O Amp Up é um popularíssimo game musical. Foi criado pela festejada equipe de programadores da KMS, que agora passa o grosso do tempo tentando criar upgrades que mantenham os usuários deslumbrados. Só que um punhado de novatas copiou a idéia — criando um software próprio, de código aberto. Agora, querem que a KMS embarque na onda e abra seu software. Mas como a empresa ganharia dinheiro sem sua propriedade intelectual? E por que deveria seguir esse rumo? Quatro especialistas tecem comentários sobre o caso, fictício.

Jonathan Schwartz, presidente da Sun Microsystems, diz que a KMS deve manter o software fechado apenas se souber o que seu público vai querer em seguida — e se for se satisfazer com um pequeno nicho do mercado. Ainda assim, sua reputação pagará um preço.

Eric Levin, vice-presidente executivo da Techno Source, sugere que a KMS adote um meio-termo: abrir a plataforma para terceiros e adicionar recursos que estimulem a formação de uma comunidade. A KMS financiaria essa abordagem com royalties ou taxas e seria capaz de aprovar ou vetar produtos de terceiros.

Gary Pisano, da Harvard Business School, sustenta que a estratégia de código aberto poderia acelerar o ritmo de aprimoramento do Amp Up, aumentar a satisfação do usuário com o jogo e reduzir custos de desenvolvimento da KMS. Antes de deixar de competir com base em seu código, porém, a empresa precisa ter certeza de que possui recursos fortes mais abaixo na cadeia.

Michael Bevilacqua, do escritório de advocacia internacional WilmerHale, alerta que o risco de imputabilidade da KMS por violação de propriedade intelectual seria maior se decidisse entrar para a comunidade de código aberto — onde nada garante que trechos de código disponíveis a todos não estão ferindo a propriedade intelectual de uma terceira parte.

Tamanho é o sucesso do game musical lançado pela KMS que já há usuários quebrando seu código e rivais pipocando no mercado. A empresa deve proteger o produto ou liberar o código?

O mal estar que Martina Dirweg sentiu foi quase físico. Seu irmão mais velho, Evan — que Martina adorava — sabia como provocar esse efeito. Ao telefone, bastava dizer as palavras “certas” no momento certo. Sem querer, conseguia abalar ao mesmo tempo os planos dela para a empresa e sua sensação de bem-estar. Não era justo.

Evan estava a caminho. Iam almoçar juntos, como volta e meia faziam, e depois seguiriam para a feira de jogos eletrônicos. Embora não trabalhasse na empresa, Evan era uma espécie de assessor informal da irmã. De sua sala no último andar da KMS Corporation, fabricante do popularíssimo game musical Amp Up, Martina procurava o carro do irmão. Evan ligara da rua e logo estaria na KMS.

Ao menos a vista de sua sala era reconfortante — as casas já familiares nas colinas ao fundo, as palmeiras esguias, implausíveis até. Era a mesma paisagem que contemplara em 2004 ao tomar a decisão instintiva que lançou a empresa na rota atual — e que resultou no presente dilema. A rota era a de produzir um artigo de massa; o dilema envolvia a postura a adotar diante do caótico e incontrolável movimento do software de código aberto, que começava a impor uma ameaça real à empresa.

Aquele momento, quatro anos atrás, fora inebriante. Um grupo de programadores da empresa, então chamada Kalley Music Software, apresentara um par de ferramentas que haviam criado nas horas vagas, entre um projeto e outro. Os dispositivos eram feitos com braços e peças de guitarras de verdade. Em vez de cordas, porém, traziam uma série de teclas, touch pads e botões. O incrível software embutido produzia um som ótimo até quando manipulado por amadores, e os usuários podiam tocar em grupo mesmo estando em continentes diferentes. Para isso, bastava um computador ligado à internet. E os programadores já tinham esboçado games para composição de canções e karaokê.

Um longo silêncio se seguira à apresentação. Todos analisavam as opções. Criar outra empresa para investir na idéia? Vender o conceito a uma empresa especializada no mercado de massa? Martina fitara as colinas pela janela e dissera: “Vamos fazer nós mesmos”. Aqui e ali, ainda podia ouvir os aplausos.

O Amp Up se revelou um sucesso. Quando a banda Z3 apareceu no palco com o aparelho da Amp Up — no formato de um braço de guitarra —, as vendas decolaram. A empresa adotou o nome KMS, para evitar ser associada exclusivamente a software de música, e aprendeu rapidinho muita coisa sobre o mercado de massa. Chegou a cogitar a criação de uma empresa separada para abrigar o velho braço de software musical. Foram dias de muita mudança.

Agora, Evan sugeria que a mudança ia ser ainda maior. “Você estragou meu dia, sabia?”, disse ela ao entrar no Mercedes do irmão, que seguia bonito e em boa forma, apesar de já ter passado dos 40.

“Nada pessoal”, respondeu o rapaz.

No restaurante que freqüentavam ela agradeceu-lhe por levá-la à feira de tecnologia de Pomona, onde a KMS exibiria produtos e faria um esboço do próximo upgrade. Evan havia amealhado uma pequena fortuna com a venda de uma empresa de redes e agora ocupava o tempo investindo em empresas de tecnologia e acompanhando seu desempenho. Martina sentia muita gratidão pelo fato de o irmão se interessar pela KMS quase tanto quanto ela própria.

Decidiu chamá-lo para a briga: que mal haveria na estratégia da empresa — que até ali, aliás, dera muito certo — de proteger com unhas e dentes sua propriedade intelectual? Por que deveria abrir o software do Amp Up, algo sugerido tão casualmente por Evan ao telefone? Por que permitir o acesso da comunidade do código aberto ao cofre da empresa, por assim dizer, e às jóias da coroa?

“Parece uma rainha falando, não uma executiva”, rebateu o irmão. “É melhor você ver com os próprios olhos.”

Logo, foi só quando já estavam dentro da feira que Evan começou sua explicação. Passando ao largo do amplo estande da KMS, guiou a irmã em meio à multidão, até o final de um
c
orredor. “Quero que você conheça umas pessoas”, disse. Martina foi sendo apresentada a uma garotada com cara de nerd que parecia estupefata — não havia outra forma de descrever sua reação — com sua presença ali. Alguns seguravam objetos que lembravam um pouco os braços de guitarra da Amp Up. Eram os fundadores de uma empresa nova, a Open Chord.

Martina estava irritada com o irmão. Conhecia bem essa empresa. Aquela garotada, que provavelmente tinha começado com uma obsessão pelo Amp Up, copiara a idéia básica por trás do game e criara seu próprio código — que, ao contrário do código da KMS, era aberto. Qualquer pessoa que quisesse usá-lo para criar aplicativos e novos sons para games podia ir em frente. Martina detestava esses infratores. “Não estamos processando vocês?”, perguntou a um deles. Todos fizeram que sim.

“Tem outra empresa parecida ali”, apontou Evan.

“Outra?”, perguntou Martina.

“As duas me buscaram atrás de dinheiro.

Ela engasgou. “Mas você não…”

“Não”, disse Evan. “Sou seu irmão, sou fiel. Mandei procurarem outro anjo interessado em investir — na minha rede ou, de preferência, em outra. Não poderia investir numa empresa que vai atacar a da minha irmã caçula.”

“Sorte sua”, Martina retrucou, fechando o punho.

“Mas, se não fosse a questão ética, teria colocado dinheiro numa delas, ou até nas duas, sem pestanejar. São bons negócios.”

“Como podem ser bons?”, perguntou Martina, irritada. “Essa aí já está sendo processada por nós; a outra vai ser assim que eu voltar hoje à tarde. Além disso, o que significa erguer uma empresa com base no código aberto? Ninguém ganha dinheiro com esse tipo de software.”

“Martina, esses caras não vão desaparecer. Já não é um ou outro usuário que invade seu hardware, decifra o software ou fabrica em casa os próprios controladores dos games, ou cria códigos para os amigos. São empresas. Empresas financiadas por um belo capital. Essas pessoas encaram com fervor a comunidade de usuários que você criou quatro anos atrás ao lançar o Amp Up. E também acreditam na idéia de que as comunidades de usuários e programadores devem se basear no código aberto — com os programadores capazes de trocar e criar o software sem restrições, para criar os aplicativos que bem entenderem.”

Fez uma pausa. “Olha isso…” Em resposta a um gesto de Evan, um dos rapazes timidamente deu um passo para o lado, revelando uma faixa que, até ali, tentava esconder. Sob o logo da Open Chord, estava escrito: “Abaixo o poder!”.

“É você”, disse Evan. “Você é o poder que eles querem derrubar.”

Foi a gota d’água. Martina tentou, em vão, esboçar um sorriso para os garotos. Virou-se e saiu em direção a seu território: o estande da KMS.

Evan seguiu logo atrás. “Seu produto transformou milhões de amadores em músicos”, disse. “Conquistou a imaginação de todo mundo. Agora, é maior até que a KMS. Todos querem ser parte desse conceito, e muita gente tem a capacidade técnica para tal.”

“Vou processar todos”, disse Martina. “O código aberto é como uma grande onda”, rebateu Evan. “Quem não sobe com ela se afoga.”

Martina voltou a sentir o mal-estar que só as palavras do irmão causavam.

Inimiga do povo

A impressão era que todos na feira só falavam das empresas de código aberto que importunavam a KMS — até Allan Schmirer. Martina confiava em seu diretor de operações, a quem admirava muito, mas hoje, por algum motivo, o fato de Allan estar pensando nesses infratores — e de estar bebendo um suco de morango que não casava com um executivo de sua estatura — já era bastante para irritá-la.

Sentindo a irritação de Martina, Allan fez um comentário tranqüilizador sobre as outras empresas. “O negócio delas não é viável”, disse. “Serão prensadas, de um lado, pelo software gratuito que já está no mercado e, de outro, por nós!”

“Quem dera”, disse Martina.

Allan ficou chocado. “Nunca ouvi você falar assim.”

“É que fico preocupada em ver que o público está começando a enxergar a gente como o inimigo, como uma grande corporação com PI exclusiva”, disse. “Não podemos nos dar ao luxo de alienar usuários potenciais.”

“Não faz diferença — desde que continuemos a deixá-los deslumbrados.”

“É, mas…” Os dois se fitaram, sabendo o que “É, mas…” significava.  Inventar e executar upgrades deslumbrantes estava cada vez mais difícil.

Allan deu de ombros. “Depois do Natal, é possível que nada disso importe mais. Vai saber? A demanda pode despencar, vamos ter de criar algo totalmente novo para oferecer aos clientes. Assim é a vida no mercado de massa. Não é como na época em que vendíamos para profissionais da música.”

“Que animador, Allan.”

“Não quero confundi-la ainda mais”, seguiu Allan, “mas o irônico é que talvez até ampliássemos a vida útil do Amp Up se optássemos pelo código aberto — talvez não no verdadeiro mercado de massa, mas pelo menos entre os fanáticos. Esse público não daria as costas para um produto no qual tivesse investido a própria criatividade.” Allan chegou ao fim do suco e o canudo fez aquele barulho que Martina odiava. “Não estou sugerindo nada, é claro”, concluiu.

Como não se afogar

 

Havia anjos em toda parte quando Martina chegou ao escritório do irmão em Brentwood Park, na semana seguinte: anjos no saguão, anjos no elevador, anjos no corredor. Aquele era o quartel general da rede de “anjos” investidores a que Evan pertencia e para a qual trabalhava como consultor técnico. Martina estava ali porque não conseguia tirar a idéia do código aberto da cabeça.“Digamos que eu aceite que o código aberto é uma onda crescente”, disse ela, acomodando-se na poltrona ao lado da mesa do irmão. A seguir, pegou um sino gravado com filigranas e o balançou levemente, fazendo ecoar um som etéreo. Evan acumulara essas lembranças da época em que vagou pelo Tibete. “O que devo fazer para não me afogar?”

Evan se recostou na cadeira; o som diminuía gradualmente. “A KMS precisa se tornar a empresa do código aberto por excelência”, disse. “Precisa incorporar a ética do código aberto, pelo menos na percepção dos clientes.”

Martina revirou os olhos. “Então agora existe uma ética do código aberto? Logo será uma religião.”

“Praticamente já é”, respondeu Evan.

“E eu devo aceitar a idéia do software aberto, deixar que as pessoas tenham acesso a minha propriedade intelectual a troco de nada, e ainda incorporar códigos feitos por programadores desconhecidos nos meus produtos? Esses códigos não foram testados, sabia? E não têm garantia nem suporte técnico.”

“Em geral, é verdade”, disse ele.

“Mas o pior é que não consigo entender como se ganha dinheiro dando tudo de graça. Como vamos controlar os produtos criados em torno do Amp Up — os add-ons, os recursos extras que estamos planejando para os próximos anos? E quanto à idéia básica de controlar esses recursos para obter uma vantagem competitiva? Não é para isso que se abre um negócio?”

“Há outras maneiras de ganhar dinheiro”, disse Evan, “como qualquer empreendedor sabe. Há, por exemplo, a prestação de serviços de suporte técnico, que pode ser pago.”

“Ah, o público adoraria”, disse Martina, sarcástica.

“Você ficaria surpresa. E há recursos valiosos além da propriedade intelectual. O Allan Schmirer, por exemplo.”

“Vamos competir com base no Allan Schmirer?”

“O Allan é brilhante nas negociações com os fabricantes chineses. Ele sabe ir direto ao ponto e, com muito tato, levar os gerentes a aceitar seu ponto de vista. Já falei com ele sobre isso, para tentar descobrir o segredo. Se tivesse alguns ‘Allan Schmirers’ para instalar nas empresas nas quais invisto, seria um investidor muito bem-sucedido.”

“E tem você, que é genial no marketing. Quando começou a trabalhar na Kalley Music Software, você era uma pianista que sabia programar computadores. Você era ótima para vender software de música, mas então entrou num campo totalmente novo — o mercado de games — e decifrou tudo na base do instinto. Sua empresa tem muitos pontos fortes, não é só o programa exclusivo.”

“Mas e meus programadores?”, perguntou Martina. “Vou liberar o código que eles deram o sangue para criar? Vai haver um motim, eles vão deixar a empresa.”

“Ou agradecer por você ter tornado a vida deles muito mais fácil”, rebateu Evan. “Porque eles também podem se aproveitar do código aberto.”

Um silêncio atípico

A caminho do trabalho dias depois, Martina parou para comprar um daqueles refrescos de morango que Allan sempre tomava. Pediu ao vendedor que embalasse bem para mantê-lo gelado.

Ao chegar à empresa, foi atrás de Allan. A sede era relativamente pequena, considerando o volume de vendas. Martina e Allan achavam que num mercado de massa como o deles, que guardava muitas semelhanças com o setor de moda, ter baixos custos fixos protegeria a firma em caso de retração econômica. Assim, a maioria dos aspectos operacionais do negócio era terceirizada — à exceção, é claro, das atividades centrais de programação.

Martina percorreu o corredor das baias dos programadores. Cumprimentou uma das pessoas de quem mais gostava ali — Dixie, uma jovem do Sri Lanka que acabara de concluir o doutorado na Cal Tech. Também falou com Saul, um espanhol de 30 e poucos anos que cobria as paredes do escritório com desenhos que fazia de árvores. Em outro cubículo, havia uma fotografia enorme da banda Z3 usando um Amp Up durante o show.

Mas estava tudo quieto demais. “Cadê todo mundo?”, Martina perguntou.

Jason, um programador com um rabo-de-cavalo grisalho, deslizou a cadeira para fora da baia. No colo, um baixo elétrico. “Tem gente doente. Três pessoas.”

Era bastante. Martina reparou na postura curvada de Jason. “Você está bem?”

“Estou ótimo”, disse ele, sem convencer. Cuidar bem dos programadores sempre fora prioridade para Martina. Mas Jason estava com olheiras, parecia exausto.

“Como vai o upgrade?”, perguntou.

“Vai indo.”

Ela olhou de novo para Dixie, que também parecia meio abatida. Martina se perguntou se o cérebro e o corpo dos programadores estavam reagindo a meses, ou anos, de intensa criatividade e desenvolvimento exaustivo de códigos. Sempre acreditara que os programadores tinham muito orgulho de seus produtos para aceitar códigos feitos por terceiros, mesmo que o código aberto facilitasse o trabalho de programação. Mas talvez estivesse equivocada. Era algo a se pensar.

“Tenho certeza de que será outro sucesso”, disse Martina.

“É”, respondeu Jason.

Qual é a música?

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span style=”font-size: 8pt; font-family: Arial;”>Por fim, Martina encontrou Allan, que saía de uma reunião. “Toma”, disse ela. “Não dou o devido valor a você.”

“O que é isso?”

“Aquele troço de morango que você gosta”, respondeu, passando o canudo.

O dia estava bonito e os dois foram caminhar no pátio, onde Allan tomou a bebida. “Sei que você valoriza meu trabalho. Não se preocupe.”

“Meu irmão, que parece saber um monte de coisa do gênero, me disse que uma das primeiras plantas a serem patenteadas nos Estados Unidos foi uma espécie de morango”, disse Martina.

“Que interessante!”, provocou Allan.

A executiva suspirou. “E onde estaria a agricultura americana sem patentes? Onde estaria qualquer setor sem a proteção à propriedade intelectual?”

Allan ofereceu um gole. Martina aceitou, meio relutante. Não era nada mau.

Martina continou: “Acho que não vai dar, Allan. Não vou conseguir entregar tudo de graça. Ainda que os programadores achassem bom poder usar o código aberto, ainda que ganhássemos tempo e dinheiro no processo de programação, ainda que nossos clientes mais fiéis adorassem essa ‘queda de muros’ e ainda que os processos jurídicos contra nossas adversárias se revelem caros e inúteis, acho que não vou conseguir abrir nosso código para esses infratores”.

“Acho que a maioria das pessoas não liga se usamos código exclusivo ou aberto. Enquanto tivermos elementos a nosso favor, como o Z3 — a melhor propaganda grátis do mundo —, vamos poder seguir fazendo o que fazemos e manter as ótimas margens geradas por nosso software. No futuro próximo, é isso que vejo.”

“Você não vai gostar do que vou mostrar”, interrompeu Allan.

“O quê?”

De volta à sala, ele a levou a um computador. “Olha isso.” Era um vídeo do Z3 no YouTube. Esse ela ainda não tinha visto. E o que estavam tocando? Não eram as guitarras da KMS. Eram aparelhos estranhos, de dois braços. Martina viu que eram instrumentos que alguém fabricara sozinho — ou de produtos de algum concorrente de código aberto. Não havia nenhum Amp Up à vista.

“Aumenta o volume”, pediu a Allan. “O que eles estão tocando?”

“Música nova”, disse Allan. “Na verdade, é uma nova versão daquela velha canção do Public Enemy, ‘Fight the Power’. Lembra?” Allan terminou o suco e o canudo fez aquele barulho irritante de novo.

Martina deve abrir o código do software de seu principal produto? Quatro especialistas dão sua opinião.

{mosimage}Jonathan Schwartz (blogs.sun.com/jonathan ou jonathan.schwartz@sun.com) é presidente da empresa americana Sun Microsystems.

Abrir ou não o código-fonte do Amp Up para usuários e programadores externos é, na verdade, uma questão secundária. Martina Dirweg e o restante da cúpula da KMS precisam, primeiro, decidir o que entendem por sucesso. Isso feito, o caminho a seguir ficará evidente.

A definição de sucesso não é tarefa menor. Significa determinar o tamanho do mercado que a empresa deseja explorar, quem são (e serão) os clientes e como será gerada receita à medida que o mercado evolui. Em praticamente todo setor — e até entre instituições sem fins lucrativos e universidades — há organizações cuja abordagem ao cliente reflete definições de sucesso fundamentalmente distintas.

Vejamos a indústria de celulares. Para a Apple, sucesso significa, em parte, poder definir o que é um celular espetacular — e o iPhone é um belo exemplar de tecnologia a um preço premium. Só que a Apple vendeu apenas 4 milhões de iPhones em 2007, enquanto a Nokia vende 400 milhões de aparelhos por ano — um número impressionante. É que sucesso, para a Nokia, é ser a maior fabricante de celulares do mundo. Uma empresa com essa meta quer atingir o maior mercado possível.

Para atingir essa meta, a Nokia produz telefones que rodam aplicativos de terceiros — não só de seus programadores. Seus aparelhos são, basicamente, abertos a qualquer um que programe em Java, a plataforma usada pela Nokia. (Em 2006, a Sun Microsystems abriu o código da Java, de sua autoria, nos termos da General Public License.) A tecnologia Java está em mais de 5,5 bilhões de dispositivos e tem mais de 5 milhões de programadores mundo afora. Isso dá à Nokia enorme vantagem caso se equivoque ao tentar prever os desejos do público, pois a empresa sempre poderá recorrer a um imenso ecossistema de inovações. Sabemos que a demanda é instável e efêmera. Martina já vê o Amp Up sendo substituído por novos aparelhos. A decisão da Nokia de se abrir a programadores externos significa que outras empresas podem facilmente criar ou importar aplicativos que atrairão o usuário, seja qual for a moda do momento. Com isso, a Nokia tem uma plataforma de apelo global e seu produto não corre o risco de ser um caso isolado de sucesso.

É possível triunfar tanto com o modelo da Apple quanto com o da Nokia — desde que a empresa entenda a escolha feita e o caminho a percorrer. Mas empresas fechadas precisam entender que, devido a suas decisões estratégicas, sua oportunidade de mercado será menor do que a de empresas abertas.

Por ora, a KMS teve sucesso com sua grande idéia. Precisa, porém, se preparar para o que vem. Se decidir apostar que sempre saberá o que sua clientela quer, e se a meta for deter apenas uma fatia modesta do mercado, a empresa deve seguir vendendo um sistema fechado. Se decidir buscar o maior mercado possível, deve descobrir uma maneira de conquistar o maior número possível de usuários — e o código aberto é um primeiro (e excelente) passo.

Há, porém, outro aspecto. Martina está descobrindo que manter a empresa fechada impõe um custo a sua reputação. Antes de a Sun lançar o sistema operacional Solaris com código aberto, nossos concorren

tes faziam questão de informar a potenciais clientes que nosso software estava fora de sintonia com um mundo cada vez mais voltado ao código aberto. Em geral, o usuário que contribui para a comunidade do código aberto tem bom conhecimento técnico e opiniões fortes — que sabe disseminar de forma agressiva.

Ao abrir o Solaris, em 2005, tiramos a palavra “proprietário” da discussão. Aliás, a Sun virou uma empresa totalmente aberta em termos de códigos. Se a KMS fizer algo parecido, não correrá mais o risco de confronto com clientes potenciais. Ao mesmo tempo, capacitará o usuário a fazer do Amp Up o produto perfeito. Isso daria à KMS potencial para passar de 1 milhão de jogos por ano para 100 milhões.    

{mosimage}Eric Levin (eric@technosourceusa.com) é vice-presidente executivo da Techno Source, fabricante de brinquedos e jogos eletrônicos com sede em Hong Kong que comercializa games com sua própria marca e, mediante licença, com as marcas Crayola, NASCAR, Marvel Enterprises, Sesame Workshop e Rubik’s. 

Martina não precisa se debater entre manter o código do Amp Up fechado e permitir o acesso de usuários ao código-fonte. É possível obter vantagens de ambas as alternativas com um meio-termo: abrir a plataforma para terceiros e adicionar recursos que estimulem a formação de uma comunidade.

A exemplo de fabricantes de videogames, a KMS poderia montar um kit de desenvolvimento e licenciar o software para quem quisesse criar aplicativos ou hardware autorizados para o Amp Up. Essas empresas teriam de seguir diretrizes e procedimentos ditados pela KMS, que aprovaria ou vetaria produtos de terceiros. O usuário teria uma seleção maior de aplicativos e hardware. Já os provedores externos se beneficiariam do sucesso do Amp Up sem altos investimentos em marketing.

Monitorar outras empresas traz custos, mas a estratégia de plataforma aberta pode cobrir facilmente o próprio custo por meio de royalties ou taxas. Aliás, avaliar um produto custa muito menos do que dar suporte técnico a clientes com problemas causados por códigos não testados, criados por usuários. Gastar US$ 2 mil para analisar o aplicativo de um terceiro é mais vantajoso do que arcar com o custo acumulado de ligações ao suporte técnico (de US$ 8 a US$ 15 cada). Uma empresa de tecnologia pode viver um verdadeiro pesadelo com um cliente insatisfeito. E se alguém disser que o software que baixou da internet travou seu Amp Up e seu disco rígido? A única saída para acalmar esse cliente é trocar seu produto e seu computador.

Uma plataforma aberta também permitiria que a KMS mantivesse controle em duas áreas muito importantes: a gestão da marca e do ciclo de vida estratégico do produto.

Controlar a marca — talvez seu ativo mais valioso — significa administrar a percepção que o público tem do produto. Ao impedir que o usuário faça o que bem entender com o software, a KMS pode evitar o risco de ações mal-intencionadas ou de mau gosto — como já ocorreu no universo de videogames. Em 2005, a Wal-Mart recolheu o game Grand Theft Auto: San Andreas, da Take-Two Interactive, depois que hackers revelaram imagens pornográficas ocultas no software e o jogo foi reclassificado “para maiores de idade”.

Controlar o ciclo de vida significa espaçar criteriosamente os grandes upgrades, de forma que em todo Natal haja algo que o usuário esteja louco para comprar. O Madden NFL, da Electronic Arts, é um produto cujo ciclo de vida é muito bem administrado. Todo ano é atualizado com a presente escalação dos times de futebol americano, o que leva o usuário a sempre buscar as atualizações. A KMS poderia usar a mesma tática para incrementar as vendas, oferecendo upgrades anuais que incluíssem as músicas mais tocadas dos últimos 12 meses.

Já abrir o código pode ferir a capacidade da KMS de gerir o ciclo de vida do Amp Up. Digamos que planeje lançar, para o Natal de 2008, um upgrade para que o usuário crie e troque vídeos. E se um programador externo, que trabalhe com o código do Amp Up mas não precise da aprovação da KMS, viesse e lançasse um recurso similar em junho? Uma plataforma aberta permitiria à KMS vetar ou adiar esse produto. Num setor movido a tendências, a empresa pode ter apenas três ou quatro anos para explorar uma onda de popularidade — e, portanto, deve reter o controle do ciclo de vida do produto.

Mesmo sem abrir o código, há muitos recursos que a KMS poderia acrescentar para ajudar a criar uma comunidade e estimular a paixão dos usuários. Permitir que o cliente personalize o produto e o compartilhe com amigos é um deles. Outro é montar um site para o usuário exibir sua criatividade. Esse envolvimento com o produto e a empresa garantiria status e prazer para o usuário. Tal estratégia poderia muito bem ajudar o Amp Up a solidificar sua posição de líder de mercado e a desafiar a volubilidade do consumidor — sem implicar grandes custos em termos de suporte técnico.      

{mosimage}Gary Pisano (gpisano@hbs.edu) é titular da cátedra Harry E. Figgie Jr. Professor of Business Administration da Harvard Business School, em Boston.

Uma estratégia de código aberto poderia trazer três grandes vantagens competitivas para a KMS e provocar uma mudança crucial no cenário estratégico da empresa. Já que o código aberto traz benefícios em condições muito específicas, a KMS deve determinar se essas condições estão presentes em seu caso.

Primeiro, permitir que gente de fora da empresa mexa no software e crie seus próprios aplicativos poderia acelerar o ritmo de aprimoramento do Amp Up, pois a KMS teria acesso ao talento de um número de programadores muito maior do que poderia contratar. Para isso serve boa parte das estratégias de código aberto: para tornar mais íngreme a curva de desenvolvimento. Para tanto, o software da KMS deve ter arquitetura modular. Meu colega da Harvard Business School Alan MacCormack demonstro

u que em ambientes de código aberto um software modular facilita a contribuição independente de programadores externos.

Segundo, abrir o software pode aumentar a satisfação do usuário, que receberia uma leva de aplicativos e produtos novos compatíveis de outros usuários e empresas — muito mais do que a KMS poderia criar sozinha.

Por fim, toda essa atividade poderia reduzir o custo de criação de software novo para a KMS.

Naturalmente, para obter essas três vantagens o Amp Up teria de despertar o interesse de programadores. Sem isso, não haveria uma massa crítica de avanços e produtos. Logo, antes de tomar a decisão, Martina precisa descobrir exatamente qual o poder de fogo do Amp Up na comunidade de código aberto. Se a resposta for incerta, a KMS poderia se proteger com a adoção de uma estratégia híbrida: manter fechado o software básico, mas criar módulos extras com código aberto. Com isso, poderia descobrir se os programadores independentes seriam mais rápidos do que a KMS na criação de avanços.

A mudança no cenário estratégico resultaria da perda do software exclusivo como uma das vantagens competitivas da KMS. Quando já não puder concorrer com base no código do Amp Up, a KMS usaria recursos mais abaixo na cadeia para competir — recursos que podem ser consideráveis. É possível, por exemplo, que tenha adquirido grande tarimba em marketing e distribuição nos últimos anos. Ao que parece, Allan Schmirer possui traquejo incomum na negociação com fornecedores chineses. Contratar e reter bons profissionais na China, manter a produção em dia e melhorar as operações por lá são coisas que podem trazer importante diferenciação competitiva para a empresa. Duvido que a Open Chord ou a outra empresinha iniciante consiga adquirir tanta tarimba nessas áreas no curto prazo.

Evan louva a capacidade do diretor de operações de administrar os sócios chineses — mas é fácil para uma empresa se iludir sobre a própria habilidade operacional. Para ter certeza de que possui vantagens competitivas importantes em outros pontos da cadeia, a KMS precisa fazer um exame detalhado e sincero. Se estiver equivocada em relação a esses ativos, os benefícios de abrir o software podem ser ofuscados pelo risco de que uma adversária forte e com alcance global entre no mercado. Tendo obtido o software de graça, a concorrente poderia usar sua capacidade de produção, comercialização e distribuição para superar a KMS.

A pressão exercida sobre a KMS pelos paladinos do código aberto lembra a pressão que certos fabricantes de computador sentiram quando o sistema operacional Linux começou a proliferar. Com efeito, o ambiente da propriedade intelectual pode, em certos setores, ser bastante maleável. Mas, ainda que conseguissem obrigar a KMS a abrir o código do Amp Up, os fundadores da Open Chord teriam pela frente o enorme desafio de superar as vantagens que esse mesmo código aberto poderia conferir à KMS.     

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Michael J. Bevilacqua (michael.bevilacqua@wilmerhale.com) é sócio e co-presidente do departamento de transações com tecnologia e licenciamento da filial de Boston do escritório de advocacia internacional WilmerHale.

Abrir o código-fonte pode facilitar muito o processo de desenvolvimento de software da KMS. Por outro lado, seria maior também o risco de imputabilidade da empresa por violação de propriedade intelectual.

Em vez de criar cada linha de código sozinha, a KMS poderia usar parte do software de código aberto disponível gratuitamente no mercado. Muitas empresas são atraídas por essa vantagem do código aberto. Aliás, uma grande fabricante de aparelhos eletrônicos está, no momento, tentando descobrir se poderia usar de alguma forma o software de código aberto para reduzir custos de desenvolvimento.

Só que o uso do código aberto deixaria a KMS em posição precária. Diferentemente do software criado por programadores da empresa, sob circunstâncias relativamente bem controladas, o código aberto vem de uma comunidade amorfa de gente desconhecida — e a chance de que parte dele tenha sido copiada de um programa patenteado é muito maior do que no caso do software criado na própria empresa. Diferentemente do software à venda no mercado, programas de código aberto não dão nenhuma garantia de que não infringem direitos de propriedade intelectual de terceiros. A maioria dos fornecedores de programas abertos tampouco dá a proteção legal oferecida por fornecedores de software patenteado. Logo, a KMS teria de se virar sozinha caso fosse processada por violação de patentes, direitos autorais ou sigilo industrial devido a um código incluído no Amp Up. A AutoZone, por exemplo, não era protegida à luz do contrato que permitia o uso do sistema operacional aberto Linux; logo, poderia ter sido obrigada a pagar uma indenização quando foi processada em 2004 pelo SCO Group por violação de direito autoral envolvendo o Linux. A ação alegava que a versão do Linux usada pela cadeia varejista de autopeças continha software patenteado pelo SCO (que acabou entrando em processo de recuperação judicial).

Além disso, se a KMS ceder seu código para uso de um terceiro, e o software terminar por infringir a patente de alguém, tanto o terceiro como a KMS poderiam ser imputáveis pela infração. A KMS, como fornecedora do programa infrator, poderia ter de desembolsar um valor calculado com base no faturamento desse terceiro.

O risco de imputabilidade pode aumentar ainda mais com a proliferação das chamadas “patent trolls” — empresas que compram patentes com o único objetivo de abrir processos judiciais e coletar indenizações. É provável que Martina tenha pouca experiência em lidar com essa ameaça. Nesse exato momento, uma troll poderia estar de olho na KMS, esperando apenas que adote o código aberto para poder processá-la ­— a KMS é, seguramente, um alvo mais atraente que suas pequenas adversárias. É preciso ponderar muito bem esse risco.

Tirando a questão da responsabilidade legal, Martina deveria considerar a perda de vantagem competitiva que a empresa sofreria se abrisse o software. A KMS estaria pegando um ativo exclusivo, no qual investiu muito dinheiro, e permitindo que outras empresas f

aturassem com o software sem gastar nada em seu desenvolvimento.

O pessoal por trás de certos segmentos do movimento do código aberto crê que todo código-fonte deveria estar disponível para quem quisesse. Isso funciona no mundo acadêmico, onde o dinheiro vem de bolsas e não é preciso ter lucro. A maioria das empresas de software, porém, está no mercado para ganhar dinheiro — e é muito difícil ganhar dinheiro com o código aberto. 

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Scott Wilson (scowilson@deloitte.com) é alto gerente da Deloitte Research, parte da Deloitte Services LP; é radicado em Stamford, Connecticut, EUA. Ajit Kambil (akambil@deloitte.com) é diretor global da Deloitte Research; é radicado em Boston.

 
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