“Um ser humano é parte do todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Nós experimentamos a nós mesmos, nossos pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto. Uma espécie de ilusão de ótica da consciência. Esta ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais e ao afeto por pessoas mais próximas a nós. Nossa tarefa deve ser de nos libertarmos da prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão para abraçar todas as criaturas vivas e toda a natureza em sua beleza. O verdadeiro valor de um ser humano é determinado pela medida e pelo sentido no qual tenha obtido a liberação do seu ser. Vamos precisar de uma maneira substancialmente nova de pensar se quisermos que a humanidade sobreviva.” Esta frase de Albert Einstein resume bem um dos principais dilemas que estamos vivendo como seres humanos no planeta Terra, e consequentemente das organizações nas quais atuamos.

A forma como temos operado nas últimas décadas tem levado a um esgotamento de recursos em várias dimensões: na dimensão material com a exploração exagerada do meio ambiente (que não se renova na mesma velocidade com a qual há extração), na dimensão humano ou espiritual com pessoas estressadas, esgotadas, pouco engajadas no trabalho e até deprimidas e na dimensão social com o desequilíbrio continuando a crescer. E as empresas começam a perceber que este esgotamento está tendo efeitos nefastos não só para a economia como um todo, mas também coloca em risco sua própria perenidade. Isto significa uma necessidade de expansão da compreensão do papel da empresa, do seu sucesso e, consequentemente, da forma como ela opera.

Bernardo Toro, filósofo colombiano, propõe que apenas uma mudança do paradigma vigente da competição para um paradigma do cuidado (ou da compaixão) irá nos trazer uma prosperidade sustentável. Hoje vivemos, em especial nas empresas, com base num modelo mental ganha-perde: para que eu possa ganhar, o outro tem que perder – de certa forma, eu me beneficio da desgraça do outro. Esta forma de pensamento não gera uma riqueza sustentável. Tenho um cliente que é fruto da fusão de duas grandes empresas concorrentes que vive atualmente um desafio interessante: nas palavras de alguns colaboradores “nós sempre vivemos para vencer deles; agora que nos juntamos, não temos clareza sobre o motivo pelo qual existimos”. Este é um dos perigos da super-competição como modelo de operação!

Curiosamente, tenho ouvido em várias rodas sobre a importância da compaixão na liderança dos negócios. Por compaixão, estamos falando de um sentimento de preocupação com o outro e um desejo de aumentar o bem-estar do outro (sentir por outro). A compaixão tem um efeito positivo para os dois lados da relação: por um lado, a compaixão tem efeitos comprovados no cérebro da pessoa que a sente reduzindo o stress crônico e o esgotamento, aumentando o centramento e a inteligência emocional; por outro lado, a pessoa que recebe a compaixão ganha uma auto-estima e força para lidar melhor com os seus desafios. Não estamos falando apenas de um benefício no âmbito relacional, mas também um melhor ambiente de trabalho, pessoas mais felizes, maior produtividade e criatividade e uma maior integração da empresa com seus diversos stakeholders.

Se concordarmos que há um valor na compaixão, a pergunta que se dá é se podemos desenvolvê-la (todos conhecemos líderes que parecem ter o coração de pedra). Nos últimos meses, tive contato com alguns cientistas, entre eles Tania Singer do Instituto Max Planck da Alemanha e Geshe Lobsang Tenzin Negi, professor da Emory University, que estão trabalhando com o efeito da compaixão no cérebro das pessoas e com treinamentos de compaixão. Tania nos conta que o treinamento em compaixão possui três aspectos principais: um treinamento em presença (como uma pessoa mantém, monitora e redireciona sua atenção), em perspectiva (perspectiva sobre seus pensamentos, sobre si e sobre os outros) e em afetividade (abrir o coração, regulação emocional). E surpreendemente, treinamentos curtos de 2 dias já têm um efeito significativo na resposta do cérebro e no bem-estar da pessoa.

Algumas empresas já têm oferecido treinamento em compaixão (algumas vezes travestido com nomes mais fáceis de serem aceitos no ambiente organizacional) com efeitos sobre o bem-estar, o clima organizacional, o engajamento com o negócio e o cliente e, assim, sobre os resultados da empresa. O treinamento da compaixão é uma ferramenta poderosa, ainda pouco explorada no universo corporativo. Ou seja, uma grande oportunidade para construção de um sucesso duradouro!

 

*Mauricio Goldstein é sócio-fundador da Pulsus, uma consultoria focada na transformação das organizações para novas formas e patamares de sucesso. Ele é co-autor do livro “Jogos Políticos nas Empresas”.

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