Economia

Por que o boom da automação pode ser seguido por um colapso

Karen Harris, Austin Kimson e Andrew Schwedel
17 de Abril de 2018
boom

Você pode não estar dividindo ainda seu escritório com um robô, mas a próxima onda da automação começou. Robôs de serviço humanoide, algoritmos de aprendizado de máquina e logística autônoma irão substituir milhões de trabalhadores no setor de serviços na próxima década. Especialistas estão correndo para prever o provável impacto nos empregos. Mas a maioria das projeções ignora duas forças poderosas que se combinarão com a automação para remodelar a economia global até 2030: o rápido envelhecimento da população e o aumento da desigualdade.

A colisão dessas três forças prepara o terreno para um boom econômico de 10 ou 15 anos que será seguido por um colapso. Uma mão de obra que está envelhecendo, avanços de automação e uma crescente desigualdade de renda indicam uma era de mudança rápida e volátil — e maiores disrupções econômicas do que presenciamos nos últimos 60 anos. Na próxima década é provável que os extremos sejam ainda mais extremos.

Como esse ciclo de boom e colapso provavelmente se desenrolará? À medida que a população envelhece, o crescimento de mão de obra diminui, desencadeando escassez de mão de obra em um crescente número de setores. Devido à essa escassez, as empresas irão aumentar o investimento em tecnologias de automação. Nossa pesquisa mostra que o investimento de capital adicional em automação pode chegar a US$8 trilhões nos Estados Unidos até 2030. Isso se traduz em cerca de US$5 trilhões de acúmulo líquido em capital social, aumentando o capital por trabalhador para um valor líquido quase 1,5 vez maior do que o atual.

A magnitude do investimento em automação na próxima década provavelmente será maior em escala do que em períodos anteriores porque afetará principalmente o setor de serviços, e se espalhará por economias avançadas, bem como por partes do mundo em desenvolvimento. Um boom de US$8 trilhões de investimento resultaria em uma média de crescimento anual de cerca de 3% nos Estados Unidos e em uma produção econômica aproximadamente 60% maior em 2030 do que em 2015.

Normalmente, em um boom de investimento desse tipo o crescimento de oferta cria uma demanda por mais oferta — uma reação de crescimento em cadeia. No início da década de 2020, o rápido investimento em automação provavelmente compensaria pouco mais da metade do impacto negativo da automação sobre o emprego, aliviando a restrição da demanda em relação ao crescimento e potencialmente mitigando a remoção imediata de milhões de trabalhadores. Porém, no fim da década de 2020, a automação poderia eliminar de 20% a 25% dos atuais empregos nos Estados Unidos — 40 milhões de trabalhadores — atingindo principalmente funcionários de baixa e média renda. Ao mesmo tempo, muitas das empresas que investiram pesado em automação estarão sobrecarregas com recursos em desacordo com a demanda.

Esse é o fator principal entre o boom e o colapso. À medida que a onda de investimento recua, há o risco de deixar como consequência economias extremamente desequilibradas, nas quais a renda está concentrada entre aqueles mais propensos a economizar e investir, não consumir. O crescimento, a essa altura, tornaria-se profundamente restrito pela demanda, expondo a total magnitude da disrupção do mercado de trabalho temporariamente acobertado pelo boom de investimento.

Consumidores que perderam seus empregos devido à automação gastarão menos, colocando ainda mais pressão sobre a demanda. No fim da década de 2020, a pressão em relação ao desemprego e ao salário pode superar os níveis atingidos após a recessão de 2009. A desigualdade de renda, após seu aumento contínuo por uma década, pode atingir, ou superar, picos históricos, acabando com o crescimento econômico.

Em contrapartida, os benefícios da automação atingirão cerca de 20% dos trabalhadores — especialmente os altamente remunerados e especializados — e dos donos do capital. O aumento da escassez de empregados altamente especializados pode levar seus vencimentos a atingirem níveis ainda mais altos do que o daqueles pouco especializados. Em virtude disso, a automação tem potencial para aumentar significativamente a desigualdade salarial.

A velocidade das mudanças faz diferença. Uma grande transformação que se desenvolve em ritmo mais lento permite que as economias tenham tempo para se ajustar e crescer para recolocar trabalhadores desempregados de volta no mercado de trabalho. No entanto, nossa análise mostra que a automação do setor de serviço dos Estados Unidos pode acabar com empregos duas ou três vezes mais rapidamente do que em períodos anteriores de transformação do trabalho na história moderna.

Para estimar a disrupção provocada pela próxima onda de automação, olhamos para o ápice da mudança do setor agrário para o industrial e para a mudança da produção fabril para o setor de serviços. A diferença dessas duas transformações anteriores está no ritmo da mudança. A transição dos trabalhadores agrícolas para o setor industrial ocorreu durante quatro décadas. A automação das fábricas aconteceu ao longo de um período um pouco menor — aproximadamente 20 anos — mas a porção da força de trabalho atuando nesse setor era relativamente pequena nos Estados Unidos. O investimento em automação na década de 2020 provavelmente acontecerá mais rapidamente do que a automação do setor agrário ou manufatureiro, a não ser que outras forças atuem para impedir esse progresso, e irá afetar uma percentagem maior da mão de obra.

O exemplo dado pela história aponta que a criação de mais valores com menos recursos levou ao crescimento da riqueza material e à prosperidade durante séculos. Não vemos motivo para acreditar que dessa vez será diferente — no fim. Mas o horizonte temporal de nossa análise só se estende até o início da década de 2030. Se o boom de investimentos em automação transformar-se em colapso durante esse prazo, como esperamos, muitas sociedades desenvolverão sérias desigualdades.

A próxima década será um teste extremamente importante para equipes de liderança. Não existe uma fórmula para se administrar durante períodos de crise econômica, mas as empresas podem tomar muitas atitudes práticas para avaliar como uma grande mudança de cenário pode afetar seus negócios. Organizações resilientes que podem absorver abalos e mudar rapidamente de curso terão as melhores chances de prosperar na turbulenta década de 2020 e nas subsequentes.
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Karen Harris é diretora executiva do Macro Trends Group da Bain & Company, com base em Nova York.
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Austin Kimson é diretor do Macro Trends Group da Bain.
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Andrew Schwedel é sócio da Bain e chefia o Macro Trends Group.

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