Desenvolvimento de produtos

O Desenvolvimento Contínuo mudará as organizações, assim como ocorreu com o Agile

Jeffrey Bussgang e Samuel Clemens
28 de junho de 2018
desenvolvimento contínuo

Em 2001, uma nova abordagem para o desenvolvimento de tecnologia foi criada por um audacioso grupo de desenvolvedores. Chamado Agile, o processo colocou os clientes no centro do desenvolvimento de produtos, incentivou a criação de protótipos rápidos e aumentou drasticamente a velocidade e a agilidade corporativa.

Embora tenha começado como inovação no desenvolvimento de produtos, o Agile desencadeou uma estratégia corporativa e uma revolução nos processos. Seu desenvolvimento estabeleceu os alicerces intelectuais do movimento Lean no empreendedorismo, o que motivou ainda mais os líderes empresariais a organizarem seu modelo de negócios e o processo de desenvolvimento de produtos em torno de uma série de experimentos, testando hipóteses críticas conforme prosseguiam. O Agile e o Lean inicialmente se tornaram populares no mundo das startups, mas logo foram adotados por líderes empresariais tradicionais em todo o mundo. A GE tornou-se conhecida por implementar metodologias Lean em todas as suas divisões, colaborando para reduzir o tempo de ciclo e alinhando melhor seu processo às necessidades dos clientes, o que levou o então CEO, Jeff Immelt, a declarar que a GE havia se transformado de “conglomerado tradicional… em startup de 125 anos”.

Hoje, as empresas líderes estão adotando um novo modelo de negócios que, mais uma vez, começou no âmago das empresas de tecnologia e nas startups. E, mais uma vez, os líderes empresariais se beneficiariam ao prestar muita atenção às implicações estratégicas.

A metodologia é o Desenvolvimento Contínuo, que, assim como no caso do Agile, começou como uma metodologia de desenvolvimento de software. Em vez de aprimorar o software em um lote grande, as atualizações são feitas continuamente, módulo a módulo, permitindo que o código do software seja entregue aos clientes assim que for concluído e testado. As empresas capazes de implementar com êxito o Desenvolvimento Contínuo em toda a sua organização, obterão benefícios estratégicos importantes, incluindo:

Time-to-market mais rápido. Os clientes aproveitam mais depressa o benefício de novos recursos e os desenvolvedores recebem o feedback dos clientes sobre seus recursos com mais rapidez, resultando em melhores recursos que atendem mais precisamente às necessidades dos clientes.

• Desenvolver mais experiências. Lançamentos frequentes permitem que as empresas testem continuamente novos recursos em diferentes públicos. Em alguns casos, esses recursos são implantados no código e ativados ou desativados para um segmento de cliente específico por meio do uso de um simples “feature flag”.

• Reparar erros mais rapidamente. Como o código do software é liberado em lotes menores, torna-se mais fácil identificar a origem de qualquer problema. Segundo Bryan Stevenson, CIO da empresa de software on-demand Catalan: “É mais fácil entender as consequências de uma mudança se você estiver progredindo em um grande número de pequenas etapas”.

• Maximizar a produtividade de engenharia. Engenheiros adoram ambientes em que a entrega é contínua porque conseguem detectar imediatamente a forma pela qual seu trabalho agrega valor à empresa. Essa satisfação leva a um ambiente de trabalho mais interessante em um mercado competitivo e cheio de talentos. Conforme apontado por Inessa Lurye, ex-chefe de produto da Maxwell Health, “a entrega contínua é uma das práticas contemporâneas de engenharia que mais atrai engenheiros de primeira linha”.

O caso da empresa de tecnologia da saúde athenahealth é um exemplo esclarecedor. Fundada em 1997, implantou grandes lotes de mudanças em sua aplicação a cada mês para toda a sua base de clientes durante muitos anos. Até 2016, os clientes temiam os aflitivos lançamentos mensais a tal ponto que um grande cliente precisou implantar uma equipe de gerenciamento de crise formada por 70 pessoas para administrar os efeitos adversos de cada lançamento mensal. Quando o novo CTO, Prakash Khot, chegou da Salesforce, redirecionou a empresa focando-a na entrega contínua, testando as mudanças com mais frequência e em públicos menores. O resultado foi um drástico aumento na satisfação dos clientes e um grande impulso para o moral interno da empresa.

Quando o Facebook foi fundado, em 2004, a empresa adotou a metodologia de entrega de software Agile para garantir que o código fosse enviado o mais depressa possível, evoluindo para um ciclo de lançamento semanal, respondendo rapidamente ao mercado e à concorrência. Mas, até 2016, a equipe de engenharia teve problemas para dar conta dos lançamentos semanais, que envolviam de 8 a 14 mil modificações de grande porte que levavam até 14 horas para serem implementadas na produção. Em 2017, o Facebook fez a transição para um modelo de entrega contínua. Até agosto de 2017, era necessária uma média de 3,5 horas para o código de um engenheiro ser implantado na produção, e a empresa espera reduzir esse número para duas horas em 2018.

O Desenvolvimento Contínuo constitui uma tendência em crescimento na indústria de software. E por um bom motivo: representa um método mais eficaz para o desenvolvimento de software, a fim de alcançar tanto objetivos externos como internos. Várias estimativas e pesquisas sugerem que até 20% dos profissionais de software estão usando algum desses modelos. Executivos de empresas de grande e pequeno porte se beneficiarão em adotar essa nova metodologia e até mesmo impulsionarão suas empresas a incorporar essa técnica mais flexível e eficaz para desenvolver produtos de tecnologia. A grande descoberta para os executivos de negócios é que a entrega contínua é mais do que apenas uma obscura metodologia de desenvolvimento de software sendo discutida nas profundezas de seu departamento de TI. Representa uma importante vantagem competitiva e arma cultural na batalha por talentos e na fidelização de clientes.
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Jeffrey Bussgang é professor sênior da Unidade de Gestão Empresarial da Harvard Business School e sócio geral da Flybridge Capital Partners. Seu novo livro é Entering StartUpLand: an essential guide to finding the right job (Harvard Business Review Press, 2017).
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Samuel Clemens é co-fundador e Chief Product Officer da empresa InsightSquared, bem como um empreendedor residente na Harvard Business School e um Venture Partner na Accomplice.
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Tradução: Antonio Carlos Costa

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