientes de trabalho desgastantes, onde as pessoas namoram colegas porque passam tanto tempo no espaço profissional que há poucas oportunidades de conhecer outras pessoas.

A única maneira de saber com segurança o que a outra pessoa quer é perguntar a ela. Alguns homens parecem ter dificuldade de discernir se uma mulher está interessada. Charlie Rose e Glenn Thrush achavam que os sentimentos que nutriam pelas mulheres que cortejavam eram recíprocos, mas elas diziam que não eram. Esse não é um problema difícil de resolver. Se ela é uma colega de trabalho e você gostaria que ela fosse algo mais, faça o seguinte: imagine-se dizendo a uma amiga de longa data que gostaria de levar o relacionamento para uma direção diferente. Ao falar com ela dê-lhe a chance de responder que prefere continuar como amiga. Ninguém sairá prejudicado. E se sua colega disser não, mas na verdade quer dizer sim? Bem, neste caso, ela vai ter de arcar com as consequências. Dê espaço a ela. Deixe-a mudar de ideia se quiser.

Todos sabem que acordos e networking cruciais são feitos durante almoço, jantar e bebendo. Nada de errado em socializar assim. Mas, se você socializa com colegas de trabalho, precisa entender que não pode se comportar de maneira inadequada. Roy Price deixou o cargo de diretor da Amazon Studios depois que Isa Hackett, produtora da empresa, acusou-o publicamente de fazer propostas indecentes e dizer-lhe obscenidades num táxi a caminho de uma confraternização da empresa e durante o evento, na presença de outros. Nellie Andreeva, comentarista de Hollywood, observou que, em um mundo pós-Weinstein, o comportamento de Price teria prejudicado a capacidade da Amazon de atrair produtoras. Ele teria caído no “ostracismo absoluto”, disse uma fonte anônima a Andreeva.

Você ainda pode elogiar seus colegas. Mas há uma grande diferença entre “eu gosto deste vestido” e “você fica sexy dentro dele”. E se ela realmente fica sexy? Lembre-se, ela entrou para ser sua colega, não sua namorada. Trate-a como colega, a menos que, por mútuo consentimento, vocês mudem o relacionamento.

Não deixe o pêndulo balançar longe demais para o outro lado, evitando as mulheres completamente e de modo bizarro. Isso é desnecessário, injusto e ilegal: priva as mulheres de oportunidades simplesmente porque são mulheres. Você não pode se recusar a ter reuniões a portas fechadas com mulheres, a menos que você se recuse a ter reuniões a portas fechadas com homens. Caso contrário, as mulheres terão acesso negado a todas as informações confidenciais que são compartilhadas apenas a portas fechadas, e isso é violação da lei federal.

Seguindo adiante, os aliados masculinos continuarão a desempenhar um papel importante no assédio: se você vir algo, diga algo. É preciso coragem, mas você pode tratar do assunto com leveza. Se você está em um grupo de homens e alguém diz “Como é sexy” em referência a uma colega que está passando, diga simplesmente: “Eu não penso nela dessa maneira. Penso nela como uma colega, e creio que é assim que ela gostaria de ser tratada”.

Lições claras surgem também para as mulheres. Se um colega de trabalho tentar levar a relação profissional para o lado sexual e você não tem interesse, seja clara. Se você depara com brincadeiras sexuais que a deixam desconfortável, diga: “Isso me deixa desconfortável”. Se você quiser desestimular o mau comportamento de alguém preservando seus relacionamentos de negócios, leia o artigo de Joan “What works for women at work”. Por exemplo, uma mulher cujo colega propôs começar um caso disse: “Conheço sua esposa. Ela é minha amiga. Você é casado. Não há a menor hipótese. Portanto, o assunto morre aqui”. De fato, o assunto não foi retomado.

Mas é nosso conselho final que sinaliza uma mudança “tectônica”: se você for assediada sexualmente, denuncie. Há um ano talvez não teríamos aconselhado isso de forma tão abrangente e direta.

O que vemos hoje não é o fim do sexo, da sedução ou da diferença entre os gêneros. O que vemos é o fim de uma cultura de trabalho em que as mulheres são tratadas, insistente e incessantemente, como oportunidades sexuais. A maioria das pessoas, quando vai trabalhar, quer trabalhar. E agora elas podem fazer isso.

Os limites legais
Muitos dos casos de assédio sexual que viraram manchete envolvem comportamento criminoso. O assédio sexual e ofensas relacionadas são definidos de formas diferentes em estados americanos. Para citar apenas um exemplo, a lei de Nova York proíbe “tocar com violência as partes sexuais ou outras partes íntimas de outra pessoa com o propósito de degradá-la ou abusar dela ou com o propósito de gratificar o desejo sexual do assediador”. O texto acrescenta que isso “inclui apertar, agarrar ou beliscar”. Não deveria surpreender que tal comportamento seja inaceitável.

Os senhores sabem que não se deve convidar nenhuma mulher para conversar sobre trabalho para depois recepcioná-la de roupão de banho e praticar atos obscenos. Alegadamente, foi isso – entre outras coisas — que fizeram Charlie Rose e, de acordo com várias mulheres, Harvey Weinstein. A masturbação em contextos de trabalho, prática adotada por Louis C. K., não só é inaceitável, mas também ilegal. Uma pessoa não deve enfiar a língua na garganta de alguém durante uma discussão sobre as perspectivas de emprego, como relataram duas mulheres a respeito de Michael Oreskes, da National Public Radio (NPR). Você não deve beijar e lamber uma colega, como fez o ator Andy Dick.

Os homens não saem de casa com a expectativa de que sua virilha será agarrada no trabalho. Nem as mulheres. Isso não deveria ser assustador ou confuso. Mas dá para entender por que os homens têm medo: a maioria dos casos de assédio sexual não envolve agressão sexual, e se você já contou uma piada vulgar no trabalho, convidou uma colega para sair, ou se divertiu com sua mão boba em uma festa de Natal (ou conhece alguém que o tenha feito), apostamos que você tem pensado muito sobre assédio sexual ultimamente.

O direito do trabalho tem uma abordagem sóbria e equilibrada que protege totalmente os direitos dos homens acusados de assédio sexual. Ele define dois tipos de assédio sexual:

Assédio do tipo “toma lá dá cá”. Sob a lei federal, fazer dos favores sexuais uma condição para qualquer oportunidade de trabalho é ilegal. Para ganhar uma ação com essa alegação, a mulher deve provar que alguém com autoridade sobre ela ameaçou prejudicá-la profissionalmente, a menos que ela se envolvesse em um comportamento sexual — ou prometeu a ela uma promoção, um aumento ou outro benefício se ela o fizesse. O congressista John Conyers pagou milhares de dólares a uma funcionária que relatou ter sido demitida por rejeitar seus avanços sexuais. De acordo com relatos publicados na revista New York, Roger Ailes vinculou, repetidas vezes, as perspectivas de emprego ao sexo: “Se você quiser estar entre os poderosos (big boys, no original), você tem de transar com os poderosos, disse ele a uma mulher interessada em um contrato com o Comitê Nacional Republicano em 1989. Nos anos 1960, ele teria dito a uma moça assustada de 19 anos que “nenhuma garota consegue emprego aqui, a menos que seja cooperativa”, depois de agarrá-la e beijá-la à força. Cinquenta anos depois, conta a apresentadora de TV Gretchen Carlson, Ailes a rebaixou e finalmente a demitiu porque ela se recusou a fazer sexo com ele. A Fox fez um acordo de US$ 20 milhões de dólares para resolver o caso de assédio contra Carlson. Mas ampliou o contrato de Bill O’Reilly depois que ele fez um acordo de US$ 32 milhões para resolver um caso de assédio sexual contra ele. Acordos com essas somas vultosas não são feitos, a menos que algo realmente errado tenha acontecido.

Para os homens preocupados com o assédio do tipo “toma lá dá cá”, a solução mais simples é não namorar ninguém que você supervisiona. Se fizer isso, tenha certeza de que é consensual e lembre-se de que, independentemente de vocês ficarem juntos ou terminarem o namoro, quando há problemas no local de trabalho você deve se comportar exatamente como faria se nunca tivesse havido envolvimento. Se você não consegue fazer isso, não namore ninguém supervisionado por você. Tudo isso se aplica, é claro, não apenas aos homens, mas também às mulheres.

Ambiente de trabalho hostil. Aqui, novamente, a lei é bastante protetora para os acusados de assédio sexual. Para atender à definição legal, a conduta deve ser indesejável, o ambiente considerado hostil por uma pessoa razoável, a própria reclamante deve percebê-lo como hostil, e o comportamento que torna o ambiente hostil deve ser severo ou generalizado.

Além disso, as reclamantes raramente ganham casos contra ambientes hostis baseados em um único incidente “grave”. Quase invariavelmente, elas precisam provar que o comportamento é “generalizado”.

Quão generalizado? Muito. Em um caso da Suprema Corte de 1993, o chefe de uma funcionária fez comentários como “você é mulher, não sabe nada”, “precisamos de um homem como gestor da área de aluguéis” e “mulher burra”, e perguntou a ela, na frente de colegas de trabalho, se ela queria “ir para o Holiday Inn” para negociar um aumento. Ele pedia às mulheres que pegassem moedas direto do bolso da calça dele, jogava objetos no chão e lhes solicitava que os pegassem. Quando a reclamante protestou ao chefe contra sua conduta, ele disse que estava brincando e prometeu parar, mas não o fez. Ela saiu, processou e ganhou: ela deixou claro que o comportamento não era bem-vindo e que se sentia pessoalmente ofendida. O tribunal considerou que qualquer pessoa razoável teria percebido que o ambiente era hostil e que a hostilidade era generalizada.

Esse exemplo extrapola tanto o que a maioria dos homens entende como apropriado que eles têm pouco a temer. Ainda assim, a exigência de que a autora prove que ela, pessoalmente, percebeu o ambiente como hostil acrescenta outra camada de proteção. Com isso, as mulheres precisam demonstrar que existe um sentimento pessoal, não apenas demonstrar que o avanço não é bem-vindo. “Isso me deixa desconfortável”, “Estamos no trabalho” é o suficiente.

Não há problema em socializar com colegas e namorá-los. Mas a lei relativa à “retaliação” exige que um colega seja capaz de recusar um convite sem sofrer consequências. A maneira mais fácil para uma empresa perder um processo de assédio sexual é a reclamante provar que rejeitou um avanço ou se queixou de um ambiente hostil e sofreu retaliação.

Um novo exemplo bastante didático vem da Uber. O gestor de Susan Fowler convidou-a, pelo site de bate-papo da empresa, para sair. Ela tirou uma foto da tela e a mostrou para o RH, que lhe propôs escolher: ou ela se transferia para outra equipe, ou ficava. Mas, se ficasse, diziam os funcionários do RH, seu chefe poderia fazer uma avaliação ruim de desempenho, e eles não poderiam fazer nada.

Eis o problema: dar a alguém uma avaliação ruim porque ela foi rejeitada é retaliação, o que é ilegal. Fowler não queria ser transferida, porque o projeto de sua equipe combinava muito bem com suas habilidades específicas, mas decidiu fazê-lo. Felizmente, ela encontrou outro grande desafio profissional, mas, infelizmente, deparou novamente com um comportamento machista, que reportou ao RH. Um dia, seu chefe a chamou e ameaçou demiti-la caso não parasse de fazer queixas. Isso também é retaliação — e é ilegal. —Joan C. Williams

Compartilhe nas redes sociais!