O Fórum Agenda Brasil 2020, organizado pela Harvard Business Review Brasil, ocorrido no final de maio, trouxe especialistas e acadêmicos para discutir sobre a atual crise brasileira e potenciais cenários por onde trilhar para lidar com a turbulência. Com a atual instabilidade política, este fórum não poderia ter vindo em momento mais apropriado.

Como um convidado de origem britânica, foi particularmente interessante para mim ouvir sobre as observações e as reflexões que os palestrantes fizeram a respeito das percepções dos estrangeiros a respeito do Brasil. Gostaria de compartilhar algumas observações sobre pontos chave do dia e algumas reflexões sobre as implicações para as organizações no Brasil.

O economista Luis Carlos Mendonça de Barros abriu o dia colocando que estamos agora vivendo o fim do modelo antigo de se fazer política no Brasil, acentuando o fato de que o colapso da hegemonia política, até então em vigor, deixou um vácuo na liderança do país. Participando com ele do painel estava presente Jean-Marc Etlin, presidente da CVC Investimentos que complementou sua análise com a observação de que a corrupção não é mais tolerável no Brasil. Pontuou que não haverá mudanças radicais na política econômica, por outro lado não será mais possível responder à crise pelo caminho usual de elevação de impostos.

Com os juros baixos na Europa e EUA, Etlin destacou que investidores estrangeiros ainda veem o Brasil como um potencial de investimento, uma vez que se trata de um país que apresenta uma razoável solidez. Mas o momento atual é de repensar o sistema político, especialmente porque, enquanto a sociedade avança, o sistema político não consegue evoluir a ponto de mudar a opinião pública positivamente.

Este tema fez eco com o palestrante seguinte, Claudio Gonçalves Couto, cientista político e professor Gestão Pública da FGV EESP que pontuou que a crise é resultado da ausência da legitimidade política, com os três maiores partidos políticos enfrentando agora suas próprias crises de liderança.

O último painel da manhã olhou em perspectiva para as escolas de negócio sumarizou os desafios culturais do Brasil com a afirmação de que para inovarmos, precisamos aprender a compartilhar, e para compartilharmos é preciso confiar. Para Flávio Vasconcelos, diretor da FGV-RJ, a maior pressão para as escolas de negócio atualmente reside em como inserir a questão da ética na sala de aula, uma vez que não se trata de uma questão trivial. Para exemplificar seu ponto, Flávio perguntou se os direitos de patente de remédios para a AIDS são mais importantes do que os direitos dos pacientes com AIDS terem acesso a esses remédios, pontuando, assim, que o debate em torno dessas questões, quando analisadas do ponto de vista jurídico, são ainda mais complicadas.

A primeira sessão da parte da tarde explorou a excelência operacional e como o pensamento lean poderia ajudar as organizações a se tornarem menos vulneráveis às crises econômicas. Flávio Augusto Picchi, professor da Unicamp e vice-presidente do Instituto Lean do Brasil, forneceu uma visão geral da metodologia e filosofia lean e Luiz Felipe Etzel, head de operações do fundo de private equity – Grupo Southern Cross – apresentou três diferentes estudos de caso sobre o impacto do lean em organizações brasileiras que eles investiram.

Os três temas das apresentações ocorridas até esse momento do dia – crise política e econômica, ética e pensamento lean – estão relacionados e não devem ser vistos de forma distinta. O Reino Unido é frequentemente ranqueado como o segundo país mais inovador do mundo e eu posso ver que um dos grandes pontos cegos da liderança no Brasil emerge desses três pilares. Este ponto cego é resultado de uma dinâmica social no Brasil resultante de um contexto de grande desigualdade social e econômica resultando em larga distância entre as classes sociais.

O mais importante insight para o Brasil para evitar o desperdício, ser mais produtivo, ágil e lean reside na necessidade dos líderes no topo das organizações se tornarem capazes de valorizar cada pessoa em suas organizações. Isto pode parecer óbvio, porém, para muitos líderes provenientes das classes mais abastada da sociedade, não é. Essa é a grande questão ética relacionada ao pensamento lean que não é mencionada, talvez porque em países inovadores já exista um nível suficiente de confiança e respeito entre todas as pessoas. Mas em países como o Brasil, não podemos assumir que o respeito à opinião de todos e a valorização das contribuições, em todos os níveis da organização, está presente, e, a menos que haja uma mudança no modelo mental, essas organizações que falham em aprender esse ponto sofrerão enquanto as que aprenderem irão prosperar.

O pensamento lean é menos óbvio e quebra paradigmas. É muito mais uma filosofia que uma ferramenta operacional. Mas só poderá  ser plenamente compreendida na dimensão ética, se os líderes, provenientes das classes mais privilegiadas, realmente valorizarem cada pessoa na organização. O Brasil tem excelentes organizações que realmente praticam o walk the talk que se baseia em seus valores e ética. Para sair da crise o Brasil precisa fazer mais do que sempre  fez se promover líderes mais conscientes, capazes de entender que cortando custos e pessoas os resultados esperados não virão automaticamente e que essa prática não é sustentável.

Como Flávio Augusto pontuou, a maioria das organizações somente tem coragem de promover mudanças radicais em tempos de crise. O pensamento lean requer que os líderes criem valor para os clientes, uma abordagem que tem um grande impacto nos resultados. Mas será preciso coragem para os líderes brasileiros quebrarem os atuais e limitadores paradigmas cultural e social. Se assim o fizerem, serão capazes de transformar o Brasil e colocar o pais na posição de destaque e prosperidade que merece.

 

Simon Robinson é sócio-fundador da consultoria Holonomics Educação e um dos fundadores da

Genie Internet, o primeiro portal móvel para internet no mundo. É coautor do livro Holonomics: Business Where People and Planet Matter (Floris Books, 2014) e editor do blog www.transitionconsciousness.org.

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