Quando alguém pensa em plataformas multilaterais, geralmente pensa naquelas que, como a Apple e Facebook, fazem rios de dinheiro. Ou em “unicórnios” (startups com valor acima de US$ 1 bilhão) como a Uber que, se tabelas de capitalização significam alguma coisa, algum dia terão esse tipo de valor. Claro, qualquer um que conheça, de fato, a história das plataformas poderá lembrar de muitas que almejavam fazer montanhas de dinheiro, mas nunca conseguiram, e logo morreram (por exemplo, aquelas de comércios eletrônico B2B que não sobreviveram à queda do ponto.com). E não se esqueça da grande ideia para uma nova plataforma do seu cunhado, que fará com que vocês fiquem ricos, desde que você concorde em investir suas economias na startup dele.

O que é surpreendente, porém, é que há muitas plataformas que criaram valores enormes, mas nunca tiveram lucro – e nem tinham essa pretensão.

É provável que campeões mundiais dessa categoria esteja dentro da sua carteira. A MasterCard e a Visa não tiveram lucro por décadas, e nem se esforçaram para isso. A MasterCard começou como uma associação sem fins lucrativos, em 1966, assim como a Visa, em 1971. Ambas as associações geriam suas marcas e administravam os sistemas de compensação e de liquidação para bancos que emitiam cartões ou ajudavam comerciantes a aceitarem cartões. Essas redes de cartões eram autorizadas a cobrar seus membros apenas o suficiente para cobrir os custos e fornecer capital de giro.

Em meados da década de 2000, trilhões de dólares em transações entre consumidores e comerciantes de todo o mundo passavam pela MasterCard e pela Visa. Os bancos decidiram, então, transformar as associações em empresas com fins lucrativos, fazer a IPO e vendê-las. A MasterCard fez a IPO em 2006, e a Visa fez o mesmo dois anos mais tarde. Agora elas estão muito empenhadas em ganhar dinheiro. Em todo o mundo, porém, muitos países ainda têm redes domésticas de pagamento que operam como plataformas sem fins lucrativos.

Várias outras plataformas multilaterais não deram o salto para ganhar dinheiro. Na verdade, algumas plataformas multilaterais sem fins lucrativos – nomes pouco conhecidos – ajudaram a impulsionar as grandes revoluções tecnológicas das últimas décadas, incluindo a internet e a computação móvel. Organizações de normalização (ONs) são plataformas multilaterais que ajudam seus membros a chegarem a acordos sobre um padrão (por exemplo, operadoras de telefonia móvel, fabricantes de celulares, provedores de chips e muitos outros precisam chegar a um acordo sobre uma norma comum – como o 4G –  para que possam trabalhar integrados). A ON geralmente publica um padrão que divulga a baixo custo – ou mesmo gratuitamente – e que, posteriormente, pode se tornar uma plataforma para muitas empresas que fazem produtos complementares ou para seus clientes. Uma ON, portanto, é uma plataforma para criação de plataformas.

Como o comércio virtual está mudando a cara dos negócios.

As ONs representam um setor enorme, porém quase invisível. Há centenas delas – quase mil, segundo um levantamento –  ao redor do mundo, competindo umas com as outras por membros e influência. Milhares de empresas pertencem a uma ON e muitas empresas pertencem a várias. Um estudo recente descobriu que ONs publicaram mais de 200 mil normas entre 1975 e 2011. Também descobriu que essas plataformas foram responsáveis ​​por uma parcela significativa do crescimento econômico nas últimas décadas.

Na verdade, as ONs desempenharam um papel crucial na revolução tecnológica, reverberando em todo o mundo, a partir dos smartphones. Cada geração de telefones móveis, começando no início de 1990, foi precedida por anos de esforços por uma ON para criar padrões. Isso envolveu a criação de padrões capazes de coordenar as operadoras móveis, fabricantes de chips, fabricantes de aparelhos, fornecedores de software, e muitos outros fornecedores de tecnologia.

Comentadores tendem a dar muito crédito à Apple e à Google pelo desenvolvimento de ótimas plataformas de software para dispositivos móveis. Mas, provavelmente, o Android e o iOS nem sequer existiriam se as ONs não tivessem criado as plataformas de tecnologia para fornecer banda larga rápida e de grande capacidade. A 3GPP, uma ON sem fins lucrativos, cujos membros incluem operadoras de telefonia móvel, fabricantes de chips, fabricantes de dispositivos e outros fornecedores de tecnologia, desenvolveu o 3G, que viabilizou o primeiro iPhone, e o 4G, que tornou os smartphones realmente úteis.

Como usuários de telefonia pensamos no 3G e 4G como sinônimos de velocidades das redes para nossos telefones. Mas, na verdade, todas as partes envolvidas projetam seus produtos e software baseados em padrões detalhados para essas tecnologias, publicados pelo 3GPP. Você não poderia pegar um Uber, conversar com seus amigos via WhatsApp, ou enviar selfies para sua mãe sem o trabalho feito por essas plataformas multilaterais sem fins lucrativos.

Olhando mais a fundo, encontramos ainda mais plataformas multilaterais na economia, que ajudam empresas e consumidores. Em Boston, onde vivemos, muitas boutiques e cafés sofisticados estão localizados na Newbury Street, mais afastados do Public Garden. A Newbury Street League é uma associação sem fins lucrativos que trabalha para fazer da Newbury Street uma experiência agradável para os clientes e, dessa forma, faz com que as lojas na Newbury Street tenham mais valor. É algo parecido com o que o proprietário de um shopping com fins lucrativos tenta fazer.

A Newbury Street League exemplifica o que plataformas multilaterais fazem por natureza: não importa a forma como são organizadas, elas criam valor controlando o que os economistas chamam de externalidades – as coisas que fazemos uns aos outros, boas ou ruins, que não são compensadas ​​no sistema de preços, como poluir o ar (ruim) ou postar mensagens edificantes no Facebook (bom). O Newbury Street League estimula boas externalidades, evita o congestionamento, e trabalha duro para prevenir o mau comportamento dos seus membros.

As ONs fizeram isso, por exemplo, através do desenvolvimento de mecanismos elaborados para que padrões sejam cumpridos, desenvolvidos e votados pelas empresas. Muitos têm maioria absoluta, o que exige, essencialmente,  que seus diversos membros cheguem a um consenso. Outras regras das ONs também são importantes. Em áreas de alta tecnologia, onde as patentes são importantes, as ONs geralmente exigem que os membros divulguem as patentes que poderiam lhes permitir obstruir outros membros, caso a norma se apoie em propriedade intelectual protegida, e cobrar royalties justos e razoáveis ​​para as patentes essenciais que forem, de fato, incluídas na norma. O tremendo sucesso das ONs, como a 3GPP, demonstra a importância do design no sentido de incentivar a troca de valor entre os membros, e de um sistema de governança para impedir que os membros se prejudiquem uns aos outros.

Plataformas sem fins lucrativos não são apenas importantes por si só. Elas também fornecem insights para todos que preferem, efetivamente, fazer rios de dinheiro começando e gerindo uma plataforma com fins lucrativos. Ao se despir da finalidade do lucro, e muitos outros artefatos dos mercados tradicionais, plataformas sem fins lucrativos revelam características importantes que criam valor social e que poderiam criar lucros privados.

David S. Evans é economista, consultor empresarial e empreendedor. Realizou uma pesquisa pioneira sobre a nova economia de plataformas multilaterais. É o coautor de Matchmakers: the new economics of multisided platforms (Harvard Business Review Press).

Richard Schmalensee é o professor emérito da cátedra Howard W. Johnson de gestão e economia no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi reitor da Sloan School of Management do MIT por nove anos e membro do President’s Council of Economic Advisers. É coautor de Matchmakers: the new economics of multisided platforms.

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