Estava entrando na sala para fazer a primeira prova da faculdade quando a metralhadora disparou lá fora. Meus colegas de classe e eu corremos para as janelas e vimos os assassinos escapando enquanto os pedestres se acercavam do carro das vítimas.

Quando a polícia chegou, já estávamos fazendo nossa prova, em silêncio. Só um pensamento me passava na cabeça: “quero sair daqui”.  Da Sicília, não da escola.  A cena era chocante, mas não era novidade onde cresci. Quando as bombas detonaram, mais tarde, naquele verão, o governo enviou o exército.

Entretanto, por mais inseguros que nos sentíssemos, adolescentes de classe-média como eu nunca se percebiam como alvos.  Criminosos matavam criminosos e também os mais honestos homens de negócios, magistrados e polícia.  E ainda assim, ir para a faculdade ou sair à noite, ou à praia, tinha o gosto de um ato de rebeldia. Alguns de meus amigos, naqueles tempos, decidiram corajosamente se tornar juízes. Eu era muito menos corajoso e meu desejo sempre foi sair de lá.

Sonhava em viver em um lugar onde liberdades como assistir a um jogo de futebol, um concerto ou um programa tarde da noite não envolvessem ansiedade ou não implicassem um protesto civil. Um lugar como Paris.

Tive sorte em viver, trabalhar e educar meus filhos perto daquela charmosa cidade, já faz uns dez anos agora. Estávamos em casa, dormindo, na hora dos atentados.  Acordar com mensagens preocupadas daqueles velhos amigos perguntando: “você está a salvo?” foi algo chocante e um tanto surreal. Felizmente, estamos.  Ou melhor, estamos mesmo?

Fico me perguntando se meus pais não sabiam exatamente o que dizer como me senti essa manhã quando meu filho de sete anos perguntou: “Por que eles atiram nas pessoas? Aqui também está tendo guerra? ”. Disse aos meus filhos o que todos os pais dizem. “Estamos a salvo, não se preocupe, vai ficar tudo bem”. Ainda somos muito afortunados: raramente tenho de dizer isso sabendo que é uma mentira. ”

Estamos vivos. Somo rebeldes. Mas não estamos a salvo. Desta vez, somos alvos.

À medida em que assistia às notícias e vasculhava a mídia social, me dava conta, como muitos se davam, de que os terroristas não haviam atingido símbolos tradicionais do dinheiro e poder franceses. Eles haviam atingido as vizinhanças em expansão, diversificadas, onde meus amigos e colegas vivem, os clubes e restaurantes onde os jovens se encontram e frequentam.

A liberdade foi ferida, sem dúvida, porém esses foram atentados contra a tolerância.  Contra o ideal francês de que Liberdade e Igualdade não são suficientes. É preciso também a Fraternidade, se quisermos que uma sociedade diversificada não fragmente e desmorone.

Pensei em meus alunos do MBA, também, saindo numa noite de sexta feira, provavelmente em Paris. Fiquei me perguntando o que lhes direi, após um minuto de silêncio na sala de aula. Só uma coisa me vem à mente.

Dessa vez, não desejo no fundo ir embora. Precisamos conversar. E é melhor não mentirmos.

Gostaria de não ter de chamá-los de corajosos por escolherem ir à escola com pessoas cujas origens e valores são tão diferentes dos seus. Mas como esse tipo de compromisso parece hoje estar sujeito a ataques, devo fazê-lo.  A curiosidade é o que todo fundamentalista despreza.

Também desejaria que fôssemos melhores em cultivar essa curiosidade. Com demasiada frequência nós a louvamos, mas não a honramos o suficiente. Costumamos dizer que o objetivo da educação é preparar os líderes de amanhã.  A pergunta é como os preparamos, e para o quê.

Hoje mais uma vez fica claro que tornar os líderes eficientes está longe de ser o bastante. Dar-lhes a confiança e ferramentas para reivindicar os valores e buscar as metas daqueles como eles, na verdade, só piorará as coisas. Precisamos sim é mais espaço para questionar nossos próprios valores e metas, e conhecer os valores dos outros – sejamos nós líderes ou não.

O objetivo da educação, em última análise, é cuidar da civilização. Isso não significa ajudar a defender e propagar a cultura de um grupo, seja ele um grupo restrito local ou um grupo globalmente disperso. Fazendo isso, cultivamos o tribalismo, mesmo que disfarçadamente.

Promover a civilização significa cultivar nossa curiosidade para reconhecer diferenças substantivas, e nosso compromisso para respeitá-las – dentro dos grupos e entre eles. Para tanto, precisamos de líderes não mais eficientes, e sim mais humanos. Que tenham mais dúvidas, menos certezas. Líderes que sejam capazes de não perder sua voz, e de ajudar os outros a encontrarem as suas, quando parecer mais arriscado fazê-lo.

Já temos uma verdadeira profusão de bons líderes tribais. Precisamos, agora, de mais líderes civilizados.

E se pensarmos bem, o que realmente precisamos não é tanto mais de liderança e sim mais fraternidade –  o sentimento de compartilhar uma situação difícil, mesmo que não compartilhemos a mesma história, experiência ou destino. Um sentimento que se faz mais necessário exatamente quando a fragmentação e o fundamentalismo são muito mais comuns. A fraternidade é um antídoto para ambos, uma alternativa para a alteridade que não implica uniformidade.

É fácil permanecer sem palavras, gritar ou bater quando as palavras não são suficientes. Porém conversar é o que precisamos agora, especialmente sobre o que pode ser difícil de escutar.

Não podemos vencer uma guerra contra a intolerância. Só podemos respeitar uns aos outros fora dela.

 

Gianpiero Petriglieri é professor associado no INSEAD, onde dirige o Management Acceleration Programme, o programa executivo referência da escola para líderes emergentes. Também tem doutorado em Medicina e especialização em psiquiatria

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