HBR: Já disseram que você resistia a ser vista como um exemplo. Hoje, porém, é o rosto público de sua empresa. Como foi a transição?

Ride: Depois do meu primeiro voo, comecei a entender a importância de servir de exemplo. Meninas, em particular, precisam de modelos na profissão que porventura venham a escolher para poder se imaginar nessa atividade um dia. A saída que encontrei é saber muito bem o que considero importante suficiente para vincular meu nome e aplicar minha energia. Com um foco claro, fica fácil recusar gentilmente outras oportunidades.

Quando chegou à Nasa, o lugar parecia um clubinho só para homens?

Houve um choque cultural, sim, pois estavam acostumados a homens pilotando caças. Mas nossa turma, com 35 integrantes, era muito menos homogênea, e daí surgiu uma camaradagem, um sistema de apoio. Isso posto, era um alívio saber que éramos seis mulheres ali, não duas. Era patente que a Nasa estava investindo em mais diversidade de gênero.

O acidente da Challenger ocorreu depois de seu segundo voo espacial. Você participou da comissão de inquérito e da que investigou o desastre do Columbia, 17 anos depois. Quais
as lições desses episódios?

A Nasa tinha uma forte reputação no controle de qualidade, na gestão de riscos e na atenção a detalhes. Mas se deixou distrair. Havia uma tendência a deixar os problemas serem resolvidos com o tempo, em vez de imediatamente, o que pesou muito nos dois acidentes. Quem estava na Nasa à época do acidente da Challenger levou estas lições a sério. Mas a instituição não fez nada para garantir que gente nova assimilasse este ensinamento ao chegar à Nasa e, mais tarde, ascender a postos de poder. A Força Aérea tinha um célebre curso no qual usava o acidente da Challenger como estudo de caso para a formação de gestores — o que a Nasa nunca fez, e que se tornou evidente no momento do acidente com o Columbia.

A Sally Ride Science é uma empresa voltada ao lucro com uma missão pública, e hoje a Nasa está entrando em parceria com empresas privadas para a exploração espacial humana. Por que comercializar esse tipo de iniciativa?

Na Sally Ride Science, sentimos que era importante contar com uma organização eficiente e produzir coisas pelas quais a rede de ensino, professores ou pais pagariam. Esse mesmo raciocínio vale para a atividade comercial no espaço. As empresas que surgiram e se deram bem nos primeiros estágios acham que podem fazer as coisas de modo mais eficiente do que o Estado. Naturalmente, não têm o privilégio de camadas e camadas de supervisão e controle de qualidade que a Nasa pode aplicar a um projeto. Creio que aí está o ato de equilíbrio.

Desde o início da sua carreira, o que mudou para a mulher que se dedica à ciência?

Leva tempo para que um número grande de garotas vá estudar física ou engenharia na faculdade e entre no mercado de trabalho. Agora, esse bolo está crescendo, mas há outras questões ligadas à cultura do meio empresarial e do acadêmico. Um departamento no qual há 20 homens tende a contratar homens. É difícil romper essa barreira. Isso vale na tecnologia, na defesa, no setor aeroespacial. É uma das áreas nas quais enquanto não atingirmos uma massa crítica, não podemos baixar a guarda.      

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