Contratos, transações e seus registros são algumas das estruturas básicas que formam os sistemas econômicos, legais e políticos. Elas protegem os ativos e estabelecem fronteiras organizacionais; estabelecem e verificam identidades; registram eventos; governam as interações entre nações, organizações, comunidades e indivíduos; e orientam a atuação gestora e social.

No entanto, essas ferramentas fundamentais e a burocracia formada para gerenciá-las não acompanharam a transformação digital da economia. São como um engarrafamento no horário de pico aprisionando um carro de Fórmula 1. No mundo digital, a forma como regulamos e mantemos o controle administrativo precisa mudar.

A blockchain, a tecnologia bitcoin e de outras moedas virtuais, promete resolver esse problema. A blockchain é um registro contábil aberto e distribuído capaz de gravar transações entre duas partes de forma permanente e eficiente. O próprio registro pode ser programado para disparar as transações automaticamente. (Ver barra lateral “Como funciona a blockchain”.)

A blockchain permite imaginar um mundo em que os contratos seriam embutidos em código digital e armazenados em bancos de dados transparentes, compartilhados e protegidos de exclusão, adulteração e revisão. Cada acordo, processo, tarefa e pagamento teriam um registro digital e uma assinatura possível de ser identificada, validada, armazenada e compartilhada. Advogados, corretores, banqueiros e outros intermediários já não seriam necessários. Indivíduos, organizações, máquinas e algoritmos fariam transações livremente com pouco ou nenhum conflito. Esse é o imenso potencial da blockchain.

Quase todo mundo já ouviu dizer que a blockchain vai revolucionar os negócios e redefinir as empresas e a economia. Embora compartilhemos do entusiasmo pelo seu potencial, nós nos preocupamos com a propaganda excessiva. Não são apenas questões de segurança (como o colapso, em 2014, de uma plataforma de negociação de bitcoins e as recentes invasões de outras) que nos preocupam. Nossa experiência em inovação tecnológica nos diz que, se a blockchain causar uma revolução, muitas barreiras — tecnológicas, governamentais, organizacionais e até mesmo sociais — deverão cair. Seria um erro se jogar de cabeça nas inovações blockchain sem entender como elas vão se estabelecer.

Acreditamos que a verdadeira transformação dos negócios e do governo gerada pela blockchain ainda está muito distante. Isso ocorre porque a blockchain não é uma tecnologia “disruptiva” que possa atacar um modelo de negócio tradicional com uma solução de menor custo e pegar as empresas de surpresa.

A blockchain é uma tecnologia de base: ela tem potencial para criar novos alicerces para nossos sistemas econômicos e sociais. Mas, embora o impacto seja enorme, levará décadas para que a blockchain se infiltre em nossa infraestrutura econômica e social. O processo de adoção não será repentino, mas sim gradual e estável, à medida que as ondas de mudança tecnológica e institucional ganhem impulso. São esses
insights e suas implicações estratégicas que exploraremos neste artigo.

Padrões de adoção de tecnologia
Antes de mergulhar na estratégia de blockchain e seus investimentos, vamos refletir sobre o que já sabemos a respeito da adoção de tecnologias e, em particular, o processo de transformação típico de outras tecnologias de base. Um dos exemplos mais relevantes é a adoção do TCP/IP (protocolo de controle de transmissão/protocolo de internet), que estabeleceu as bases para a tecnologia em rede de computadores e o desenvolvimento da internet.

Introduzido em 1972, o primeiro avanço do TCP/IP foi em uma única funcionalidade: como a base do email entre pesquisadores no ARPAnet, o precursor da internet comercial desenvolvido pelo departamento de Defesa dos Estados Unidos. Antes do TCP/IP, a arquitetura de telecomunicações era baseada na “comutação de circuitos”, na qual as conexões entre duas partes ou máquinas deveriam ser preestabelecidas e sustentadas durante toda a troca. Para garantir que dois pontos pudessem se comunicar, os provedores de serviços de telecomunicações e os fabricantes de equipamentos investiram bilhões na construção de linhas dedicadas.

O TCP/IP virou esse modelo de ponta-cabeça. O novo protocolo transmite informações digitalizando-as e dividindo-as em pacotes muito pequenos, todos com informações de endereço. Uma vez liberados na rede, os pacotes podem tomar qualquer rota até o destinatário. Pontos inteligentes de recepção e envio nas extremidades da rede conseguem desmontar e remontar os pacotes e interpretar os dados codificados. Não havia necessidade de linhas privadas dedicadas ou infraestrutura maciça. O TCP/IP criou uma rede pública aberta e compartilhada, sem nenhuma autoridade central ou parte responsável pela sua manutenção e melhoria.

Os setores tradicionais de telecomunicações e computação olharam o TCP/IP com ceticismo. Poucos imaginavam que conexões robustas de dados, mensagens, voz e vídeo poderiam ser estabelecidas na nova arquitetura, ou que o sistema associado poderia se tornar seguro e ser expandido. Porém, no fim da década de 1980 e da de 1990, um número crescente de empresas, como Sun, NeXT, Hewlett-Packard e Silicon Graphics, usaram o TCP/IP em parte para criar redes privadas restritas dentro das organizações. Para isso, desenvolveram ferramentas e blocos de construção que ampliaram seu uso para além do email, substituindo gradualmente tecnologias e padrões de redes locais mais tradicionais. À medida que as organizações adotaram essas ferramentas e esses blocos de construção, tiveram enormes ganhos de produtividade.

Em meados da década de 1990, o TCP/IP irrompeu no uso público amplo com o advento da World Wide Web. As empresas de novas tecnologias emergiram rapidamente para fornecer a estrutura necessária — o hardware, o software e os serviços — à conexão com a rede, agora pública, e à troca de informações. A Netscape comercializou navegadores, servidores web e outras ferramentas e componentes que auxiliaram no desenvolvimento e adoção de serviços e aplicativos de internet. A Sun liderou o desenvolvimento da linguagem de programação de aplicativos Java. Como as informações na web aumentaram exponencialmente, a Infoseek, a Excite, a AltaVista e a Yahoo nasceram para guiar os usuários.

Uma vez que essa infraestrutura básica ganhou massa crítica, uma nova geração de empresas aproveitou a conectividade de baixo custo através da criação de serviços de internet que eram substitutos atraentes para as empresas existentes. A CNET levou as notícias para a internet. A Amazon ofereceu uma variedade de livros maior que a de qualquer livraria. A Priceline e a Expedia tornaram mais fácil — além de extraordinariamente transparente — comprar passagens aéreas. A capacidade dos recém-chegados de arrebanhar clientela numerosa a um custo relativamente baixo impactou negócios tradicionais, como jornais e lojas físicas de varejo.

Baseando-se na ampla conectividade com a internet, a próxima onda de empresas criou aplicações novas e transformadoras que mudaram fundamentalmente a maneira como as empresas geravam e capturavam valor. Essas empresas foram construídas sobre uma nova arquitetura ponto a ponto e criaram valor coordenando redes distribuídas de usuários. Pense em como a eBay mudou o varejo online por meio de leilões, a Napster mudou a indústria musical, a Skype mudou as telecomunicações e a Google, que explorou os links gerados pelo usuário para fornecer resultados mais relevantes, mudou a pesquisa na web.

Em última análise, levou mais de 30 anos para o TCP/IP passar por todas as fases — uso único, uso localizado, substituição e transformação — e remodelar a economia. Hoje, mais de metade das empresas de capital aberto mais valiosas do mundo tem modelos de negócio baseados na internet e em plataformas. A própria base da nossa economia mudou. Escala física e propriedade intelectual diferenciada já não conferem vantagens imbatíveis: hoje os líderes econômicos são empresas que atuam como “pedras fundamentais”, organizando, promovendo e coordenando proativamente redes de comunidades, usuários e organizações.

A nova arquitetura
A blockchain — uma rede ponto a ponto apoiada na internet — foi introduzida em outubro de 2008 como parte de uma proposta para a bitcoin, um sistema de moeda virtual que dispensava uma autoridade central para emitir moeda, transferir propriedades e confirmar transações. A bitcoin é a primeira aplicação da tecnologia blockchain.

Os paralelos entre a blockchain e o TCP/IP são claros. Assim como o email possibilitou a troca de mensagens bilaterais, a bitcoin permite transações financeiras bilaterais. O desenvolvimento e a manutenção de blockchains são abertos, distribuídos e compartilhados — assim como o TCP/IP. Uma equipe de voluntários em todo o mundo mantém o software principal. E assim como o email, a bitcoin floresceu primeiro em uma comunidade relativamente pequena de entusiastas.

A blockchain pode reduzir drasticamente o custo das transações e — se adotando universalmente — reabilitar a economia.

O TCP/IP desbloqueou um novo valor econômico reduzindo drasticamente o custo das conexões. Da mesma forma, a blockchain pode reduzir drasticamente o custo das transações. Ele tem o potencial para se tornar o sistema de registro de todas as transações. Se isso acontecer, a economia voltará a sofrer uma mudança radical à medida que surjam novas fontes de influência e controle baseadas em blockchains.

Considere como os negócios funcionam agora. Manter registros contínuos de transações é função básica de qualquer empresa. Eles rastreiam ações passadas e desempenho e guiam o planejamento para o futuro. Refletem o modo como a organização trabalha internamente, mas também suas relações externas. Toda empresa mantém seus próprios registros, que são privados. Muitas não têm um livro de registro principal de todas as suas atividades. Em vez disso, os registros são distribuídos entre unidades e funções internas. O problema é que comparar transações entre livros de registro individuais e privados leva muito tempo e tende a gerar erros.

Uma transação típica de ações, por exemplo, pode ser executada em microssegundos, muitas vezes sem intervenção humana. No entanto, a liquidação — a transferência de propriedade das ações — pode levar até uma semana. Isso ocorre porque as partes não têm acesso mútuo aos livros de registro e não podem verificar automaticamente o proprietário dos ativos e se estes podem ser transferidos. Em vez disso, muitos intermediários atuam como garantidores de ativos, já que o registro de transações atravessa organizações e os livros de registros são atualizados individualmente.

No sistema de blockchain, o livro de registro é replicado em um grande número de bancos de dados idênticos, cada um hospedado e mantido por uma parte interessada. Quando as alterações são inseridas em uma cópia, todas as outras cópias são atualizadas simultaneamente. Assim, conforme as transações ocorrem, os registros do valor e dos ativos trocados são permanentemente inseridos em todos os livros de registro. Não é necessário que intermediários verifiquem ou transfiram a propriedade. Transações de ações, por exemplo, são finalizadas em segundos, com segurança e veracidade. (Os infames hackers que atacaram a plataforma de negociação de bitcoins expuseram as fragilidades não da própria
blockchain, mas de outros sistemas usuários da blockchain.)

Uma metodologia para adoção da blockchain
Se a bitcoin é como o primeiro email, será que a blockchain está longe de atingir seu pleno potencial? Em nossa opinião, a resposta é um sim qualificado. Não podemos prever exatamente em quanto tempo se dará a transformação, mas podemos adivinhar que tipos de aplicação avançarão primeiro e como vai ser a futura e ampla aceitação da blockchain.

Em nossa análise, a história sugere que duas dimensões afetam a forma como uma tecnologia de base e seu uso nos negócios evoluem. A primeira é a novidade — o grau em que uma aplicação é nova para o mundo. Quanto mais nova for, mais esforço será necessário para garantir que usuários entendam que problemas ela resolve. A segunda dimensão é a complexidade, representada pelo nível de coordenação do ecossistema envolvido — o número e a diversidade de partes que precisam trabalhar juntas para produzir valor com a tecnologia. Por exemplo, uma rede social com apenas um membro é de pouca utilidade. Uma rede social só tem valor quando muitos de seus próprios contatos participam dela. Outros usuários do aplicativo devem ser trazidos para gerar valor para todos os participantes. O mesmo será verdadeiro para muitas aplicações de blockchain. E, à medida que a escala e o impacto dessas aplicações aumentarem, sua adoção exigirá mudanças institucionais significativas.

Desenvolvemos uma metodologia que mapeia inovações de acordo com essas duas dimensões contextuais, dividindo-as em quadrantes. (Ver quadro “Como as tecnologias de base se estabelecem”.) Cada quadrante representa uma fase de desenvolvimento da tecnologia. Identificar em qual delas se enquadra a inovação de blockchain ajudará executivos a compreender os tipos de desafio que ela apresenta e o nível necessário de colaboração, consenso e esforços legislativos e regulatórios. O mapa vai sugerir o tipo de processos e infraestrutura devem ser implantados para facilitar a adoção da inovação. Os gerentes podem usá-lo para avaliar o estado de desenvolvimento da blockchain em qualquer setor, além dos investimentos estratégicos envolvidos.

Uso único. No primeiro quadrante ficam as aplicações menos atuais e que exigem menos coordenação, capazes de criar soluções melhores, menos dispendiosas e altamente focadas. O email, uma alternativa barata para chamadas, fax e correio tradicional, era uma aplicação de uso único para TCP/IP (mesmo que seu valor tenha aumentado com o número de usuários). A bitcoin fica nesse quadrante. Mesmo em seus primórdios, a bitcoin oferecia valor imediato às poucas pessoas que a usavam simplesmente como método alternativo de pagamento. (Veja-o como um email complexo que transfere não apenas informações, mas também valor real.) No fim de 2016, esperava-se que o valor das transações em bitcoins atingiria US$ 92 bilhões — uma minúscula fração do total de US$ 411 trilhões em pagamentos globais, mas a bitcoin está crescendo rapidamente e é cada vez mais importante em pagamentos instantâneos e negociações de moedas estrangeiras e ativos, que são contextos nos quais o atual sistema financeiro tem limitações.


Localização.
O segundo quadrante inclui inovações que precisam apenas de um número limitado de usuários para criar valor imediato, por isso ainda são relativamente fáceis de adotar. Se a blockchain seguir o caminho das tecnologias de rede nos negócios, podemos esperar que as inovações decorrentes se desenvolvam a partir de aplicações de uso único para criar redes privadas locais nas quais várias organizações estão conectadas através de um livro de registro distribuído.

Grande parte do desenvolvimento privado inicial de blockchain está ocorrendo no setor de serviços financeiros, muitas vezes dentro de pequenas redes de empresas, de modo que os requisitos de coordenação são relativamente modestos. A Nasdaq está trabalhando com a Chain.com, um dos muitos fornecedores de infraestrutura de blockchain, para fornecer tecnologia para processar e validar transações financeiras. O Bank of America, o J. P. Morgan, a New York Stock Exchange, a Fidelity Investments e a Standard Chartered estão testando a tecnologia blockchain como substituta do processamento de transações manuais e em papel em áreas como financiamento de comércio internacional, câmbio, liquidação internacional e liquidação de títulos. O Banco do Canadá está testando uma moeda digital denominada CAD-coin para transferências interbancárias. Prevemos uma proliferação de blockchains privados que servem a fins específicos de vários setores.

Substituição. O terceiro quadrante contém aplicações que, embora pouco inovadoras porque se baseiam em aplicações existentes restritas e de uso único, têm necessidades de coordenação elevadas por envolver usos cada vez mais amplos e públicos. Essas inovações visam substituir por completo formas de fazer negócios. Enfrentam grandes barreiras à adoção: não só necessitam de mais coordenação, mas os processos que pretendem substituir podem estar plenamente desenvolvidos e profundamente incorporados nas organizações e instituições. Exemplos de substitutos incluem cripto-moedas — sistemas monetários novos e totalmente desenvolvidos que cresceram a partir da tecnologia simples de pagamento com bitcoins. A diferença crítica é que uma criptografia exige que todas as partes que fazem transações monetárias a adotem, desafiando governos e instituições que há muito tempo lidam com tais transações e as supervisionam. Os próprios consumidores precisam mudar o comportamento e entender como implementar a nova capacidade funcional da cripto-moeda.

Uma experiência recente no Massachusetts Institute of Technology (MIT) destaca os desafios futuros para os sistemas de moeda digital. Em 2014, o MIT Bitcoin Club forneceu a cada um dos 4.494 graduados do do instituto US$ 100 em bitcoins. Curiosamente, 30% dos alunos nem sequer se inscreveram para receber o dinheiro gratuito, e em poucas semanas 20% dos inscritos converteu a bitcoin em dinheiro. Até mesmo aqueles com experiência em tecnologia tiveram dificuldade de entender como ou onde usar as bitcoins.

Uma das mais ambiciosas aplicações substitutas de blockchain é a Stellar, organização não lucrativa que visa prestar serviços financeiros a quem nunca teve acesso a eles, incluindo serviços bancários, micropagamentos e remessas de valores. A Stellar oferece sua própria moeda virtual, o lumens, e permite que os usuários guardem no seu sistema uma gama de ativos: outras moedas, minutos de telefone e créditos de dados, por exemplo. A Stellar inicialmente focou a África, especialmente a Nigéria, a maior economia do continente. Ela foi adotada significativamente por sua população-alvo e provou sua efetividade de custo e benefício. Mas seu futuro não é, de forma alguma, seguro, pois as dificuldades de coordenação do ecossistema são altas. Embora a adoção popular tenha demonstrado a viabilidade da Stellar, para se tornar um padrão bancário ela precisará influenciar a política governamental e persuadir os bancos centrais e grandes organizações a usá-la, o que pode levar anos de trabalhosas negociações.

Transformação. No último quadrante, ficam aplicações completamente novas que, se bem-sucedidas, podem mudar a própria natureza dos sistemas econômicos, sociais e políticos. Elas envolvem a coordenação da atividade de muitos atores e a obtenção de um acordo institucional para padrões e processos. Sua adoção exigirá grandes mudanças sociais, legais e políticas.

“Contratos inteligentes” talvez seja a aplicação mais transformadora de blockchain no momento. Eles automatizam pagamentos e a transferência de moeda ou outros ativos conforme as condições negociadas são atendidas. Por exemplo, um contrato inteligente pode enviar um pagamento a um fornecedor assim que uma remessa é entregue. Uma empresa pode sinalizar via blockchain que um bem específico foi recebido — ou o produto pode ter funcionalidade GPS, com registro automático de local atualizado que, por sua vez, aciona o pagamento. Já vimos algumas experiências iniciais com tais contratos autoexecutáveis nas áreas de financiamento de risco, bancária e de gerenciamento de direitos digitais.

As implicações são fascinantes. As empresas são construídas com base em contratos, seja na fundação, nas relações entre compradores e fornecedores, ou nas relações com os funcionários. Se os contratos forem automatizados, que dirá as estruturas, processos e intermediários como advogados e contadores? E os gestores? Seu papel mudaria radicalmente. Antes de ficarmos muito animados, porém, é preciso lembrar que estamos a décadas da adoção generalizada de contratos inteligentes. Eles não podem ser efetivados, por exemplo, sem apoio institucional. Será necessário um tremendo grau de coordenação e clareza sobre como os contratos inteligentes são projetados, verificados, implementados e cumpridos. Acreditamos que as instituições responsáveis por essas assustadoras tarefas levarão muito tempo para evoluir. E os desafios tecnológicos — especialmente de segurança — são assustadores.

Como abordar o investimento em blockchain
Como os executivos devem pensar a blockchain nas empresas? Nossa metodologia pode ajudá-las a identificar as oportunidades certas.

Para a maioria, o lugar mais fácil de começar são as aplicações de uso único, que minimizam o risco porque não são novas e envolvem pouca coordenação com terceiros. Uma estratégia é fazer da bitcoin um mecanismo de pagamento. A infraestrutura e o mercado para a bitcoin já estão bem desenvolvidos, e adotar a moeda virtual vai forçar uma ampla variedade de funções, como TI, finanças, contabilidade, vendas e marketing a construir capacidades de blockchain. Outra abordagem de baixo risco é usar a blockchain internamente como um banco de dados para gerenciar ativos físicos e digitais, registrar transações internas, verificar identidades e outras aplicações. Essa pode ser uma solução especialmente útil para as empresas que têm dificuldade de conciliar múltiplos bancos de dados internos. Testar aplicações de uso único haverá de ajudá-las a desenvolver as habilidades de que precisam para aplicações ainda mais avançadas. E graças ao surgimento de serviços em blockchain na nuvem, tanto em start-ups quanto em grandes plataformas como a Amazon e a Microsoft, a experimentação está ficando cada vez mais fácil.

As aplicações restritas são, naturalmente, o próximo passo para as empresas. Neste momento, grandes investimentos são feitos em redes privadas de blockchain, e os projetos envolvidos, aparentemente, estão preparados para um impacto real de curto prazo. As empresas de serviços financeiros, por exemplo, descobriram que as redes privadas de blockchain que criaram com um número limitado de contrapartes confiáveis podem reduzir significativamente os custos de transação.

As empresas podem ter de enfrentar também problemas específicos em transações transnacionais com aplicações restritas. As que já usam a blockchain para rastrear itens através de cadeias de suprimentos complexas, por exemplo. Isso está acontecendo na indústria de diamantes, onde gemas são rastreadas das minas até os consumidores. A tecnologia para tais experimentos está agora disponível para compra.

O desenvolvimento de aplicações alternativas requer um planejamento cuidadoso, uma vez que pode ser difícil remover as soluções existentes. Uma possibilidade é focar em substituições que, embora não exijam dos usuários finais mudar muito seu modo de operar, são caras ou pouco atrativas. O ideal é que ofereçam funcionalidade tão boa quanto uma solução tradicional e ser facilmente absorvidas e adotadas pelo ecossistema. A incursão da First Data em cartões de presente baseados na blockchain é um bom exemplo de um substituto bem elaborado. Os varejistas que os oferecem aos consumidores podem reduzir drasticamente os custos por transação e aumentar a segurança usando a blockchain para rastrear o fluxo de moeda entre as contas — sem depender de processadores de pagamento externos. Esses novos cartões-presente permitem até transferências de saldos e de capacidade de transação entre os comerciantes por meio do livro de registro comum.

Aplicações transformadoras ainda são uma realidade distante. Mas faz sentido avaliar suas possibilidades agora e investir no desenvolvimento de tecnologias que possam capacitá-las. Serão mais poderosas quando ligadas a um novo modelo de negócio em que a lógica da criação de valor e da captura se afaste das abordagens existentes. Embora seja difícil adotar modelos de negócio desse tipo, eles poderão, futuramente, destravar o crescimento das empresas.

Imagine como escritórios de advocacia terão de mudar para tornar viáveis os contratos inteligentes. Eles precisarão desenvolver novos conhecimentos em programação de software e blockchain. Precisarão também repensar o modelo de pagamento por hora e considerar a ideia de cobrar taxas de transação ou de hospedagem por contrato, só para citar duas abordagens possíveis. Seja ela qual for, os executivos devem ter certeza de que entenderam e testaram as implicações do modelo de negócio antes de efetuar qualquer mudança.

Aplicações transformativas se propagarão por último, mas agregarão enorme valor. Poderiam ter um impacto profundo, por exemplo, em duas áreas: sistemas públicos de identificação em larga escala para funções como controle de passaportes; e tomada de decisão baseada em algoritmos na prevenção da lavagem de dinheiro e em transações financeiras complexas. Não acreditamos que essas aplicações levem menos de uma década ou até mais para ser amplamente adotadas.

As aplicações transformativas darão origem a novos atores no âmbito das plataformas que hão de coordenar e governar os novos ecossistemas. Serão as Googles e Facebooks da próxima geração. Será preciso muita paciência para concretizar tais oportunidades. Embora possa ser prematuro fazer investimentos significativos nelas agora, vale a pena desenvolver, desde já, as bases necessárias, como as ferramentas e os padrões a ser adotados.

Além de fornecer um bom modelo para a adoção da blockchain, o TCP/IP provavelmente preparou o terreno para ele. O TCP/IP tornou-se onipresente e as aplicações de blockchain estão sendo construídas sobre a infraestrutura de dados digital, comunicação e infraestrutura computacional, o que reduz o custo da experimentação e permitirá o surgimento de novos exemplos de uso.

Muitas empresas já estão usando a blockchain para rastrear itens através de cadeias complexas de fornecimento.

Com a nossa metodologia, os executivos já podem descobrir onde devem começar a construir suas capacidades organizacionais para a blockchain. Certificar-se de que seus funcionários aprendam tudo o que puderem sobre a blockchain, para desenvolver aplicações específicas para a empresa ao longo dos quadrantes que identificamos. E investir em infraestrutura de blockchain.

Contudo, considerando os horizontes temporais, as barreiras à adoção e a alta complexidade envolvida para chegar aos mesmos níveis de aceitação do TCP/IP, os executivos devem avaliar cuidadosamente os riscos envolvidos em fazer experiências com a blockchain. Começar com algo pequeno é uma boa maneira de desenvolver o know-how para crescer depois. Mas o nível de investimento depende do contexto da empresa e do setor. Empresas de serviços financeiros já avançaram rumo à adoção da blockchain. A manufatura ainda não.

Independentemente do contexto, há uma forte possibilidade de que a blockchain venha a afetar sua empresa. A grande questão é quando.
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Marco Iansiti é professor da cátedra David Sarnoff da Harvard Business School. Karim R. Lakhani é professor de administração da Harvard Business School e o pesquisador principal do Laboratório de Inovação Coletiva do Harvard Institute for Quantitative Social Science.

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