A pesquisa: Rebecca Spencer, da University of Massachusets, Amherst, e seus colaboradores Uma Karmarkar, da Harvard Business School, e Baba Shiv, da Stanford Business School, realizaram um estudo em que solicitaram aos participantes que avaliassem pastas de laptop para uma possível compra. Os respondentes foram informados dos prós e contras dos produtos a serem examinados. Alguns receberam as informações à noite, pouco antes de dormir, enquanto outros receberam de manhã, quando tinham o dia todo pela frente. Doze horas depois, foram solicitados a escolher uma pasta e entrevistados sobre os produtos e o grau de satisfação com as escolhas. As pessoas que tinham “consultado o travesseiro” sobre essa decisão tendiam a se sentir pior com sua opção. O desafio: Uma boa noite de sono ajuda a pensar mais claramente é mito? Será que, na verdade, pode piorar o seu poder de decisão?

Spencer: Ficou bem claro que as pessoas que tomaram a decisão no mesmo dia se sentiram melhor a respeito dela do que aquelas que tinham decidido após uma noite de sono. Todavia, aquelas que “consultaram o travesseiro” se lembravam mais dos atributos das pastas. Isso nos surpreendeu. O fato de saberem mais sobre os produtos nos levaria a crer que estariam mais felizes com suas decisões, o que de fato não ocorreu.

HBR: Parabéns, sua pesquisa invalida o dito popular sobre tomar grandes decisões.
Eu não diria isso. Não diria que o sono não tem nenhum valor em relação à tomada de decisão. Sabemos que quando dormimos, o cérebro está realizando algum processamento que nos permite começar do zero. No nível neurológico, a informação começa a ser removida da memória de curto prazo passando para o espaço da memória de longo prazo. Então o dito popular de que o sono nos proporciona um novo começo é verdade. O sono não só tem impacto na assimilação de novas informações, mas também parece ter uma influência surpreendente sobre informações passadas.

Como o sono influencia informações passadas?
Não é só que as pessoas que tiveram uma boa noite de sono se lembraram de mais informações. Quando controlamos o número de atributos positivos e negativos em um estudo subsequente, constatamos que os indivíduos que tinham desfrutado do sono eram mais propensos a se lembrar das características positivas e menos inclinados a se lembrar das negativas.

O sono nos torna mais positivos?
Foi isso que tanto nos surpreendeu. Muitos estudos demonstraram que lembramos mais coisas negativas depois de dormir. O que acontece é que muitos daqueles estudos estavam comparando negativo com neutro, e não negativo com positivo. Assim, no contexto de tomada de decisão, talvez o sono faça com que nos concentremos no lado bom.

Por que as pessoas que se lembraram mais das coisas boas estariam menos satisfeitas com suas escolhas?
Pode ser mais difícil tomar decisões quando se compara coisas boas do que quando se compara o bom com o ruim. Suspeito que as pessoas se sintam ambivalentes, pois após terem decidido, pensam nas coisas boas que não escolheram. Pode ser — e isso é algo a investigar — que quando perguntamos a elas, sentiam que tinham tomado uma má decisão, mas com o tempo poderiam chegar à conclusão de que era uma boa decisão.

Gostaria de achar um jeito de utilizar sua pesquisa para instituir sonecas compulsórias no expediente de trabalho. 
Estudamos muito as sonecas. Tirar uma soneca é benéfico para adultos, assim como para crianças pequenas. A diferença é que, nas crianças, a vigília é mais prejudicial à memória e ao processamento de informações, então aparentemente são elas que mais se beneficiariam. Nesse estudo em particular, eliminamos pessoas no grupo da vigília que tinham tirado uma soneca, então não poderei ajudá-lo nessa questão.

Escolher uma pasta de laptop não é exatamente um problema em que muita coisa está em jogo. Quando falamos em “consultar o travesseiro”, geralmente estamos lutando com uma grande escolha na vida, ou, digamos, uma decisão sobre quem demitir. É possível que uma boa noite de sono seja melhor nessas situações?
É verdade que nossos sujeitos estavam provavelmente um pouco em dúvida por não estarem de fato num ambiente de compra, escolhendo pastas de laptop. O que desejamos fazer agora é colocar as pessoas em situações reais — por exemplo, flagrá-las quando estão realmente fazendo uma compra online de uma câmera —, em que há necessidades concretas e informações que podem afetar a qualidade da decisão. Mas o quadro é mais complicado quando tratamos de decisões mais relevantes, como demitir pessoas. Talvez uma decisão ocorra após várias noites de sono. É muito processamento e muita mudança para a memória de longo prazo. Mas se é verdade que a tendência é lembrar-se mais das coisas positivas depois do sono, pensemos na decisão de demitir alguém. Ela se torna cada vez mais estressante, pois estamos comparando coisas positivas. Posso imaginar como isso pode levar a uma satisfação menor com a decisão.

E se for acrescentado um prazo para tomar a decisão?
Bem, o estresse prejudica o sono. E a privação de sono traz todos os efeitos negativos possíveis. A combinação do estresse causado por prazos e decisões com a falta de sono é ruim. Nesse estudo a combinação que analisamos era menos tóxica.

Algumas pessoas consideram a insônia uma medalha de honra. Acho que você diria que um bom sono é mais importante.
Sabemos muito sobre isso atualmente, e não se pode negar a necessidade do sono. Virar a noite não ajuda. A tendência é aguentar o quanto puder e ficar se vangloriando por isso, mas as pesquisas demonstram que sua atenção aos detalhes será prejudicada e seu tempo de reação será mais tardio. Sua resposta a estímulos negativos também será mais emocional. O sono o mantém estável, e quando não se dorme, as coisas degringolam rápido. Podemos observar isso em estudos de RMF (ressonância magnética funcional). Novas informações chegam ao hipocampo; se forem emocionais, a amígdala é ativada também, e isso pode desencadear uma reação exagerada. Mas o sono remove informações do hipocampo de modo que, quando você acorda, começa zerado, e você está menos carregado para experimentar novos desafios emocionais.

E tudo aquilo que se fala da luz azul das telas? Ela está prejudicando nosso sono?
Há um pouco de exagero. Quando se dorme, toda luz é ruim; só que a azul é um pouco pior. Mais importante é a ideia de que a luz solar é boa. Quando você está sentado numa sala de reunião sem janelas, está perdendo melatonina ao poucos. Está esgotando seu estoque, de modo que, no fim do dia, ela não estará lá e você não sentirá sono. Se você trabalha num escritório, precisará se expor a mais luz solar durante o dia.

Não decidi ainda se vamos usar ou não esta entrevista. Acho que vou consultar meu travesseiro.
Ótimo! Quando acordar, se lembrará de todas as partes boas.

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