O Papa Francisco deixou bem clara a sua intenção de reformar radicalmente as estruturas administrativas da Igreja Católica, em sua opinião, pouco receptivas, presunçosas e burocráticas. Para o pontífice, num mundo em intensa atividade, o líder autocentrado, que não tem um olhar para o outro, representa uma limitação.

No ano passado, pouco antes do Natal, o Papa se dirigiu aos líderes da Cúria Romana – os Cardeais e outras autoridades encarregadas de gerir a complexa rede dos órgãos administrativos da Igreja. A mensagem do pontífice aos seus colegas foi sem rodeios. Os líderes estão suscetíveis a uma série de mazelas, incluindo arrogância, intolerância, miopia e mesquinhez. Essas doenças, quando não são tratadas, vão enfraquecendo a própria organização.  Para se ter uma Igreja saudável, precisamos de líderes saudáveis.

Por muitos anos, venho ouvindo dezenas de especialistas em gestão enumerarem as qualidades dos grandes líderes. É raro, no entanto, apontarem os “males” da liderança.  O Papa é mais direto. Compreende que como seres humanos, temos certas inclinações – nem todas elas nobres. No entanto, deve-se esperar muito de um líder, já que o alcance de sua influência torna suas enfermidades especialmente contagiosas.

A Igreja Católica é uma burocracia: uma hierarquia povoada de almas bem intencionadas, porém longe da perfeição. Nesse sentido, não é muito diferente de sua organização.  É por isso que o conselho do pontífice é relevante a líderes em todo o mundo.

Pensando nisso, dedique algumas horas à adaptação do discurso do Papa para trazê-lo mais próximo da linguagem corporativa. (Não sei se há alguma proibição em se parafrasear pronunciamentos papais, mas como não sou católico, estou disposto a correr o risco).

Seguem então, as palavras do Papa (mais ou menos):

A equipe de liderança é constantemente convocada a melhorar e se desenvolver no que diz respeito a relacionamentos e inteligência, a fim de realizar plenamente sua missão. E ainda assim, como qualquer corpo, como qualquer corpo humano, também está exposta a doenças, defeitos e enfermidades. Gostaria de mencionar algumas dessas “doenças [da liderança]”. São doenças e tentações que podem enfraquecer de modo perigoso a eficácia de qualquer organização.

  1. O mal de se pensar que somos imortais, imunes ou absolutamente indispensáveis, [e consequentemente], de se negligenciar a necessidade de fazer check-ups regulares. Uma equipe de liderança que não tem autocrítica, que não se atualiza e que não busca estar mais preparada, é um corpo adoecido. Uma simples visita ao cemitério bastaria para ver os nomes de muitas pessoas que se julgavam imortais, imunes e insubstituíveis! É o mal daqueles que se tornam senhores e donos, que acreditam estar acima dos outros e não a seu serviço. É a patologia do poder que se origina de um complexo de superioridade, de um narcisismo que faz com que o indivíduo mire tão intensamente a sua própria imagem que não consegue enxergar a face do outro, especialmente do mais fraco e mais necessitado. O antídoto para essa praga se encontra na humildade; em dizer do fundo do coração: “Sou um mero servo. Só fiz o que era meu dever”.
  2. Um outro mal é o trabalho em excesso. É encontrado naqueles que mergulham no trabalho e inevitavelmente deixam de “reservar um tempo para descanso”. Não se permitir o descanso necessário leva ao estresse e agitação. Um tempo de descanso, para aqueles que concluíram seu trabalho é necessário, obrigatório e deve ser levado a sério: ao despender tempo com a família e respeitar os feriados como momentos de recarregar as baterias.
  3. Então temos o mal do “empedernimento” mental e [emocional]. É encontrado nos líderes que têm um coração de pedra, nos “arrogantes”; naqueles que com o tempo perdem sua serenidade interior, presença de espírito e ousadia, e se escondem atrás de uma pilha de papéis, transformando-se em burocratas e não homens e mulheres de compaixão. É perigoso perder a sensibilidade humana que nos permite chorar com aqueles que choram e celebrar com aqueles que celebram! Pois à medida que o tempo passa, nossos corações se tornam rígidos e somos incapazes de amar aqueles que nos rodeiam. Ser um líder humano significa possuir os sentimentos de humildade e altruísmo, desprendimento e generosidade.
  4. O mal do planejamento excessivo e do funcionalismo. Quando um líder planeja tudo até o último detalhe e acredita que com o planejamento perfeito tudo se encaixará, ele se torna um contador ou um gerente de escritório. As coisas devem ser bem preparadas, mas sem nunca cair na tentação de tentar eliminar a espontaneidade, que sempre é mais flexível do que qualquer planejamento humano. Contraímos essa doença pois é fácil e confortável nos organizarmos em nossas próprias formas sedentárias e regulares.
  5. O mal da má coordenação. Quando os líderes perdem o sentido de comunidade, o corpo perde seu funcionamento harmônico e equilíbrio; torna-se então uma orquestra que produz ruído: seus membros já não trabalham em conjunto e perdem o espírito de camaradagem e de trabalho em equipe. Quando o pé diz para o braço: “não preciso de você”, ou a mão diz para a cabeça “sou eu que estou no comando”, acabam por criar desconforto e paroquialismo.
  6. Há também um tipo de “mal de Alzheimer da liderança”. Consiste em perder a memória daqueles que cuidaram de nós, que foram nossos mentores e nos apoiaram em nossas jornadas. Vemos essa mazela naqueles que perderam a memória de seus encontros com os grandes líderes que os inspiraram; naqueles que estão completamente aprisionados no momento presente, em suas paixões, caprichos e obsessões; naqueles que erguem muros e rotinas em torno de si, tornando-se então cada vez mais escravos de ídolos esculpidos por suas próprias mãos.
  7. O mal da rivalidade e da vanglória. Quando as aparências, os privilégios e os títulos se tornam o propósito primordial da vida, nos esquecemos do dever fundamental como líderes -—de “não agir por força do egoísmo ou vaidade, mas sim da humildade, e de modo que os outros contem mais do que nós mesmos”. [Como líderes, temos por obrigação] não olhar somente para [nossos] próprios interesses, mas também aos interesses dos outros.
  8. O mal da esquizofrenia existencial. Esse é o mal daqueles que vivem uma vida dupla, o fruto daquela hipocrisia típica dos medíocres e de um vazio emocional progressivo que nenhum [feito ou] título é capaz de preencher. É uma doença que costuma afetar aqueles que não estão mais em contato direto com clientes e funcionários “do baixo clero”, restringindo-se a questões burocráticas, perdendo assim o contato com a realidade e com pessoas concretas.
  9. O mal da fofoca, queixumes e difamação. Essa é uma doença insidiosa que começa de forma simples, talvez mesmo em uma conversa casual e que acaba por dominar o indivíduo, tornando-o um “semeador de ervas daninhas” e em muitos casos, um assassino a sangue frio da boa reputação de colegas. É a doença de pessoas covardes que não têm a coragem de se pronunciar diretamente, e falam pelas costas das pessoas. Fiquemos atentos contra o terrorismo da fofoca!
  10. O mal de se idolatrar os superiores. Essa é a doença daqueles que cortejam seus superiores na esperança de ganhar seus favores. São vítimas do carreirismo e oportunismo; exaltam pessoas [ao invés da missão da organização como um todo]. Pensam somente naquilo que podem obter e não naquilo que devem oferecer; são pessoas tacanhas, infelizes e inspiradas somente por seu próprio egoísmo letal. Os próprios superiores podem ser afetados por esse mal, quando tentam obter a submissão, lealdade e dependência psicológica de seus subordinados, tendo como resultado final uma cumplicidade deletéria.
  11. O mal da indiferença pelos outros. Esse mal se identifica quando cada líder só pensa em si mesmo, perdendo a sinceridade e o calor que caracterizam as relações humanas genuínas. Há muitas formas de se manifestar: quando se detém um maior conhecimento, mas esse saber não é disponibilizado aos colegas menos conhecedores da matéria; quando se aprende algo e se guarda para si ao invés de compartilhar de forma útil com os demais; quando por inveja ou despeito se deleita ao ver os outros caírem ao invés de ajudá-los a se erguer e encorajá-los.
  12. O mal da fisionomia sombria. Essa doença é aparente naquelas pessoas pessimistas e austeras que acreditam que para ser sério é preciso fazer uma cara de melancolia e gravidade, e tratar os outros- especialmente aqueles que consideramos nossos subalternos- com rigor, rudez e arrogância. Na verdade, demonstrações de austeridade e pessimismo estéreis costumam ser sintomas de medo e insegurança. Um líder tem de se esforçar para ser cortês, sereno, entusiasmado e alegre, uma pessoa que transmite alegria onde quer que vá. Um coração feliz irradia uma alegria contagiante: logo se percebe! Dessa forma um líder nunca deve perder esse espírito animado, bem humorado e mesmo modesto que torna as pessoas agradáveis até em situações difíceis. Como faz bem uma boa dose de humor!
  13. O mal do acúmulo. Esse mal ocorre quando um líder tenta preencher um vazio existencial em seu coração ao acumular bens materiais, não por necessidade, mas a fim de se sentir seguro. A verdade é que não seremos capazes de carregar conosco os bens materiais quando deixarmos essa vida, já que “a mortalha não tem bolsos” e nossos tesouros nunca serão capazes de preencher aquele vazio; pelo contrário, o tornarão mais profundo e problemático. O acúmulo de bens somente representa um fardo e inexoravelmente retardam a jornada!
  14. O mal dos círculos fechados. Acontece quando pertencer a um “grupo restrito” se torna mais importante do que nossa identidade compartilhada. Esse mal começa também com boas intenções, mas com o passar do tempo escraviza seus membros e se torna um câncer que ameaça a harmonia da organização causando imenso dano, especialmente àqueles que tratamos como “não pertencentes ao grupo”. O “fogo amigo” de nossos próprios soldados representa o perigo mais insidioso. É o mal cujo ataque parte da própria esfera interna. Como reza a Bíblia: “Todo reino dividido contra si mesmo é um reino desolado”.
  15. Por fim: o mal da extravagância e exibicionismo. Esse mal se manifesta quando um líder transforma seus serviços em poder, utilizando esse mesmo poder para ganhos materiais ou para adquirir ainda mais poder. É a doença de pessoas que, insaciáveis, tentam acumular poder e para esse fim estão dispostas a difamar, caluniar e prejudicar a reputação dos outros; que se exibem para mostrar que são mais capazes do que os outros. Essa mazela traz grandes prejuízos pois leva as pessoas a justificarem o uso de quaisquer meios que sejam a fim de alcançar seus fins, na maioria das vezes invocando a justiça e transparência! Aqui caberia lembrar um líder que costumava chamar jornalistas para contar e inventar assuntos particulares e confidenciais envolvendo seus colegas. Tudo que lhe importava era ter a possibilidade de aparecer nas primeiras páginas do jornal, já que isso fazia com que se sentisse poderoso e glamoroso, embora causasse um enorme prejuízo aos outros e à organização.

Amigos, essas doenças constituem um perigo para todo o líder e toda a organização, e podem acometer tanto indivíduos como comunidades.

E então, você é um líder saudável? Utilize o inventário das doenças da liderança enumeradas pelo Papa para descobrir. Pergunte a si mesmo, numa escala de 1 a 5, até que ponto:

Sinto-me superior aos que trabalham para mim?

Demonstro um desequilíbrio entre trabalho e outras áreas da vida?

Substituo formalidade por uma verdadeira intimidade humana?

Confio excessivamente nos planos e não o suficiente na intuição e improviso?

Despendo pouco tempo para romper silos e construir pontes?

Costumo deixar de reconhecer a dívida que tenho para com meus mentores e outros?

Sinto uma satisfação exacerbada quanto às minhas regalias e privilégios?

Isolo-me dos clientes e dos funcionários do “baixo-clero”?

Tenho por hábito denegrir os motivos e realizações dos outros?

Exibo ou encorajo deferência ou servilismos excessivos?

Coloco meu próprio sucesso à frente do sucesso dos outros?

Deixo de cultivar um ambiente de trabalho animado e cheio de alegria?

Exibo traços de egoísmo quando se trata de compartilhar recompensas e elogios?

Encorajo o paroquialismo ao invés do espírito de comunidade?

Comporto-me de forma que pareça egocêntrica àqueles que me rodeiam?

Como em todas as questões de saúde, é sempre bom ter uma segunda ou terceira opiniões. Peça aos seus colegas que o avaliem em relação a esses mesmos quinze itens. Não se surpreenda se disserem: “Puxa chefe, você não está parecendo bem hoje”. Como uma bateria de exames médicos, essas perguntas podem ajudá-lo a voltar sua atenção para oportunidades de prevenir doenças e melhorar sua saúde. Uma avaliação de liderança de autoria do Papa pode parecer um pouco exagerada. Mas lembre-se: suas responsabilidades como líder e sua influência sobre a vida das outras pessoas podem ser profundas. Por que não recorrer ao Papa – um líder espiritual dos líderes- em busca de sabedoria e conselhos?

Um pensador influente de gestão, Gary Hamel é professor convidado na London Business School e co-fundador do projeto MIX (The Management Innovation Exchange).  Seu último livro é “What Matters Now.”

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