HBR: Houve muita polêmica em torno de sua aposentadoria e da indicação de um sucessor no banco. O que aconteceu?

Yunus: Quando fiz 60 anos, apresentei minha renúncia. “Por que se aposentar?”, perguntou o conselho. Aos 70, disse: “Acho que agora é hora”. A resposta? “De jeito nenhum.” Tinha gente no banco me pedindo para ficar, por isso fiquei. Até que, ano passado, o governo disse que eu devia ter me aposentado dez anos antes, na idade obrigatória. Apelei, mas a suprema corte não aceitou minha defesa. Saí, portanto. Mas meu caso, em si, não é importante. O importante é proteger os direitos das mulheres que detêm 97% das ações do Grameen. Se o governo assumir [o controle], será um desastre. Uma instituição independente que deu poder à mulher pobre e é admirada mundialmente será convertida em um banco público mal gerido, corrupto. Que fim trágico.

O microcrédito também foi criticado nos últimos anos.  Como manter a qualidade à medida que a organização vai crescendo e suas ideias se propagando?

O problema não é o microcrédito, mas sim usar a ideia para os fins errados. Na Índia, certos projetos trataram o microcrédito como uma oportunidade para ganhar dinheiro. Inflaram a coisa, abriram o capital na bolsa e por aí vai. Agora, em certos lugares até o agiota chama o que faz de microcrédito. Não tivemos qualquer problema com o Grameen em Bangladesh, pois nunca deixamos de lado nossa missão. Queremos ajudar o pobre.

O Grameen começou como um projeto de pesquisa em campo. Por que é tão importante esse contato com o mundo?

Quando estava fazendo doutorado e lecionando, tinha uma visão panorâmica do mundo. Depois, no trabalho em vilarejos, porta a porta, pessoa por pessoa, ganhei uma visão mais próxima. Via todos os detalhes. Podia enxergar claramente um problema e tentar resolvê-lo. Você começa com cem pessoas, dali a pouco passa para as outras cem. Você ganha uma escala maior a um ritmo gradual. No começo, não projeta a coisa para um milhão de pessoas. Você avança passo por passo, não parte já com uma megaestrutura.

Mesmo assim, o senhor costuma estipular grandes metas.

Sim, pois acredito que, se colocarmos toda a força criativa do ser humano de um lado e todos os problemas do mundo do outro, e provocarmos uma batalha entre os dois lados, a criatividade humana sempre triunfará. É só que não usamos nossa força criativa para resolver problemas, mas sim para ganhar dinheiro. Como reverter esta situação? Com empreendimentos sociais. Criando empresas que se dediquem a resolver uma pequena fatia de nossos problemas e que operem com a eficiência de uma empresa voltada ao lucro — mas com investidores que não esperem dividendos.

Qual seu grau de envolvimento em empreendimentos sociais que o Grameen promove em parceria?

Sou um só. Na maioria das vezes, não contribuo pessoalmente para a concepção de produtos. Mas sou um catalisador para reunir as pessoas em torno de objetivos. Quando fizemos uma parceria com a Danone para criar um iogurte mais nutritivo para crianças em Bangladesh, por exemplo, o pessoal da empresa primeiro me mostrou um potinho de plástico. Disse que não, que não podia ser plástico, que queríamos algo biodegradável. A resposta deles: “Usamos plástico no mundo todo”. E a minha: “No mundo todo, vocês trabalham para ter lucro. Aqui, seu negócio é social”. Pois foram e criaram um potinho comestível. Essas grandes empresas têm uma capacidade enorme de criar. Mas só vão buscar uma resposta se você fizer a pergunta. 

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