Alan Wilson tem uma decisão a tomar. O presidente da empresa na qual trabalha, a farmacêutica Grepter, quer transferi-lo para Zurique — mais uma experiência formativa na trajetória do rapaz rumo à cúpula. Karl, seu melhor amigo, espera atraí-lo para um fundo de hedge — onde, rapidinho, teria uma renda descomunal. Já Shiori, uma antiga namorada, quer que o ex vá trabalhar em seu novo projeto: garantir acesso à saúde à população carente de países em desenvolvimento. Por enquanto, Alan sabe apenas que deseja ter impacto no mundo. Quatro especialistas fazem comentários sobre este caso fictício. 

 

Laura Scher, presidente da operadora de telefonia americana Credo Mobile, aconselha Alan a pesar cada possibilidade em termos de renda, poder, qualidade de vida e — acima de tudo — valores pessoais. Se aplicar seus valores ao trabalho, qualquer das três alternativas poderia ser a correta. 

 

Daniel Vasella, presidente da Novartis, acha que Alan deve tentar definir o que realmente o motiva, pessoal e profissionalmente. Computando tudo — incluindo o potencial perigo de trabalhar com amigos —, seu futuro parece mais promissor na Grepter. 

 

Barbara H. Franklin, presidente de uma firma americana de investimento e consultoria em comércio internacional, acha que Alan faria bem em aceitar a proposta de Shiori. A experiência com políticas sociais pode atraí-lo para o serviço público, onde seu impacto na sociedade poderia ser considerável. 

 

Christina C. Jones, presidente da organização americana Extend Fertility, enfrentou situação parecida com a de Alan e crê que o rapaz deve cultivar sua capacitação na Grepter até ter uma noção mais sólida sobre aquilo que quer ser e fazer. 

 

 

 

 

Alan Wilson tem várias opções de carreira, mas uma única ambição — fazer diferença. 

 

Alan Wilson afastou um pouco os esquis para espiar a galera que passava zunindo pela pista, seis metros abaixo do teleférico. O céu escurecera. Caía uma neve fina, fustigada pelo vento. Mas a virada do tempo certamente não intimidara os mais intrépidos. Com os olhos, Alan seguiu uma jovem que avançava a toda pela encosta íngreme, os bastões voando em meio a uma nuvem de neve. 

 

Ajustou os óculos com cuidado. Não dissera grande coisa ao melhor amigo, Karl, que fazia a seu lado a subida de dez minutos. Estava pensativo. Que fazer da vida, agora que se abriam possibilidades novas, estimulantes? Muita gente acha que não ter escolha é um drama, pensou, mas, de certa forma, o excesso de opções é mais estressante. 

 

A três quartos da subida, o vento cada vez mais forte sacudiu suavemente a cadeira. Karl pegou o mapa das pistas e apontou com o dedo enluvado para uma das mais difíceis, um “diamante negro”. — A Couloir Noir é a da direita — disse ele. — O que você acha?  

 

Alan e Karl adoravam uma boa pista acidentada. Alan chegara à primeira divisão de esquiadores na época da faculdade e Karl, criado em Kitzbühel, na Áustria, até acalentara sonhos olímpicos. Jamais haviam explorado essa estação específica em suas incursões de Ano-Novo às encostas das Rochosas. Alan olhou lá no alto a pista íngreme e estreita que serpenteava em meio aos pinheiros. Indicou outra com a cabeça, a Dragon Chute, que se precipitava por sobre um penhasco e depois se espraiava em uma bacia de neve macia. — Também gosto do jeitão daquela ali — falou Alan.  

 

Quando ergueram as pontas dos esquis, lá no topo do teleférico, ainda não tinham decidido que pista escolher. Desvencilhando-se da cadeira, pararam para olhar de novo o mapa. Alan apontou a Dragon Chute, que parecia mais próxima. Esquiaram até a beira do penhasco. Dobrando os joelhos e tomando impulso com os bastões, Alan projetou-se na espiral de neve, com Karl no seu encalço. 

 

Aspirante a magnata

Horas antes no barulhento abrigo, enquanto comiam um chili fumegante servido na tigela de pão, Karl perguntara a Alan, com certa cautela, como iam as coisas.

— No trabalho, você diz? — perguntou Alan.

— É, no trabalho, claro. E no resto também. Como vai seu pai?

— Bem melhor agora. Difícil acreditar que a minha mãe já morreu há cinco anos.

 

Alan mergulhou a colher no pão encharcado de chili, lutando contra o aperto na garganta. A lembrança do quarto de hospital — a luz da tarde escoando pelas persianas, o zunido incessante do aparelho respirador, tubos de plástico por todo lado — ainda doía. Pensou como era injusta a morte da mãe, que tanto fizera pelos outros, inclusive como fundadora e administradora da Help and Hope, hoje uma sólida instituição filantrópica. Lembrou do dia em que souberam que o câncer se alastrara; ela segurara a mão dele, como que para consolá-lo. Tinha os dedos gelados. — Alan, querido, você é meu presente para o mundo — dissera. — Você vai fazer mais diferença nele do que eu.

 

Na época, Alan trabalhava na consultoria de estratégia na qual ingressara ao formar-se em administração. Atuava na área de práticas da indústria farmacêutica. E, mesmo acreditando que trabalhar era a melhor terapia para a tristeza, sua vida pessoal começava a ressentir-se do peso de 20 dias por mês viajando. Pouco depois do enterro da mãe, um headhunter o procurara em nome da Grepter, multinacional farmacêutica sediada em New Jersey, acenando com uma vice-presidência. Alan decidira aceitar a proposta.

 

— É, sinto saudade da sua mãe — disse Karl. — Tenho até hoje aquele chapéu maluco que ela me trouxe de Bangladesh.Karl sorriu. — O chapéu sempre me lembra de mandar o cheque da Help and Hope. Com eles se dedicando a todos esses projetos, acho que o mínimo que posso fazer é dar algum dinheiro.

 

— Nem me fale — disse Alan consternado. — Vem aí uma campanha de arrecadação de fundos a que eu deveria me dedicar muito mais.

Bebeu um gole do café. — Mas, de todo modo, não posso reclamar do trabalho. A Grepter tem sido ótima para mim. O pessoal é maravilhoso.— Fico feliz de saber — disse Karl. — As ações também estão indo bem, o que não é nada mau. Mas é tão grande, não? Você nunca me deu a impressão de ser um cara que gostava de grandes empresas. Está feliz mesmo? É desafiante? Alan sorriu. O velho Karl, sempre dando uma de orientador profissional. Karl tomara um caminho totalmente distinto. Para ver até onde poderia chegar só com o diploma de matemática, optara por não fazer o MBA. Agora, ganhava dinheiro a rodo num fundo de hedge de Nova York, o LSM Investments. Alan tinha uma vaga intuição do que estava por vir. — Bom, o que ocorre com fusões e aquisições é que cada acordo é diferente. Por isso ainda estou aprendendo bastante — disse Alan. — Ando envolvido em algumas grandes oportunidades, inclusive internacionais. Se metade se concretizar, acho que é quase garantida uma promoção.

 

— E a grana? — quis saber Karl. — Estão pagando o que você vale?

Alan não tinha muita idéia de quanto valia — ou, a propósito, de quão inflacionada andaria a noção do amigo de um salário decente. Fez um muxoxo exagerado. — E como poderiam?

Karl riu e baixou a voz. — Estou perguntando porque surgiu uma oportunidade no LSM que é a sua cara.

Ergueu levemente a mão para que Alan o deixasse prosseguir. — Sabe, nos primeiros anos eu faturava quase meio milhão de dólares. Você não vai acreditar, mas com o fundo crescendo e o desempenho em alta, hoje ganho quase dez.

 

Alan respirou fundo, atordoado com a cifra. — Caramba, Karl — respondeu. — Que coisa incrível. Mas é você, e você é mesmo um craque nisso. Você adora riscos. Sempre foi assim.

— Não me venha dizer que você tem medo de riscos — retrucou Karl. — Há anos que vejo você se precipitando por essas montanhas.Os olhos de Karl brilharam. — Quer dizer, claro que há risco, mas é, sobretudo, uma questão de ser mais esperto do que o sujeito típico. Você tiraria de letra. E, quanto à Help and Hope, se ganhar dinheiro nessa escala você vai poder fazer diferença de verdade. Lá na frente, podia até usar o dinheiro que ganhou para abrir uma fundação em homenagem a sua mãe e se dedicar a isso pelo resto da vida. Alan recostou-se na cadeira. Certamente, a proposta de Karl merecia ser considerada. Mas não deixava de complicar as coisas. Na semana anterior, em viagem de negócios à Califórnia, também fora sondado por uma outra amiga. 

 

Troca de rumo

Shiori Masaki, resplandecente em um vestido de seda carmim, esperava por Alan de pé, perto do balcão de recepção de um restaurante ao estilo da década de 1940 no centro de San Francisco.

— Há quanto tempo! — saudou-o calorosamente, beijando-o no rosto. — Obrigada por arranjar uma horinha para mim!Acomodaram-se no confortável sofá. Ele pediu um chope, ela uma taça de pinot grigio. Alan admirou-lhe as mãos longas e alvas quando ela correu o dedo pela haste da taça. Ainda sem aliança, reparou.

 

Era bom pôr as novidades em dia. Os dois haviam tido um namorico na faculdade, mas Shiori, depois de se formar entre os primeiros da turma, mudara-se para a Califórnia. Não tardou a se encher de dinheiro, primeiro como co-fundadora de uma pontocom vendida a uma grande empresa de software, depois como sócia de uma firma de capital de risco do Vale do Silício que vinha se inclinando para a biotecnologia. Ultimamente, decidira tornar-se empreendedora social. Fundara uma companhia cujo objetivo era obter tratamento médico para gente em países do Terceiro Mundo que, sem isso, poderia morrer. Cada vez que se falavam, mais entusiasmada ela parecia com as realizações de sua empresa. — Acabamos de conseguir mais investidores. O que, devo dizer, ficou mais fácil desde que a Gates Foundation embarcou no projeto — disse Shiori. — Agora, nossa folga é tão grande que podemos finalmente dar a partida em projetos que estou louca para lançar. Queria sua ajuda em um deles.

 

Shiori descreveu um plano para, em parceria com grandes empresas farmacêuticas, obter, com mais rapidez e menor custo, medicamentos para câncer, dor e doenças infecciosas para pacientes da África e da Indonésia. — A idéia é muito boa. Minha dúvida é se foi formulada de um jeito capaz de atrair um sócio do setor. É nisso que preciso da sua opinião.Apareceu o garçom para anotar o pedido. — Ostras Rockefeller para dois — disse o rapaz, com um aceno da cabeça. — Excelente escolha.Enquanto Alan examinava uns papéis trazidos por Shiori, ela contava como curtia viver na península. — Sabe, faz sol quase o tempo todo, até em janeiro — disse. — Tenho a sensação de não ter ido uma vez a New Jersey que não estivesse gelado.

 

Shiori curvou-se em direção a ele. — Lembra quando levei você para umas aulas de surfe em Half Moon Bay? Você era bem bom.

 

Alan riu. — Nem vem, Shiori — respondeu. — Sua memória está fraca. O máximo que consegui foi ficar de pé na prancha.— Bem, você se saiu muito melhor do que eu — retrucou ela. — De todo modo, você parece gostar da Califórnia. Alguma vez já pensou em se mudar para cá?

 

Alan franziu a testa. — Por que a pergunta?— Precisamos de alguém talentoso com os contatos certos para deslanchar esta coisa, e você é perfeito. É na verdade sobre isso que eu queria falar com você.Era uma oportunidade única, afirmou Shiori. Alan poderia pôr a mão na massa, como empreendedor. Trabalhariam juntos, diretamente. — Confessa, você não gostaria de conhecer o Bill e a Melinda? — provocou ela.

 

Alan riu. — Já posso até me ver trocando figurinhas com eles e o Bono.— Na verdade, é uma possibilidade bem real — disse Shiori, em tom sério. — Mas o irresistível, mesmo, é saber que você pode impedir que muita gente morra de Aids, ou de câncer.   

 

Uma vista do topo

— Muito bem, vamos interromper por 10 minutos — disse Gary Dreisinger, presidente da Grepter, enquanto os banqueiros de investimento, concluído o trabalho do dia, recolhiam as pastas e, em fila, saíam sem pressa da sala do conselho. — Voltamos a nos reunir aqui às 16h15. 

 

A interrupção, embora curta, caiu do céu para Alan, ainda meio dolorido da incursão na neve. A reunião fora longa. Felizmente agora estava tudo quase acabado. Levantou-se, deu uma alongada e foi baixar as persianas das janelas que davam para o poente. 

 

Sozinho na sala, podia recapitular sua situação. A fusão com a Schweitzer era o maior acordo em que já trabalhara e a decisão final seria tomada dali a minutos. Mentalmente, reviu cada uma das exigências. O material de pesquisa havia sido minuciosamente checado. A equipe levantara escrupulosamente todas as possíveis sinergias de custo e receita. Um rigoroso mapa dos recursos humanos de ambas as firmas mostrava que a Grepter e a Schweitzer eram altamente complementares, de modo que seriam necessárias relativamente poucas demissões (sobretudo no setor administrativo). Analistas independentes haviam feito as perguntas espinhosas. Os advogados e banqueiros haviam cumprido toda a due diligence.  

 

Alan sentia-se esgotado. A negociação havia sido tensa, com inúmeras idas dele a Zurique e centenas de horas de negociações. Quando o conselho da Schweitzer rejeitou a oferta inicial da Grepter, de US$ 39 por ação, Alan negociou sua elevação para US$ 42. O plano era investir simultaneamente na capacidade de produção da Grepter e na grande promessa da P&D da Schweitzer, visando a expandir o pipeline da Grepter. Com a aquisição, a Grepter teria condições de tomar o mercado global de vacinas e competir em pé de igualdade com um adversário de maior porte. 

 

Munido de uma nova caneca de café, Gary não tardou a voltar à sala do conselho, acompanhado do diretor financeiro e do diretor de planejamento estratégico, chefe de Alan. Era a hora da verdade. — Senhores — disse Gary, enquanto todos se sentavam — chegamos à hora da decisão.  

 

Tomou um gole do café e, com um ruído seco, pousou a caneca na mesa encerada. — Sabemos todos que este acordo gira em torno do pipeline de P&D, e concordamos que os números parecem ser positivos. Li os relatórios. 

 

Olhou diretamente para Alan. — Alan, você esteve em Zurique e viu em primeira mão o que eles estão fazendo. Sente-se pessoalmente confiante de que é tudo tão bom como eles dizem? 

 

— É, fiquei de fato impressionado — disse Alan com firmeza. — É exatamente como a equipe disse que seria. Acho que o pipeline é real. E o pessoal é de primeira. — Muito bem — disse Gary. — Negócio fechado. Vamos aprontar a papelada.

 

Os outros dois saíram da sala, mas Gary ficou para trás enquanto Alan recolhia suas anotações. Apertou a mão de Alan, com um largo sorriso. — E aí, rapaz — falou, com um brilho no olhar —, Sprechen Sie Deutsch? — Na verdade, não — respondeu Alan.

 

— Bem, quem sabe não seria bom aprender. Que tal passar um pouco mais de tempo em Zurique?

 

Alan encarou Gary. — Quer dizer o quê?

 

— O primeiro passo será integrar a Schweitzer -— disse Gary. — O que daria a você a chance de ganhar experiência operacional. Além disso — acrescentou com um amplo sorriso —, achei que, sendo um exímio esquiador, você talvez aprecie as vizinhanças.

— Ah — fez Alan, sem saber bem o que dizer.

 

— Depois disso, calculo que daqui a uns seis meses, poderei pensar em promovê-lo a vice-presidente sênior, com responsabilidade global por fusões e aquisições, diretamente subordinado a mim. Nessa altura você será um candidato excepcionalmente forte. Com alguns anos de experiência global, sua situação na empresa não ficará atrás da de ninguém mais. 

 

O grande salto

No carro, a caminho da casa de sua prima predileta, Beth, onde iria jantar, Alan sentia a cabeça meio oca. Não tinha certeza se era fome ou reação ao turbilhão de escolhas. Assim que embicou no acesso à casa, a porta da frente se abriu. Eva e Kia, as gêmeas de Beth, de quatro anos, desceram correndo os degraus para receber o tio, gritando de alegria.

 

— Tio Alan! Tio Alan! Tio Alan chegou! — berravam, abraçando-lhe as pernas enquanto ele fechava a porta do carro. Alan escancarou um sorriso.

 

— Que frio aqui fora! — disse animadamente. — Vamos entrar e ver o que eu tenho para vocês.

 

Alan treinara bem as priminhas. Beth implorava para que ele parasse de estragá-las, mas ele adorava ver as duas agindo como um cãozinho pavloviano, pulando e uivando na expectativa das bugigangas que ele invariavelmente trazia. As visitas, porém, tinham um lado meio amargo: às vezes, Alan não conseguia deixar de pensar se perdera a chance de ter a própria família.

 

As gêmeas zuniram de volta para dentro de casa e Beth o recebeu na porta, enxugando as mãos num pano. Beijou-o no rosto enquanto o marido, Eric, se oferecia para levar seu casaco. Alan tirou dos bolsos dois cavalinhos de plástico, coloridos e com crinas sedosas, e deu às meninas. — Meninas, cadê o obrigada! — gritou Beth, ao vê-las correr com os presentes.

— Obrigada tio Alan!

Durante o jantar, que tinha frango assado ao molho com purê de batatas, Alan relatou a Beth e Eric os acontecimentos da tarde.

— Minha nossa! — disse Beth. — Que proposta! E o que você disse? — Beth, professora do ensino fundamental, tinha outras ambições, mas as realizações do primo, de quem era tão próxima como do próprio irmão, sempre a deixavam fascinada. — Disse que ficaria feliz em pensar no assunto — respondeu Alan.

— Pensar no assunto! — exclamou Beth. — Pensar em quê? Fico surpresa que você não tenha aceitado na hora.

— Hummm, desconfio que o Alan está meio dividido — observou Eric.

 

Alan falou-lhes das propostas de Karl e Shiori; depois, pensando em voz alta, foi avaliando suas opções. — Ficar na Grepter me dá a dupla chance de trabalhar direto com o presidente e adquirir experiência operacional e mundial. E, se seguir avançando… bom, digamos apenas que chegar ao topo de uma das cem maiores empresas do país dá a qualquer um uma boa plataforma para realizar mudanças positivas no mundo. Mas isso é contar com o ovo no rabo da galinha. Por outro lado, o fundo de hedge certamente me renderia mais dinheiro no curto prazo, e eu provavelmente levaria menos tempo para fazer a diferença.

 

— Pois seria capaz de bancar o tipo de trabalho que a tia Jenny fazia — arriscou Beth.

 

Alan assentiu. — De todo modo, gente como ela provavelmente se sairia melhor nessa tarefa do que eu. É o que me balança na proposta da Califórnia. Já começaria a fazer a diferença para uma população extremamente destituída, o que seria gratificante, mas…

 

— E essa Shiori, ainda mexe com você? — interrompeu Beth, com um sorriso. — Já houve época em que mexia, lembro bem. Ela é uma graça. Inteligente, também.Eric salvou-o dizendo: — Parece que a grande questão não é o dinheiro, mas onde você acha que seu impacto no mundo pode ser maior.

— É isso aí — confirmou Alan. — É isso que eu gostaria de saber.

— Alan, sua estrela é tão brilhante — interrompeu Beth. — Basta fazer aquilo de que gosta, e o impacto virá. 

 

Em que carreira Alan daria a maior contribuição para o mundo? Confira a opinião de quatro especialistas.  

 

Laura Scher é co-fundadora e presidente executiva e do conselho da Credo Mobile (antiga Working Assets), operadora de telefonia sem fio de San Francisco que, desde 1985, gerou receita de US$ 56 milhões para entidades sem fins lucrativos.  

 

Mesmo sendo solteiro, Alan obviamente dá importância à família. Filho e primo dedicado, adora crianças e acalenta o sonho de ser pai. A melhor maneira de honrar a vontade da mãe seria criar seus futuros filhos — netos dela — com valores sólidos. Isso posto, as primeiras perguntas que

 

Alan deveria se fazer são: onde me vejo daqui a dez anos, quando tiver minha própria família? Como ensinar meus filhos a estabelecer um elo entre valores e trabalho? Dessa perspectiva, a impressão é que qualquer das alternativas profissionais a sua frente daria muito certo — desde que ele trouxesse seus valores para o trabalho. Alan deveria avaliar cada opção dessas em cinco quesitos: dinheiro, fama, poder, valores pessoais e qualidade de vida. À luz disso, trabalhar na empreitada social de Shiori renderia muitos pontos nos quesitos valores pessoais e qualidade de vida. Fazer carreira como executivo da Grepter traria alto poder — além, é claro, de um excelente salário, bônus e ações. E, se o rapaz convencesse a farmacêutica a fornecer medicamentos de graça a populações carentes, a pontuação em valores pessoais também seria alta. Além disso, se pensar na futura família e na qualidade de vida, a possibilidade de criar os filhos em Zurique — cidade segura, limpa e cosmopolita, onde poderiam aprender várias línguas — também seria tentadora. 

 

Uma pessoa muito interessada em fazer o bem talvez considere a possibilidade de se unir a Karl na LSM Investments a pior opção, por achar que ganhar dinheiro seria a única verdadeira motivação. É claro que se Alan for um gestor de fundo de hedge que viaja pelo mundo a bordo de um jatinho e só vê os filhos duas semanas por ano, sua imagem provavelmente seria negativa. Mas Alan poderia optar por se valer da posição na LSM para bancar seus valores pessoais e sua qualidade de vida. Se vivesse modestamente, buscasse convencer o fundo a investir em projetos de valor social, desse o exemplo de prioridade filantrópica e se empenhasse em dedicar um belo tempo aos filhos, sua imagem seria outra. 

 

Tendo-se projetado no futuro e considerado as várias propostas nesses cinco quesitos, Alan pode começar a examinar a relação entre os benefícios e os possíveis riscos, tanto no sentido pessoal quanto no profissional. Morar na Califórnia ou em Zurique, por exemplo, pode afastá-lo demais do convívio com os primos, tão queridos — ponto negativo para a qualidade de vida. Ao considerar isso tudo, no entanto, sua avaliação não deve se basear em opiniões e palpites colhidos aqui e ali, mas numa investigação lúcida e objetiva dos fatos. É justificável crer, por exemplo, que o presidente da Grepter vai cumprir sua promessa? Ou será que, em Zurique, Alan ficaria longe demais do epicentro corporativo e, portanto, alijado da disputa por um cargo mais vantajoso? Para ter uma idéia melhor, Alan pode levantar o histórico de carreira de outros gestores da Grepter. Além disso, é preciso saber se a empresa já demonstrou algum interesse em sustentar ou ampliar seu compromisso social. 

 

Quanto ao fundo de hedge, Alan deve examinar a composição do conselho de administração da firma. Ele concorda com a visão dos seus integrantes? Qual o plano de longo prazo? O mesmo vale para a empresa de Shiori. 

 

Depois de avaliar todas as opções, o caminho ficará mais nítido. Mas, independentemente da decisão que vier a tomar, Alan deve lembrar-se de que muitos caminhos levam a um mesmo lugar. Na verdade, a questão está na abordagem — trazer seus valores para o trabalho.         

 

Daniel Vasella (office.vasella@group.novartis.com) é presidente executivo e do conselho da Novartis. 

 

Embora o mundo pareça estar aos pés de Alan, o fantasma da mãe está impedindo que ele desfrute dele. A confusão vem, em parte, do fato de que Alan ainda está em luto. Ao falecer, sua mãe lhe deixou uma pesada expectativa. Seu último desejo colocou Alan na triste posição de ter de cumprir o papel que a mãe criou para ele, em vez de escolher seu próprio caminho. Se atrelar seu futuro à satisfação dos desejos da mãe, Alan pode perder a oportunidade de viver sua própria vida em todo o seu potencial. 

 

Para começar, Alan deve fazer a si mesmo um par de perguntas cruciais: o que de fato me motiva, na vida profissional e pessoal? Vivo minha própria vida, sigo meus ideais, ou ajo por consciência pesada? Quais são minhas grandes habilidades? O que mais me traz satisfação? 

 

Algumas das predileções pessoais de Alan são indicativas. O modo como ele esquia, assumindo riscos calculados. Em vez de uma pista estreita, onde poderia chocar-se com uma árvore, opta pela mais aberta. Saltando à frente de Karl, demonstra ser um líder, não um seguidor. Tais indícios sugerem que trabalhar para um fundo de hedge pode ser a escolha errada. Em vez de ampliar sua capacitação com uma variedade de experiências, ele a estreitaria ao passar dias debruçado sobre o sobe-desce das ações. Além disso, embora dê valor a relações interpessoais, Alan não teria, num fundo de hedge, muito espaço para interagir com os outros. E não parece tão interessado em dinheiro como Karl — ao menos não no dinheiro pelo dinheiro. Desconfio que Alan sabe que o dinheiro é um vício: quanto mais se ganha, mais se gasta — e dinheiro não traz, necessariamente, a felicidade. 

 

Considerando a habilidade de Alan no trato com outras pessoas, a proposta da Califórnia parece mais adequada, mas é preciso que se pergunte se cultivar e explorar contatos é de fato o que quer fazer. Outra questão: é bom trabalhar com um amigo? E se Alan, um líder nato, for subordinado a Shiori — ou a Karl? A amizade sobreviverá se surgir alguma competição entre eles, ou se algo der errado? 

 

A Grepter, por sua vez, atende à necessidade de Alan de trabalhar com os outros e abre perspectivas excelentes. De fato, um cargo internacional no exterior e a esponsabilidade por um projeto de integração dariam ao rapaz uma experiência valiosíssima. O presidente insinuou que aceitaria ser seu mentor e até mesmo que Alan poderia vir a ser seu sucessor. Alan devia confiar em Gary e discutir com ele, às claras, suas opções e dúvidas — talvez dizer que gostaria de conciliar a carreira na grande indústria farmacêutica com o trabalho social. Aliás, talvez fosse estrategicamente interessante para a Grepter fornecer medicamentos a custo razoável aos pobres do mundo. Nesta conversa, Alan pode captar muita coisa sobre o interesse e as intenções de Gary a seu respeito. 

 

Sendo o mentor de Alan, talvez Gary também consiga mostrar-lhe que ser útil à sociedade não se resume ao trabalho, mas engloba todos os aspectos da vida — além do apoio financeiro à filantropia, os produtos e serviços que ajuda a produzir, as relações que estabelece, até os impostos que paga. Confiando em seu mentor e dando ouvidos ao que seu coração lhe diz, Alan pode descobrir-se capaz de, sem abrir mão do seu verdadeiro eu, fazer mais pelo mundo do que sua mãe jamais sonhou.    

 

Barbara H. Franklin (bhfranklin@bhfranklin.com) é presidente da Barbara Franklin Enterprises, firma americana de investimento e consultoria em comércio internacional. Foi secretária de comércio dos EUA (1992–1993). 

 

Quando, em seu leito de morte, uma mãe diz ao filho “Você é o meu presente para o mundo”, o eco dessas palavras nunca deixará de lhe ressoar na alma. Alan jamais conseguirá ignorar totalmente a lembrança da voz da mãe, o que fatalmente afetará seu comportamento futuro.

 

No entanto, sua prima tem razão: se ele fizer o que realmente gosta, o impacto sobre o mundo será conseqüência natural. Meu conselho a Alan seria não se preocupar com a possibilidade de que uma decisão tomada neste momento venha a fechar portas no futuro. Nessa fase inicial da carreira, é pouco provável. Em vez disso, o que Alan deve fazer é munir-se de lápis e papel para organizar seus pensamentos. Deve montar, especificamente, duas listas. Numa delas, deve indicar o que realmente gosta de fazer. O que desperta seu interesse? Que tipo de situação de trabalho e atividade pessoal lhe dá prazer? Na outra, deve enumerar as coisas de que definitivamente não gosta. Feito isso, deve relacionar os prós e os contras de cada proposta de trabalho e confrontá-los com ambas as listas. A meta é descobrir a proposta que mais se ajusta àquilo que gosta de fazer.

 

Se estivesse orientando Alan, buscaria alertá-lo contra as propostas do fundo de hedge e de permanecer por mais tempo na Grepter. Alan não parece suficientemente atraído pelo dinheiro para integrar a equipe de Karl, num ramo que pode gerar muito estresse e — mesmo imaginando que o fundo tenha bons resultados e Alan ganhe muito dinheiro — pouca satisfação. Além do mais, por anos e anos, ele não teria condições de ter o impacto social que almeja. Quanto à Grepter, embora pareça ser uma empresa excelente e Alan esteja contente com sua carreira ali até agora, navegar pela burocracia de uma grande corporação talvez não seja, como assinalou seu velho amigo, o melhor para ele. Aqui, de novo, Alan levaria um bom tempo até exercer algum impacto, sobretudo enfrentando a pesada rotina de trabalho de um alto executivo.

 

Há várias razões para que Alan pense seriamente em aceitar a proposta de Shiori. Primeiro, a aventura de montar uma empresa, ainda que seja arriscada, é fonte de energia e prazer — e Alan parece ser capaz de tolerar o nível de risco que ela envolve. Shiori já demonstrou que sabe ganhar dinheiro, o que pode elevar acima da média as chances de êxito de sua nova companhia. E, no caso de Alan ter participação na empresa e ela abrir o capital, ou ser vendida, esse processo pode render-lhe algum dinheiro. No entanto, sem ter clareza sobre suas intenções pessoais em relação a Shiori, trabalhar com ela pode ser uma cilada.

 

Segundo, a satisfação de trabalhar numa empreitada de relevância social seria um bálsamo para a dor de ter perdido a mãe — que tanto amava e admirava.

 

Terceiro, Alan ganharia experiência com políticas sociais. Se a isso aliasse os contatos de alto nível aos quais Shiori alude, Alan poderia, mais tarde, chegar a posições de maior influência. Pode ser atraído, por exemplo, para a administração pública. Há muitos postos no governo — de confiança ou eletivos, nos Estados Unidos ou internacionais — nos quais Alan poderia exercer um impacto muito positivo na sociedade. Não há muita gente que faz um MBA e escolhe a carreira no serviço público — carreira em geral árdua, na qual ninguém faz fortuna. Contribuir assim traz muita satisfação, no entanto. Se Alan de fato quiser se tornar uma força para a mudança em larga escala, vale a pena pensar nisso.         

 

Christina C. Jones (cjones@extendfertility.com) é fundadora e presidente da Extend Fertility, organização americana que dá à mulher a possibilidade de estender sua fertilidade.  

 

Posso entender a situação de Alan. Quando concluí meu MBA na Harvard Business School, em 2004, minhas possibilidades pareciam ilimitadas. Também queria fazer algo relevante, mas não sabia o quê. Antes de entrar no MBA, tive uma carreira gratificante em software, fundando duas empresas e abrindo o capital de uma delas; mas queria expandir meus horizontes. Tantos outros caminhos se abriram então. O que faria? Trabalharia com capital de risco ou private equity, onde estaria no extremo oposto da criação de empresas? Ou entraria para uma grande empresa, onde aprenderia a administrar com os melhores? E se levasse adiante o plano de negócios que criei durante o programa (o que acabei fazendo)?

 

Primeiro, precisava entender a mim mesma. Percebi que gosto de assumir riscos e traçar meu próprio caminho. A abordagem de Alan é mais conservadora e analítica. Gosta de avaliar as coisas em alto nível e traçar estratégias. Embora pareça lidar bem com as pessoas, sua veia para assumir a liderança e se impor não é nítida.

 

Vejamos suas escolhas profissionais até hoje. A mãe o inspirou muito — o que não significa que Alan seja igual a ela (se fosse, talvez tivesse ido trabalhar no terceiro setor, e não em empresas). A mãe foi uma empreendedora de sucesso, mas essa também não parece ser a praia dele. Concluída a escola de administração, a consultoria era uma aposta segura — não exigia que comandasse nada nem assumisse riscos profissionais. Ao ingressar na Grepter, Alan optou por uma função administrativa, em vez de assumir um cargo de linha de frente em vendas ou marketing.

 

A cautela inata de Alan e seu desejo de fazer uma diferença descartam o fundo de hedge como boa opção. Mesmo que lhe permitisse explorar sua capacidade analítica, o único atrativo real parece ser o dinheiro. Mas, se o fundo não der certo, Alan pode sair de mãos abanando, sem fortuna e sem um bom currículo. Trabalhar com Shiori também não faz sentido. Alan teria a chance de exercer de fato um impacto duradouro, mas o empreendimento social já é um sonho e uma visão de Shiori. Que independência teria Alan para desenvolver e demonstrar sua tarimba? Além disso, não convém misturar a vida pessoal com a profissional. Se Alan reviver seu interesse por Shiori e as coisas não derem certo, pode ser um desastre.

 

Se estiver interessado em erguer algo de impacto duradouro, Alan não pode seguir analisando a  própria carreira sem entrar em campo. Precisa cultivar a capacitação operacional e de gestão. Ficar na Grepter e aceitar o desafio de integrar a firma de Zurique é perfeito para pôr a mão na massa e, sob a tutela do presidente, obter experiência operacional concreta. Se quiser um dia liderar uma entidade social ou uma empresa de menor porte, o melhor é desenvolver suas aptidões e sua rede de contatos dentro de uma grande empresa até estar pronto para dar o salto. Só assim sua carreira vai andar para frente e não para o lado — e só assim Alan vai adquirir habilidades que irão valorizá-lo. Com isso, ganhará tempo para descobrir o que considera relevante, adquirir uma noção mais sólida do que quer ser e fazer e definir o próximo passo na carreira em seus próprios termos — e não com base numa sedutora tentação.   

 

_____________________________

Howard H. Stevenson (hstevenson@hbs.edu) é diretor sênior associado e titular da cátedra Sarofim-Rock Baker Foundation Professor of Business Administration da Harvard Business School, em Boston. É, ainda, presidente do conselho da Harvard Business School Publishing.

– See more at: http://www.hbrbr.com.br/materia/como-mudar-o-mundo#sthash.UNovkb6e.dpuf

Share with your friends









Submit