Saiba quais os elos que sustentam as organizações e quais são seus impactos sobre as competências essenciais da liderança.

Liderança, estratégia e gestão são indissociáveis e, entretanto, são muitas vezes tratadas de forma isolada na literatura acadêmica, na modelagem consultiva e no currículo de cursos de MBA.

Esta visão fragmentada já teve sua utilidade em uma época analógica, com empresas hierarquizadas, longos ciclos de vida de produtos padronizados, globalização incipiente, carreiras estruturadas.

No atual contexto organizacional,  cada vez mais líderes essenciais devem desenvolver uma perspectiva integradora e assumir seu protagonismo como agentes da transformação organizacional e da sua própria excelência pessoal, a partir do autoconhecimento da sua essência individual.

Desenvolvido por mim após mais de uma década dedicada à pesquisa e consultoria, o Elos (essential leadership skills for organizational strategy, ou competências essenciais de liderança para a estratégia organizacional) integra seis elos da liderança essencial: ambiente competitivo, proposta de valor, essência organizacional, execução estratégica, liderança essencial e catalisadores de desempenho.

Para se transformar em um líder essencial hoje, é preciso, portanto, aprimorar continuamente o autoconhecimento e desenvolver a visão dos seis elos como base para o pleno exercício da sua influência e gestão, ciente do seu papel na transformação organizacional e na busca por sua própria excelência pessoal. Desse modo, o líder torna-se completo nos seus mais diversos papéis na organização em harmonia com os valores pessoais que compõem sua essência individual.

Tornar-se um líder essencial não é nada trivial. Requer disciplina na busca pela sua própria excelência, requer também paciência e disposição para ampliação da consciência sobre sua essência individual e, além disso, requer resiliência e atitude para se colocar como protagonista do processo de transformação desejado por sua organização.

É nesse contexto desafiador que o líder essencial sustenta-se pelos seis elos, conciliando competências comportamentais e técnicas. A leitura do complexo ambiente competitivo exige perspicácia e visão ampla, ao mesmo tempo  que a transformação da estratégia em ação demanda disciplina, perseverança e foco. A entrega de valor para diferentes stakeholders requer relacionamento interpessoal e inteligência emocional para lidar com interesses conflitantes e pressão crescente por entrega consistente de resultados superiores em várias dimensões. A verdadeira comunhão com a essência organizacional só existe a partir do despojamento de interesses individuais em prol dos objetivos organizacionais, bem como do total alinhamento dos valores e aspirações da empresa com a essência individual do líder, legitimando suas convicções e ações. Por fim, e não menos importante, o uso harmonioso e efetivo das ferramentas da liderança essencial exige o compromisso verdadeiro com a equipe, a partir da disposição para influenciar seus catalisadores de desempenho.

A seguir, uma visão mais detalhada sobre cada elo:

Elo n° 1 Ambiente competitivo

O ambiente competitivo não determina, mas de fato influencia o desempenho das organizações. Em qualquer setor econômico, em qualquer arranjo concorrencial, o ambiente é o primeiro elo no radar da liderança essencial, estruturado em quatro direcionadores: ambiente macroeconômico, ambiente social, ambiente tecnológico e ambiente do negócio.

O ambiente macroeconômico influencia o custo de capital, o comportamento dos consumidores, a disponibilidade de crédito, os agregados monetários, a taxa cambial e a atuação do governo. O ambiente do negócio é composto pela dinâmica das forças competitivas e das fronteiras verticais e horizontais das empresas. O ambiente social reflete as profundas transformações decorrentes da ascensão da base da pirâmide social, das novas configurações familiares, do perfil das novas gerações, do envelhecimento populacional, dos novos papéis da religião no cotidiano das pessoas. O ambiente tecnológico traz dinâmicas disruptivas cada vez mais intensas e rápidas com o advento e disseminação das redes sociais, internet em alta velocidade, compras coletivas virtuais, computação em nuvem, nanotecnologia, biomimetismo, energias renováveis, mobilidade e inovações abertas.

Fundada em 1979, a MRV Engenharia ilustra muito bem como o líder essencial promove a transformação organizacional a partir da dinâmica do ambiente competitivo. Alienação fiduciária, queda nas taxas de juros, expansão do crédito imobiliário, programa governamental “Minha Casa, Minha Vida”, uso pioneiro da tecnologia modular de construção e ascensão social da classe C têm sido direcionadores que posicionaram a empresa como referência em construção civil para famílias de baixa renda.

Elo n° 2 Proposta de valor

A proposta de valor tornou-se mais complexa e abrangente, desafiando as organizações a conciliar expectativas e objetivos muitas vezes dissonantes. A capacidade de uma organização gerar valor está necessariamente vinculada à sua capacidade de satisfazer acionistas e investidores, colaboradores e fornecedores, clientes e parceiros, sociedade e governo.

As organizações sustentáveis operam, portanto, além do foco exclusivo em geração de caixa e rentabilidade operacional. Naturalmente, acionistas e investidores devem ser muito bem remunerados acima do seu custo de capital, tornando viável a atividade empreendedora. Mas no cenário atual e futuro, com o fortalecimento da sociedade a partir das redes sociais virtuais, as organizações e suas lideranças são cobradas a desempenhar seu papel social junto ao planeta, ao país e à comunidade. Colaboradores e fornecedores também têm equilibrado mais as relações com as organizações à medida que ativos intangíveis sobrepujam cada vez mais terra e capital. Por último, alianças em rede e inovações abertas são tendências irreversíveis à medida que clientes tornam-se cada vez menos fiéis e mais exigentes na busca por experiências verdadeiramente significativas e exclusivas.

Desde 1969, a Natura convive com a complexidade em conciliar propostas de valor para diferentes stakeholders. Reconhecida por sua valorização da biodiversidade e pelo compromisso social no relacionamento com mais de um milhão de consultoras, a empresa define seu próprio balanced scorecard com foco em sustentabilidade, clima organizacional, satisfação das consultoras, lucrativida
de operacional e inovação.

Elo n° 3 Essência organizacional

A essência de uma organização é composta por sua visão, cultura, estratégia e estrutura. A ausência de um desses direcionadores rompe com a coesão necessária a sua sustentabilidade. Essa essência organizacional interage com a essência individual do líder, significando sua atuação por meio da convergência de valores.

A visão define a aspiração organizacional que será a inspiração essencial da liderança e colaboradores, alinhando seus esforços rumo a um objetivo comum. A cultura organizacional, materializada nos comportamentos e nas relações, é a própria definição da personalidade corporativa. O posicionamento estratégico deve ser firme para evitar dispersão de recursos e perda de diferenciais competitivos, mas flexível para adotar estratégias emergentes que acelerem o alcance da visão organizacional. Finalmente, a estrutura tem o objetivo único de viabilizar a entrega da proposta de valor, combinando estruturas verticais por processos com matrizes de projetos que reduzam custos e tempo, e acelerem qualidade e flexibilidade.

A Cielo é uma empresa forjada a viver grandes transformações. Fundada em 1995 como VisaNet Brasil, a empresa vivenciou uma drástica mudança no marco regulatório do setor de meios de pagamento eletrônicos, mudou sua marca, realizou uma das maiores operações de abertura de capital do País, renovou grande parte de sua liderança, intensificou seu embate de estratégias com tradicionais e novos competidores, segmentou sua base de clientes e completou seu portfólio com as novas tecnologias de pagamento via telefonia celular e comércio eletrônico.

Elo n° 4 Execução estratégica

A execução estratégica tem sido o principal desafio das lideranças organizacionais durante décadas. Os planos estratégicos mais brilhantes podem simplesmente sucumbir diante da incapacidade de execução e, do mesmo modo, pela incompetência na gestão integrada das diversas áreas gerenciais da organização. Curiosamente, não obstante sua relevância, a execução estratégica costuma ser vista como uma atividade menos nobre da liderança.

A execução estratégica engloba todas as áreas gerenciais de uma empresa: finanças, operações e TI, pessoas, marketing e vendas. A gestão financeira tem o triplo objetivo de controlar a rentabilidade operacional, acelerar a geração de caixa e proporcionar as fontes de financiamento dos projetos de investimentos. A gestão de operações e tecnologia é responsável pelo aumento da produtividade, controle de qualidade e inovação. A gestão de marketing e vendas tem a responsabilidade de agregar (para extrair) valor aos clientes de modo cada vez mais personalizado. A gestão de pessoas tem a tripla missão de atrair e reter talentos, instrumentalizar a liderança e definir os incentivos que reforcem os comportamentos alinhados à cultura organizacional.

Com mais de 100 anos de existência, a Coca-Cola Company ostenta a liderança como a marca mais valiosa do mundo. No Brasil, o sistema Coca-Cola é composto pela Coca-Cola Brasil e 16 fabricantes independentes, além da Leão Junior e Del Valle. Além da força de suas marcas, a Coca-Cola diferencia-se por sua excelência na execução estratégica, com destaque para gestão de operações e gestão comercial. Sua inteligência competitiva com base no conceito share of wallet — ou seja, participação no total de gastos do consumidor — mantém-se como vanguarda vis-à-vis os tradicionais modelos de análise de concorrência intrassetorial.

Elo n° 5 Liderança essencial

A liderança essencial diferencia-se muito da tradicional abordagem baseada em pipeline da liderança. A liderança essencial consiste em quatro práticas fundamentais ao exercício do papel de líder em qualquer nível organizacional: comunicação, coaching e mentoring, ritos culturais e gestão de ações táticas.

A comunicação é uma ferramenta essencial da liderança na transformação da estratégia em ação, ao sustentar alinhamento estratégico, engajamento e foco. Coaching e mentoring têm a dupla missão de garantir alinhamento dos colaboradores à cultura organizacional e viabilizar melhoria de desempenho individual e da colaboração em equipes de alto desempenho. A gestão tática reconhece a necessidade de ajustes contínuos no plano estratégico a partir das dinâmicas competitivas, com ênfase em gestão de tempo e definição de prioridades. Por fim, mas não menos importante, ritos culturais são mecanismos de consolidação e renovação da cultura organizacional, preservando-a ao longo da trajetória de crescimento da empresa.

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A própria BMI Brazilian Management Institute, tal como as grandes consultorias globais de gestão, é muito dedicada ao desenvolvimento acelerado de capital intelectual (seu principal diferencial competitivo), com práticas agressivas de gestão de pessoas. Programas de mentoring, on-the-job training, coaching e feedback são algumas das ferramentas da liderança para mobilização dos colaboradores, enquanto o programa de partnership visa  ao reconhecimento e à fidelização dos principais talentos, tornando-os sócios da consultoria.

Elo n° 6 Catalisadores de desempenho

Equipes de alto desempenho, com autonomia e responsabilidade, são essenciais ao sucesso organizacional. Desenvolver, mobilizar e blindar equipes de alto desempenho são atribuições da liderança essencial, que deve influenciar quatro catalisadores de desempenho: significado, comprometimento, confiança e conhecimento.

Vivemos hoje uma época transitória de significados. Igreja, Estado, família, carreira e emprego há tempos mudaram seus significados no cotidiano das pessoas, também influenciando o modo como as organizações devem criar significado para cada um de seus colaboradores. Também a complexidade e a velocidade do processo decisório exigem cada vez mais relações de confiança que sustentem responsabilidade para autogerenciamento sem necessidade de mecanismos de controle em cada etapa dos processos e projetos. Comprometimento viabiliza o perfeito alinhamento dos colaboradores aos valores e cultura da organização, sustentando autonomia no processo decisório. Finalmente, conhecimento técnico sempre será fundamental ao alto desempenho individual, cada vez mais desenvolvido ao longo da própria trajetória profissional com
apoio de iniciativas de educação continuada.

Não obstante ser reconhecida pela qualidade do seu café, a Starbucks Coffee Company sempre teve como posicionamento de marca ter suas lojas reco-nhecidas como 3rd place — ou seja, a terceira refe-rência no cotidiano de uma pessoa, após sua casa (1st place) e seu local de trabalho (2nd place) — pelos clientes (mais recentemente, a empresa também almeja conquistar o status de 4th place nas redes sociais online). Um dos principais pilares desse modelo está justamente no desempenho de seus milhares de baristas espalhados mundialmente em cada uma de suas lojas, que nesse contexto significam suas atividades muito além do simples ato de servir cafés e lavar louça.

Daniel Augusto Motta (daniel.motta@bmibrasil.com.br) é sócio e presidente-executivo da BMI Brazilian Management Institute, doutor em economia pela USP, mestre em economia pela FGV-EAESP, parceiro global do MIT Sloan School of Management e da Thunderbird School of Global Management.

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