Maya Angelou foi cozinheira, condutora de bonde, garçonete, cantora, dançarina, editora, professora, defensora de direitos civis e atriz antes de se tornar uma das escritoras mais amadas da literatura americana. Do alto de seus 85 anos, Angelou diz que teve sucesso como contadora de histórias por mostrar “que somos mais parecidos do que diferentes”. Ou seja, por explorar temas universais.

HBR: Seu último livro é sobre sua mãe. O que você aprendeu com ela?

Angelou: A ter coragem. E foi algo que ela me ensinou por ser, ela mesma, uma pessoa corajosa. Descobri que ninguém nasce com coragem, que é algo que se adquire com pequenos atos de bravura. Quando alguém quer levantar um saco de 50 quilos de arroz, por exemplo, o melhor é que comece com um saco de três quilos, depois um de dez, outro de 20, até que seus músculos já deem para erguer o saco de 50 quilos. Com a coragem, é o mesmo.

Tanto sua mãe quanto sua avó tinham um negócio. Você aprendeu algo sobre gestão com elas?

Aprendi que é sábio ser justo, e que mentir é imprudente. Isso não significa dizer tudo o que se sabe, mas que aquilo que você diz seja verdade. Tem gente que diz que sou brutal na minha franqueza, mas não é preciso ser brutal; é possível dizer a verdade de um jeito que soe palatável a quem está ouvindo.

De tudo o que você já fez na vida, o que foi mais difícil?

Escrever poesia. Quando chego perto de dizer o que quero, já é um êxtase. Ainda que sejam seis linhazinhas, estouro o champanhe. Mas até lá, santo pai, essas linhas me atormentam como um mosquito zumbindo no ouvido.

E como é seu processo de criação?

Embora minha casa seja imensa, alugo um quarto de hotel e vou para lá cedinho, por volta das 6h30. Tenho um dicionário de sinônimos, um dicionário normal, uma Bíblia, um bloco de anotações e canetas. E me ponho a trabalhar. Paro por volta de uma da tarde. Quando estou ali, sinto que entro em um lugar só meu, que está esperando por mim. E que, de certa forma, saio do mundo cotidiano.

E há momentos de bloqueio criativo?

Não chamo isso de bloqueio. Tenho cuidado com as palavras que uso, pois sei que meu cérebro vai lembrar e ficar repetindo. Há momentos em que sento na cama do hotel com um baralho e jogo paciência para distrair minha “cabecinha”. Herdei essa palavra da minha avó. Quando algo a surpreendia, ela costumava dizer: “Puxa, nem a minha cabecinha teria imaginado isso”. Eu acreditava piamente que havia uma cabecinha e uma cabeçona e que, se eu pudesse distrair a cabecinha, levaria menos tempo para fazer a grande trabalhar. Por isso jogo paciência. Já acabei com um baralho dos bons em uma semana e meia. Às vezes, isso me rendeu duas páginas que valiam a pena. Em outras vezes, 20.

Você viveu em outros países e tem um público fiel bem diversificado. Qual o segredo para transpor barreiras sociais?

Não dou atenção a diferenças entre seres humanos criadas pelo próprio homem. Se há um ser humano por perto, estou em casa. Não sei o que faria com zebras, elefantes ou baratas (aliás, andaria de elefante se visse um). Já quando estou em companhia de seres humanos, seja qual for a cultura, respeito. E gostaria que a minha também fosse respeitada.

Tendo conhecido gente como Martin Luther King, Malcolm X, Bill Clinton e Barack Obama, qual, a seu ver, o segredo de um grande líder?

Um líder vê grandeza nos outros. Quem só enxerga a si mesmo nunca vai ser um líder.

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