NA ÍNTEGRA

Seis anos atrás, a pujança da economia irlandesa atraiu John Dooley de volta a casa. Mas o país é forte o bastante para segurá-lo ali?
Apesar do tempo feio, John Dooley se sentia animado ao chegar ao trabalho naquela quinta-feira chuvosa. É que a BioSol, multinacional de biotecnologia para a qual trabalhava, fizera há pouco grandes avanços na produção de anticorpos para o tratamento da asma em jovens e adultos. Se a boa fase durasse, o impacto seria espetacular — não só para a empresa, mas para os milhares de indivíduos que padeciam do mal. A própria carreira de John podia levar um belo empurrão. Não fora isso que seu chefe, Niall Doyle, deixara implícito no dia anterior, ao dizer que a matriz da empresa estava impressionada e ao sugerir uma reunião naquela quinta para falarem do futuro?
Na noite anterior, com as crianças já na cama, John e a mulher, Fiona, haviam cogitado o que aquilo podia representar para a família. John era vice-presidente de pesquisa estratégica. Talvez fosse promovido a diretor da divisão? Ou quem sabe a empresa o colocaria num projeto inteiramente novo? John sempre gostara da fase inicial de um projeto — aquela sensação de possibilidades ilimitadas, o desafio de montar a equipe certa, a empolgação de descobrir algo totalmente novo.
Estava terminando o chá quando Niall bateu à porta. “Bom dia, John. Sabia que ia encontrar você aqui bem cedo.”
John sorriu: “Niall, posso ajudá-lo em algo?”
Niall foi direto ao ponto: “Tenho boas notícias. Como havia dito, o pessoal na Califórnia está muito impressionado. Tive de esperar até hoje para falar com você oficialmente por causa da diferença de horário. Essas oito horas podem atrapalhar… enfim, não é problema seu — pelo menos por enquanto”, falou, sorrindo. “Falei com o Carl ontem à noite — ele acha, e eu também, que você é o homem certo para o cargo de diretor de estratégia, lá na matriz. Sei que é um grande salto, mas tenho plena confiança em você — você está prontíssimo para esse desafio. Eu sempre apostei muito em você, John.” Voltou a sorrir. “E então, o que você me diz?”
Verdade seja dita, John não sabia o que dizer. Não tinha sequer imaginado uma promoção dessa magnitude. Estava honrado, empolgado e, ao mesmo tempo, assoberbado. Por fim, soltou uma resposta: “Niall, estou em choque. Não sei o que dizer”.
“Com toda razão, é muita coisa para digerir. Tranqüilo, pense com calma. Só quero que você saiba que dou todo o meu apoio.”
“Olha, agradeço mesmo. E estou honrado por me oferecerem uma oportunidade dessas. Mas seria uma mudança enorme, e não só para mim. Preciso falar com a Fiona…”
“Claro, claro. É uma grande decisão, é melhor ir com calma. Mas espero que você entenda o que isso poderia significar para sua carreira. Nem todo mundo tem uma chance dessas. Além disso, você e a Fiona já moraram nos Estados Unidos, de modo que não vai ser um choque cultural tão grande assim. Bom, não vou mais tomar seu tempo. Mas, se quiser conversar, a porta está sempre aberta.” E, com um aceno de mão, Niall se foi.
Siga o arco-íris
“Que oportunidade!”, pensou John. “Mas nos Estados Unidos?” Não estava preparado para isso.
É verdade que ele e a mulher já haviam vivido no país — mas na costa leste, em Boston. John havia conhecido Fiona na universidade em Dublin, 20 anos antes. Já formados, haviam passado um ano viajando pela Europa. Chegaram até a Austrália, trabalhando em bares, fazendo um bico aqui e ali — mas, sobretudo, curtindo o momento. Quando voltaram à Irlanda, John resolvera fazer um mestrado em biologia. Os dois se casaram e, quando o rapaz foi aceito no programa de doutorado do MIT, o casal se mudou para Massachusetts.
O fato é que, naquela época, ter um nível de vida bom na Irlanda era difícil. Não havia trabalho, o desemprego era alto e fazer a vida em terras mais prósperas parecia natural. Muitos amigos do casal, e até os irmãos de John e Fiona, haviam mudado para outro país. John tinha um irmão no Canadá e uma irmã na França; dois dos irmãos de Fiona moravam na Inglaterra.
O casal levara uma vida boa em Boston. Ao longo de seis anos John trabalhara em duas firmas de ponta no setor e Fiona ganhara uma boa reputação como ilustradora de livros infantis. Os dois tinham se envolvido com a numerosa comunidade de irlandeses da região e começado a montar a família.
Já em 1999, contudo, a situação começara a mudar na Irlanda — o tigre celta pegava embalo. No ano anterior, John e Fiona tinham se despedido de três amigos que voltavam para a Irlanda. Logo começaram a pensar se deviam seguir o exemplo. Por que não? Tinham deixado o país em busca de uma vida melhor, mas tudo indicava que isso já era possível na Irlanda. Havia uma explosão de negócios no país, que parecia repleto de possibilidades. O governo irlandês estava investindo pesado na economia; a baixa carga tributária de empresas e uma grande força de trabalho com boa formação atraíam empresas do mundo todo. Havia até um emergente setor de biotecnologia, de modo que a ca
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eira de John não sofreria. O fator decisivo acabou sendo o filhinho, Conor. O casal queria que o menino crescesse em contato com os avós e os parentes, que aprendesse a história da Irlanda, que jogasse hurling e futebol galês — e não beisebol, que nenhum dos dois entendia. Logo, quando John recebeu a proposta para trabalhar na subsidiária irlandesa da firma americana BioSol, ele e Fiona decidiram levantar acampamento e voltar para casa.
Foram morar em Ballsbridge, um bairro de Dublin no caminho do trabalho de John e da casa dos pais de Fiona, em Wicklow. Os pais de John, que viviam no norte da cidade, estavam ainda mais próximos. No ano seguinte nascera a filha, Nicola, que agora acabara de entrar na escola. No todo, John se sentia um sujeito de sorte. Amava a cidade — amava o cheiro de cevada da fábrica da Guinness, o agito do Temple Bar, os vestígios de história a cada esquina. Mas o que fazer com a promoção?
Ligou para o celular da mulher. Como ninguém atendia, deixou um recado breve: “Meu bem, acabo de receber uma grande notícia no trabalho, maior do que a gente esperava. Me liga assim que puder? Um beijo, tchau”.
Sinal verde
Às seis da tarde, John saiu do trabalho e foi para o O’Neill’s. Freqüentava o pub desde os tempos da universidade e até hoje se reunia com os amigos ali pelo menos uma vez por mês. Ao chegar, encontrou Dave e Fergal já sentados à mesa. Pediu três canecas de Guinness e foi se juntar a eles.
“E aí, John”, disse Fergal, pegando sua caneca. “Quais são as novas?”
John resumiu os acontecimentos do dia.
“Que maravilha! Você vai aceitar, não?”, exclamou Dave, num tom que soava mais como uma ordem do que uma pergunta.
“O quê? E ir morar na Califórnia?”, interrompeu Fergal. “Você já tentou morar nos Estados Unidos, lembra? E voltou — suponho que por bons motivos…”
Dave interferiu: “John, se você não aceitar, pode dizer adeus a qualquer esperança de progredir na empresa. Além disso, essa oferta é espetacular”, disse, sorrindo. “Logo, logo, você vai estar no comando de tudo.”
“Há muita firma de biotecnologia por aqui”, opinou Fergal. “Não daria para você ter o mesmo cargo numa delas?”
John parecia estar assistindo a uma partida de tênis. Antes que Dave rebatesse com outro argumento, respondeu: “Para ser sincero, já andei falando com o recrutador de uma empresa daqui, a GeneSys. Estão atrás de um vice-presidente executivo de P&D. Mas é uma firma muito menor que a BioSol, e a reputação nem se compara.”
Dave interrompeu de novo: “Você pirou? É sério que está pensando em recusar uma proposta de uma das empresas mais respeitadas dos Estados Unidos — a ‘terra da oportunidade’ — em troca de um emprego numa empresinha aqui da Irlanda? Já pensou na vida que seus filhos teriam lá? Já pensou na sua carreira, já pensou no… sol!?”
Fergal retorquiu: “É, já pensou nos terremotos!?”
“Bom, minha decisão, seja lá qual for, não vai depender do clima nem das placas tectônicas”, disse John, meio frustrado. “E eu que esperava ouvir uns bons conselhos de vocês…”
“Bom, do ano em que vivi em Nova York, duas coisas ficaram na minha memória”, disse Fergal. “Uma é que as notas de dinheiro são horríveis — tudo da mesma cor, do mesmo tamanho. Vivia me enganando, sem saber quanto tinha.” Vendo a cara de John, continuou: “E a segunda é que os americanos não conhecem a expressão ‘Essa rodada é minha!’. Embora alguns irlandeses, para minha grande vergonha” — aqui, olhou firme para Dave —, “também não pareçam conhecer.”
“Já vou, cara. Mas primeiro quero salvar meu amigo aqui dessas baboseiras que você diz. Dinheiro ‘da mesma cor’, ai…” Dave rumou para o balcão resmungando. Minutos depois, voltava com três canecas cheias.
“Olha, uma coisa admito: lá, a Guinness não tem o mesmo sabor”, disse John, fitando Fergal. “Mas no fim até já gostava da festa do Thanksgiving — é um ponto a favor deles”, suspirou. “O negócio é o seguinte: sei bem o que é viver em outro país. A gente é sempre alguém de fora, não entende as referências culturais, está longe da família. Em parte, é por isso que voltamos para cá. Mas tenho de ser realista. Quanto tempo vai durar o fôlego da economia aqui? Semana passada, li no jornal sobre outra empresa que está cortando centenas de empregos de auditoria, levando tudo para a Polônia. Quem sabe se não é um sinal do que está por vir? Lembram o que aconteceu com Israel um tempo atrás? A economia decolou nos anos 90, igual à nossa. E depois? O tombo. E se formos os próximos? E se já tiver jogado fora minha grande chance na BioSol?”
“Ai, vai embora, então!”, provocou Fergal. “É, você é igual aos outros: adora se juntar à festa quando a comida está na mesa, mas não quer saber de arregaçar as mangas e ir para a cozinha.” Deu uma piscada, mas John sentiu que não era pura brincadeira. “Afinal, que raio de irlandês é você?”
“Calma, Fergal, não estou dando as costas para a Irlanda.”
Fergal fez cara de dúvida. “Certo. Deixando a brincadeira de lado, eu entendo o que você quer dizer. Mas uma pergunta: tudo aquilo que fez você voltar não continua valendo? Você não está feliz vendo as crianças aprender irlandês na escola, sabendo que Conor vai ser um ás do hurling? Não gosta de que estejam crescendo próximas dos avós, que você pode deixar as crianças com eles por uma ou duas horas sem preocupação? Não estou dizendo para você sacrificar o futuro delas; só estou dizendo que no momento temos uma das economias mais fortes do mundo. Não basta?”
Sem dar a John a chance de responder, Dave opinou: “Olha, sou totalmente a favor da Irlanda. Eu vivo aqui, como vocês já notaram. Mas uma chance dessas não aparece toda hora. É um grande passo na sua carreira — mais dinheiro, mais responsabilidade, mais tudo. Não quero que você jogue tudo isso fora só porque o Fergal começou a cantar uma canção patriótica e você ficou todo sentimental. E a Fiona, o que ela diz disso tudo?”
“A gente falou rapidamente, pelo telefone. Ela ficou feliz por mim, é claro, mas com certeza não começou a fazer as malas. Vamos ter uma conversa séria quando eu chegar em casa.” Olhou o relógio: “Aliás, preciso ir — nos falamos depois”. Levantou, colocou o casaco e saiu acenando.
Oportunidade toca
John tentava reprimir um bocejo quando o telefone tocou na sexta-feira de manhã, já no trabalho. Ficara acordado até tarde da noite discutindo com Fiona os prós e os contras da mudança. Como ilustradora, a mulher não estava presa a uma firma, mas tinha fortes vínculos com a comunidade. Para ela, seria duro abandoná-la. Além disso, se preocupava com a adaptação de Conor e Nicola a uma nova cultura. John também pensava nisso, mas os dois concordaram que expor os filhos a um novo país não seria de todo ruim. O horizonte deles seria ampliado — e, aliás, algumas das melhores escolas do mundo estavam nos EUA.
Atendeu o telefone: “Alô? Sim, é o John Dooley”.
“Oi, John, que bom encontrar você. Aqui é a Suzanne White. Queria saber se você pensou na nossa conversa da semana passada, sobre o posto executivo na GeneSys…”
“Oi, Suzanne. Obrigado por ligar. Pensei, sim. Mas, para ser sincero, minha situação mudou desde a última vez que conversamos. Acabaram de me oferecer um cargo novo aqui na BioSol, o que complica um pouco as coisas.”
“Ah, é? Entendo, claro. Mas, e se antes de tomar uma decisão final você batesse um papo com o Tim Clarke, o presidente da GeneSys? Ele queria muito encontrar você. Quem sabe falando com ele sobre a visão que ele tem da empresa, e do seu papel nela, não ficaria mais fácil para você decidir?”
John concordou em almoçar com Tim Clarke na semana seguinte. “Ouvir não custa”, pensou. “E eu gostaria mesmo de ficar aqui na Irlanda.” Mas seria essa uma razão suficiente para recusar a promoção na BioSol?
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Eileen Roche (eroche@hbsp.harvard.edu) é editora associada da HBR.
John deve escolher o país ou a empresa? Cinco comentaristas dão sua opinião.
Raj Kondur (raj.kondur@nirvanabpo.com) é presidente da Nirvana Business Solutions, empresa de terceirização de processos empresariais de Bangalore, Índia.
Primeiro tome a grande decisão: para onde vai minha vida, que sentido quero que tenha? Só então tome a decisão menor: onde vou trabalhar?
Décadas atrás, muita gente rumou da Índia para os Estados Unidos em busca de oportunidades econômicas. Esses “refugiados profissionais” podem até ter se adaptado bem à nova vida, mas a maioria manteve fortes laços emocionais e familiares com a terra natal, sempre alimentando o desejo de um dia voltar. Como era enorme a disparidade entre as oportunidades na Índia, nos EUA e na Grã-Bretanha, a razão tinha de superar a emoção e poucos desses emigrantes de fato regressaram.
Hoje, porém, é possível tomar decisões com a cabeça e o coração de pleno acordo. Muitos países — Índia, China, Irlanda — estão firmes no rumo do crescimento. Uma pessoa pode estar projetando a geração seguinte de chips para a Intel tanto em Bangalore quanto no Vale do Silício. Pode haver um ou outro atropelo, mas não há dúvida de que as bases do crescimento a longo prazo estão instaladas.
Em relação ao caso, John Dooley deveria encarar sua escolha em termos de crescimento, posicionamento relativo e impacto. Dado o estado de desenvolvimento em relação aos EUA, países como a Irlanda e a Índia têm mais possibilidade de sustentar altas taxas de crescimento, da ordem de 8% ou 9%. Essa maré favorável resultará em oportunidades muito mais amplas e mais atraentes nesses países.
Passemos ao posicionamento relativo. Quem estudou e trabalhou nos EUA, como eu e o John, em geral leva vantagem ao voltar ao país de origem. A experiência e a perspectiva adquiridas pela atuação num ambiente considerado o mais comercialmente avançado do mundo abrem muitas portas. Já nos EUA, ser um imigrante irlandês é um fato neutro, que não daria qualquer vantagem a John.
Por fim, muita gente sente, ao voltar, satisfação com a capacidade de ter um impacto concreto no país. É claro que é possível dar sua contribuição em qualquer lugar, mas aqui na Índia o impacto pode ser dramático. Em 2000, por exemplo, criei a fundação Akshaya Patra, que fornece refeições a crianças em escolas públicas. Hoje, alimentamos 253 mil alunos por dia. Em muitas escolas o programa fez a freqüência dos alunos subir de menos de 50% para mais de 90%. O programa custa apenas US$ 22 ao ano por criança e deu um exemplo que o governo federal e muitos governos estaduais começam a seguir.
Para mim, a decisão de John é muito simples. Deixei a Índia aos 17 anos. Estudei nos EUA, tive uma vida muito boa lá e encontrei ótimas oportunidades na consultoria administrativa, em bancos de investimentos e em fundos de private equity antes de voltar para casa, em 1999, para abrir o primeiro fundo independente de capital de risco do país. Naquela época não se sabia ao certo se a economia da Índia decolaria, e poucos profissionais estavam tomando o rumo de casa. Mas, nos últimos seis anos, a combinação de boas oportunidades econômicas, da proximidade da família e da capacidade de ter uma influência positiva tem se mostrado imbatível. Existem fontes de irritação, é claro, devido à infra-estrutura precária e à pobreza, que é visível — mas em geral é isso que me dá energia para trabalhar mais ainda na esperança de que meus negócios tenham algum impacto.
Diante de uma encruzilhada profissional, é preciso primeiro tomar a decisão no campo macro: para onde vai minha vida, que sentido quero que ela tenha? Só então vem o lado micro: onde vou trabalhar, qual será meu emprego? Em questões assim importantes não se pode deixar que o micro dite o macro. John não precisa deixar a Irlanda para ter uma carreira de sucesso; o país vai bem economicamente. E se a situação ali começar a desandar, quem sabe não será hora, como sugeriu Fergal, de arregaçar as mangas e ajudar o país a avançar?
James M. Citrin, diretor-sênior da Spencer Stuart Stamford, Connecticut, é recrutador de presidentes e diretores. É autor e co-autor de quatro livros sobre liderança e gestão de carreira. Seu livro mais recente, em co-autoria com Thomas J. Neff, é You’re in Charge – Now What? The 8-Point Plan (Crown Business, 2005).
O planejamento de cenários pode ajudar a minimizar o risco. John pode pedir uma reavaliação formal dentro de dois anos e estabelecer que a família pode voltar para a Irlanda por conta da empresa.
John examina a oportunidade da maneira clássica, com uma lista de prós e contras. Logo, não surpreende que, no dia seguinte, não tenha avançado nada em sua decisão. Um método mais produtivo é criar cenários para vislumbrar os desdobramentos da decisão. Suponhamos que John aceite o emprego na Califórnia e, daqui a três anos, esteja relembrando o momento presente. Sua pergunta deve ser: “O que é preciso ocorrer para que essa seja a melhor decisão da minha vida?” Deve também imaginar tudo o que poderia tornar a decisão a pior de sua carreira. O processo de montagem de cenários e da avaliação das premissas básicas de cada um vai não só nortear sua decisão como sugerir aspectos da oferta de emprego que ele deveria cuidadosamente negociar.
Ao traçar os dois cenários, John deve dar atenção, separadamente, a três perspectivas daquilo que chamo de triângulo da carreira — desenvolvimento profissional/impacto, estilo de vida/família e remuneração/lado financeiro — e ater-se àquilo que realmente importa em cada perspectiva. No cenário positivo, por exemplo, podem estar conquistas da família, como encontrar uma excelente casa para morar, ótimas escolas para os filhos e projetos de ilustração interessantes para a mulher. No campo do desenvolvimento profissional, John poderia descobrir que adora o trabalho estratégico de nível mais alto e a capacidade de agregar mais valor do que o executivo americano típico. Irlandês, com um doutorado pelo MIT, poderia até ganhar certa fama na matriz. Sucesso na dimensão financeira pode simplesmente significar que ficou melhor de vida já computada a diferença no custo de vida. Somando isso tudo, aceitar a promoção parece uma ótima decisão.
Já no cenário negativo Fiona não consegue espaço no novo ambiente, nem profissional nem socialmente, e os filhos são alvo de gozação pelo sotaque diferente. John se dá conta de que está preso a um trabalho sem profundidade, típico de MBA — daquele que desprezava como cientista e muito afastado da verdadeira ação na BioSol, que tem a ver com a descoberta de novos medicamentos. Viver na Califórnia é tão caro que John não está, no fim das contas, em melhor situação financeira que antes. Para piorar, a família está isolada — e o único jeito de voltar à Irlanda é John arcar, pessoalmente, com o custo de deixar o emprego e fazer outra mudança. Se essa triste história se materializasse, John lamentaria sua decisão de aceitar a proposta.
Traçar esses dois cenários é útil porque John agora pode lidar com a decisão sistematicamente, avaliando a probabilidade de cada um dos desfechos e até administrando algumas das questões. Para tanto, pode refletir sobre o que já sabe graças a suas visitas à Califórnia e aos contatos com os colegas de lá. Talvez faça sentido outra viagem, com Fiona, para sondarem o ambiente. Pode agendar uma conversa telefônica com o executivo que seria seu chefe para ter uma idéia melhor da verdadeira essência do posto: como é a rotina diária? O que constitui sucesso ali? O planejamento de cenários pode ajudar ainda a minimizar o risco. John pode pedir, por exemplo, uma reavaliação formal dali a dois anos, digamos, e um acordo estabelecendo que, se uma das partes sentir que a coisa não está dando certo, a família pode voltar para a Irlanda por conta da empresa, sem mágoas.
Será importante submeter ao mesmo processo a oportunidade oferecida pela nova firma irlandesa? Na minha opinião, não. John deveria gentilmente recusar a oferta e se ater a seu futuro na BioSol. Suponho que John não seja, no fundo, um empreendedor; caso contrário, não estaria tão feliz e bem-sucedido numa grande multinacional. Mas, ainda que faça o tipo empreendedor, ele terá outras oportunidades — e estas só irão melhorar à medida que for galgando degraus na BioSol.
Maurice Treacy é diretor de biotecnologia da Science Foundation Ireland, em Dublin.
A Irlanda assumiu um compromisso de longo prazo de crescer na área de biotecnologia e John pode ter tanto sucesso lá como teria nos Estados Unidos.
Posso entender a situação de John, pois há muitos paralelos entre a carreira dele e a minha. Tanto eu como minha mulher somos cientistas e mudamos para San Diego em 1988 para o pós-doutorado. Na época, simplesmente seria impossível fazer na Irlanda a pesquisa de ponta que buscávamos. Na Califórnia, estávamos em contato com os pioneiros da indústria de biotecnologia. Quatro anos depois, mudamos para Boston, onde trabalhei para uma empresa com sede na Suíça — país no qual também vivemos por dois anos.
Foram, todas, experiências positivas. Mas, verdade seja dita, é mais fácil viver em seu país de origem, onde há uma estrutura de apoio, uma família, onde você sabe como as coisas funcionam. No final da década de 1990, começamos a ver que surgiam oportunidades para nós na Irlanda, e resolvemos voltar. O que encontramos foi um clima de otimismo e de possibilidades.
Hoje, todos já ouviram falar dos fatores que contribuíram para o despontar do Tigre Celta: baixa carga tributária para empresas, um forte sistema educacional, uma força de trabalho qualificada e de língua inglesa, o compromisso em investir. Em 2000, por exemplo, foi criada a Science Foundation Ireland (SFI) para ajudar a garantir a competitividade do país a longo prazo. A SFI recebeu 640 milhões de euros em verbas públicas — e isso é só um órgão federal. A fundação trabalha com outras agências do governo, como a Enterprise Ireland e a IDA Ireland, para fomentar a colaboração entre universidades e o setor privado e fortalecer a economia fundada no conhecimento que é a Irlanda hoje.
Quando voltei à Irlanda, fundei a HiberGen. Foi a primeira empresa do país voltada à descoberta de medicamentos com base na pesquisa genômica. Anos depois, fui para a SFI para poder participar melhor do direcionamento da pesquisa acadêmica e contribuir de modo mais direto para o crescente setor de biotecnologia. Até junho de 2005, a divisão de biotecnologia da SFI investira 170 milhões de euros em 84 pesquisadores e suas equipes. Esses especialistas representam uma massa crítica na comunidade acadêmica de pesquisa e são um enorme atrativo para que empresas de todo porte conduzam pesquisas na Irlanda.
John não devia se preocupar muito com a estabilidade econômica da Irlanda. Um total de 25% de todo o investimento estrangeiro feito na Europa vai para a Irlanda, cujo PIB per capita é superior ao da Alemanha, França e Grã-Bretanha. Além disso, a adesão da Irlanda à chamada Agenda de Lisboa — segundo a qual 3% do PIB até 2010 deve estar sendo gasto em P&D — criará mais oportunidades de crescimento.
Isso não quer dizer que não haja espaço para melhorar. Abrir uma empresa aqui não é tão compensador como já foi, pois a mão-de-obra não é barata. Para seguir competitivo, o país precisa de outros incentivos, como profissionais qualificados e uma sólida infra-estrutura. Precisamos divulgar melhor o fato de que a receita gerada pela propriedade intelectual criada na Irlanda é totalmente isenta de impostos — forte incentivo à pesquisa no país. O governo também precisaria estudar alívios fiscais maiores para pesquisadores que se instalaram na Irlanda. Deve haver investimentos constantes para melhorar estradas e o resto da infra-estrutura. Por fim, a maior prioridade da Irlanda deveria ser ampliar as atividades aqui conduzidas por grandes multinacionais — abrangendo, além da manufatura, a pesquisa e o trabalho fundado no conhecimento.
Meu conselho é que John fique na Irlanda. Aqui estão suas raízes, e ele parece sentir o desejo de ficar no país. Provavelmente ainda visitará muitos países com sua nova empresa, para colaborar com especialistas. Com isso, ficará a par das novidades no mundo da biotecnologia, um setor em constante evolução. Claro que sempre haverá um elemento de risco — é algo inerente ao setor. Mas a Irlanda assumiu um compromisso de longo prazo de crescer nessa área, e John pode ter tanto sucesso aqui como teria nos Estados Unidos.
Arno Haslberger (arno_haslberger@yahoo.com) é professor de gestão de recursos humanos na Webster University, em Viena, e na Ashridge Business School, em Londres. Sharman Esarey, também radicadaem Viena, é editora do relatório anual da Organization for Security and Cooperation da Europa. Os dois são autores de Moving People Abroad: A Guide to Successful Transitions, disponível na Ashridge.
Embora a BioSol atue no mercado de alta tecnologia, seus gestores são paternalistas, da velha guarda.
O verdadeiro problema é que a BioSol corre o risco de perder um funcionário de alto valor, e nem sabe. Embora seu mercado seja de alta tecnologia, seus gestores são paternalistas, à moda antiga. Para administrar bem o talento, a BioSol terá de abandonar a armação nos bastidores, abrir canais de comunicação com funcionários de alta relevância e entender o valor de envolver a família e de dar apoio durante grandes transições.
Armação nos bastidores. Muita fumaça parece encobrir os bastidores da BioSol. Como explicar que Niall Doyle, na Irlanda, e os executivos da matriz da empresa, na Califórnia, decidam que John é o homem certo para o cargo sem sequer saber se ele está disposto a ir embora da Irlanda? Supõe-se que a oferta seja boa demais para ser recusada. Essa diferença de mentalidade talvez seja questão de geração — os mais jovens, das gerações X e Y, tendem a buscar um equilíbrio entre trabalho e vida particular distinto das gerações anteriores. Um líder inteligente teria levado isso em conta.
Também é patente que o pessoal na matriz não está ciente dos desafios da adaptação cultural. Talvez achem que seja mais fácil “impatriar” do que expatriar, pois para eles a sede da empresa é a pátria. Seja qual a razão, precisam ampliar suas perspectivas, entender que uma transferência internacional sempre causa turbulências na vida do funcionário — e ajustar sua postura a isso. Um jeito de evitar problemas potenciais é anunciar a abertura de certas vagas importantes para um grupo seleto de gente qualificada, que possa se candidatar. Isso atrairia gente interessada, em vez de forçar alguém a assumir um cargo que não quer.
Comunicação ativa. À primeira vista, a BioSol parece ter evitado uma cilada comum na gestão de nomeações para o exterior: a baixa adaptação cultural. A BioSol sabe que John se adaptou bem à vida nos Estados Unidos anos atrás — pelo menos em Boston, onde há uma grande comunidade irlandesa. Logo, não há problema, certo?
Errado. Por acaso a empresa sabe se John tem experiência suficiente para liderar a equipe de estratégia global na Califórnia? Mais importante, já repassou a ele toda a informação necessária para uma decisão embasada? Niall deu a John um tempo para pensar, mas o que ele realmente precisa é de mais dados sobre o posto, o pacote e as perspectivas. Seria possível voltar para a Irlanda num cargo mais elevado dentro de alguns anos? Se recusar o cargo, terá outras opções na BioSol?
Uma empresa interessada em preservar seus talentos deve ter conversas regulares com os principais funcionários — para falar do trabalho, da carreira, das perspectivas. Se Niall e John tivessem tido uma conversa assim, Niall há muito saberia da outra proposta que John recebeu do headhunter.
Apoio à transição. É indispensável envolver a família do funcionário em decisões que afetam a vida pessoal. A satisfação e a adaptação do cônjuge são cruciais para o sucesso de um gerente no exterior. E diante do fato de que poucas mulheres se dispõem, hoje, a sacrificar a vida profissional pelo marido, a BioSol devia entender que Fiona tem uma carreira. E montar um plano e um pacote salarial — e envolver Fiona nas discussões.
Além disso, é provável que a alta diretoria esteja buscando há um tempo o candidato ideal para a vaga, e provavelmente está pronta para que John assuma o cargo de imediato. É o que costuma ocorrer em nomeações internacionais. Infelizmente, isso significa que raramente há tempo para que esse tipo de transferência seja tranqüila dos dois lados — o que aumenta o estresse do funcionário e retarda sua chegada a um alto desempenho.
Por fim, a BioSol deveria dar coaching. Embora John ouça o conselho de amigos, o juízo deles é comprometido pelas próprias aspirações e idéias. Se explorasse essas questões com a ajuda de um profissional, é mais provável que chegasse à decisão certa.
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