Como musicista, quero incentivar outros artistas a colaborarem com minha música. Há pouco tempo, porém, um artista visual teve todos os seus vídeos removidos do Vimeo por usar apenas 30 segundos de uma das minhas canções. O selo que detém a licença exclusiva de uma das minhas músicas provavelmente tinha um software que procura infrações de direitos autorais e excluiu os vídeos de maneira automática. Ouvi dizer que o artista conseguiu colocá-los de volta on-line, após algumas semanas de puro estresse e negociação. Pessoalmente, eu gostaria de evitar esses tipos de situações no futuro, o que significa fornecer uma maneira fácil para outros profissionais licenciarem e colaborarem com minha música. Uma camada de pagamentos e direitos baseada em blockchain poderia prover os meios para isso.

Um importante ponto problemático para profissionais criativos na indústria da música — como compositores, produtores e músicos — é que eles são os primeiros a começar a investir no trabalho, e os últimos a ver qualquer lucro. Eles têm pouca ou nenhuma informação sobre como os pagamentos de royalties são calculados, e não têm acesso a valiosos dados agregados sobre como e onde as pessoas estão ouvindo sua música. Mas uma onda crescente de músicos e bandas está lutando pela transparência e justiça utilizando seus próprios métodos — por exemplo, a recente ação de Paul McCartney contra a Sony, a batalha perdida de Duran Duran contra a Sony/ATV, e a briga de Taylor Swift com o Spotify. É dentro deste clima que uma ideia atraente está nascendo: a tecnologia blockchain tem o potencial de organizar a bagunça da indústria da música.

Um dos maiores problemas da indústria no momento é que não há um registro global verificado de profissionais criativos da música e seus trabalhos. As tentativas de criar um registro fracassaram na casa dos milhões de dólares ao longo dos anos, em grande parte às custas de algumas organizações de gestão coletiva (CMOs) — as agências (como ASCAP, PRS, PPL e SOCAN) que asseguram que os compositores, editores, artistas e selos sejam pagos pelo uso de sua música, cobrando royalties em nome dos proprietários desses direitos. Isso se tornou um problema real, como ficou demonstrado pelo processo de ação coletiva de US$ 150 milhões que o Spotify está atualmente enfrentando. A cooperação interorganizacional que o blockchain está fornecendo para a indústria fintech deve inspirar estas “sociedades de cobrança” a utilizarem a tecnologia para criar um registro global aberto (ou parcialmente aberto) se pretenderem permanecer relevantes, o que ajudaria a organizar as imensas quantidades de música nova que são disponibilizadas na Internet todos os dias. Os profissionais criativos de música podem se basear em um registro desse tipo para enviar diretamente novos trabalhos e metadados por meio de perfis verificados por blockchain.

O blockchain tem o potencial de proporcionar uma experiência mais rápida e tranquila para qualquer pessoa envolvida na criação ou interação com música. Por exemplo, ouvir uma canção pode desencadear automaticamente um acordo para todos os envolvidos na criação de uma música com qualquer pessoa que queira interagir ou fazer negócios com ela — seja um fã, um DSP (provedor de serviços digitais, como Spotify ou iTunes), uma estação de rádio ou uma equipe de produção de filmes.

Onde esse novo ambiente musical “viveria”? Uma ideia é .music, o novo e genial domínio de nível superior genérico (gTLD), muito aguardado e prestes a ser apresentado. As decisões sobre seu destino, e sobre quem receberá o controle do domínio, estão atualmente em espera na ICANN (The Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), organização sem fins lucrativos responsável por coordenar e gerir domínios de internet. Atualmente, DotMusic, um candidato à comunidade musical, está recorrendo para o controle do gTLD .music. Mas se perder, há chances de o domínio ir parar nas mãos do melhor licitante em leilão. Entre os concorrentes estão Google e Amazon. Se o vencedor fizer o que é certo e entregar os URLs .music individuais para profissionais criativos musicais reconhecidos (por exemplo, Paul McCartney seria o proprietário do paulmccartney.music e Taylor Swift seria a proprietária de taylorswift.music) em vez de tratar esses novos URLs como suas próprias vitrines, faria total sentido vincular um registro de música ready-for-business habilitado para blockchain a esses URLs, adicionando uma nova dimensão para que profissionais da música direcionem negócios para si mesmos e seu trabalho.

Além disso, o blockchain poderia armazenar informações sobre e/ou links para os perfis online dos músicos (ou “Passaporte Criativo”, como gosto de me referir a esse conceito), como a mais recente biografia, datas de turnê, imagens de divulgação e informações de redes sociais, como artistas que você promove, instituições de caridade que você apoia, conjuntos de habilidades ou organizações ou empresas às quais você está relacionado. Essas informações poderiam então ser atualizadas e ficar acessíveis a qualquer pessoa que procura esses dados, quer sejam humanos ou máquinas. No âmbito da canção — por exemplo, michaeljackson.music/maninthemirror — o blockchain poderia, no mínimo, compartilhar informações sobre todas as pessoas envolvidas na criação da música, mas, além disso, poderia ser vinculado aos metadados sobre detalhes, como o equipamento que foi usado para produzir a canção, onde e quando foi gravada, a inspiração dos artistas, atribuições e mais — como encartes de álbuns expandidos. Isso poderia ajudar a gerar novos aplicativos e serviços em cima desses conjuntos de dados, e, com eles, novos fluxos de lucro para todos os envolvidos.

Há dois anos a ficha caiu para mim, como musicista, quando fui apresentada ao Ethereum, uma plataforma pública e aberta de computação distribuída de maneira similar ao blockchain, com funcionalidade de contrato inteligente. Após descobrir a plataforma, sonhei com um ambiente da indústria musical que chamo de Mycelia, e usei meu lançamento seguinte — a canção Tiny Human — como uma desculpa para explorar ainda mais o potencial do blockchain. Comecei a publicar tudo sobre essa faixa em meu site, para que qualquer um fizesse experiências com ela e para que os fãs apreciassem. Phil Barry na plataforma Ujo Music juntou-se ao projeto, o que resultou em Tiny Human sendo a primeira música a automaticamente distribuir pagamentos por meio de um contrato inteligente para todos os profissionais envolvidos na criação e gravação da música. Foi muito simples — nenhum termo de licenciamento foi exibido — e pouco dinheiro foi arrecadado, em parte devido a necessidade de ter uma carteira Ether contendo Ether (a criptomoeda utilizada na plataforma Ethereum) antes que você pudesse comprar a faixa, o que desencorajou algumas pessoas ao longo do caminho. Porém, foi um primeiro passo que deu muita energia àqueles no negócio da música e do blockchain.

A facilidade de uso é uma das maiores chaves para o sucesso da adoção generalizada de qualquer nova tecnologia. É emocionante a ideia da Web Semântica de mídia vinculada, perfis de artistas e outros metadados que geram novos aplicativos com pagamentos instantâneos peer-to-peer e troca de dados, mas ela só se tornará uma realidade para aqueles que desejam interagir com a música, se suas soluções forem melhores e mais simples do que aquelas que já existem. Era muito mais fácil e preferível para 60 milhões de usuários baixarem músicas do Napster do que irem a uma loja para comprar um CD. Foi uma completa falha da parte da indústria de música comercial não ter encontrado uma maneira de conquistar pelo menos uma parcela dos usuários do Napster e o transformado em um serviço legítimo naquela época. O Napster era uma ideia inovadora que tornou a música mais acessível aos seus fãs. Porém, a RIAA (Associação da Indústria de Gravação da América) decidiu acabar com ele, em vez de explorar a ideia de compartilhar bibliotecas e música peer-to-peer em um contexto legal.

Hoje em dia, no entanto, o cenário é diferente, e a grande maioria das pessoas que quer ouvir música faz isso pelo YouTube, que é gratuito e legal. Surpreendentemente, milhares e milhares de novas músicas são colocadas on-line todos os dias, não registradas corretamente e, portanto, precisam urgentemente de metadados associados. É possível encontrar melhores maneiras, que façam sentido para todos, para que as pessoas publiquem e interajam facilmente com a música?

Alguns estão tentando. Organizações como a Iniciativa de Música Aberta (OMI) da Berkleee conseguiram reunir quase todas as partes interessadas da indústria para explicar por que vale a pena explorar e se envolver com a tecnologia blockchain. E um número crescente de novos serviços de música tipo all-in-one para artistas, como o Revelator (que é baseado em blockchain) e o Amuse (que não é baseado em blockchain) está usando big data combinados com fingerprinting de áudio para fornecer feedback, análise e administração de dados úteis à indústria musical. Eles entendem que os bons dados de feedback podem ser tão valiosos quanto o dinheiro para profissionais criativos, permitindo que um artista tome decisões comerciais com confiança e clareza. Combine isso com as capacidades de redes sociais que agregam aplicativos como Hootsuite ou Social Sprout, e as representações on-line particionadas dos artistas, e as peças criativas dispersas começam a se unir. Imagine ser capaz de saber, ou ser avisado, quando e onde sua música está sendo tocada. Digamos que sua música está tocando em uma determinada estação no rádio… você poderia ligar para o DJ para agradecer por tocar sua música, enquanto se conecta aos ouvintes do momento, adicionando contexto e significado às suas músicas.

Agora é a hora da indústria musical pensar a longo prazo e explorar o blockchain juntamente com seus profissionais criativos para o bem de sua sanidade e futuro. Não será difícil tornar o negócio mais eficiente, já que agora está uma enorme bagunça, mesmo. Os maiores investidores da indústria só precisam ter fé de que ganharão mais dinheiro fazendo o que é certo — o que levaria a uma remuneração justa, transparência e grande variedade de novas oportunidades de negócios para os artistas. Simplificando, se a indústria quer ter alguma influência ou opinião sobre a sustentabilidade do nosso ambiente musical, precisa se unir para desenvolver ferramentas e padrões, para que novos serviços necessários e inovadores possam florescer — mas, desta vez, sob nossa própria internet of agreements para música, onde os artistas seriam representados de maneira justa.

Acredito que os artistas em destaque — aqueles “na capa” — devem inevitavelmente ser incumbidos de garantir que todos os envolvidos na criação de música em seu nome sejam devidamente reconhecidos e remunerados. O efeito blockchain fez profissionais criativos acreditarem que um futuro melhor está por vir. Se orientado e nutrido da maneira certa, o blockchain tem o potencial para nos proporcionar uma era dourada na música, não só para os ouvintes, mas também para aqueles que a fazem.
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Imogen Heap é uma artista vencedora do Grammy que está por trás do Sistema de luvas musicais mi.mu e a fundadora do Mycelia, organização sem fins lucrativos com foco em permitir um ambiente justo e sustentável na indústria musical. Além disso, compôs a trilha sonora de https://www.harrypottertheplay.com/creative/imogen-heap/. Recentemente, foi nomeada como diretora do conselho do PRS e é a primeira Artista Residente/Diretora Executiva Criativa (CEO) da Featured Artists Coalition.
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Tradução: Raphaela P. da Cruz Bonatti

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